{N}1,{/}1 C}Jesus Cristo. {/}Esta express\u00e3o, no Evangelho de Mateus, aparece apenas neste vers\u00edculo em 16,21. Esta genealogia de Jesus insere-O na Hist\u00f3ria sagrada com os seus tr\u00eas grandes per\u00edodos: antes dos reis, no tempo dos reis, e ap\u00f3s o regresso do Ex\u00edlio. \u00c9 prov\u00e1vel que as s\u00e9ries de catorze nomes tenham a ver com David, pois o n\u00famero correspondente ao seu nome, tomado do valor das letras, segundo o uso hebraico, \u00e9 14.
Lucas, pelo contr\u00e1rio, apresentar\u00e1 uma lista de 77 nomes que, remontando a Ad\u00e3o, p\u00f5e em destaque a universalidade da miss\u00e3o de Jesus: veio para salvar n\u00e3o s\u00f3 Israel, mas toda a humanidade.

{N}1,{/}18 {C}Ao qual dar\u00e1s o nome de Jesus... Ele ser\u00e1 chamado... {/}Note-se como Mateus adapta a profecia de Is 7,14. Ao contr\u00e1rio do relato de Lucas, \u00e9 Jos\u00e9 que d\u00e1 o nome a Jesus, o que se adapta bem a Jos\u00e9, visto ser por ele que Jesus Se torna descendente de David.
{C}N\u00e3o se diz nada acerca da idade de Jos\u00e9 e Maria. {/}Os juristas judeus distinguiam a condi\u00e7\u00e3o social da noiva consoante esta se casava antes dos doze anos, entre os doze anos e os doze anos e meio, ou depois desta idade. Embora se registassem numerosos casos de casamentos em idade muito precoce, isso ocorria sobretudo na sociedade urbana, n\u00e3o sendo certo que este tivesse sido o uso comum nas fam\u00edlias simples das aldeias pequenas.

{N}2,{/}1 {C}N\u00f3s vimos a sua estrela no Oriente. {/}Isto pode traduzir-se por: \u00abvimos a sua estrela levantar-se\u00bb. Segundo a profecia de Bala\u00e3o (Nm 24,17), a estrela estava vinculada ao rei David e a Bel\u00e9m.

{N}2,{/}10 Que alegria imensa! Apenas na B\u00edblia se fala tanto de alegria e se promete a alegria como consequ\u00eancia de uma visita de Deus: Mc 5,12; 13,20; 13,44; 25,21; 28,8; Lc 1,28; 1,19; 2,10; 10,20; 13,17; 15,32; 19,6; 24,52.

{N}2,{/}13 {C}Foge para o Egipto.{/} O Egipto era o ref\u00fagio tradicional dos perseguidos. Os judeus tinham a\u00ed comunidades muito numerosas e, inclusivamente, em Leont\u00f3polis, um templo rival do de Jerusal\u00e9m. Talvez Mateus pense em Is 16,21, que anuncia o envio de um salvador aos eg\u00edpcios.

{N}2,{/}18 {C}Ouviu-se um grito em Ram\u00e1. {/}Ver Jr 31,15. O profeta referia-se aos israelitas do seu tempo, desterrados para a Ass\u00edria, que pertenciam \u00e0s \u00abtribos de Raquel\u00bb, esposa de Jacob: Raquel, no seu t\u00famulo, afligia-se por eles. Contudo, uma tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica relacionava Raquel com o cl\u00e3 de \u00c9frata, que veio a estabelecer-se em Bel\u00e9m, e do qual nasceu David (Gn 35, 19). Assim, Raquel pode aparecer neste lugar como a m\u00e3e das crian\u00e7as de Bel\u00e9m.

{N}3,{/}7 {C}Fariseus e saduceus.{/} Quando Mateus escreveu o seu evangelho, os crist\u00e3os associavam sistematicamente estes dois grupos, que se hostilizavam mutuamente, embora se tivessem oposto a Jesus com a mesma energia. Do mesmo modo associar\u00e1 estes dois nomes em 16,1 e 16,6. De facto, os saduceus, materialistas, n\u00e3o se comoveram com a prega\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o: ainda mais, enviaram alguns pol\u00edcias, a fim de se informarem e verem se Jo\u00e3o amea\u00e7ava a sua autoridade de forma mais directa do que os numerosos crentes judeus - sobretudo os ess\u00e9nios do deserto - que os tratavam como usurpadores do sacerd\u00f3cio.
Reza o texto: \u00ab...quem vos ensinou a fugir da ira que vai chegar?\u00bb {C}A ira {/}significa a indigna\u00e7\u00e3o de Deus contra o mal (Is 30,27) e a senten\u00e7a que Ele j\u00e1 pronunciou: est\u00e1 como que suspensa sobre o pecador (Jo 3,36; Rm 1,18; 1Ts 1,10) e \u00e9 sin\u00f3nimo de castigo.

{N}3,{/}17 {C}Que muito Me agrada. {/}Aqui a voz retoma as palavras de Isa\u00edas 42,1. No texto hebraico significavam: \u00abagradou-Me eleg\u00ea-Lo\u00bb. Ao passar para o grego, o sentido muda um pouco, e os evangelhos aplicam-no a Jesus num sentido diferente: Aquele que Me agrada. Nisto reconhecemos a voca\u00e7\u00e3o universal de Cristo. Apesar de Jesus ter ocupado apenas um ponto \u00ednfimo no espa\u00e7o e na Hist\u00f3ria, esteve no centro da cria\u00e7\u00e3o: n'Ele o Pai encontrou toda a satisfa\u00e7\u00e3o que esperava das suas obras.
Esta observa\u00e7\u00e3o vale igualmente para Mt 17,5, que retoma as mesmas palavras.

{N}5,{/}22 {C}Quem chama ao seu irm\u00e3o \u00abrenegado da f\u00e9\u00bb. {/}A tradu\u00e7\u00e3o utiliza a palavra \u00abimbecil\u00bb, ou seja, insensato, que, em hebraico, qualificava com frequ\u00eancia o renegado da f\u00e9, aquele que \u00e9 directamente mandado para o inferno.

