{2}NOVO TESTAMENTO{/}

O Novo Testamento ou Nova Alian\u00e7a \u00e9 a parte da B\u00edblia onde encontramos o an\u00fancio da Pessoa de Jesus Cristo. Tem como mensagem central o pr\u00f3prio Filho de Deus, que veio ao mundo para estabelecer a alian\u00e7a definitiva entre Deus e os homens. Sendo Deus-e-Homem, o pr\u00f3prio Jesus \u00e9 a express\u00e3o total dessa alian\u00e7a: Ele mostra que Deus \u00e9 Pai para os homens, e como os homens devem viver para se tornarem filhos de Deus.
Atrav\u00e9s da sua palavra e ac\u00e7\u00e3o, Jesus inaugurou a nova alian\u00e7a ou, por outras palavras, o Reino de Deus. Esse Reino ou alian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 j\u00e1 alian\u00e7a com um povo. \u00c9 alian\u00e7a aberta a todos os homens, a todos os povos de todos os tempos e lugares. Em Jesus, Deus quer reunir toda a humanidade como uma fam\u00edlia em que todos s\u00e3o chamados a viver como irm\u00e3os, repartindo entre si todas as coisas Essa grande reuni\u00e3o, onde tudo \u00e9 partilha e fraternidade no amor, \u00e9 o Reino de Deus que, semeado na Hist\u00f3ria, vai crescendo at\u00e9 que se torne realidade para todos.
Jesus n\u00e3o deixou nada escrito. Ele pregou, ensinou e colocou em pr\u00e1tica o projecto de Deus. Isso fez com que Ele entrasse em conflito com a estrutura da sociedade, que O perseguiu, prendeu e matou. Mas Jesus ressuscitou, enviou o Esp\u00edrito aos seus seguidores, chamados ap\u00f3stolos e disc\u00edpulos, e estes continuaram a sua miss\u00e3o, pregando, ensinando e fazendo como Jesus fazia. Foram eles que escreveram o que encontramos no Novo Testamento. N\u00e3o pretenderam fazer uma biografia de Jesus, nem uma hist\u00f3ria ou cr\u00f3nica da ac\u00e7\u00e3o dos seus seguidores. Eles quiseram, em primeiro lugar, anunciar Jesus para que os homens tivessem f\u00e9 e se comprometessem com Jesus. F\u00e9 e compromisso e a sua palavra e ac\u00e7\u00e3o constituem o Reino.
O Novo Testamento agrupa vinte e sete livros, com temas e estilos diferentes: Evangelhos, Actos dos Ap\u00f3stolos, Cartas e Apocalipse.
Os evangelhos s\u00e3o quatro formas de an\u00fancio de Jesus, escritas no ambiente de comunidades diferentes. Por isso tratam da Pessoa, das palavras e das ac\u00e7\u00f5es de Jesus de modo ao mesmo tempo semelhante e diferente. N\u00e3o s\u00e3o biografia ou Hist\u00f3ria, mas sim um an\u00fancio para levar \u00e0 f\u00e9 em Jesus, isto \u00e9, ao compromisso de continuar a sua obra, pela palavra e ac\u00e7\u00e3o.
Os Actos dos Ap\u00f3stolos s\u00e3o a segunda parte do evangelho de S\u00e3o Lucas. Mostram como o an\u00fancio de Jesus e a forma\u00e7\u00e3o das comunidades crist\u00e3s se expandiram, chegando a Roma, centro do mundo naquela \u00e9poca. Neles vemos o sentido da miss\u00e3o crist\u00e3: levar a boa nova do Evangelho a todos os homens, para que todos possam tomar conhecimento de Jesus e pertencer ao povo de Deus.
As cartas ou ep\u00edstolas s\u00e3o escritos dirigidos \u00e0s primeiras comunidades crist\u00e3s. Elas d\u00e3o-nos, n\u00e3o s\u00f3 uma ideia dos problemas dessas comunidades, mas tamb\u00e9m nos ajudam a ver e a orientar nos problemas das nossas comunidades actuais.
