{N}1,{/}53 Desde o princ\u00edpio deste livro, em que se destaca a santidade divina, a Morada do Testemunho, lugar da presen\u00e7a divina, \u00e9 separada do povo pelo acampamento dos levitas. A presen\u00e7a desta elite do povo santo mais inteiramente consagrados a Deus, evita que pessoas comuns e vulgares, contaminadas pelas mil impurezas da vida profana, se queimem ou desfale\u00e7am no contacto com o Deus Santo. O texto fala da {C}c\u00f3lera: {/}esta palavra designa qualquer desgra\u00e7a que possa acontecer como consequ\u00eancia dos justo descontentamento de Deus.
Encontramos aqui, portanto, uma das leis fundamentais que regem a exist\u00eancia do povo de Deus, expressa numa linguagem um pouco antiquada para n\u00f3s. Um povo eleito e privilegiado sob muitos aspectos n\u00e3o tem sentido se n\u00e3o \u00e9 sal da terra.

{N}7,{/}1 Este cap\u00edtulo, muito mais ainda que os anteriores, pode espantar-nos com a repeti\u00e7\u00e3o intermin\u00e1vel dos mesmos n\u00fameros e das mesmas oferendas. Mas n\u00e3o se trata  de o cortar, assim como n\u00e3o se corta uma grande prociss\u00e3o ou as cento e cinquenta  ave- Marias do ros\u00e1rio. A rotina da vida com a intermin\u00e1vel continua\u00e7\u00e3o das mesmas tarefas que acabam por se fazer de modo autom\u00e1tico faz parte da ascese que prepara para os dons de Deus. Durante milhares de anos principalmente as mulheres gastaram as suas for\u00e7as e perderam a sua beleza e sa\u00fade na lavagem, na prepara\u00e7\u00e3o do fogo ou nos remendos: talvez diante de Deus isso n\u00e3o fosse t\u00e3o embrutecedor como aborrecer-se frente ao televisor, passando de um canal para o outro, numa busca desesperada para satisfazer essa \u00abavidez dos olhos\u00bb de que Jo\u00e3o fala (1Jo 2,15). Todos os grandes espirituais aceitaram seguir esse caminho de fidelidade na monotonia - que para muitos \u00e9 um trabalho pouco gratificante - em que acabamos por nos habituar ou por nos cansarmos tanto que perdemos a propriedade de n\u00f3s pr\u00f3prios, e talvez ent\u00e3o soe a hora de Deus. 

{N}8,{/}5 {N}OS LEVITAS{/}
Este cap\u00edtulo completa o que se leu no \u00caxodo 13,1-4 e 11-15. Israel pertence totalmente a Jav\u00e9. A d\u00e9cima praga com a morte dos primog\u00e9nitos eg\u00edpcios mostra que a reivindica\u00e7\u00e3o de Jav\u00e9 se concentra nos primog\u00e9nitos. Estes devem portanto, ser resgatados:  no in\u00edcio s\u00e3o apresentados no Templo quando a m\u00e3e, no quadrag\u00e9simo dia depois do parto, vai \u00abpurificar-se do seu sangue\u00bb (Lv 12; Lc 2,22). Mas Deus exige um dom mais pessoal: uma tribo dentre as doze, a de Levi, substitui os primog\u00e9nitos de todo o povo e \u00e9 consagrada ao culto de Deus. Essa tribo n\u00e3o tem territ\u00f3rio pr\u00f3prio e consagra-se ao servi\u00e7o do Templo; vive dos d\u00edzimos que as outras tribos lhe enviam  e que s\u00e3o destinados ao culto...