{N}5,{/}48 {C}Sede perfeitos. {/}A preocupa\u00e7\u00e3o pela perfei\u00e7\u00e3o legal e moral n\u00e3o faltava entre os judeus (Sl 19,14). Jesus identifica a perfei\u00e7\u00e3o moral com a imita\u00e7\u00e3o do Pai perfeito: tornar-vos-eis filhos. Mateus interpreta a perfei\u00e7\u00e3o de Deus como a sua capacidade de amar todos os homens acima das nossas leis, fronteiras e divis\u00f5es.
Esta preocupa\u00e7\u00e3o pela perfei\u00e7\u00e3o motiva todos os pontos da nova moral (5,21-47). Jesus n\u00e3o nos pede que multipliquemos boas obras, como, por exemplo, actos de perd\u00e3o, de generosidade, etc., que nos mereceriam um pr\u00e9mio da parte de Deus. Cada um dos seus preceitos nos leva a uma transforma\u00e7\u00e3o pessoal, a uma supera\u00e7\u00e3o da mesquinhez, do temor, dos preconceitos que paralisam. O disc\u00edpulo que os cumpre alcan\u00e7ar\u00e1 uma vis\u00e3o do mundo e dos homens que o tornar\u00e1 cada vez mais capaz de entrar na ci\u00eancia e na sabedoria do Pai.

{N}6,{/}1 O texto diz: \u00abN\u00e3o pratiqueis a vossa justi\u00e7a diante dos homens\u00bb. Aqui temos um dos sentidos - t\u00e3o numerosos qu\u00e3o diversos - da palavra {C}justi\u00e7a {/}na B\u00edblia. Em termos gerais, a justi\u00e7a \u00e9 a conformidade dos nossos actos com a vontade de Deus; de igual modo, \u00e9 uma lei interior que devemos respeitar, consistindo no equil\u00edbrio que rege a nossa vida. O evangelho destaca a responsabilidade pessoal (como j\u00e1 faziam os fariseus), mas n\u00e3o insiste menos - e nisto reside a novidade - no facto de a nossa salva\u00e7\u00e3o ser, antes de mais, um dom do Pai, que nos ama.
Note-se que todo este discurso est\u00e1 centrado na experi\u00eancia da presen\u00e7a do Pai. Ao mesmo tempo que a express\u00e3o \u00abReino de Deus\u00ab vai sendo repetida, a afirma\u00e7\u00e3o principal \u00e9 a de tempos novos que nos deram um Pai.

{N}6,{/}7 {C}Litanias intermin\u00e1veis {/}({C}muitas palavras{/} - na tradu\u00e7\u00e3o) Jesus n\u00e3o despreza a ora\u00e7\u00e3o que se prolonga repetindo f\u00f3rmulas ou apelos ao Pai (Mc 14,39). Enquanto o Senhor n\u00e3o nos conceder entrar em contempla\u00e7\u00e3o, precisaremos de palavras para nos mantermos na sua presen\u00e7a. Neste vers\u00edculo, Jesus condena as pr\u00e1ticas religiosas que incluem a desconfian\u00e7a, o medo de n\u00e3o ser escutado, a busca inquieta de f\u00f3rmulas e devo\u00e7\u00f5es capazes de for\u00e7ar a m\u00e3o de Deus.
A verdadeira ora\u00e7\u00e3o sup\u00f5e um esp\u00edrito novo: cada onda de ansiedade e de peti\u00e7\u00e3o angustiada deve ser conclu\u00edda com a seguran\u00e7a de que o Pai dispor\u00e1 tudo para nosso bem. O Pai sabe do que precisamos, e atende-nos quando n\u00f3s tamb\u00e9m acabamos por descobri-lo.

{N}6,{/}9 \u00abPai-nosso, que estais nos c\u00e9us\u00bb. Combina\u00e7\u00e3o original de duas express\u00f5es tradicionais. Nosso Pai, ou seja, o de Israel (Is 63, 16); o C\u00e9u, ou seja, Deus, no seu mist\u00e9rio. A f\u00f3rmula Pai-nosso adquire um sentido novo com base nos ensinamentos de Jesus: os seus disc\u00edpulos sabem que s\u00e3o filhos de Deus de forma pessoal.

{N}6,{/}11 O p\u00e3o nosso ({C}necess\u00e1rio{/}) de cada dia nos dai hoje. Ser\u00e1 sempre poss\u00edvel discutir o sentido deste adjectivo, que n\u00e3o se encontra em nenhum autor grego, e que no evangelho s\u00f3 se encontra neste lugar. Conforme o relacionamos com esta ou aquela palavra da mesma fam\u00edlia, assim poderemos compreend\u00ea-lo como o p\u00e3o {C}suficiente{/}, em contraste com a abund\u00e2ncia que n\u00e3o pedimos, o p\u00e3o {C}necess\u00e1rio{/}, ou o p\u00e3o {C}do dia que est\u00e1 para vir. {/}Tamb\u00e9m se pode traduzir, em Lucas: d\u00e1-nos {C}hoje{/} o p\u00e3o de cada dia. A tradu\u00e7\u00e3o p\u00e3o {C}sobrenatural {/}\u00e9 menos prov\u00e1vel, apesar de que grande parte da tradi\u00e7\u00e3o a tenha adoptado.
Por detr\u00e1s desta peti\u00e7\u00e3o est\u00e1 o reconhecimento de um facto: n\u00e3o existimos por n\u00f3s mesmos, e \u00e9 ao Pai que devemos diariamente a nossa subsist\u00eancia.

{N}6,{/}13 {C}N\u00e3o nos deixeis cair em tenta\u00e7\u00e3o {/}(ou: {C}na prova{/}). N\u00e3o \u00e9 Deus que nos tenta e nos induz ao mal, mas o Maligno e n\u00f3s pr\u00f3prios (Tg 1,13). Mas tamb\u00e9m \u00e9 Deus que disp\u00f5e os acontecimentos da vida, os quais por vezes bastam para provar fortemente a nossa fidelidade. Os humildes est\u00e3o conscientes da sua debilidade e sabem que Deus disp\u00f5e os acontecimentos para bem dos seus filhos (Rm 8,28); d\u00e1-lhes, na prova, a for\u00e7a que permite vencer (1Cor 10,13) e n\u00e3o dar\u00e1 liberdade ao Maligno para deitar abaixo aqueles que O invocam (2Ts 3,3).
Talvez se pudesse traduzir: {C}N\u00e3o permitas que {/}entremos, ou caiamos na tenta\u00e7\u00e3o. Nesse caso, o texto significaria que Deus nos guarda de aceitar as sugest\u00f5es m\u00e1s e de consentir no mal.