O Apocalipse de S\u00e3o Jo\u00e3o \u00e9 um livro escrito em linguagem figurada, porque se dirige aos crist\u00e3os em tempo de persegui\u00e7\u00e3o. Apresenta Jesus Ressuscitado como Senhor da Hist\u00f3ria, e mostra como os crist\u00e3os devem anunci\u00e1-l'O e testemunh\u00e1-1'O sem medo, enfrentando at\u00e9 a pr\u00f3pria morte.

{K}A PALESTINA NO TEMPO DE JESUS{/}
\u00c9 dif\u00edcil tirar todo o proveito da leitura dos Evangelhos, se n\u00e3o conhecermos alguma coisa da terra, ambiente e mecanismos da sociedade em que Jesus viveu, h\u00e1 cerca de dois mil anos. Isto porque a encarna\u00e7\u00e3o do Filho de Deus aconteceu em tempo e lugar determinados, dentro de circunst\u00e2ncias precisas e bem concretas. Assim, conhecer o contexto em que Jesus viveu n\u00e3o \u00e9 apenas quest\u00e3o de cultura, mas tamb\u00e9m, e principalmente, um dado necess\u00e1rio para se conhecer e avaliar com mais objectividade o que significou a vida, palavra e ac\u00e7\u00e3o de Jesus. S\u00f3 assim poderemos perceber melhor o que a sua vida, palavra e ac\u00e7\u00e3o podem significar hoje, no contexto em que vivemos.
{K}A._A TERRA DE JESUS{/}
Jesus viveu na Palestina, pequena faixa de terra com \u00e1rea de 20 mil km2, com 240 km de comprimento e m\u00e1ximo de 85 km de largura. Do lado Oeste, temos o mar Mediterr\u00e2neo. A Leste, o rio Jord\u00e3o.
A Palestina \u00e9 dividida de alto a baixo por uma cadeia de montanhas que muito influi no seu clima. Com efeito, na parte Oeste, o vento frio do mar, ao chocar com a parte montanhosa, provoca chuvas frequentes, beneficiando toda a faixa costeira. O lado Leste das montanhas, por\u00e9m, n\u00e3o recebe o vento do mar e, consequentemente, apresenta clima quente e regi\u00e3o mais \u00e1rida. As terras cultiv\u00e1veis est\u00e3o na parte Norte, na regi\u00e3o da Galileia e no vale do rio Jord\u00e3o. A regi\u00e3o da Judeia \u00e9 montanhosa e presta-se mais como pasto de rebanhos e cultivo da oliveira.
A cidade de Jerusal\u00e9m conta 50 mil habitantes e est\u00e1 situada no extremo de um planalto, a 760 metros acima do n\u00edvel do mar Mediterr\u00e2neo e 1145 metros acima do n\u00edvel do mar Morto. Por ocasi\u00e3o das grandes festas chega a receber 180 mil peregrinos.
{K}B. A SOCIEDADE DO TEMPO DE JESUS{/}
Toda a sociedade humana \u00e9 formada por pessoas e grupos de pessoas unidas entre si por uma rede complexa de rela\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas, pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas. Para situarmos a Pessoa e a ac\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 necess\u00e1rio examinar os modos de rela\u00e7\u00e3o que existiam na sociedade daquele tempo.
{K}I._Economia{/}
As actividades que formam a base da economia no tempo de Jesus s\u00e3o duas: a {N}agricultura{/} e a {N}pecu\u00e1ria{/} (juntamente com a {N}pesca{/}) de um lado, e o artesanato, do outro.
A agricultura \u00e9 desenvolvida principalmente na Galileia. Cultiva-se trigo, cevada, legumes, hortali\u00e7as, frutas (figo, uva), oliveiras. Das \u00e1rvores de Jeric\u00f3, na Judeia, extrai-se b\u00e1lsamo para perfumes. A pecu\u00e1ria exerce-se principalmente na Judeia: cria\u00e7\u00e3o de camelos, vacas, ovelhas e cabras. A pesca \u00e9 intensa no Mar Mediterr\u00e2neo, no lago de Genesar\u00e9 e no rio Jord\u00e3o.
