{N}3,{/}8 {N}AS SETE NA\u00c7\u00d5ES{/}
Aqui, as na\u00e7\u00f5es que h\u00e3o-de ser despojadas da terra de Cana\u00e3 s\u00e3o seis. A mesma lista ir\u00e1 aparecer noutros lugares: Ex 3,17;23,23...; Js 12,8. Em Dt 7,1 s\u00e3o acrescentados os gergeseus, o que permite falar de {C}sete Na\u00e7\u00f5es, {/}como em Js 3,10. A lista acha-se quase id\u00eantica em dez lugares, e mais curta noutros. Esta lista \u00e9 apenas uma enumera\u00e7\u00e3o tradicional e n\u00e3o serviria para um atlas geogr\u00e1fico. \u00c9 que, ao entrar em Cana\u00e3, os israelitas encontraram{C} {/}uma popula\u00e7\u00e3o mesclada de amorreus (os que eram da mesma ra\u00e7a de Abra\u00e3o) e de heteus. Estes \u00faltimos procediam do norte e tinham ocupado o Pa\u00eds durante muito tempo: formavam a classe alta. De facto, o povo cananeu apresentava-se como um mosaico de reinos muito pequenos, e a B\u00edblia chama-os \u00e0s vezes pelo nome das suas capitais: s\u00e3o chamados jebuseus em Jerusal\u00e9m (2Sm 5,6), heveus e gergeseus noutros lugares (cf. Gn 10,17).
Note-se com que tranquilidade se fala de tirar-lhes a terra que ocupam. Ao olhar o passado, os autores desses livros davam-se conta de que a conquista fora um elemento essencial para a funda\u00e7\u00e3o de um povo de Deus diferente dos demais e que nisto estava patente a vontade de Deus. Estes textos continuam a inspirar alguns protagonistas dos actuais conflitos do M\u00e9dio Oriente, como se justificassem novas conquistas. Nisto reconhecemos uma interpreta\u00e7\u00e3o fundamentalista do texto sagrado: o que foi vontade de Deus em tempos afastados \u00e9 considerado por alguns como norma para hoje, como se o povo de Deus, os seus direitos e deveres, a sua base territorial e as suas institui\u00e7\u00f5es tenham de ser como h\u00e1 trinta s\u00e9culos atr\u00e1s.

{N}3,{/}21 {N}OS EG\u00cdPCIOS DESPOJADOS{/}
N\u00e3o esque\u00e7amos que este par\u00e1grafo foi escrito muitos s\u00e9culos antes do Serm\u00e3o da Montanha. Despojar o inimigo, \u00e0 for\u00e7a ou por ast\u00facia, parecia demonstrar que Deus estava a devolver a honra ao seu povo humilhado: Deus aben\u00e7oava-o entregando-lhe os haveres dos seus opressores. Este pormenor prov\u00e9m certamente das tradi\u00e7\u00f5es que inspiraram o relato da d\u00e9cima praga e devem-se a alguns grupos que foram expulsos por ocasi\u00e3o de uma praga. Culpabilizavam-se na altura com muita facilidade os estrangeiros por qualquer praga que acontecesse: certamente haviam alterado a ordem da Natureza. Havia ent\u00e3o um desejo tal de os ver partir que se fazia tudo para apressar a sua sa\u00edda.