{N}6,{/}32 {C}Os que n\u00e3o conhecem Deus. {/}Na realidade, o texto diz: {C}os pag\u00e3os{/}, como em 5,47 e 6,7. Jesus aproveita o rancor muito profundo contra os estrangeiros que a ocupa\u00e7\u00e3o romana provocara para mostrar em que consiste a identidade pr\u00f3pria do povo de Deus. Esta rectifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o era mais necess\u00e1ria na sua \u00e9poca do que nos dias de hoje, pois, embora o povo crist\u00e3o tenha conhecido persegui\u00e7\u00f5es em todos os s\u00e9culos da sua Hist\u00f3ria, com demasiada frequ\u00eancia a viol\u00eancia sofrida levou-o a responder com rancor, quando n\u00e3o com igual viol\u00eancia.

{N}7,{/}12 Este pequeno resumo da Lei e dos Profetas (ou seja, da B\u00edblia), \u00e9 muito significativa do esp\u00edrito de Jesus:
 - ultrapassa toda a lei escrita (Rm 13,8) e n\u00e3o imp\u00f5e obriga\u00e7\u00f5es;
 - convida \u00e0 ac\u00e7\u00e3o e \u00e0 criatividade, e n\u00e3o ao conservadorismo pr\u00f3prio de toda a lei negativa;
 - fomenta o esp\u00edrito comunit\u00e1rio;
 - ao apresentar o amor ao pr\u00f3ximo a partir deste \u00e2ngulo, leva-nos a aprofundar a nossa pr\u00f3pria indig\u00eancia e, por fim, a descobrir a nossa rela\u00e7\u00e3o com o Pai. Este conhecimento de Deus \u00e9 a \u00fanica coisa que interessa; pelo contr\u00e1rio, nunca se alcan\u00e7ar\u00e1 a perfei\u00e7\u00e3o a partir deste falso conceito que s\u00e3o os direitos de Deus.

{N}7,{/}13 {C}A porta e o caminho. {/}A vida crist\u00e3 sup\u00f5e decis\u00f5es corajosas em alguns momentos de crise ou de convers\u00e3o (a porta), e depois a perseveran\u00e7a num estilo de vida mais exigente (o caminho).

{N}8,{/}11 Mateus coloca aqui uma frase que n\u00e3o \u00e9 inclu\u00edda no texto paralelo de Lucas. Fala de uma entrada dos pag\u00e3os no banquete dos ressuscitados, numa \u00e9poca em que a exist\u00eancia de ressurrei\u00e7\u00e3o para os pag\u00e3os era negada. Al\u00e9m disso, condena os filhos de Abra\u00e3o, embora se dissesse que, devido aos m\u00e9ritos do seu pai, nenhum deles se perderia.

{N}8,{/}23 Comparar com o relato de Marcos, que recorda o facto tal como Pedro conseguiu cont\u00e1-lo, com pormenores t\u00edpicos, sem suavizar as palavras de Jesus nem as dos ap\u00f3stolos, frente ao perigo.
Mateus torna mais solene a atitude de Jesus, colocando na boca dos ap\u00f3stolos a s\u00faplica crist\u00e3 t\u00edpica. {C}Homens de pouca f\u00e9{/}: como em 14,31; 16,8; 17,20; palavras que se dirigem aos futuros crentes, que s\u00e3o assaltados pelo medo, de cada vez que se deixam vencer pela incredulidade. Aqueles {C}homens{/}: em Mateus, este termo usa-se habitualmente para designar os que n\u00e3o conhecem Deus ou que olham para Jesus a partir de fora: 5,13; 6,1; 16,13. Contudo, eram homens destes que Jesus chamava para serem ap\u00f3stolos.

{N}8,{/}28 Mateus fala dos {C}gadarenos{/}, ao contr\u00e1rio de Marcos e Lucas, que falam dos {C}gerasenos. {/}De Gadara n\u00e3o se sabe nada. Gerasa, pelo contr\u00e1rio, cidade de cultura grega, estava situada a sudeste do lago, na Dec\u00e1pole, bastante longe dali. O facto de ser um territ\u00f3rio povoado sobretudo por pag\u00e3os explica a cria\u00e7\u00e3o de porcos.

{N}9,{/}12 {C}Eu quero a miseric\u00f3rdia e n\u00e3o o sacrif\u00edcio. {/}No texto paralelo de Oseias (6,6), a miseric\u00f3rdia \u00e9, sobretudo, o amor sincero a Deus. Mas aqui a miseric\u00f3rdia \u00e9 compreens\u00e3o e amor pelo pr\u00f3ximo, tal como em 12,7.
Para os contempor\u00e2neos de Jesus, o Messias \u00e9 {C}Aquele que h\u00e1-de vir {/}(Mt 11,3; 21,9; 24,5) e com isto entendemos a resposta de Jesus que diz com frequ\u00eancia: {C}vim {/}(Mt 5,17; 11,18). Vim da parte de Deus: sa\u00ed de Deus (Mc 1,38).

{N}9,{/}18 Comparando com a vers\u00e3o que Marcos e Lucas d\u00e3o dos factos que se seguem, notar-se-\u00e1 que Mateus, uma vez mais, n\u00e3o se interessou pelos pormenores concretos. Tamb\u00e9m n\u00e3o se interessou pelo drama pessoal da mulher que tocou no manto de Jesus. E n\u00e3o gostou que ela tivesse sido curada antes de Jesus lhe ter dirigido alguma palavra libertadora. Ora, com Mateus, Jesus \u00e9 sempre Aquele que interroga, que toma a iniciativa. Al\u00e9m disso, na ressurrei\u00e7\u00e3o da menina, apenas quis real\u00e7ar o poder soberano de Jesus.

{N}9,{/}33 Esta expuls\u00e3o de um dem\u00f3nio parece ser uma duplica\u00e7\u00e3o do facto narrado em 12,22.