{N}9,{/}15 {N}A MORADA E A TENDA{/}
Do mesmo modo que noutros lugares do \u00caxodo e dos N\u00fameros (3,25), aqui a Morada cuja constru\u00e7\u00e3o ocupa a maior parte do \u00caxodo 25-40 identifica-se com a Tenda do Testemunho. Al\u00e9m disso, \u00e9 claro que o livro do \u00caxodo fala indiferentemente da Tenda do Testemunho e da Tenda das Reuni\u00f5es.
Digamos em primeiro lugar que as duas palavras {C}Testemunho e Reuni\u00e3o {/}s\u00e3o parentes entre si em hebraico.{C} Testemunho {/}\u00e9 o Testemunho ou Declara\u00e7\u00e3o Divina que se guarda na Arca e que se exprime entre outras coisas atrav\u00e9s dos dez mandamentos. {C}Reuni\u00e3o: {/}\u00e9 o lugar onde  Deus se encontra com Mois\u00e9s quando quer conversar com ele (Ex 29, 42; Nm 12,5; 17,7-8). Em ambos os casos trata-se de uma tenda no segredo da qual Deus Se manifesta unicamente a Mois\u00e9s  (Nm 12,5).
Mas quando depois se quis montar toda a fic\u00e7\u00e3o da Morada grandiosa, o primeiro esbo\u00e7o do Templo de Jerusal\u00e9m, procurou-se identificar com a Tenda da qual as tradi\u00e7\u00f5es mais antigas conservavam a lembran\u00e7a (ver especialmente Ex 38,21). Na realidade, se se queria uma Morada grandiosa para o culto divino, sonhava-se ainda mais com um tempo em que Deus Se encontraria com o seu amigo e lhe falaria cara a cara (Nm 12,7-8). Em todo o livro de Job est\u00e1 impl\u00edcito este sonho que os profetas acariciaram de vez em quando (Is 30,20). 
O par\u00e1grafo presente faz o elogio de um tempo em que Deus intervinha pessoalmente, dava ordens e tomava nas suas m\u00e3os a direc\u00e7\u00e3o do povo. J\u00e1 tivemos ocasi\u00e3o de recordar que os livros santos apresentam a hist\u00f3ria passada como uma grande epopeia em que Deus levava soberanamente todas as coisas a um fim onde a sua justi\u00e7a e a sua salva\u00e7\u00e3o se manifestavam. V\u00ea-se isso desde a hist\u00f3ria de Abra\u00e3o, volta-se a ver no livro de Josu\u00e9, e muito depois, nas Cr\u00f3nicas. Mas isso era um ponto de vista da f\u00e9, e na altura os que foram os autores da Hist\u00f3ria tiveram uma experi\u00eancia bastante diferente: o pouco que se tinha feito com grandes esfor\u00e7os continha muitas sombras e a presen\u00e7a de Deus tinha sido normalmente muito discreta, mesmo quando n\u00e3o se duvidava dela.  Em alguns lugares vemos a estranheza e at\u00e9 o esc\u00e2ndalo do crente que compara o que acontece perante os seus olhos com o que as tradi\u00e7\u00f5es contam sobre o passado e n\u00e3o compreende que Deus tenha mudado (Sl 77): Porque \u00e9 que os c\u00e9us est\u00e3o fechados e j\u00e1 n\u00e3o respondem? (Is 63,7-16; Sl 74,9-10)
Que secreto desejo impulsionou os homens de f\u00e9 a tornar o passado mais belo do que foi e Deus mais generoso? Em primeiro lugar, projectou-se sobre a Hist\u00f3ria antiga tudo o que se gostaria de ver no presente, come\u00e7ando pela hist\u00f3ria de Ad\u00e3o e continuando pela de Mois\u00e9s e pela de David; mas depois projectou-se para o futuro o que se lia nos livros de Hist\u00f3ria e come\u00e7ou-se a esperar. Foi o aguilh\u00e3o da esperan\u00e7a que fez amadurecer em Israel a esperan\u00e7a de uma nova era com um Messias enviado por Deus. Em todas as culturas se pensou numa idade de ouro no in\u00edcio dos tempos, mas depressa ficou decidido que apenas haveria uma idade do ferro. Na realidade em todas as latitudes houve homens e mulheres que \u00abesperaram contra toda a esperan\u00e7a\u00bb.  (Rm 4,18), mas evidentemente foi na revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica que a loucura da esperan\u00e7a se instalou mais profundamente.