{N}4,{/}27 {N}AAR\u00c3O{/}
Aar\u00e3o era irm\u00e3o de Mois\u00e9s num sentido muito amplo (cf. 4,14-17); d\u00e1-o a entender o presente par\u00e1grafo que \u00e9 obra de autor mais antigo. Em 6,20 um autor mais tardio dir\u00e1 que Aar\u00e3o \u00e9 irm\u00e3o carnal de Mois\u00e9s.
{C}Aar\u00e3o, o levita {/}deve ter sido uma autoridade reconhecida por algum grupo do deserto, talvez os levitas. Aar\u00e3o e os seus puseram-se ao lado de Mois\u00e9s na sua obra reformadora. O {C}Monte de Deus{/} aqui mencionado deve ter sido um lugar sagrado diferente do monte Horeb; na melhor das hip\u00f3teses t\u00ea-lo-\u00e3o identificado mais tarde, como em 3,1 e 17,6. Nestes dois lugares o texto parece ter sido retocado.
Para qu\u00ea entrar em semelhantes pormenores? Estas observa\u00e7\u00f5es ajudam-nos a ver que a revela\u00e7\u00e3o do \u00caxodo n\u00e3o foi estruturada por Deus com uma acumula\u00e7\u00e3o de milagres, mediante um profeta, Mois\u00e9s, que tudo dirige e realiza infalivelmente a obra de Deus. Pelo contr\u00e1rio, parece-se com a hist\u00f3ria mais comum aparentemente e menos grandiosa do que aquela em que os crist\u00e3os de hoje s\u00e3o actores. Deus interv\u00e9m nalguns momentos para abrir um caminho e confiar uma miss\u00e3o, mas tamb\u00e9m nos guia mediante os encontros, os amigos e os pr\u00f3prios obst\u00e1culos. Uma pessoa tem d\u00favidas, procura apoios, descobre irm\u00e3os, alguns dos quais falham ou atrai\u00e7oam: tomam-se decis\u00f5es que parecem boas, mas que n\u00e3o tardam em comprometer gravemente o futuro das nossas lutas.
\u00c9 muito dif\u00edcil dizer por que caminhos Deus conduziu o grande profeta e fundador de Israel; as imagens grandiosas que dele nos deixaram os livros sagrados ajudam-nos melhor a captar a import\u00e2ncia dessa revela\u00e7\u00e3o, dando-nos a conhecer a sua vida e as suas experi\u00eancias.

{N}6,{/}2 {N}UM NOME MUITO PRIVADO{/}
Coment\u00e1mos o Nome de Jav\u00e9 em 3,14. O presente texto sublinha a import\u00e2ncia do dom feito a Israel quando lhe \u00e9 revelado o Nome divino que os Patriarcas ignoravam. Visto Israel passar a ser o povo de Deus, Este, por seu lado, tem de lhe revelar algo do seu mist\u00e9rio. \u00abDeus\u00bb n\u00e3o \u00e9 realmente um nome pr\u00f3prio, pois refere-se ami\u00fade a deuses que s\u00f3 s\u00e3o o que s\u00e3o (cf. a alus\u00e3o ir\u00f3nica de Paulo em 1Cor 8,5). Jav\u00e9, ao contr\u00e1rio, ser\u00e1 o nome pr\u00f3prio com o qual O poder\u00e3o invocar (3,15). Nisto reconhecemos o esp\u00edrito profundo da alian\u00e7a, a qual significa confian\u00e7a m\u00fatua. N\u00e3o \u00e9 por acaso que, na narra\u00e7\u00e3o do \u00c9den, onde aparece tantas vezes o Nome de Jav\u00e9 Deus, a serpente \u00e9 a \u00fanica que n\u00e3o pode pronunciar o Nome sagrado, e diz somente \u00abDeus\u00bb.
O dom deste Nome sagrado deixa-nos entrever qu\u00e3o dif\u00edcil ser\u00e1 para os crentes estabelecer um di\u00e1logo aut\u00eantico com aqueles que compartilham a sua f\u00e9. A revela\u00e7\u00e3o divina colocou-nos \u00e0 parte.
Este par\u00e1grafo sublinha a continuidade entre as promessas feitas aos antepassados e a presente revela\u00e7\u00e3o a Mois\u00e9s. O texto v\u00ea nisto a prova da fidelidade divina atrav\u00e9s dos s\u00e9culos: poder\u00edamos falar de uma continuidade no plano de Deus. Na B\u00edblia n\u00e3o h\u00e1 exemplo de uma palavra comunicada a um profeta que seja puro come\u00e7o: sempre se apega a uma tradi\u00e7\u00e3o anterior e nunca alcan\u00e7amos os seus in\u00edcios.