{N}9,{/}37 {C}A seara \u00e9 grande. {/}Para toda a corrente apocal\u00edptica, muito poderosa no ambiente em que Jesus viveu, a seara designa o Ju\u00edzo de Deus sobre o mundo. Assim o entende Jo\u00e3o Baptista (3,17), e \u00e9 esse o seu sentido nas par\u00e1bolas do Reino: Mt 13,30; 13,39; Mc 4,29. O Evangelho mostra-nos que, com Jesus, chegou a hora da colheita: n\u00e3o se trata de uma revolu\u00e7\u00e3o da ordem mundial, mas de um discernimento sobre o bem e o mal, uma separa\u00e7\u00e3o entre bons e maus: Jo 3,19;9,39. Ao proclamar a Boa Nova, os ap\u00f3stolos s\u00e3o os instrumentos, bem humildes, ao que parece, mas mais eficazes do que muitos cr\u00eaem, no que se refere a este ju\u00edzo de Deus.

{N}10,{/}5 {C}N\u00e3o entreis nos cidades dos samaritanos. {/}Estas palavras parecem estranhas, pois a miss\u00e3o deve desenrolar-se na Galileia. O evangelista confundiu duas palavras quase id\u00eanticas do seu original aramaico: povoados e {C}prov\u00edncia. {/}Jesus diz simplesmente aos seus ap\u00f3stolos que s\u00f3 devem evangelizar na prov\u00edncia da Galileia. De facto, Jesus foi enviado para reunir as {C}ovelhas perdidas {/}de Israel, e a miss\u00e3o em terras estrangeiras, quer sejam samaritanas, quer pag\u00e3s, ser\u00e1 depois da sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o.

{N}10,{/}9 {C}N\u00e3o leveis moedas de ouro, de prata ou de cobre. {/}Os pr\u00f3prios doutores da Lei tinham a obriga\u00e7\u00e3o de n\u00e3o cobrar nada pelos seus servi\u00e7os, vivendo do que lhes davam. Nas aldeias pobres, era frequente viverem muitos pobres. A enorme pobreza de Jesus e dos seus (Mt 8,20) n\u00e3o parecia facto extraordin\u00e1rio. Mas Jesus insiste sobre o facto de n\u00e3o levar provis\u00f5es, como uma forma de pregar dando exemplo de confian\u00e7a no Pai: porque o seu Reino est\u00e1 pr\u00f3ximo, e Ele cuida dos seus mensageiros.
Contudo, ao transmitir estas palavras a outros ambientes mais acomodados, como o de Roma, os evangelistas adaptaram-nas. Por isso, a tradi\u00e7\u00e3o comum a Mc 6 e a Lc 9 permite {C}as sand\u00e1lias,{/} ao passo que a comum a Mateus e Lc 10 as pro\u00edbe. Mateus pro\u00edbe {C}o bast\u00e3o{/}, mas \u00e9 poss\u00edvel que pense no bast\u00e3o que se leva ao ombro e do qual pende a mochila. {C}Quem trabalha tem o direito de comer{/}, segundo a tradi\u00e7\u00e3o dos mestres judeus.

{N}10,{/}17 {C}Tende cuidado com os homens. {/}Este ponto ser\u00e1 desenvolvido em Jo 15,18.
{C}A\u00e7oitar-vos-\u00e3o nas sinagogas. {/}No mundo romano, as v\u00e1rias colectividades \u00e9tnicas tinham determinada organiza\u00e7\u00e3o interna. Os judeus tinham a\u00ed as suas sinagogas e podiam castigar certos delitos segundo as suas pr\u00f3prias leis (Ac 9,2).

{N}10,{/}24 {C}O disc\u00edpulo n\u00e3o est\u00e1 acima do mestre. {/}A mesma frase tem outro significado em Lc 6,40.

{N}10,{/}28 {C}Os que n\u00e3o podem matar a alma. {/}Mateus d\u00e1 \u00e0 alma um sentido diferente do que ela tinha na cultura hebraica, em que se identificava com a vida. Aqui a alma designa, tal como para n\u00f3s, habitualmente, o que h\u00e1 de mais pessoal no homem, aquilo que n\u00e3o morre com a morte.

{N}10,{/}35 Jesus cita uma palavra de Miqueias que anunciava uma grave crise social. Aqui Jesus \u00e9 Aquele que se torna sinal de contradi\u00e7\u00e3o e divide as fam\u00edlias.

{N}11,{/}5 Vale a pena notar que os tr\u00eas textos de Isa\u00edas, cujas palavras Jesus retoma neste vers\u00edculo (Is 29,18; 35,5; 61,1), falam de uma vingan\u00e7a de Deus contra os povos estrangeiros, mas Jesus n\u00e3o a menciona. Tal como em Lc 4,18, Jesus p\u00f5e de parte o \u00f3dio e a sede de vingan\u00e7a que ent\u00e3o acompanhavam a confian\u00e7a no Deus justo.

{N}12,{/}2 Poder-nos-\u00edamos interrogar que faziam os fariseus naquele campo por onde Jesus transita apenas de passagem. Contudo, se olharmos para o texto paralelo de Lc 6,2, vemos que os fariseus fazem parte do grupo que segue Jesus, como em Mc 2,16 e Lc 5,30. Integram o grupo dos disc\u00edpulos e ter\u00e1 de passar algum tempo at\u00e9 que o partido dos fariseus se oponha a Ele.

{N}12,{/}8 {C}O Filho do Homem \u00e9 Senhor do s\u00e1bado. {/}Esta pretens\u00e3o de Jesus \u00e9 t\u00e3o extravagante como a de perdoar os pecados. Ser\u00e1 esta uma conclus\u00e3o tirada pelo evangelista a partir da atitude de Jesus neste epis\u00f3dio? \u00c9 mais prov\u00e1vel que Ele pr\u00f3prio tenha dito estas palavras de forma t\u00e3o clara, que ficaram gravadas em Jo\u00e3o, que viria a desenvolv\u00ea-las em Jo 5,17-20. Contudo, n\u00e3o utilizou a palavra {C}Senhor {/}do s\u00e1bado referida a Cristo-Senhor, mas com o sentido de: tem autoridade sobre o s\u00e1bado.