A maior parte da popula\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 agricultura \u00e9 formada por pequenos propriet\u00e1rios. Ao lado destes, existem os grandes propriet\u00e1rios (anci\u00e3os) que geralmente vivem na cidade, deixando a direc\u00e7\u00e3o das suas propriedades a cargo de um administrador e empregando a m\u00e3o-de-obra de assalariados e escravos. Muitas vezes sucede que os pequenos propriet\u00e1rios em apuros financeiros pedem dinheiro emprestado aos grandes e v\u00eaem os seus bens hipotecados. Isso favorece cada vez mais a acumula\u00e7\u00e3o de terras nas m\u00e3os de algumas fam\u00edlias ricas. Por fim, existem os camponeses sem propriedades que arrendam terras e trabalham como rendeiros.
O {N}artesanato{/} desenvolve-se nas aldeias e nas cidades, principalmente em Jerusal\u00e9m. Os ramos principais dessa actividade s\u00e3o: cer\u00e2mica (vasilhames e artigos de luxo), trabalho em couro (sapatos, peles curtidas), trabalho em madeira (carpintaria), fia\u00e7\u00e3o e tecelagem, aproveitando a l\u00e3 das ovelhas, abundantes na Judeia. O artesanato de luxo concentra-se em Jerusal\u00e9m e serve para ser vendido como lembran\u00e7a aos peregrinos.
Este trabalho \u00e9 feito por particulares, estruturados em torno de produ\u00e7\u00e3o familiar em que o of\u00edcio passa de pai para filho. H\u00e1 tamb\u00e9m pequenas unidades artesanais, que re\u00fanem um n\u00famero significativo de oper\u00e1rios. Juntamente com os trabalhadores do campo, esses artes\u00e3os formam a mais importante classe trabalhadora da Palestina.
Al\u00e9m desses artes\u00e3os, h\u00e1 tamb\u00e9m padeiros, barbeiros, a\u00e7ougueiros, aguadeiros e escravos que trabalham tanto em actividades produtivas como em outros of\u00edcios.
A circula\u00e7\u00e3o de toda a mercadoria produzida, tanto na agricultura como no artesanato, forma outra grande actividade econ\u00f3mica: o {N}com\u00e9rcio{/}. Este desenvolve-se mais nas cidades e est\u00e1 nas m\u00e3os dos grandes propriet\u00e1rios de terras. Nos povoados, o com\u00e9rcio \u00e9 reduzido e o sistema de troca \u00e9 o mais usado.
Toda a actividade comercial \u00e9 controlada por um sistema de impostos. Essa pol\u00edtica fiscal faz com que tanto o Estado judaico como o Estado romano se tornem monopolizadores da circula\u00e7\u00e3o das mercadorias, o que proporciona vultosas cobran\u00e7as. Esses impostos s\u00e3o cobrados pelos publicanos (cobradores de impostos). H\u00e1 tamb\u00e9m taxas para poder transportar mercadorias de uma cidade para outra e de um pa\u00eds para outro. Esses impostos e taxas tornam-se insuport\u00e1veis no tempo de Jesus.
Por esta vis\u00e3o geral da economia da Palestina j\u00e1 podemos perceber: Jesus \u00e9 artes\u00e3o (carpinteiro), v\u00e1rios disc\u00edpulos s\u00e3o pescadores e um deles \u00e9 cobrador de impostos.
O aparelho de Estado em Jerusal\u00e9m exerce um forte controlo sobre a economia de todo o pa\u00eds. Al\u00e9m de p\u00f3lo de atrac\u00e7\u00e3o do capital nacional, o Estado \u00e9 o maior empregador (restaura\u00e7\u00e3o do Templo, constru\u00e7\u00e3o de pal\u00e1cios, monumentos, aquedutos, muralhas etc.). Nisso tudo, o Templo tem um papel central:
- Colecta de impostos, atrav\u00e9s da qual boa parte da produ\u00e7\u00e3o do pa\u00eds volta para o Estado.
- Com\u00e9rcio: para atender \u00e0 necessidade dos peregrinos e, principalmente, para manter o sistema de sacrif\u00edcios e ofertas do pr\u00f3prio Templo.
- O Tesouro do Templo, administrado pelos sacerdotes, \u00e9 o tesouro do Estado.
Al\u00e9m de toda essa centraliza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, o Templo emprega m\u00e3o-de-obra qualificada, principalmente artes\u00e3os.