{N}10,{/}20 {N}JAV\u00c9 ENDURECE O CORA\u00c7\u00c3O{/}
Esclarecemos no coment\u00e1rio a 10,1 o sentido que se deve dar \u00e0 express\u00e3o b\u00edblica \u00abendurecer o cora\u00e7\u00e3o\u00bb. Em muitas oportunidades, a B\u00edblia parece atribuir a Deus a responsabilidade das decis\u00f5es humanas, como em Is 6,10 e Jo 12,40. N\u00e3o vamos dizer que o autor tinha um conceito errado da liberdade humana, mas que se expressava numa linguagem diversa da nossa (Tg 2,14). Pois, se acreditamos na exist\u00eancia de Deus, a liberdade humana passa a ser um mist\u00e9rio. E imposs\u00edvel conciliar de modo satisfat\u00f3rio para a raz\u00e3o esta liberdade e a omnipot\u00eancia de Deus. Tomamos livremente as nossas decis\u00f5es, mas o resultado ser\u00e1 no final de contas o que se conforma com o plano de Deus (Pr 16,1). E n\u00e3o s\u00f3: estamos t\u00e3o mergulhados em Deus (Act 17,28), que n\u00e3o podemos decidir nem agir sem que isto esteja de algum modo com Ele. Inclusive se ofendemos o pr\u00f3ximo, este v\u00ea a nossa maldade, mas deve ver nisso tamb\u00e9m a m\u00e3o de Deus (2Mc 5,17; 7,18). Pois Ele cuida que tudo concorra para o bem daqueles que O amam (Rm 8,28).

{N}12,{/}12 {N}A MORTE DOS PRIMOG\u00c9NITOS{/}
{C}Todos os primog\u00e9nitos do Egipto morrer\u00e3o.{/} J\u00e1 coment\u00e1mos esta express\u00e3o em  11,1. Cf. tamb\u00e9m o coment\u00e1rio ao cap. 22. Aqui conv\u00e9m notar como os autores do \u00caxodo sublinham o gesto soberano de Deus. Esta matan\u00e7a queria tamb\u00e9m justificar a oferenda dos primog\u00e9nitos dos animais a Deus, e ainda o resgate dos primog\u00e9nitos de Israel conforme as leis do cap. 13.
Daqui resulta tamb\u00e9m a dignidade pr\u00f3pria do filho mais velho em Israel. A B\u00edblia convida a fam\u00edlia a dar a vida e a tornar-se fecunda, n\u00e3o para pr\u00f3pria satisfa\u00e7\u00e3o mas como uma miss\u00e3o que deve cumprir. O primog\u00e9nito e as prim\u00edcias s\u00e3o o que h\u00e1 de melhor, e s\u00e3o de Deus. Oferecer-Lho \u00e9 pagar a d\u00edvida que algu\u00e9m contraiu com Deus s\u00f3 pelo facto de ter sido escolhido de prefer\u00eancia aos demais povos.
Israel pertence a Deus e \u00e9 consagrado ao culto divino. A B\u00edblia ensina-lhe deste modo a senten\u00e7a que Gandhi colocou entre os sete mandamentos da moralidade social: \u00abN\u00e3o pode haver culto sem sacrif\u00edcios\u00bb. N\u00e3o haver\u00e1 culto que n\u00e3o contemple e n\u00e3o aceite uma certa forma de morte; a carta aos Hebreus recorda-o (Hb 9,22) quando v\u00ea no culto sangrento do Templo a express\u00e3o de uma lei profunda inscrita no plano de salva\u00e7\u00e3o, a qual havia de cumprir-se em Jesus.
A nova alian\u00e7a concedida aos baptizados j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 esta integra\u00e7\u00e3o num povo diferente dos demais, e t\u00e3o-pouco poderemos pagar um dom de Deus que nos foi comunicado pessoalmente na f\u00e9 e no amor. Esta alian\u00e7a inclui sem d\u00favida uma perspectiva de morte: Jo\u00e3o recordar\u00e1 que a salva\u00e7\u00e3o de Jesus n\u00e3o \u00e9 somente uma purifica\u00e7\u00e3o, cujo sinal \u00e9 a \u00e1gua, mas tamb\u00e9m um sacrif\u00edcio, cujo sinal \u00e9 o sangue (1Jo 5,6).