{N}11,{/}13 {N}AS CODORNIZES{/}
Dissemos no coment\u00e1rio que neste cap\u00edtulo se combinaram duas tradi\u00e7\u00f5es: a do man\u00e1 e a que se refere aos anci\u00e3os, que na realidade s\u00e3o os ju\u00edzes (Ex 18; Dt 1,9). Salta \u00e0 vista que o fio do relato passa das queixas do povo em 1-6 aos vers\u00edculos 18-23 e a sua conclus\u00e3o em 31-35. Essa tradi\u00e7\u00e3o do man\u00e1 deve ter sido muito antiga a julgar pelos vers\u00edculos 7-9 que conservaram o contacto com a realidade (como  Ex 16,14 e 31): o man\u00e1 era uma esp\u00e9cie de resina que se recolhia por baixo ou por cima de alguns arbustos. Quanto \u00e0s codornizes, compare-se com Ex 16,12 e Nm 11,18.
Esta hist\u00f3ria do povo que quer comer carne \u00e9 na B\u00edblia um dos exemplos de que Deus joga com o que pedimos. N\u00e3o basta dizer que Deus ouve as nossas ora\u00e7\u00f5es quando Ele julga que o que Lhe pedimos ser\u00e1 \u00fatil para n\u00f3s, e portanto se n\u00e3o nos ouve \u00e9 porque precisamos de outra coisa. Deus conduz-nos por um caminho no qual devemos aprender a conhecer-nos a n\u00f3s pr\u00f3prios e tamb\u00e9m a conhec\u00ea-Lo a Ele. S\u00f3 Ele sabe o que h\u00e1 nas nossas peti\u00e7\u00f5es e o que existe no fundo do nosso desejo. \u00c9 a\u00ed que Ele quer trabalhar. Haver\u00e1 muitas vezes em que a ora\u00e7\u00e3o feita com f\u00e9 ser\u00e1 acolhida e em que se reconhecer\u00e1 a generosidade de Deus, mas haver\u00e1 outras em que ningu\u00e9m poder\u00e1 dar uma explica\u00e7\u00e3o como aconteceu com essas codornizes que chegam por milagre e que imediatamente provocam a morte: uma vez mais devemos calar-nos perante o mist\u00e9rio, ou a santidade de Deus. 