Mas a Palestina \u00e9 col\u00f3nia do Imp\u00e9rio Romano. Este tamb\u00e9m cobra uma s\u00e9rie de impostos: o tributo (imposto pessoal e sobre as terras), uma contribui\u00e7\u00e3o anual para o sustento dos soldados romanos que ocupam a Palestina, e um imposto sobre a compra e venda de todos os produtos.
{K}II._Pol\u00edtica{/}
O poder efectivo sobre a Palestina est\u00e1 nas m\u00e3os dos Romanos. Mas, em geral, estes respeitam a autonomia interna das suas col\u00f3nias. A Judeia e a Samaria s\u00e3o dirigidas por um Procurador romano, mas o Sumo Sacerdote tem poder de gerir as quest\u00f5es internas, atrav\u00e9s da lei judaica. Este, por\u00e9m, \u00e9 nomeado e destitu\u00eddo pelo Procurador romano.
O centro do poder pol\u00edtico interno da Judeia e Samaria \u00e9 a cidade de Jerusal\u00e9m e o Templo. Com efeito, \u00e9 do Templo que o Sumo Sacerdote governa, ajudado por um {N}Sin\u00e9drio{/} de 71 membros, composto de sacerdotes, anci\u00e3os e escribas ou doutores da Lei. O Sin\u00e9drio \u00e9 o Tribunal Supremo (penal, pol\u00edtico e religioso) e a sua influ\u00eancia estende-se sobre todos os judeus, mesmo os que vivem fora da Palestina.
Nas cidades tamb\u00e9m existe um pequeno aparato pol\u00edtico (conselhos locais), dominado de in\u00edcio pelos grandes propriet\u00e1rios de terras e, mais tarde, pelos escribas ou doutores da Lei. Da mesma forma, nos povoados encontramos um conselho de anci\u00e3os, que se re\u00fane tanto para decidir sobre quest\u00f5es comunit\u00e1rias, como para casos de lit\u00edgio ou transgress\u00e3o da Lei, funcionando como tribunal. Al\u00e9m disso, no campo, as rela\u00e7\u00f5es de autoridade permanente s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es familiares.
{K}III._Grupos pol\u00edtico-religiosos{/}
Na sociedade do tempo de Jesus podemos distinguir v\u00e1rios grupos, que se diferenciam no modo de se relacionar com a pol\u00edtica, a economia e a religi\u00e3o, e que t\u00eam grande import\u00e2ncia no quadro social da \u00e9poca.
{N}1._Saduceus{/}
O grupo dos saduceus \u00e9 formado pelos grandes propriet\u00e1rios de terras (anci\u00e3os) e pelos membros da elite sacerdotal. T\u00eam o poder na m\u00e3o e controlam a administra\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a no Tribunal Supremo (Sin\u00e9drio). Embora n\u00e3o se relacionem directamente com o povo, s\u00e3o intransigentes em rela\u00e7\u00e3o a ele e vivem preocupados com a ordem p\u00fablica. S\u00e3o os principais respons\u00e1veis pela morte de Jesus.
Os saduceus s\u00e3o os maiores colaboradores do Imp\u00e9rio Romano e tendem para uma pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o, com medo de perder os seus cargos e privil\u00e9gios. No que se refere \u00e0 religi\u00e3o, s\u00e3o conservadores: aceitam apenas a lei escrita e rejeitam as novas concep\u00e7\u00f5es defendidas pelos doutores da Lei e fariseus (cren\u00e7a nos anjos, dem\u00f3nios, messianismo, ressurrei\u00e7\u00e3o).
{N}2._Doutores da Lei (escribas){/}
O grupo dos doutores da Lei vai adquirindo cada vez maior prest\u00edgio na sociedade do tempo. O seu grande poder reside no saber. Com efeito, s\u00e3o os int\u00e9rpretes abalizados das Escrituras, e da\u00ed serem especialistas em direito, administra\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o. A influ\u00eancia deles \u00e9 exercida principalmente em tr\u00eas lugares: Sin\u00e9drio, sinagoga e escola. No Sin\u00e9drio, apresentam-se como juristas para aplicar a Lei em assuntos governamentais e em quest\u00f5es judici\u00e1rias. Na sinagoga, s\u00e3o os grandes int\u00e9rpretes das Escrituras, criando a tradi\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da releitura, explica\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o da Lei aos novos tempos. Abrem escolas e fazem novos disc\u00edpulos.