{N}14,{/}30 {N}O DEUS SALVADOR{/}
Certamente haver\u00e1 poucas pessoas que honrem alguma divindade sem esperar dela pouca ou muita ajuda nas suas dificuldades. \u00abLivrai-me deste problema; salvai-me do inimigo que me persegue... curai-me desta doen\u00e7a...\u00bb. Estas peti\u00e7\u00f5es abundam nos salmos. E isto \u00e9 salva\u00e7\u00e3o, pelo menos no imediato. Mas a salva\u00e7\u00e3o que as grandes religi\u00f5es oferecem tem um sentido mais amplo, quer se trate da salva\u00e7\u00e3o budista, mu\u00e7ulmana, ou crist\u00e3; desta vez entende-se que um mal profundo afecta a condi\u00e7\u00e3o humana, ou ent\u00e3o existe a aspira\u00e7\u00e3o por uma vida mais feliz depois da morte, e pensamos alcan\u00e7\u00e1-la obedecendo a determinados preceitos ou fazendo algumas mudan\u00e7as na nossa vida.
Neste sentido, \u00e9 muito verdade que a B\u00edblia nos oferece a salva\u00e7\u00e3o, mas a sua mensagem aparece s\u00f3 nos in\u00edcios. Porque n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o que se possa oferecer a todos se n\u00e3o tiverem percorrido certos caminhos. Tanto a crian\u00e7a como o jovem ou o adulto precisam de muito tempo e experi\u00eancia para que possam distinguir entre o que \u00e9 bem e o que \u00e9 mal para eles, entre o que \u00e9 s\u00f3 apar\u00eancia e o que \u00e9 verdadeira riqueza e verdadeira felicidade. E todas as experi\u00eancias que a B\u00edblia nos descreve apontam para a mesma direc\u00e7\u00e3o: o homem n\u00e3o pode salvar-se por si pr\u00f3prio. Come\u00e7a com grandes projectos e belas inten\u00e7\u00f5es, mas sempre, cedo ou tarde, cai. Muitos povos julgavam que os deuses tinham inveja de n\u00f3s; a B\u00edblia elimina essas suspei\u00e7\u00f5es desde o cap. 3 do G\u00e9nesis, e \u00e9 ent\u00e3o quando apresenta uma primeira mensagem de esperan\u00e7a, sem a precisar: no fim haver\u00e1 uma vit\u00f3ria da humanidade sobre o mal.
Mas isso n\u00e3o se far\u00e1 sem Deus. E o livro do \u00caxodo ensina-nos a caracter\u00edstica particular da salva\u00e7\u00e3o crist\u00e3 quando recorda as interven\u00e7\u00f5es de Deus Salvador. O que a B\u00edblia sublinha, quando a multid\u00e3o guiada por Mois\u00e9s \u00e9 livre dos seus perseguidores, numa das margens do Mar dos Juncos, n\u00e3o \u00e9 em primeiro lugar que foi salva mas que houve um Deus Salvador: {C}Jav\u00e9... foi a minha salva\u00e7\u00e3o... \u00e9 o Deus de meu pai {/}(Ex 15,2). O texto mostra claramente que Israel era incapaz de salvar-se por si mesmo e que nem sequer tivera a coragem de enfrentar o perigo. Mas Jav\u00e9 interv\u00e9m gratuitamente em favor deles. Interveio tanto por fidelidade \u00e0s promessas que havia feito aos seus pais (15,2) como porque queria que Israel fosse seu parceiro (15,13).
A passagem do mar, afinal, n\u00e3o foi mais do que um pequeno incidente no tocante \u00e0 hist\u00f3ria, e a salva\u00e7\u00e3o que se oferecia a esses fugitivos pode parecer-nos muito longe dos grandes problemas que atormentam a humanidade; sem d\u00favida o essencial  est\u00e1 feito. Ser\u00e3o precisos s\u00e9culos para descobrir toda a amplitude da salva\u00e7\u00e3o, mas j\u00e1 nesta p\u00e1gina lemos que o homem n\u00e3o se salva pelas suas pr\u00f3prias for\u00e7as. \u00c9 assunto de Deus e do seu amor (15,13), ou melhor, da sua livre generosidade. E n\u00f3s j\u00e1 estamos, de certo modo, salvos, quando sabemos que Deus \u00e9 um Deus que interv\u00e9m e que ama; \u00e9 tanto nosso companheiro de viagem como nossa meta.
O homem ser\u00e1 para Deus um companheiro pouco fiel e sempre inseguro. A reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus e o perd\u00e3o dos pecados ser\u00e3o o tema central da salva\u00e7\u00e3o anunciada pelos profetas quando falarem de uma era de paz e de reconcilia\u00e7\u00e3o com a Natureza. Do mesmo modo, no Novo Testamento, a nossa reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus Pai gra\u00e7as \u00e0 morte de Jesus ser\u00e1 o \u00e2mago da salva\u00e7\u00e3o crist\u00e3.