{N}11,{/}24 {N}OS ANCI\u00c3OS{/}
O \u00caxodo 18 via a origem dos ju\u00edzes ou Anci\u00e3os, numa sugest\u00e3o do sogro madianita de Mois\u00e9s. Aqui, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 Deus quem o ordena. Seja como for, estes anci\u00e3os ser\u00e3o a autoridade com mais profundas ra\u00edzes na tradi\u00e7\u00e3o israelita. No tempo dos reis, o poder central vai reduzir o seu papel e manipul\u00e1-los, como se v\u00ea em 1 Rs 21,8-12. Voltar\u00e3o a ocupar o primeiro lugar durante o Ex\u00edlio na Babil\u00f3nia, como se pode ver em Ezequiel (8,1;14,1;20,1). De volta do Ex\u00edlio a sua autoridade combinar-se-\u00e1 com a dos sacerdotes: o sin\u00e9drio ou supremo conselho do povo judeu na \u00e9poca do Novo Testamento ser\u00e1 composto por sacerdotes, anci\u00e3os e mestres da Lei. De facto, esses anci\u00e3os s\u00e3o os chefes das mais importantes fam\u00edlias. Mas, fora da Palestina, em todas as comunidades espalhadas entre as na\u00e7\u00f5es, os sacerdotes n\u00e3o desempenhar\u00e3o um papel activo, j\u00e1 que o Templo n\u00e3o est\u00e1 ali, e quem ter\u00e1 a autoridade nas sinagogas ser\u00e3o os anci\u00e3os. 
Os anci\u00e3os exprimem a ideia de um povo de Deus feito de comunidades, em que os chefes n\u00e3o se sintam superiores \u00e0 comunidade e os problemas solucionam-se de uma  forma mais humana que administrativa. S\u00e3o o oposto de uma autoridade que pretende impor-se de cima. A B\u00edblia reserva o direito do rei e do sumo sacerdote escolhidos por Deus, mas mant\u00e9m uma atitude cr\u00edtica quando um chefe pretende tornar-se dono do povo de Deus (1Sm 8,11; 2Sm 24; 1Rs 12). No dia que o Apocalipse nos mostra o povo de Deus reunido no c\u00e9u para receber Cristo que se apresenta vitorioso, vinte e quatro anci\u00e3os s\u00e3o seus representantes e est\u00e3o sentados ao redor do trono: j\u00e1 n\u00e3o se fala de reis (Ap 4.4).
N\u00e3o esque\u00e7amos que na Igreja primitiva, a autoridade dos ap\u00f3stolos, verdadeiras testemunhas de Cristo e da f\u00e9, n\u00e3o diminu\u00eda em nada a dos anci\u00e3os. Para os escolher seguia-se o modelo das sinagogas; presidiam \u00e0 comunidade e \u00e0 sua eucaristia, mas o facto da palavra {C}anci\u00e3o{/} ter tido o mesmo sentido que {C}presb\u00edtero {/}n\u00e3o significa necessariamente que tenham sido os equivalentes aos "presb\u00edteros" da actualidade. No N. T. os ap\u00f3stolos s\u00e3o fi\u00e9is ao esp\u00edrito comunit\u00e1rio do passado e ao mesmo tempo conscientes da sua autoridade como testemunhas de Cristo; n\u00e3o \u00e9 por acaso que Pedro e Jo\u00e3o d\u00e3o a si pr\u00f3prios o t\u00edtulo de anci\u00e3os (1P 5,1; Jo 1; 3Jo 1).
A comunica\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito aos anci\u00e3os introduz v\u00e1rios ensinamentos. Por um lado, as autoridades do povo de Deus n\u00e3o podem decidir sen\u00e3o sob a inspira\u00e7\u00e3o  da sabedoria divina; mas tamb\u00e9m o esp\u00edrito que recebem os anci\u00e3os \u00e9 o mesmo que residia em Mois\u00e9s, e isto significa que ningu\u00e9m poder\u00e1 mudar as bases da revela\u00e7\u00e3o. Pode surpreender-nos que o Deuteron\u00f3mio preveja para a vinda do Profeta que todos dever\u00e3o ouvir: gra\u00e7as a este texto fica aberto o futuro, e embora Jesus recorde a inspira\u00e7\u00e3o divina da Lei, nem por isso se julgar\u00e1 obrigado a limitar-Se aos esquemas  de Mois\u00e9s. 