{N}12,{/}17 Mateus justifica esta atitude discreta do Salvador {C}esperado pelas na\u00e7\u00f5es {/}com um texto de Isa\u00edas: {C}n\u00e3o discutir\u00e1 nem gritar\u00e1. {/}O Servo de Jav\u00e9 \u00e9, nesses poemas, o instrumento de Deus para salvar tamb\u00e9m os povos pag\u00e3os: \u00abpara que anuncie \u00e0s na\u00e7\u00f5es os meus ju\u00edzos\u00bb. N\u00e3o esque\u00e7amos que na cultura hebraica julgar e governar s\u00e3o uma \u00fanica coisa: o Messias tornar\u00e1 realidade o governo de Deus sobre as na\u00e7\u00f5es.
{C}Por\u00e3o a sua esperan\u00e7a no seu Nome. {/}O Hebraico dizia: \u00abas na\u00e7\u00f5es esperam os seus decretos\u00bb, mas Mateus segue a b\u00edblia grega, que anuncia a f\u00e9 universal no Nome divino que, para ele, \u00e9 o Nome de Jesus.

{N}12,{/}27 {C}Belzebu, {/}ou seja, Deus da casa, era o Deus da cidade filisteia de Acron, ridicularizado pelos judeus com a forma de Belzebub: o Deus das moscas. Noutros lugares acusam Jesus de ter um dem\u00f3nio, com o sentido de: enlouqueceu, tal como diziam de Jo\u00e3o Baptista (11,11). Aqui acusam-n'O de pactuar com o dem\u00f3nio. Mateus, sempre duro com os fariseus, op\u00f5e \u00e0s suas cal\u00fanias a f\u00e9 do povo: {C}filho de David {/}era um t\u00edtulo do Messias.

{N}12,{/}32 {C}Nem neste mundo nem no outro. {/}Isto n\u00e3o significa que outros pecados sejam perdoados no outro mundo, mas que tal pecado \u00e9 imperdo\u00e1vel, tanto frente ao ju\u00edzo de Deus como dos homens.

{N}12,{/}36 {C}O dito imposs\u00edvel de justificar. {/}\u00c9 isto que significa a express\u00e3o \u00abpalavras in\u00fateis\u00bb utilizado pelo evangelho: palavras sem justifica\u00e7\u00e3o. Segundo Mateus, estas palavras procedem de uma pervers\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o, a pervers\u00e3o pr\u00f3pria dos que julgam conhecer melhor as coisas de Deus. Apesar de os fariseus interpretarem a B\u00edblia de uma forma muitas vezes parecida com a de Jesus, o seu ideal do homem \u00abjusto\u00bb, com a fronte limpa perante Deus, a par do seu apre\u00e7o pelo dinheiro, conservava neles um orgulho capaz de envenenar todas as suas obras.

{N}12,{/}39 {C}Nenhum sinal lhe ser\u00e1 dado, a n\u00e3o ser o sinal do profeta Jonas. {/}N\u00e3o lhe ser\u00e3o dados os sinais extraordin\u00e1rios esperados para o tempo do Messias. O Filho do Homem \u00e9 que passar\u00e1 a ser um sinal, primeiro, para Israel, mas tamb\u00e9m para todas as na\u00e7\u00f5es (Lc 2,32-34), tal como Jonas foi sinal para os pag\u00e3os de N\u00ednive. Todos dever\u00e3o reconhecer a m\u00e3o de Deus na sua Pessoa, na sua prega\u00e7\u00e3o, na sua rejei\u00e7\u00e3o e na sua ressurrei\u00e7\u00e3o. Ver as palavras de Paulo acerca do esc\u00e2ndalo da cruz (1Cor 1,22).

{N}12,{/}47 \u00c9 muito poss\u00edvel que este vers\u00edculo tenha sido copiado de Marcos e enxertado aqui.

{N}13,{/}18 De quem \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o da par\u00e1bola? De Jesus, ou dos pregadores da Igreja primitiva? No texto actual, muitas palavras s\u00e3o pr\u00f3prias do estilo da Igreja primitiva, e \u00e9 certo que a interpreta\u00e7\u00e3o difere um pouco nos tr\u00eas evangelhos, consoante o ambiente diferente que a conservou e pregou. Contudo, o mais prov\u00e1vel \u00e9 que Jesus tenha dado a sua pr\u00f3pria interpreta\u00e7\u00e3o \u00e0 par\u00e1bola, tirando aplica\u00e7\u00f5es \u00abmorais\u00bb para os seus disc\u00edpulos, como faziam todos os mestres do seu tempo. Ao fazer esta aplica\u00e7\u00e3o, deixava por aprofundar outros aspectos da sua par\u00e1bola, como, por exemplo, isto de que Ele vinha para semear, e que o reino de Deus j\u00e1 tinha come\u00e7ado.

{N}13,{/}37 {C}O Filho do Homem. {/}Jesus \u00e9 presenteado com este t\u00edtulo em todas as partes do evangelho em que se fala do Ju\u00edzo. \u00c9 uma forma de dizer que Ele voltar\u00e1 com a autoridade divina e a Gl\u00f3ria do Pai, como expresso em Dn 1,13.
{C}Os que pertencem ao Reino, os que pertencem ao Maligno. {/}N\u00e3o interpretemos ao contr\u00e1rio estas express\u00f5es: as pessoas n\u00e3o s\u00e3o classificadas de antem\u00e3o como boas e m\u00e1s, e a par\u00e1bola diz que \u00e9 necess\u00e1rio tempo para que cada qual possa definir-se.

{N}13,{/}50 {C}A fornalha de fogo. {/}Textos prof\u00e9ticos falam da c\u00f3lera de Deus a abrasar os maus (Na 1,9; Ml 4,1; Is 66,24). {C}Choro e ranger de dentes{/}, ou seja, inveja pela sorte dos justos (Sl 33,16; 112,10). {C}Os justos brilhar\u00e3o{/}: Ml 4,20; Dn 12,3).

{N}13,{/}58 V\u00e1rios pensam que o evangelho de Mateus deveria ser dividido em duas grandes partes: 3-13 e 14-28. Aqui, ao terminar as par\u00e1bolas do Reino, Jesus deixa de ensinar as multid\u00f5es e passa a dedicar-se \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos seus disc\u00edpulos. Este fracasso de Jesus em Nazar\u00e9, por onde come\u00e7ou (4,12), representaria o fracasso da sua prega\u00e7\u00e3o na Galileia.

{N}14,{/}13 {C}Jesus afastou-Se. {/}Tal como fez depois de saber que Jo\u00e3o tinha sido encarcerado (4,12): inseguran\u00e7a permanente de Jesus, nesse pa\u00eds submetido a um poder estrangeiro, com um povo que Deus educou para a liberdade e que, a cada momento, se revoltava. Jesus prega numa sociedade dominada por pol\u00edcias e delatores. Marcos apresenta outro motivo (motivo que Mateus n\u00e3o desconhece): descanso e reflex\u00e3o comum dos ap\u00f3stolos, na sequ\u00eancia da miss\u00e3o.