Embora n\u00e3o perten\u00e7am economicamente \u00e0 classe mais abastada, os doutores da Lei gozam de uma posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica sem igual. Monopolizando a interpreta\u00e7\u00e3o das Escrituras, tornam-se guias espirituais do povo, determinando at\u00e9 mesmo as regras que dirigem o culto. A sua grande autoridade repousa sobre uma tradi\u00e7\u00e3o esot\u00e9rica: n\u00e3o ensinam tudo o que sabem e escondem ao m\u00e1ximo a maneira como chegam a determinadas conclus\u00f5es.
{N}3._Fariseus{/}
Fariseu quer dizer \u00abseparado\u00bb. Inicialmente aliados \u00e0 elite sacerdotal e aos grandes propriet\u00e1rios de terras, os fariseus afastam-se deles para dirigir o povo, embora mantenham dist\u00e2ncia do povo mais simples \u00abque n\u00e3o conhece a Lei\u00bb. S\u00e3o nacionalistas e hostis ao Imp\u00e9rio Romano, mas a sua resist\u00eancia \u00e9 do tipo passivo. O grupo dos fariseus \u00e9 formado por leigos provindos de todas as camadas da sociedade, principalmente artes\u00e3os e pequenos comerciantes. A maioria do clero pobre, que se op\u00f5e \u00e0 elite sacerdotal, tamb\u00e9m come\u00e7a a pertencer a esse grupo.
No terreno religioso, os fariseus caracterizam-se pelo rigoroso cumprimento da Lei em todos os campos e situa\u00e7\u00f5es da vida di\u00e1ria. S\u00e3o conservadores zelosos e tamb\u00e9m criadores de novas tradi\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s da interpreta\u00e7\u00e3o da Lei para o momento hist\u00f3rico em que vivem. A maior express\u00e3o do farisa\u00edsmo \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o da sinagoga, opondo-se ao Templo, dominado pelos saduceus. Deste modo a sinagoga, com a leitura, interpreta\u00e7\u00e3o dos textos b\u00edblicos e ora\u00e7\u00e3o, torna-se express\u00e3o religiosa oposta ao sistema cultual e sacrifical do Templo. Os fariseus acreditam na predestina\u00e7\u00e3o, na ressurrei\u00e7\u00e3o e no messianismo. Esperam um Messias pol\u00edtico-espiritual, cuja fun\u00e7\u00e3o ser\u00e1 precipitar o fim dos tempos e a liberta\u00e7\u00e3o de Israel. Esse Messias ser\u00e1 algu\u00e9m da descend\u00eancia de David. E, para os fariseus, a estrita observ\u00e2ncia da Lei, a ora\u00e7\u00e3o e o jejum provocar\u00e3o a vinda do Messias. Os fariseus e os doutores da Lei simpatizam entre si, a ponto de muitos doutores da Lei serem tamb\u00e9m fariseus.
{N}4._Zelotas{/}
Os zelotas constitu\u00edram-se a partir dos fariseus. Prov\u00eam especialmente da classe dos pequenos camponeses e das camadas mais pobres da sociedade, massacrados por um sistema fiscal impiedoso. S\u00e3o muito religiosos e nacionalistas. Desejam expulsar os dominadores pag\u00e3os (Romanos), e tamb\u00e9m s\u00e3o contr\u00e1rios ao governo de Herodes na Galileia. Querem restaurar um Estado onde Deus \u00e9 o \u00fanico rei, representado por um descendente de David (messianismo). Nesse sentido, os zelotas s\u00e3o reformistas, isto \u00e9, pretendem restabelecer uma situa\u00e7\u00e3o passada.
Enquanto os fariseus se mant\u00eam numa atitude de resist\u00eancia passiva, os zelotas partem para a luta armada. Por isso, as autoridades consideram-nos criminosos e terroristas e s\u00e3o perseguidos pelo poder romano.
Entre os Ap\u00f3stolos de Jesus, provavelmente dois eram zelotas: Sim\u00e3o [Mc_3,19] e Judas Iscariotes. Sim\u00e3o Pedro parece adoptar certos m\u00e9todos dos zelotas.