{N}14,{/}11 {N}DEUS PERDOA{/}
A p\u00e1gina seguinte e a ora\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s s\u00e3o muito semelhantes ao que lemos no \u00caxodo 32,9. 13. Encontraremos algo semelhante em Jeremias. Este di\u00e1logo \u00e9 por certo uma maneira de exprimir tanto o que deveria ser a reac\u00e7\u00e3o de Deus justo que castiga a desobedi\u00eancia como qual ser\u00e1 a atitude de Deus que v\u00ea para l\u00e1 do momento presente. Ele nunca Se sentir\u00e1 diminu\u00eddo pelas nossas faltas. Perdoa tudo castigando. Poderia pensar-se que este  \u00abperd\u00e3o de Deus\u00bb mostra apenas a continuidade da sua obra atrav\u00e9s das idades: castiga a gera\u00e7\u00e3o presente, que n\u00e3o entrar\u00e1 na Terra, mas n\u00e3o deter\u00e1 a obra que iniciou ao escolher  um povo. Essa obra deve continuar at\u00e9 ao fim da Hist\u00f3ria. 
No entanto, a palavra perdoar d\u00e1 a entender algo mais. N\u00e3o existe nada em Deus que recorde as pequenezas da nossa psicologia. Pelo contr\u00e1rio Ele \u00e9, no n\u00edvel mais amplo, a capacidade de Se dar na compreens\u00e3o e no amor ou no jogo m\u00fatuo. E por mais profundo que seja o mist\u00e9rio de Deus, \u00e9 demasiadamente importante para n\u00f3s sustentar esta palavra de perd\u00e3o, que s\u00f3 ter\u00e1 sentido onde houver olhar m\u00fatuo e d\u00edvida verdadeira  que o amor reconhece. N\u00e3o pe\u00e7amos ao livro dos N\u00fameros, pois aqui trata-se de tradi\u00e7\u00f5es antigas, o desenvolvimento e as delicadezas que ir\u00e3o aparecendo depois. Mais que da paci\u00eancia de Deus, os profetas falar\u00e3o principalmente da sua fidelidade; e posteriormente vir\u00e1 a consci\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o m\u00fatua entre Deus e a pessoa humana num s\u00f3 esp\u00edrito (1Cor 6,17). Ali tudo \u00e9 perdoado, e Deus \u00e9 mais que paciente j\u00e1 que Se entregou a Si mesmo. 

{N}17,{/}1 {N}O DEUS QUE CASTIGA{/}
De novo neste relato, \u00abDeus castiga\u00bb. Alguns ao lerem isto com demasiada pressa, descobrem aqui apenas este ensinamento, sempre o mesmo: os que se portam mal ser\u00e3o castigados. No caso presente falar-se-\u00e1 daqueles que se revoltam contra os representantes de Deus. Outros ficar\u00e3o com a ideia de um Deus muito aborrecido e rancoroso e queixar-se-\u00e3o tal como os israelitas em 17, 27: Se continuarmos assim todos morreremos. 
N\u00e3o nos deve surpreender que nesses livros Deus actue com autoridade, Se aborre\u00e7a e castigue mesmo em ocasi\u00f5es em que os culpados agiram talvez com ignor\u00e2ncia.  E que Lhe importa a Ele hoje, se essas actua\u00e7\u00f5es nos escandalizam (ver o livro de Job)? Est\u00e1 fora de d\u00favida que Deus se adapta \u00e0 imagem que n\u00f3s fazemos d'Ele. Ao contr\u00e1rio do professor que ensina sem se preocupar demasiado sobre como ser\u00e3o interpretadas as suas palavras, Deus fala a cada um com a linguagem que lhe \u00e9 familiar. Devolve a cada um as suas pr\u00f3prias condena\u00e7\u00f5es e d\u00e1 aos que repreende os sinais que eles poder\u00e3o interpretar. Uma vez que Deus Se queria revelar a um povo ainda primitivo, acostumado a uma justi\u00e7a activa que ignorava as motiva\u00e7\u00f5es dos culpados, n\u00e3o podia sen\u00e3o adoptar os seus modos. 
Mesmo no caso desta hist\u00f3ria ter sido ver\u00eddica, que perderam os culpados? A que felicidade e a quantos anos de vida tinham direito perante Deus? Podemos falar de autoridade quando nos referimos \u00c0quele que desde as origens viu todas as nossas vidas? N'Ele j\u00e1 n\u00e3o contam o n\u00famero dos nossos dias na terra nem os anos em que pudemos  gozar de uma alegria, nem os sofrimentos, talvez horr\u00edveis que nos levaram \u00e0 nossa maturidade eterna.