{N}14,{/}12 Mateus e Marcos destacam aqui o papel dos disc\u00edpulos, ao passo que Jo\u00e3o centra todo o relato sobre a pessoa de Jesus, enviado de Deus e p\u00e3o da vida. Nestes cap\u00edtulos os disc\u00edpulos representam os respons\u00e1veis da Igreja, que continuar\u00e3o a desenvolver os mesmos actos de Jesus. Para Mateus, \u00e9 patente que o ensinamento atrav\u00e9s do milagre n\u00e3o se limita a destacar o poder de Jesus, nem a indic\u00e1-Lo como o Messias: pelo contr\u00e1rio, o evangelista acentua, melhor que outros, o significado eucar\u00edstico do milagre.
{C}Duzentos den\u00e1rios. {/}Com este dinheiro poderiam comprar 2.000 litros de farinha para as 5.000 pessoas, e cada um receberia uma grande parte da ra\u00e7\u00e3o di\u00e1ria.
{C}Recolheram as sobras{/}, como fez Eliseu (2Rs 4,43): este pormenor confirma que todos comeram at\u00e9 \u00e0 saciedade, como aconteceu com o man\u00e1 no deserto (Ex. 16,12).

{N}14,{/}25 {C}Jesus foi ter com eles, andando sobre o mar. {/}A tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica considerava o mar um elemento rebelde que Deus teve de sujeitar; inclusivamente em Job 9,8, l\u00ea-se a express\u00e3o: \u00abcaminha sobre as ondas do mar\u00bb. N\u00e3o era preciso mais para que muitos int\u00e9rpretes dissessem: o Evangelho fala-nos de Jesus a caminhar sobre o mar, mas isso \u00e9 pr\u00f3prio de Deus; ent\u00e3o, devemos ver uma inten\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica neste relato; e ent\u00e3o, n\u00e3o se trata de um facto hist\u00f3rico... Recordemos que os evangelistas lembram factos que fundamentam a sua pr\u00f3pria f\u00e9, e que, se estes n\u00e3o fossem hist\u00f3ricos, eles tamb\u00e9m n\u00e3o acreditariam.

{N}15,{/}21 {C}Foi para a regi\u00e3o de Tiro e Sid\u00f3nia. {/}Mateus acrescenta o segundo nome, em conformidade com o modo de falar tradicional dos profetas, que amea\u00e7avam simultaneamente as duas cidades da Fen\u00edcia (Mt 11,21). S\u00f3 por si, estes nomes ressoavam como pertencentes a um pa\u00eds pag\u00e3o. A mulher \u00e9 {C}cananeia, {/}porque os siro-fen\u00edcios eram descendentes da antiga povoa\u00e7\u00e3o de Cana\u00e3. Ao contr\u00e1rio de Marcos, Mateus parece dizer que a mulher saiu desse pa\u00eds e que Jesus n\u00e3o entrou verdadeiramente nele: deseja, provavelmente, apoiar o que diz Jesus em 15,24.
{C}Eu fui mandado somente para as ovelhas perdidas do povo de Israel. {/}As ovelhas perdidas (Ez 34) s\u00e3o a gente humilde, dispersa por falta de pastores (Mt 9,35). A resposta de Jesus \u00e9 terminante: Ele vem apenas para os judeus; este evangelho mostra que a Igreja ser\u00e1 a portadora de luz para os pag\u00e3os. Esta resposta de Mateus tem sido interpretada por vezes como se Jesus pensasse apenas nos judeus no seu minist\u00e9rio de salva\u00e7\u00e3o, sem ter tomado consci\u00eancia da sua miss\u00e3o universal. A Igreja teria feito de Jesus, salvador judeu, o Salvador do mundo. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para o afirmar: a salva\u00e7\u00e3o universal faz parte da miss\u00e3o do Servo de Jav\u00e9 (Is 42; 49,6; 52,13), com quem Jesus Se identifica. Jesus conforma-Se a um plano determinado pelo Pai, e deixa que a salva\u00e7\u00e3o dos pag\u00e3os seja a obra dos \u00faltimos tempos, ou seja, dos que se seguir\u00e3o \u00e0 sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o.

{N}15,{/}28 {C}\u00c9 grande a tua f\u00e9! {/}Mateus s\u00f3 nota esta admira\u00e7\u00e3o de Jesus no caso dos pag\u00e3os que d'Ele se aproximavam ocasionalmente, e n\u00e3o no caso dos judeus (8,10). Isto n\u00e3o quer dizer que tais pag\u00e3os fossem melhores do que o conjunto dos judeus; o que Jesus faz \u00e9 chamar a aten\u00e7\u00e3o para este dom da f\u00e9, j\u00e1 que o Pai o distribui aos filhos que escolheu fora do seu pr\u00f3prio povo.

{N}15,{/}29 Jesus termina o seu trajecto at\u00e9 \u00e0s fronteiras da Galileia. Mateus apresenta-nos como que uma imagem de Jesus, mestre divino. Sobe \u00e0 montanha, como em 5,1, mas, desta vez n\u00e3o \u00e9 para ensinar, mas para multiplicar as curas que s\u00e3o outros tantos sinais da vinda do Reino: comparar com 11,4-5.

{N}16,{/}1 Onde Marcos fala de fariseus, segundo a verdade hist\u00f3rica, Mateus escreve: fariseus e saduceus, express\u00e3o t\u00edpica que tinha passado a designar globalmente todos os advers\u00e1rios de Jesus.
Tudo o que se l\u00ea entre {C}Jesus, por\u00e9m, respondeu: {/}e {C}Gera\u00e7\u00e3o m\u00e1{/}, n\u00e3o aparece em manuscritos muito antigos. \u00c9 poss\u00edvel que tenha sido acrescentado posteriormente. Pertencer\u00e1, possivelmente, ao texto de Mateus, mas foi suprimido mais tarde, porque esta nota\u00e7\u00e3o meteorol\u00f3gica n\u00e3o se verificava nos outros pa\u00edses. Os fariseus pediram um sinal vindo do C\u00e9u, ou seja, de Deus, e Jesus faz a sua compara\u00e7\u00e3o com base no aspecto do c\u00e9u.

