{N}1,{/}1 Temos aqui uma das p\u00e1ginas da B\u00edblia - que al\u00e9m disso n\u00e3o s\u00e3o muitas - que nos faz entrar na vida de uma fam\u00edlia comum. \u00c9 a vida e o caminho normal da imensa maioria das pessoas, para quem tudo o que dissermos de religi\u00e3o e de espiritualidade, todas as nossas discuss\u00f5es teol\u00f3gicas e as nossas querelas de Igrejas s\u00e3o apenas esquisitices reservadas a especialistas. N\u00e3o s\u00e3o menos amados, e Deus sabe fazer-lhes entender o que espera deles. 
O problema de ter duas mulheres complicou, sem d\u00favida, os anos mais formosos da vida de Elcana, embora ele tenha feito o imposs\u00edvel para salvaguardar a paz familiar. Ana compreende que n\u00e3o ter\u00e1 um filho enquanto n\u00e3o aceitar que tem de o dar. O filho que lhe foi concedido \u00e9 talvez a \u00fanica resposta que recebeu de Deus em toda a sua vida, e por essa \u00fanica prova sentir-se-\u00e1 orgulhosa de Deus (2,2-9) E como tantas vezes n\u00e3o temos vergonha de mendigar sinais!
Que tinham recebido da revela\u00e7\u00e3o de Deus? A f\u00e9 no \u00danico? A certeza de que Ele \u00e9 justo e tem sempre a \u00faltima palavra? Sem d\u00favida era assim que a Alian\u00e7a do Sinai  ressoava no povo Israelita menos instru\u00eddo. Mas os sacerdotes n\u00e3o tinham, uma vez mais, um bom desempenho. S\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, o esc\u00e2ndalo que \u00e9 preciso superar para se afirmar na f\u00e9. S\u00e3o esses os caminhos de Deus e por eles os humildes alcan\u00e7ar\u00e3o a Gl\u00f3ria, tenham ou n\u00e3o gerado algum Samuel.

{N}10,{/}11 Aqui est\u00e1 um par\u00e1grafo curioso e relacionado com 20,19-24, onde encontramos o mesmo prov\u00e9rbio. Nos Pa\u00edses da Mesopot\u00e2mia os santu\u00e1rios eram com frequ\u00eancia lugares de ref\u00fagio (como os povos mencionados em Dt 19 e Js 20). Um bom n\u00famero de marginalizados encontravam neles o seu ref\u00fagio: fugitivos, d\u00e9beis mentais... Ia-se ali para consultar profetas e adivinhos. O santu\u00e1rio era, pois, o centro de uma actividade complexa com adivinhos, int\u00e9rpretes de sonhos, profetas que n\u00e3o pronunciavam os seus or\u00e1culos sen\u00e3o depois de haverem bebido vinho ou drogas, histri\u00f5es inspirados, escribas que punham em verso as revela\u00e7\u00f5es... para n\u00e3o falar de profiss\u00f5es mais duvidosas (2Rs 23,7), num ambiente muito especial.
Estes dados lan\u00e7am luz sobre as origens e as artimanhas dos \u00abfilhos dos profetas\u00bb que a B\u00edblia menciona, o que n\u00e3o quer dizer que sucedeu o mesmo em toda a parte. Neste campo Israel estava numa situa\u00e7\u00e3o muito mais s\u00e3 do que um povo como o ass\u00edrio e era muito mais reticente a seu respeito. O Livro sagrado d\u00e1 sobre eles ju\u00edzos diversos, positivos a princ\u00edpio e geralmente negativos depois do tempo de Eliseu, que se havia apoiado neles. Compreende-se ent\u00e3o o prov\u00e9rbio: Tamb\u00e9m Saul entre os profetas? Quem \u00e9 o pai dele?

{N}29,{/}1 Este come\u00e7o do cap\u00edtulo deixa-nos um pouco desconcertados e n\u00e3o deixa de semear d\u00favidas sobre a consci\u00eancia que David podia ter da sua identidade israelita. O livro que se segue (na realidade ser\u00e1 apenas a segunda metade do Livro de Samuel) mostr\u00e1-lo-\u00e1 preocupado em realizar em proveito pr\u00f3prio a unidade de Israel. Mas as p\u00e1ginas que se acabaram de ler ser\u00e3o objectivas quando o apresentam como a esperan\u00e7a dos israelitas e como a nobre v\u00edtima de um Saul invejoso e man\u00edaco? \u00c9 talvez este o momento de recordar que n\u00e3o se sabe nada de uma tribo de Jud\u00e1 anterior a David; Jud\u00e1 era sem d\u00favida nessa altura apenas o nome de uma regi\u00e3o dos montes de Jud\u00e1, ocupada por v\u00e1rios cl\u00e3s, dos quais o mais importante era o dos Quenitas. E o n\u00facleo duro das tribos, os herdeiros de Mois\u00e9s, eram Efraim, Manass\u00e9s e Benjamim, a tribo de Saul.
Poder-se-ia dar a toda esta hist\u00f3ria uma interpreta\u00e7\u00e3o muito diferente. Face a Saul que, talvez desonestamente, procura realizar a unidade das tribos, David joga a sua pr\u00f3pria cartada como defensor da gente do Sul.  Com as suas guerrilhas realiza a unidade da tribo de Jud\u00e1, ao mesmo tempo paralisa os esfor\u00e7os de Saul para unificar Israel. Quem vir\u00e1 a ter \u00eaxito ser\u00e1 David, e Jud\u00e1, o novo advent\u00edcio, deslocar\u00e1 os que at\u00e9 ent\u00e3o preservavam o ideal de Israel em forma\u00e7\u00e3o. David receber\u00e1 para a sua dinastia as promessas de Deus, mas ir\u00e1 contribuir para enraizar fortemente os rancores m\u00fatuos do norte e do sul, preparando assim o cisma, sessenta anos depois.
Isto convida-nos a reflectir sobre a ac\u00e7\u00e3o de Deus e sobre a ac\u00e7\u00e3o dos homens na Hist\u00f3ria do povo de Deus, e tamb\u00e9m sobre a parte que toca aos escritores inspirados no fabrico da Hist\u00f3ria sagrada. Existe toda a liberdade para dar outras interpreta\u00e7\u00f5es, e talvez estejam mais certas, mas ser\u00e3o apenas interpreta\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o mudar\u00e3o a Hist\u00f3ria.
Porque a B\u00edblia j\u00e1 lhe deu o sentido e todos os escritores sagrados prolongaram essa primeira vis\u00e3o dos livros de Samuel. No primeiro livro, David passa a ser o vencedor de Golias; no fim do segundo ser\u00e1 o autor dos Salmos. O livro das Cr\u00f3nicas far\u00e1 dele o verdadeiro criador do Templo e de todo o culto de Israel. Pode-se pensar que David pouco se assemelhou a essa personagem lend\u00e1ria, mas ningu\u00e9m poderia negar que a sua hist\u00f3ria, tal como nos foi transmitida, foi portadora de uma for\u00e7a espiritual e humana enormes. Determinou em grande parte o destino dos judeus, e sem ela Jesus perderia as suas ra\u00edzes humanas. Temos que reconhecer aqui que o livro inspirado escapa aos homens e que Deus Se serve dele para dirigir soberanamente os destinos do povo.