{N}14,{/}20 O que se segue alude realmente a antigas tradi\u00e7\u00f5es sobre a penetra\u00e7\u00e3o na Palestina de algumas tribos do sul. Vejam-se os coment\u00e1rios de Ex 17,8 e a nota sobre Gn 43,9.

{N}18,{/}1 Este cap\u00edtulo reafirma mais fortemente do que qualquer outro a superioridade dos sacerdotes sobre os simples levitas. Sabe-se que at\u00e9 \u00e0 reforma do rei Josias, n\u00e3o se fazia distin\u00e7\u00e3o entre estes dois termos. A chegada a Jerusal\u00e9m de todos os que atendiam aos santu\u00e1rios das prov\u00edncias, agora eliminados, deu ocasi\u00e3o a que lhes fosse atribu\u00edda uma categoria inferior \u00e0 dos sacerdotes do Templo de Jerusal\u00e9m. Ent\u00e3o quiseram justificar essa situa\u00e7\u00e3o nova com textos inseridos nos pr\u00f3prios livros de Mois\u00e9s, os quais distinguiam entre {C}levitas {/}e{C} filhos de Aar\u00e3o.{/} J\u00e1 se manifestam preocupa\u00e7\u00f5es e normas que defendem as castas privilegiadas e que h\u00e3o-de fomentar o clericalismo at\u00e9 na Igreja.

{N}21,{/}33 Encontramos em muitos lugares da B\u00edblia nomes associados a Seon, rei de Hesebon, e a Og, rei de Bas\u00e3. De facto, Og \u00e9 uma personagem lend\u00e1ria e a sua men\u00e7\u00e3o \u00e9 referida para fundamentar as reivindica\u00e7\u00f5es de Israel sobre o territ\u00f3rio de Bas\u00e3, no outro lado do Jord\u00e3o, um territ\u00f3rio que, de facto, nunca ocuparam.

{N}22,{/}9 {N}BALA\u00c3O{/}
Veja-se a nota de Gn 32,27. Os povos do outro lado do Jord\u00e3o lembravam-se de um certo Bala\u00e3o, que tinha passado \u00e0 Hist\u00f3ria como um aut\u00eantico e poderoso profeta de Deus de Penuel. Nota-se aqui que o autor sagrado est\u00e1 dividido entre as representa\u00e7\u00f5es de Bala\u00e3o: por um lado, n\u00e3o podia negar a tradi\u00e7\u00e3o que fazia dele um homem de Deus; mas, por outro lado, se Bala\u00e3o que tinha ficado conhecido pelo vigor das suas censuras, vinha para amaldi\u00e7oar Israel, era ent\u00e3o um agente do mal. \u00c9 assim que por momentos nos mostra um Bala\u00e3o falando familiarmente com Jav\u00e9, e imediatamente a seguir Jav\u00e9 aborrece-Se porque Bala\u00e3o responde ao chamamento de Balac. A narrativa \u00e9 dominada pela simpatia para com Bala\u00e3o. O temido profeta desta vez proclamar\u00e1 que Israel \u00e9 um povo de justos (23,10 e 21) e que o futuro lhe pertence. Em contrapartida na tradi\u00e7\u00e3o posterior, Bala\u00e3o ser\u00e1 considerado como um profeta perverso que se deixa comprar (Nm 31.16; 2Pd 2,5; Jt 1,11; Ap 2,14).
Mais uma vez vemos aqui tradi\u00e7\u00f5es opostas na B\u00edblia. Poder-se-\u00e1 ver nesta hist\u00f3ria a incoer\u00eancia de uma narrativa que se fundamentou em diversas fontes; pode-se ainda l\u00ea-la como uma Palavra de Deus que nos chama para ultrapassar os esquemas partidaristas.  Normalmente o ponto de vista de Deus n\u00e3o \u00e9 coincidente com as classifica\u00e7\u00f5es sect\u00e1rias ou apaixonadas da verdadeira religi\u00e3o.

