{2}JOB{/}
{C}A VERDADEIRA RELIGI\u00c3O{/}

O tema central do livro de Job n\u00e3o \u00e9 o problema do mal, nem o sofrimento do justo e inocente, e muito menos o da \u00abpaci\u00eancia de Job\u00bb. O autor deste drama apaixonante discute a quest\u00e3o mais profunda da religi\u00e3o: a natureza da rela\u00e7\u00e3o entre o homem e Deus. O povo de Israel concebia a rela\u00e7\u00e3o com Deus atrav\u00e9s do {N}dogma da retribui\u00e7\u00e3o:{/} Deus retribui o bem com o bem e o mal com o mal. Ao justo, Deus concede sa\u00fade, prosperidade e felicidade; ao injusto, castiga-o com desgra\u00e7as e sofrimentos. Tal concep\u00e7\u00e3o arrisca-se a produzir uma religi\u00e3o de com\u00e9rcio, onde o homem pensa poder assegurar a sua vida e at\u00e9 ditar normas ao pr\u00f3prio Deus. Contra isso, o autor mostra que a religi\u00e3o verdadeira \u00e9 mist\u00e9rio de f\u00e9 e gra\u00e7a: o homem entrega-se livre e gratuitamente a Deus; e Deus, mist\u00e9rio insond\u00e1vel, volta-Se para o homem gratuitamente, a fim de estabelecer com ele uma comunh\u00e3o que o leva \u00e0 vida.
O livro provavelmente foi redigido, na sua maior parte, durante o ex\u00edlio, no s\u00e9culo VI a.C. Como Job, o povo de Jud\u00e1 tinha perdido tudo: fam\u00edlia, propriedades, institui\u00e7\u00f5es e a pr\u00f3pria liberdade. Ora, tudo isso era garantido por uma concep\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica vigente at\u00e9 esse tempo. E aqui entra a pergunta crucial feita por Sat\u00e3: \u00c9 poss\u00edvel ter uma rela\u00e7\u00e3o gratuita com Deus, despojada de qualquer interesse? (cf. [Job_1,9]). Podemos dizer que todo o livro \u00e9 uma busca para responder a esta quest\u00e3o. A resposta implica superar toda a teologia da retribui\u00e7\u00e3o, incapaz de responder \u00e0 nova situa\u00e7\u00e3o do povo, sem cair em absurdos. O povo estava a viver uma nova experi\u00eancia, e isso exigia uma nova forma de conceber Deus, o homem e as rela\u00e7\u00f5es entre ambos.
Para conseguir a sua inten\u00e7\u00e3o, o autor usa uma antiga lenda sobre a retribui\u00e7\u00e3o ([Job_1,1] a [Job_1,2], [Job_2,13]; [Job_42,7] a [Job_42,17]), omitindo o final ([Job_42,7] a [Job_42,17]) e substituindo-o por uma s\u00e9rie de debates que mostram o absurdo da teologia em voga, incapaz de atender \u00e0 nova situa\u00e7\u00e3o [Job_3,1] a [Job_42,6]. Al\u00e9m de pretender condenar o homem para salvaguardar a justi\u00e7a de Deus, esta teologia pode ser usada para condenar a Deus, a fim de salvaguardar a justi\u00e7a do homem. Como sair do impasse? Nesta altura, percebemos que o livro de Job \u00e9 uma cr\u00edtica de toda a teologia que se pretenda definitiva e universal. Essa teologia pode tornar-se um verdadeiro obst\u00e1culo para a pr\u00f3pria experi\u00eancia de Deus. E aqui o autor d\u00e1 o seu recado: \u00e9 preciso pensar a religi\u00e3o a partir da experi\u00eancia de Deus e n\u00e3o de uma teoria a respeito d'Ele.
Um aspecto importante do livro \u00e9 que Job faz a sua experi\u00eancia de Deus na pobreza e marginaliza\u00e7\u00e3o. Experi\u00eancia que ultrapassa todas as explica\u00e7\u00f5es, tornando-se ponto de partida para uma nova hist\u00f3ria das rela\u00e7\u00f5es entre os homens e destes com Deus. A confiss\u00e3o final de Job - \u00abEu conhecia-Te s\u00f3 por ouvir. Agora, por\u00e9m, os meus olhos v\u00eaem-Te\u00bb [Job_42,5] - \u00e9 o ponto de chegada de todo o livro, transformando a vida do pobre num lugar de manifesta\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia de Deus. A partir daqui, podemos dizer que o livro de Job \u00e9 a proclama\u00e7\u00e3o de que somente o pobre est\u00e1 apto para fazer tal experi\u00eancia e, por isso, \u00e9 capaz de anunciar a presen\u00e7a e ac\u00e7\u00e3o de Deus dentro da Hist\u00f3ria.
O livro \u00e9 um convite para nos libertarmos da pris\u00e3o das ideias feitas e continuamente repetidas, a fim de entrarmos na trama da vida e da Hist\u00f3ria, onde Deus Se manifesta ao pobre e Se disp\u00f5e a caminhar com ele para construir um mundo novo. Tal solidariedade de Deus transforma-se em desafio: estamos dispostos a abandonar as nossas tradi\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas para nos solidarizarmos com o pobre e fazer com ele a experi\u00eancia de Deus?