{N}20,{/}24 {N}OS ALTARES DE PROV\u00cdNCIA{/}
O altar de terra ou de pedras n\u00e3o lavradas (v. 5) n\u00e3o permitia que a constru\u00e7\u00e3o ou os acess\u00f3rios do culto inclu\u00edssem imagens. {C}Nos lugares onde Eu quiser...: {/}esta lei \u00e9 testemunha do longo per\u00edodo durante o qual os israelitas mantiveram v\u00e1rios lugares de culto.
Segundo alguns textos do Deuteron\u00f3mio, o pr\u00f3prio Mois\u00e9s falou de um santu\u00e1rio \u00fanico que haveria de ser o de Jerusal\u00e9m. Na realidade, outros textos mostram que at\u00e9 finais do reino de Jud\u00e1 os reis procuraram eliminar os altares de prov\u00edncia: 2Rs 8,4; 23,8; 23,15... Aqui o texto pede simplesmente que o santu\u00e1rio seja legitimado por uma manifesta\u00e7\u00e3o de Jav\u00e9 nesse lugar. E por conseguinte que cada um desses santu\u00e1rios, edificados habitualmente no mesmo lugar em que estivera erigido um santu\u00e1rio cananeu, sustente sem esfor\u00e7o a sua pr\u00f3pria legitimidade mediante tradi\u00e7\u00f5es muito antigas e fidedignas... Os livros do G\u00e9nesis e do \u00caxodo mencionam algumas delas: Gn 8,20;12,7-8;13,8;26,25;35,7; Js 4,20.

{N}23,{/}32  {N}N\u00c3O FA\u00c7AS ALIAN\u00c7AS COM ELES{/}
Este texto \u00e9 um daqueles que justificam as palavras de Jesus em Mt 5,43. Em 23,9 lembra-nos com muita \u00eanfase os direitos do estrangeiro em Israel, porque Jav\u00e9 \u00e9 o Deus justo que defende a justi\u00e7a. Isto n\u00e3o impede que reafirme que Israel deve conquistar a terra de Cana\u00e3 e que nenhuma considera\u00e7\u00e3o de oportunidade ou de direitos do outro possam opor-se a essa vontade de Deus: qualquer outro povo e qualquer outra cultura devem ser eliminados da Terra Prometida.

{N}24,{/}9 Entre as promessas que os profetas transmitiram ao povo de Deus e que dever\u00e3o cumprir-se nos tempos dos Messias, encontramos num lugar destacado esta: Todos Me conhecer\u00e3o: Is 54,13; Jr 31,33.
Em muitos lugares da B\u00edblia encontramos a express\u00e3o: \u00abir ver a Deus\u00bb. Mas nesse caso o verbo ver significa apresentar-se ou visitar, e trata-se da peregrina\u00e7\u00e3o a um santu\u00e1rio: Ex 34,23; Sl 84,8. S\u00f3 a respeito de Jacob e de Mois\u00e9s aparece a express\u00e3o \u00abvi a Deus\u00bb (Gn 32,31) ou \u00abDeus apareceu-me\u00bb (Ex 3,16).