{N}16,{/}18 O texto diz: {C}Tu \u00e9s Pedro Cefas {/}\u00e9 o termo aramaico utilizado por Jesus, e que significa Rocha. Era assim que chamavam a Sim\u00e3o na Igreja primitiva: 1Cor 1,12; Gl 1,18.
N\u00e3o podemos garantir que Jesus tenha dado a Sim\u00e3o esta alcunha no mesmo dia em que o chamou (Jo 1,42); talvez lho tenha dado no momento em que lhe fez estas promessas.
Sim\u00e3o, {C}filho de Jonas, ou Bar-Jonas. {/}Em aramaico, Bar significa: filho. Ser\u00e1 outra forma de dizer \u00abfilho de Jo\u00e3o\u00bb, pois, em Jo 1,42, lemos: Sim\u00e3o, {C}filho de Jo\u00e3o{/}? Ou ter\u00e1 sido Sim\u00e3o um filho da pomba (pois Bar-Jon\u00e1 significa tamb\u00e9m filho da pomba, e este nome designava possivelmente um grupo de patriotas judeus, sendo a Pomba um s\u00edmbolo da vinda do Messias).
{C}Construirei a minha Igreja. Edificar {/}e plantar eram dois termos apropriados para a ac\u00e7\u00e3o de Deus, instaurando o Povo dos Santos no mundo. {C}Igreja{/}: ou seja, assembleia dos que Deus congregou, era este o povo que se organizaria em torno do Messias. {C}A minha{/} Igreja: Jesus reafirma a sua divindade, porque a Igreja \u00e9 de Deus.
{C}Na terra... nos c\u00e9us{/}: a actua\u00e7\u00e3o da Igreja \u00e9 ratificada no mundo de Deus. Esta comunica\u00e7\u00e3o entre o humano e o divino na Igreja (Mt 18,18; Jo 20,23) \u00e9 v\u00e1lida, sobretudo, para as decis\u00f5es de Pedro, portadoras de uma vontade de Deus que os membros da Igreja devem reconhecer. Nos dois \u00faltimos textos que indicamos fala-se tamb\u00e9m de perdoar, mas s\u00f3 a Pedro {C}foram dadas as chaves.{/}

{N}17,{/}21 Este vers\u00edculo 21 falta em muitos manuscritos. Uns interpretam-no como uma adi\u00e7\u00e3o destinada a harmonizar Mateus com Marcos. Outros pensam que 21 dava a resposta mais apropriada \u00e0 pergunta dos ap\u00f3stolos (\u00abPorque \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o conseguimos...?\u00bb) antes de ser acrescentada a outra explica\u00e7\u00e3o relativa \u00e0 falta de f\u00e9.

{N}17,{/}24 O texto diz: os cobradores do \u00abdidracma\u00bb. O imposto era de um dracma duplo. A taxa era a mesma para todos, tanto ricos como pobres (Ex 30,13-15).

{N}18,{/}6 O texto diz: \u00abuma m\u00f3 de burro\u00bb. Era o termo utilizado para distinguir a m\u00f3 de moinho, que um burro fazia girar, da m\u00f3 dom\u00e9stica, que as mulheres faziam girar.

{N}18,{/}10 {C}Os seus anjos, no c\u00e9u. {/}Jesus refere-se \u00e0 cren\u00e7a dos judeus daquele tempo, segundo a qual apenas os anjos de dignidade mais elevada podiam conservar-se na presen\u00e7a de Deus (Tb 12,15). Deus encarregou os seus anjos mais eminentes da tarefa de proteger os pequenos.
Esta senten\u00e7a de Jesus refere-se tamb\u00e9m ao que ent\u00e3o se passava na corte dos soberanos orientais. Estes eram rodeados por guardas sempre prontos a aniquilar quem quer que se atrevesse a incomodar o rei (Est 4,11), mal o lessem nos seus olhos. Por isso, cuidado em n\u00e3o tocar em nenhum destes pequeninos!
Muitos manuscritos acrescentam aqui um vers\u00edculo 11, copiado de Lc 19,10.

{N}18,{/}12 A par\u00e1bola que aqui lemos \u00e9 a mesma apresentada em Lc 15,3, mas aqui a ovelha n\u00e3o \u00e9 perdida, mas {C}extraviada. {/}A par\u00e1bola refere-se, n\u00e3o aos pecadores, mas aos pequenos extraviados pelas ambiguidades deste mundo (24,4; 24,11) e que Jesus quer reunir. \u00c9 necess\u00e1rio procur\u00e1-los em vez de desprez\u00e1-los. A Igreja correr\u00e1 sempre o perigo de esquecer todos os pequenos que n\u00e3o acorrem a ela, ou de esperar que sejam eles a dar o primeiro passo: mas talvez eles n\u00e3o possam faz\u00ea-lo.
{C}N\u00e3o quer {/}(14). Quando aparece esta forma impessoal, \u00e9 uma maneira de n\u00e3o nomear directamente a Deus.

{N}18,{/}15 Nem todos os manuscritos t\u00eam aqui o mesmo texto. Se aceitarmos o texto: {C}tiver pecado{/}, tempos aqui um conselho de modera\u00e7\u00e3o da parte de Jesus, em contraposi\u00e7\u00e3o com o que faziam os ess\u00e9nios (como a comunidade de Qumran, por exemplo), que os crist\u00e3os imitavam sob v\u00e1rios aspectos. Jesus n\u00e3o aceita que o pecador seja exclu\u00eddo imediatamente, depois de julgado por toda a comunidade. Os seus pecados n\u00e3o ser\u00e3o publicados, se for poss\u00edvel corrigi-lo em particular. Cita-se ent\u00e3o Dt 19,15, que na realidade fala de outras coisas.
Por outro lado, se seguirmos a outra vers\u00e3o: {C}tiver pecado contra ti{/}, esta refere-se ao perd\u00e3o das ofensas, como em Lc 17,4.
{C}Considera-o como um pag\u00e3o ou um publicano. {/}Jesus fala para um ambiente judeu, acostumado a n\u00e3o tratar com os pag\u00e3os nem com os pecadores p\u00fablicos, nem com aqueles que tivessem sido exclu\u00eddos pela sinagoga, ou seja, pelas autoridades da comunidade religiosa (Jo 9,22). As comunidades crist\u00e3s actuar\u00e3o de modo semelhante: 1Cor 5,11; Tm 3,10; 2Jo 10.

