{2}JOSU\u00c9{/}
{C}A TERRA \u00c9 DOM E CONQUISTA{/}

O livro de Josu\u00e9 relata acontecimentos situados no s\u00e9c. XIII a.C.: a conquista e a partilha de Cana\u00e3, a Terra Prometida, pelas tribos de Israel. \u00c0 primeira vista, o livro apresenta a tomada global da Terra, feita por uma gera\u00e7\u00e3o. Isso deve-se \u00e0 idealiza\u00e7\u00e3o do autor. A conquista foi, de facto, um processo longo e lento, ora pac\u00edfico, ora violento, que s\u00f3 terminou dois s\u00e9culos mais tarde, com o rei David.
O conte\u00fado pode ser dividido em tr\u00eas partes. Na primeira ([Js_1,1] a [Js_12,1]), temos a conquista. Os acontecimentos d\u00e3o-se numa \u00e1rea limitada e t\u00eam como pano de fundo o santu\u00e1rio de Guilgal, pr\u00f3ximo de Jeric\u00f3; como esta cidade est\u00e1 no territ\u00f3rio da tribo de Benjamim, \u00e9 prov\u00e1vel que as narrativas provenham de tradi\u00e7\u00f5es cultivadas no \u00e2mbito dessa tribo e, talvez, da tribo de Efraim. A preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 fortemente etiol\u00f3gica (do grego {N}ait\u00eda: {/}causa), procurando explicar factos, nomes de lugares, edifica\u00e7\u00f5es e ru\u00ednas para uma gera\u00e7\u00e3o que vive muito tempo depois (\u00ab...at\u00e9 ao dia de hoje\u00bb). A segunda parte ([Js_13,1] a [Js_21,1]) apresenta a partilha da Terra entre as tribos, servindo-se de documentos geogr\u00e1ficos que descrevem as fronteiras das tribos e que remontam \u00e0 era pr\u00e9-mon\u00e1rquica, e de listas de lugares e cidades, provenientes do tempo da monarquia. O cap\u00edtulo 21 \u00e9 talvez um acr\u00e9scimo feito no p\u00f3s-ex\u00edlio. A terceira parte ([Js_22,1] a [Js_24,1]) apresenta o fim da vida de Josu\u00e9 e consta de tr\u00eas conclus\u00f5es: regresso das tribos transjord\u00e2nicas aos seus territ\u00f3rios [Js_22,1]; \u00faltimo discurso de Josu\u00e9 [Js_23,1]; alian\u00e7a em Siqu\u00e9m e morte de Josu\u00e9 [Js_24,1].
O livro n\u00e3o \u00e9 uma cr\u00f3nica, mas uma interpreta\u00e7\u00e3o dos factos para mostrar o significado da conquista de Cana\u00e3. A personagem principal \u00e9 a Terra Prometida: Deus realizou a promessa feita aos patriarcas e renovada aos seus descendentes. O povo foi libertado da escravid\u00e3o do Egipto para ser livre e pr\u00f3spero na Terra que Deus ia dar [Ex_3,7] a [Ex_3,8]. Portanto, por detr\u00e1s das longas e minuciosas listas de lugares devemos ver a alegria e a gratid\u00e3o pelo dom de Deus. E um facto chama a aten\u00e7\u00e3o: o povo teve de {N}conquistar {/}a Terra que Deus lhe {N}dera{/}.{N} {/}Deus concede o dom; por\u00e9m n\u00e3o suprime a liberdade e a iniciativa do homem. Pelo contr\u00e1rio, sup\u00f5e e exige que o homem busque e conquiste o dom de Deus. Assim, a Terra \u00e9 fruto da promessa e dom divinos e, ao mesmo tempo, da aspira\u00e7\u00e3o e da conquista do homem. Por outras palavras, Deus promete por dentro das aspira\u00e7\u00f5es do homem, e realiza o seu dom por dentro das conquistas do homem.
O livro de Josu\u00e9 constitui, portanto, um insuper\u00e1vel tratado sobre a gra\u00e7a de Deus, que \u00e9 a base da vida e da Hist\u00f3ria. A gra\u00e7a n\u00e3o \u00e9 dom paternalista de Deus, deixando o homem passivo. Ela \u00e9 o dom que Deus faz das possibilidades j\u00e1 contidas na estrutura de toda a cria\u00e7\u00e3o, e principalmente da pessoa humana. Sem a atitude livre e respons\u00e1vel que procura descobrir, tomar posse e encaminhar as possibilidades, o homem jamais encontrar\u00e1 a gra\u00e7a. A vida \u00e9 o dom de Deus que o homem deve descobrir e conquistar. Tudo se concretiza na tens\u00e3o hist\u00f3rica que existe entre o presente efectivo de Deus, que abre o seu dom nas possibilidades, e o presente-futuro do homem que busca, descobre, toma posse e d\u00e1 endere\u00e7o ao dom de Deus. E, para que o dom se torne vida concreta, Deus s\u00f3 p\u00f5e uma condi\u00e7\u00e3o: que o homem seja e continue sempre seu fiel aliado.