{N}25,{/}40 {N}A LITURGIA CELESTE{/}
Estes longos cap\u00edtulos dedicados em primeiro lugar \u00e0 descri\u00e7\u00e3o de todos os objectos de culto que Mois\u00e9s tinha que fabricar no deserto, e depois, \u00e0 sua confec\u00e7\u00e3o, n\u00e3o ser\u00e1 certamente o que mais nos seduz no livro do \u00caxodo. E no entanto eram de grand\u00edssima import\u00e2ncia para quem fez a \u00faltima redac\u00e7\u00e3o do livro. \u00c9 f\u00e1cil comprovar que a narra\u00e7\u00e3o interrompida em 24,8 \u00e9 retomada directamente em 31,18, e que o bloco dos cap\u00edtulos 25-31 termina com uma lembran\u00e7a do S\u00e1bado cuja conclus\u00e3o ocupa os primeiros vers\u00edculos do cap\u00edtulo 35. Fica claro ent\u00e3o que os cap\u00edtulos 25-31 e 35-40 faziam inicialmente um s\u00f3 conjunto e que foram colocados posteriormente no livro.
O livro, na sua vers\u00e3o anterior, tinha por conclus\u00e3o a celebra\u00e7\u00e3o da alian\u00e7a perp\u00e9tua entre Deus e Israel, seguida imediatamente do pecado original de Israel, a festa do bezerro de ouro. Mas, no momento de o incluir na B\u00edblia, mudaram um pouco a orienta\u00e7\u00e3o primitiva. Agora sublinha-se que a alian\u00e7a de Deus com Israel encontra a sua perfeita express\u00e3o no culto que Israel, o \u00fanico entre todas as na\u00e7\u00f5es, prestava a Jav\u00e9 no seu Templo.
Dissemos brevemente no coment\u00e1rio a 25,1 que toda essa vis\u00e3o da Tenda-Santu\u00e1rio no deserto tinha como que dois fundamentos. Por um lado, conservava-se a lembran\u00e7a de uma tenda que continha os objectos sagrados da tribo n\u00f3mada (para Israel era essencial o cofre chamado{C} arca{/}) e que o acompanhava nas suas desloca\u00e7\u00f5es. Por outro lado, queria afirmar-se que o povo de Mois\u00e9s j\u00e1 tinha no deserto uma antecipa\u00e7\u00e3o do Templo de Jerusal\u00e9m sob a forma de um imenso santu\u00e1rio m\u00f3vel. Essa tenda, concebida e executada \u00e0 medida de uma multid\u00e3o de 600.000 pessoas, n\u00e3o existiu sen\u00e3o na imagina\u00e7\u00e3o dos seus autores, mas com isso queriam afirmar a import\u00e2ncia do culto na voca\u00e7\u00e3o de Israel. Estes cap\u00edtulos dedicados a todo o material do culto afirmavam o dom\u00ednio de Deus; est\u00e3o colocados logicamente onde os puseram, antes de todas as demais leis que se ir\u00e3o encontrar no Lev\u00edtico e nos N\u00fameros.
A Tenda - ou, mais tarde, o Templo - \u00e9 o lugar onde se celebra a liturgia segundo as leis dada pelo pr\u00f3prio Deus. \u00c9 o que significa o vers\u00edculo 25,40: {C}Faz tudo de acordo com o modelo que te foi mostrado no alto da montanha.{/} O mesmo se diz em 26,30 e 27,8. Encontrar-se-\u00e1 uma confirma\u00e7\u00e3o de um culto terrestre semelhante \u00e0 liturgia celeste noutras passagens da B\u00edblia: Sb 9,8; Eclo 24,9-11. No Novo Testamento o discurso de Est\u00eav\u00e3o alude a ele. \u00c9 bom recordar isto para compreender o que diz o evangelho de Jo\u00e3o a respeito do Templo, que \u00e9 corpo - n\u00f3s dir\u00edamos que \u00e9 pessoa - de Jesus (Jo 2,21). A carta aos Hebreus evoca o Templo celeste onde Cristo entrou levando o seu pr\u00f3prio sangue (9,11-12) e em seguida passa a outra imagem (10,19): o Templo \u00e9 o corpo de Cristo.
O Apocalipse de Jo\u00e3o fala tamb\u00e9m desse Templo celeste no qual s\u00e3o pronunciadas as senten\u00e7as de Deus em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Hist\u00f3ria, a partir de 11,19 at\u00e9 ao cap. 16. No final da Hist\u00f3ria, essa vis\u00e3o do Templo sair\u00e1 de cena, porque no estado final, Deus \u00e9 tudo em todos: 21,22.
Toda esta lembran\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 porventura a mais, porquanto o nosso cristianismo ocidental esqueceu essa longa tradi\u00e7\u00e3o que, ao inv\u00e9s, marca profundamente a liturgia  eucar\u00edstica da Igreja grega.

{N}31,{/}18 A narra\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s prossegue aqui no lugar exacto, pois ficara suspensa em 24,18.
{C}As duas t\u00e1buas da alian\u00e7a. {/}Tanto no texto hebraico do Antigo Testamento como no grego, a mesma palavra significa alian\u00e7a e declara\u00e7\u00e3o. O que a Arca da Alian\u00e7a cont\u00e9m \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es da Alian\u00e7a concedida por Deus a Israel. As nossas modernas Constitui\u00e7\u00f5es cont\u00eam normalmente um pre\u00e2mbulo, seguido por artigos. O mesmo acontece na B\u00edblia, mas aqui o pre\u00e2mbulo n\u00e3o \u00e9 um conjunto de princ\u00edpios; s\u00e3o antes factos que precedem e que justificam o Dom da Lei. Estes factos est\u00e3o em grande parte no G\u00e9nesis, pelo que este livro \u00e9 parte da \u00abLei\u00bb, apesar de conter muito poucas leis, exceptuando o cap. 17. Ali se lia uma pr\u00e9-hist\u00f3ria de Israel que preparava a elei\u00e7\u00e3o do povo da parte de Deus mediante as leis de Mois\u00e9s. A palavra hebraica {C}Tora,{/} que traduzimos por {C}Lei {/}significava no princ\u00edpio \u00abo ensino\u00bb: Deus ilumina o caminho que prop\u00f5e o que d\u00e1, ou que imp\u00f5e aos que escolheu.