{N}5._Herodianos (partid\u00e1rios de Herodes){/}
Os herodianos s\u00e3o os funcion\u00e1rios da corte de Herodes. Embora n\u00e3o formem um grupo social, concretizam a depend\u00eancia dos Judeus perante os Romanos. Conservadores por excel\u00eancia, t\u00eam o poder civil da Galileia nas m\u00e3os. Fortes opositores dos zelotas, vivem preocupados em capturar agitadores pol\u00edticos na Galileia. S\u00e3o os respons\u00e1veis pela morte de Jo\u00e3o Baptista.
{N}6._Ess\u00e9nios{/}
Os ess\u00e9nios tornaram-se mais conhecidos a partir da descoberta de documentos em grutas perto do Mar Morto, em 1947. O grupo \u00e9 o resultado da fus\u00e3o entre sacerdotes dissidentes do clero de Jerusal\u00e9m e de leigos exilados. No tempo de Jesus, vivem em comunidades com estilo de vida bastante severo, caracterizado pelo sacerd\u00f3cio e hierarquia, legalismo rigoroso, espiritualidade apocal\u00edptica e a pretens\u00e3o de serem o verdadeiro povo de Deus. Em muitos pontos assemelham-se aos fariseus, mas est\u00e3o em ruptura radical com o juda\u00edsmo oficial. Tendo deixado Jerusal\u00e9m, dirigem-se para regi\u00f5es abundantes em grutas, para a\u00ed viverem um ideal "mon\u00e1stico''. Levam vida em comum, onde os bens s\u00e3o divididos entre todos, h\u00e1 obriga\u00e7\u00e3o de trabalhar com as pr\u00f3prias m\u00e3os, o com\u00e9rcio \u00e9 proibido, assim como o derramamento de sangue, mesmo em forma de sacrif\u00edcios. A organiza\u00e7\u00e3o da comunidade lembra muito a das Ordens Religiosas crist\u00e3s: condi\u00e7\u00f5es severas para a admiss\u00e3o, tempo de noviciado, governo hier\u00e1rquico, disciplina severa, rituais de purifica\u00e7\u00e3o, ceias sagradas comunit\u00e1rias. Esperam um Messias chamado Mestre da Justi\u00e7a, que organizar\u00e1 a guerra santa para exterminar os \u00edmpios e estabelecer o reino eterno dos  justos.
{N}7._Samaritanos{/}
Apesar de n\u00e3o pertencerem ao juda\u00edsmo propriamente dito, os samaritanos s\u00e3o um grupo caracter\u00edstico do ambiente palestinense. Mais ainda que os judeus, observam escrupulosamente as prescri\u00e7\u00f5es do Pentateuco. Mas n\u00e3o aceitam os outros escritos do Antigo Testamento nem frequentam o Templo de Jerusal\u00e9m. Para eles, o \u00fanico lugar leg\u00edtimo de culto \u00e9 o monte Garizim, que fica perto de Siqu\u00e9m, na Samaria. Esperam o Messias chamado Taeb (=aquele que volta). Esse Messias n\u00e3o \u00e9 descendente de David, mas um novo Mois\u00e9s, que vai revelar a verdade e colocar tudo em ordem no final dos tempos.
Os samaritanos s\u00e3o considerados como ra\u00e7a impura pelos judeus, por serem descendentes de popula\u00e7\u00e3o misturada com estrangeiros.
{K}IV._Religi\u00e3o{/}
A religi\u00e3o dos judeus no tempo de Jesus est\u00e1 centrada em dois p\u00f3los fundamentais: o Templo e a sinagoga.