{N}24,{/}1 H\u00e1 cerca de trinta anos descobriram-se perto de Penuel os restos de um santu\u00e1rio em cujas paredes estavam pintadas as estrofes de um poema atribu\u00eddo a um profeta que deve ter proferido ali os seus or\u00e1culos. Tratava-se de Bala\u00e3o. Estes restos datam do s\u00e9culo oitavo{N} {/}antes da nossa era, no tempo de Jerobo\u00e3o II, rei de Israel. Os poemas que n\u00f3s lemos em 23,7; 23,18; 24,3... retomam as mesmas f\u00f3rmulas e devem ter-se inspirado nos frescos deste santu\u00e1rio. S\u00f3 fazem men\u00e7\u00e3o de Israel e de Jacob, dois nomes que eram de facto os do reino de Jerobo\u00e3o II. A que vit\u00f3ria se referiam em 24,17? \u00c9 muito prov\u00e1vel que o texto tenha sido retocado um pouco mais tarde, ap\u00f3s a queda do reino do Norte, para aplic\u00e1-lo melhor aos reis de Jud\u00e1 descendentes de David, que ainda se mantinham no trono.

{N}35,{/}22 {N}O SUMO SACERDOTE{/}
Veja-se o que prescrevem os vers\u00edculos 25 e 28: at\u00e9 \u00e0 morte do Sumo Sacerdote.
O sumo Sacerdote n\u00e3o \u00e9 apenas o encarregado de cumprir ritos. A partir do momento em que foi consagrado por uma un\u00e7\u00e3o muito solene (Ex 29; Lv 8) passa a ser e ser\u00e1 at\u00e9 \u00e0 sua morte uma defesa contra os castigos divinos.  Como vimos nos epis\u00f3dios dedicados a Aar\u00e3o, \u00e9 ele quem protege o povo da ira de Deus (Nm 17,12). Possui o privil\u00e9gio terr\u00edvel de todos os anos entrar no santu\u00e1rio mais reservado do Templo, o Santo dos Santos, para a Festa do Perd\u00e3o (Hb 9,7). Ali derrama sobre a cobertura da Arca, o Instrumento de Expia\u00e7\u00e3o, o sangue da vitela sacrificada (Nm 19). A veste sagrada que usa \u00e9 uma parte essencial do rito, da\u00ed a import\u00e2ncia que as regras da sua confec\u00e7\u00e3o ocupam no \u00caxodo (Ex 26 e 39). Na \u00e9poca de Jesus, sob a ocupa\u00e7\u00e3o romana, o governador guardava essas vestes e s\u00f3 as entregava na altura da Festa, e imediatamente a seguir voltava a ficar com elas. Era esse o meio de que dispunha para ter o Sumo Sacerdote debaixo da sua al\u00e7ada. 
A morte do Sumo Sacerdote era ocasi\u00e3o de uma amnistia semelhante \u00e0 que acompanhava o ano Jubileu. Na \u00e9poca de Jesus, as mulheres da fam\u00edlia do Sumo Sacerdote preocupavam-se principalmente com os presos e davam-lhes esmolas para que n\u00e3o tivessem a ideia de pedir a Deus que o Sumo Sacerdote morresse apressando assim, a sua sa\u00edda da pris\u00e3o.  O preceito que se l\u00ea no Ex 22,27 refere-se principalmente ao Sumo Sacerdote. Compreender-se-\u00e1 ent\u00e3o que esse {N}ungido {/}ou{N} Messias{/} do Senhor seja uma personagem sagrada (em linguagem b\u00edblica, uma pessoa santa) apesar dos seus aspectos  negativos. Veja-se a prop\u00f3sito disto a apresenta\u00e7\u00e3o de Cristo como Sumo Sacerdote dos novos tempos em Hb cap 5-10.