{N}33,{/}20 \u00c9 f\u00e1cil ver que este epis\u00f3dio se parece muito com o que lemos em 1Rs 9,10-13. Lembremos que os presentes par\u00e1grafos procedem com muita probabilidade dos grupos de profetas que acompanham Eliseu no s\u00e9c. VIII antes de Cristo. O tempo de Mois\u00e9s j\u00e1 ia longe e dele guardavam-se mais tradi\u00e7\u00f5es do que escritos. \u00c9 muito prov\u00e1vel que a experi\u00eancia de Elias acontecesse primeiro. Logo pensaram que tinham tido uma experi\u00eancia de Deus bastante parecida. O vers\u00edculo 1Rs 19,9 fala-nos da {C}gruta.{/} Trata-se posssivelmente de um lugar sagrado muito antigo que Mois\u00e9s talvez visitou. Em Ex 33,6-7, a insist\u00eancia sobre a miseric\u00f3rdia de Deus que sempre castiga, mas mant\u00e9m as suas promessas, parece mais pr\u00f3pria da linguagem dos profetas do que adaptada \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s com os seus hebreus.

{N}40,{/}36 {N}OS MILAGRES DO DESERTO{/}
N\u00e3o podemos duvidar de que atrav\u00e9s de toda a aventura do Sinai houve sinais muito importantes da interven\u00e7\u00e3o de Deus. N\u00e3o se v\u00ea como poderiam ter nascido essas tradi\u00e7\u00f5es sobre as maravilhas no deserto sem que tivesse acontecido alguma coisa. Embelezaram-nas, acrescentaram-lhes muito elementos, mas ali como em toda a parte s\u00f3 se empresta aos ricos. Jamais saberemos como aconteceram as coisas. Acontecimentos que, vistos \u00e0 dist\u00e2ncia, n\u00e3o poderiam ser mais do que fruto da casualidade, foram reconhecidos como obras de Deus pelos que os viveram e sentiram na sua pr\u00f3pria carne, e que ficaram impressionados por mil pormenores concretos que n\u00e3o deixavam lugar para d\u00favidas. Os que depois transmitiram essas recorda\u00e7\u00f5es eram incapazes de salvaguardar o contexto, pelo que os factos transmitidos perdiam o seu sentido divino e tornavam-se comuns. Sabendo que havia acontecido algo de maravilhoso, os que transmitiam as hist\u00f3rias expressaram-nas \u00e0 sua maneira multiplicando os prod\u00edgios, como se faz com as hist\u00f3rias edificantes. Pode dizer-se, em geral, que se inventaram milagres para colmatar os que j\u00e1 n\u00e3o sabiam contar-se tal como tinham acontecido.
J\u00e1 fal\u00e1mos do man\u00e1 e das codornizes no coment\u00e1rio a 17,8. No que diz respeito \u00e0 nuvem, \u00e9 um facto que quando come\u00e7a um pequeno ciclone no Sinai (o que n\u00e3o \u00e9 raro), d\u00e1-se conta dele frequentemente por um redemoinho que levanta gr\u00e3os de areia t\u00e3o finos que formam uma poeira fina e impalp\u00e1vel: uma verdadeira coluna luminosa que se move lentamente, totalmente resplandecente \u00e0 luz do sol. \u00c9 muito prov\u00e1vel que a nuvem do \u00caxodo provenha de testemunhos relativos a esses fen\u00f3menos. Mas o que interessa aqui \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o que se lhe deu. A nuvem era uma bela imagem, dada por Deus, e que podia exprimir muitas coisas para as quais n\u00e3o h\u00e1 palavras: a presen\u00e7a misteriosa de Deus connosco, luminosa e ao mesmo tempo obscura.