{N}1._O Templo{/}
O Templo \u00e9 sem d\u00favida o centro de Israel. \u00c9 nele que todos os judeus, mesmo os da Dispers\u00e3o, se devem reunir para prestar culto a Deus. No Templo habita o Deus \u00fanico, santo, puro, separado, perfeito. Por natureza, os seres humanos e as coisas s\u00e3o profanos, impuros, banais, imperfeitos. A \u00fanica forma de se purificar \u00e9 aproximar-se de Deus. O homem torna-se tanto mais puro quanto mais perto estiver de Deus; quanto mais distante, mais impuro. Percebe-se, ent\u00e3o, o poder dos sacerdotes na sociedade judaica: s\u00e3o eles que est\u00e3o mais perto de Deus e, consequentemente, cabe-lhes decidir sobre o que \u00e9 puro e impuro, e tamb\u00e9m o que fazer para se purificar. Essa autoridade dos sacerdotes sobre o povo acaba por legitimar e refor\u00e7ar o Templo, que se torna n\u00e3o s\u00f3 o centro religioso, mas tamb\u00e9m o centro econ\u00f3mico e pol\u00edtico. \u00c9 por isso que no tempo de Jesus o Templo possui imensas riquezas (o Tesouro) e toda a c\u00fapula governamental age a partir da\u00ed (o Sin\u00e9drio). Deste modo, a casa de ora\u00e7\u00e3o e ofertas a Deus torna-se um imenso banco e lugar de poder pol\u00edtico. Por outras palavras, a religi\u00e3o torna-se instrumento de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o do povo.
{N}2._A sinagoga{/}
O Templo \u00e9 o centro de toda a vida de Israel. \u00c9 o lugar de culto, e o povo frequenta-o principalmente por ocasi\u00e3o das grandes festas. Na vida comum, o centro religioso \u00e9 constitu\u00eddo pela sinagoga, presente at\u00e9 mesmo nos menores povoados. A sinagoga \u00e9 o lugar onde o povo se re\u00fane para a ora\u00e7\u00e3o, para ouvir a Palavra de Deus e para a prega\u00e7\u00e3o.
Qualquer israelita adulto pode fazer a leitura do texto b\u00edblico na sinagoga, e pode escolher o texto que quiser. Depois da leitura, tamb\u00e9m qualquer adulto pode fazer a prega\u00e7\u00e3o, explicando o texto e relacionando-o com outros textos. Em geral, exalta-se a Deus e procura-se dar uma forma\u00e7\u00e3o para a f\u00e9 do povo, convidando-o a viver segundo a Lei.
O sacerdote n\u00e3o tem fun\u00e7\u00e3o especial na sinagoga, porque esta n\u00e3o \u00e9 lugar de culto lit\u00fargico. Embora qualquer adulto possa presidir a uma reuni\u00e3o, nem todos o fazem, ou por serem analfabetos ou por n\u00e3o se julgarem preparados para o coment\u00e1rio. As reuni\u00f5es acabam por ser ent\u00e3o sempre animadas pelos doutores da Lei e fariseus, que cada vez mais propagam as suas ideias e aumentam a sua influ\u00eancia sobre o povo, adquirindo prest\u00edgio cada vez maior.
Em geral, a sinagoga pertence \u00e0 comunidade local. Nos povoados menores, serve tamb\u00e9m como escola para jovens e crian\u00e7as. Nos centros maiores, constroem-se salas de aula ao lado da sala de reuni\u00e3o. Em Jerusal\u00e9m, algumas sinagogas tinham at\u00e9 hospedaria e instala\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias para os peregrinos.
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Jesus nasceu, viveu e morreu dentro do contexto hist\u00f3rico do s\u00e9c. I. Quando lemos o texto dos Evangelhos, devemos estar atentos para avaliar correctamente a sua actividade dentro da forma\u00e7\u00e3o social, econ\u00f3mica, pol\u00edtica e religiosa do seu tempo. S\u00f3 assim a palavra e a ac\u00e7\u00e3o de Jesus adquirir\u00e3o relevo concreto para que n\u00f3s as entendamos melhor e possamos transpor todo o significado que h\u00e1 na Pessoa de Jesus para os nossos dias. N\u00e3o se trata de reduzir toda a mensagem de Jesus a n\u00edvel sociopol\u00edtico. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o se deve cair no oposto, reduzindo a mensagem de Jesus a n\u00edvel individual e intimista.
"E a Palavra fez-Se homem 
e habitou entre n\u00f3s.
E n\u00f3s contempl\u00e1mos a sua gl\u00f3ria:
gl\u00f3ria do Filho \u00fanico do Pai, 
cheio de amor e fidelidade.'' [Jo_1,14]
