{2}ECLESI\u00c1STICO (OU BEN SIR\u00c1){/}
{C}A CALMA EM TEMPOS DE CRISE{/}

Conhecido por \u00abEclesi\u00e1stico\u00bb (livro da eccles\u00eda, Igreja) desde S\u00e3o Cipriano (+ 258), devido ao papel que desempenhou na instru\u00e7\u00e3o dos rec\u00e9m-baptizados, em conformidade com o seu pendor marcadamente moralizante, este livro est\u00e1 assinado e datado, situa\u00e7\u00e3o rara na B\u00edblia. O autor, \u00abJesus, filho de Sirac\u00bb ([Eclo_50,27]; em hebreu, Ben Sir\u00e1, donde o nome moderno de Sir\u00e1cide) parece bem retratado na obra. Foi redigida nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo II a.C.; o pr\u00f3prio neto do autor, emigrado no Egipto, \u00e9 quem nos informa que a traduziu para grego por volta do ano 132. A mem\u00f3ria do sumo sacerdote Sim\u00e3o ([Eclo_50,1] a [Eclo_50,24]) sabe a testemunho ocular e, apesar da amea\u00e7a do helenismo, nada transparece da situa\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica desencadeada pela persegui\u00e7\u00e3o de Ant\u00edoco Epif\u00e2nio (175-163).
O livro apresenta-se como escrito de sabedoria ([Eclo_1,1] a [Eclo_1,10]; [Eclo_24,1]; [Eclo_50,27]), numa fase em que desabrocha a tentativa de superar a crise representada pelos livros de Job e Eclesiastes. Este conservador l\u00facido organiza uma s\u00edntese da religi\u00e3o tradicional e da sabedoria comum, aprofundada na sua experi\u00eancia pessoal. \u00c0 partida, a dimens\u00e3o predominante \u00e9 a do comentador dos Prov\u00e9rbios. Na verdade, mant\u00e9m-se o mesmo tom; os temas focados abarcam id\u00eantica experi\u00eancia humana: amizade, pregui\u00e7a, educa\u00e7\u00e3o, pobreza, doen\u00e7a, riqueza, escravos, banquetes... A retribui\u00e7\u00e3o continua a cingir-se ao horizonte terrestre e ao gozo duma felicidade marcadamente tradicional: sa\u00fade, longevidade, descend\u00eancia, bem-estar e renome. A \u00fanica altera\u00e7\u00e3o reside na introdu\u00e7\u00e3o da estrofe: em vez da f\u00f3rmula curta e proverbial antiga, cada assunto espraia-se agora por uma s\u00e9rie de versos que agrupa intui\u00e7\u00f5es, conselhos, exorta\u00e7\u00f5es. Compare-se, por exemplo, [Pr_10,1] e [Eclo_3,1] a [Eclo_3,16].
Uma \u00abnova sabedoria\u00bb ensaia aqui os primeiros passos. \u00c0 semelhan\u00e7a do que se verificava noutros textos (cf. [Pr_8,1]; [Job_28,1]; [Br_3,9] a [Br_4,4]), o cap\u00edtulo 24 de Ben Sir\u00e1 apresenta a Sabedoria personalizada e relacionada com a hist\u00f3ria de Israel [Eclo_24,7] a [Eclo_24,8], a sua morada preferida; e mesmo identificada com a Lei [Eclo_24,23]. Em hebreu, o termo Tora, que traduzimos imperfeitamente por Lei, abarca os cinco livros do Pentateuco cujo conte\u00fado (personagens, comportamentos e leis) \u00e9 normativo, \u00e9 ponto de refer\u00eancia exemplar.
A Sabedoria preside, assim, \u00e0 Cria\u00e7\u00e3o [Eclo_42,15] a [Eclo_43,33] e acompanha o devir hist\u00f3rico, vivido e narrado em Israel [Eclo_44,1] a [Eclo_50,1]. Nisto reside a inova\u00e7\u00e3o mais significativa desta obra: insatisfeita com a esperan\u00e7a limitada que oferecia aos seus seguidores, a Sabedoria, sem renunciar \u00e0 sua identidade, aproxima-se da outra grande corrente - a Hist\u00f3ria, com toda a gama de acontecimentos recheados de presen\u00e7a divina e de esperan\u00e7as, para nela descobrir novo f\u00f4lego e mais horizonte.
O passo decisivo ficou por dar. Ser\u00e1 o privil\u00e9gio do livro da Sabedoria. Mas isso n\u00e3o impede de reconhecer neste uma boa defesa do patrim\u00f3nio religioso e cultural do juda\u00edsmo, um alerta contra as amea\u00e7as do helenismo que iriam apertar o cerco (cf. [1Mc_1,11] a [Mc_1,15]), uma abertura discreta aos estrangeiros que quisessem adoptar este modelo de vida.

{2}ECLESI\u00c1STICO{/}
{C}PR\u00d3LOGO{/}
Recebemos muitos e profundos ensinamentos da Lei, dos Profetas e dos Escritos que vieram depois deles. Por tudo isso se deve louvar Israel como povo instru\u00eddo e s\u00e1bio. N\u00e3o basta que os leitores aprendam, mas tamb\u00e9m que sejam capazes de ajudar os de fora, de viva voz e por escrito. Por isso, o meu av\u00f4 Jesus, depois de se dedicar intensamente \u00e0 leitura da Lei, dos Profetas e dos outros Livros dos nossos antepassados, e tendo adquirido um bom dom\u00ednio sobre eles, decidiu escrever alguma coisa na linha da instru\u00e7\u00e3o e da sabedoria. Deste modo, os que desejam aprender podem familiarizar-se com isso e progredir cada vez mais na conduta segundo a Lei.
V\u00f3s, portanto, sois convidados a ler com aten\u00e7\u00e3o e benevol\u00eancia, perdoando se, apesar do esfor\u00e7o, n\u00e3o consegui traduzir bem algumas express\u00f5es. De facto, as coisas expressas originalmente em hebraico n\u00e3o t\u00eam a mesma for\u00e7a quando traduzidas para outra l\u00edngua. Isto acontece tamb\u00e9m com a Lei, os Profetas e os outros Livros: s\u00e3o muito diferentes na l\u00edngua original. 
No ano trinta e oito do rei Evergetes, fui ao Egipto e passei l\u00e1 uma temporada. Tive boa ocasi\u00e3o para aprender, e achei necess\u00e1rio empenhar o meu trabalho e esfor\u00e7o para traduzir este livro. Dediquei ent\u00e3o muitas noites em claro e todo o meu conhecimento, para terminar o trabalho e publicar o livro, beneficiando os imigrantes que desejam aprender e estejam dispostos a mudar os seus costumes, a fim de viverem segundo a Lei.
