{2}ECLESIASTES (OU CO\u00c9LET){/}
{C}A VIDA TER\u00c1 SENTIDO? {/}

O Eclesiastes (Co\u00e9let, em hebreu), livro que se inscreve na corrente da sabedoria, \u00e9 atribu\u00eddo a Salom\u00e3o (1,1), mas foi certamente escrito no decurso do s\u00e9culo III antes da nossa era. A Palestina era ent\u00e3o uma col\u00f3nia helenista do imp\u00e9rio dos Ptolomeus, ao qual devia pagar pesados tributos, arrecadados pela fam\u00edlia dos Tob\u00edadas, que controlava o com\u00e9rcio, a economia e a administra\u00e7\u00e3o interna. Esta atmosfera carregada que negava ao povo quaisquer esperan\u00e7as de futuro melhor, pode ser respons\u00e1vel, em grande parte, pelo pessimismo deste livro que, afinal, se mostra profundamente cr\u00edtico, l\u00facido e realista.
Mas a densidade estranha desta obra procede tamb\u00e9m de outros afluentes. No percurso desenhado pela sabedoria em Israel, Co\u00e9let apresenta os tra\u00e7os comuns a uma obra de transi\u00e7\u00e3o: as certezas tradicionais s\u00e3o abaladas sem que nada de novo e firme as venha substituir. E o discurso oscila entre a repeti\u00e7\u00e3o do antigo, a sua nega\u00e7\u00e3o no presente da experi\u00eancia quotidiana, e a busca interrogada que ainda n\u00e3o obt\u00e9m respostas. Da\u00ed a complexidade do op\u00fasculo, as diversas leituras poss\u00edveis e o recurso dos estudiosos a v\u00e1rios autores para explicar a aparente multiplicidade de linhas teol\u00f3gicas.
Rigorosamente, tal como o seu predecessor Job, Co\u00e9let d\u00e1 corpo a um genial sopro de cr\u00edtica. Frente \u00e0 doutrina anterior da retribui\u00e7\u00e3o que, calma e serenamente, defendia que o mal era castigado e o bem premiado, na vida (terrestre), com toda a sorte de sucessos e bens, Job d\u00e1 uma primeira pedrada no charco conformista [Ecl_9,22];[Ecl_21,7], a partir da desgra\u00e7a que o privou de tudo, inclusive da sua integridade f\u00edsica; Co\u00e9let vai mais longe e, com a morte sempre no horizonte, questiona teologicamente o estatuto da vida e a sua organiza\u00e7\u00e3o, denuncia o absurdo da condi\u00e7\u00e3o humana. F\u00e1-lo com vigor, em termos fortes, que n\u00e3o adianta cristianizar antes do tempo. Verifica a inutilidade do esfor\u00e7o humano... o gosto a cinza que fica na boca depois de ter saboreado os mais \u00abpreciosos\u00bb bens: {N}\u00d3 suprema fugacidade{/}, tudo \u00e9 v\u00e3o, f\u00fatil, desengano! O enigma do destino final gera a ang\u00fastia [Ecl_3,22]; [Ecl_6,12].... A justi\u00e7a, o amor, as oportunidades, o poder, as riquezas s\u00e3o outros tantos enganos que rapidamente deixam desventrar o seu vazio. A condi\u00e7\u00e3o \u00e9 tal que, mesmo se durasse dois mil anos [Ecl_6,6], nada acrescentaria \u00e0 qualidade.
Apesar do seu estilo mon\u00f3tono e desajeitado, a descri\u00e7\u00e3o da velhice que nos brinda em [Ecl_12,1] a [Ecl_12,8] figura entre os pontos altos da poesia b\u00edblica.
O fracasso dos s\u00e1bios, as decep\u00e7\u00f5es da exist\u00eancia, o balofo inconsistente dos chamados bens deixam o homem despojado e, de algum modo, tendido para o absoluto. A experi\u00eancia radical do limite projecta-o para uma revela\u00e7\u00e3o mais alta. Assim \u00e9 a inspira\u00e7\u00e3o divina, tanto capaz de promover verdades, como senhora de as derrubar, quando ficam aqu\u00e9m da vida ou fundam na Terra seguran\u00e7as apressadas.