{N}18,{/}18 {C}Tudo o que ligardes. {/}Jesus parece referir-se a toda a comunidade.

{N}18,{/}22 \u00c0 primeira leitura, pode entender-se \u00absetenta vezes sete\u00bb, mas a tradu\u00e7\u00e3o {C}setenta e sete vezes {/}\u00e9 a que requer a utiliza\u00e7\u00e3o dos distributivos gregos, sens\u00edvel aos pesos de certas f\u00f3rmulas.

{N}19,{/}20 {C}Ama o teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo. {/}Mateus acrescenta este mandamento que n\u00e3o se l\u00ea em Marcos e Lucas, como que para sublinhar que Jesus n\u00e3o Se refere a leis antigas, que seriam insuficientes. Embora a todos seja pedido que observem a Lei e o mandamento do amor, Deus dirige hoje uma chamada diferente a este homem que d'Ele se aproximou.
A tradi\u00e7\u00e3o entendeu sempre que este evangelho fazia da pobreza uma condi\u00e7\u00e3o para seguir Cristo. \u00c9 sabido que os tr\u00eas \u00abconselhos evang\u00e9licos\u00bb de pobreza, castidade e obedi\u00eancia s\u00e3o bases tradicionais da Vida Religiosa. Sem negar o valor destes pilares indispens\u00e1veis, podemos pensar que a express\u00e3o \u00e9 deficiente. Por um lado, n\u00e3o nos parece que Jesus tenha dado conselhos: a sua chamada \u00e9 imperativa e quem se nega a responder-Lhe perde-se. Por outro lado, o voto de pobreza, embora signifique renunciar aos pr\u00f3prios bens e \u00e0 livre distribui\u00e7\u00e3o das coisas, tem por contrapartida a perten\u00e7a a uma comunidade que habitualmente disp\u00f5e de garantias econ\u00f3micas apreci\u00e1veis: nisto estamos longe do que disse Jesus no presente par\u00e1grafo.
Por outro lado, \u00e9 certo que a elei\u00e7\u00e3o da pobreza, quaisquer que sejam os modos de o fazer, abre-nos o Reino de Deus. Hoje em dia, esta elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 reservada aos Religiosos. Embora em tempos a imensa maioria dos homens tivesse de viver na pobreza ou na mis\u00e9ria, hoje, pelo contr\u00e1rio, a sociedade oferece os meios de se livrar delas a quem quer que disponha de sa\u00fade e de um c\u00e9rebro em bom estado. Mas tamb\u00e9m \u00e9 certo que, para muit\u00edssimas pessoas, a Universidade \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o paradis\u00edaca. A\u00ed reside em muitos pa\u00edses a barreira entre os pobres e os cidad\u00e3os com plenos direitos. Assim, o casal crist\u00e3o ser\u00e1 colocado, desde o princ\u00edpio, frente a uma op\u00e7\u00e3o da qual depende o porvir dos seus filhos. Quere-os realmente segundo as normas comuns? N\u00e3o ter\u00e1 mais do que um filho, e mand\u00e1-lo-\u00e1 \u00e0 Universidade, transformando-o num filho cujos pais, por amor a ele, se tornaram escravos do trabalho e dos valores vulgarmente recebidos. Porventura querem antes uma verdadeira fam\u00edlia? Ent\u00e3o oferecem-lhe a pobreza.
Estamos, pois, na era em que a fam\u00edlia elege a pobreza e, simultaneamente, o Reino. Esta primeira elei\u00e7\u00e3o obrig\u00e1-la-\u00e1 a pensar no sentido da vida a partir de novas bases, a p\u00f4r em ac\u00e7\u00e3o uma pedagogia familiar que ajude os jovens a ratificar esta elei\u00e7\u00e3o, unindo-se a outras fam\u00edlias crist\u00e3s que tenham feito a mesma elei\u00e7\u00e3o, com o objectivo de resolver os seus problemas. Uma tal pobreza poderia ent\u00e3o passar a ser a riqueza do mundo.

{N}19,{/}28 Este par\u00e1grafo parece enquadrar-se melhor em 22,28. Ao introduzi-lo no presente contexto, Mateus pretende distinguir o caso dos ap\u00f3stolos dos outros que renunciaram a tudo para seguir Cristo. A condi\u00e7\u00e3o dos ap\u00f3stolos \u00e9 \u00fanica na Hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o. No entanto, o privil\u00e9gio de julgar (ou seja, de governar, conforme o sentido da palavra hebraica) corresponde tamb\u00e9m aos crentes num \u00e2mbito mais modesto (Sb 3,8; 1Cor 6,2).
{C}No dia da nova cria\u00e7\u00e3o ({/}ou {C}no mundo novo). {/}O texto diz: no novo g\u00e9nesis. Este termo era pr\u00f3prio da literatura apocal\u00edptica e referia-se \u00e0 purifica\u00e7\u00e3o e renova\u00e7\u00e3o do mundo atrav\u00e9s do Ju\u00edzo. Este Ju\u00edzo restabelecer\u00e1 a ordem verdadeira entre os homens (como em Mt 25,31), far\u00e1 a permuta entre primeiros e \u00faltimos, e transformar\u00e1 os ap\u00f3stolos em governantes do povo de Israel (eles e n\u00e3o os patriarcas, ou Mois\u00e9s, ou os profetas).

{N}20,{/}1 Notemos que apenas aos primeiros \u00e9 atribu\u00eddo um sal\u00e1rio. \u00c9 mais um sinal de que os primeiros s\u00e3o os judeus, a quem Deus traz a salva\u00e7\u00e3o em cumprimento de um contrato (ou alian\u00e7a com eles), ao passo que os outros s\u00e3o povos pag\u00e3os aos quais a salva\u00e7\u00e3o chega como dom gratuito: nem prometido, nem esperado (Rm 15,8-9).
{C}Saiu para contratar trabalhadores. {/}Saiu como tinha sa\u00eddo o Semeador (13,1), como tinha sa\u00eddo Jesus (Mc 1,38), para trazer a salva\u00e7\u00e3o aos homens.
{C}Tu igualaste-os a n\u00f3s {/}(12). \u00c9 poss\u00edvel que os oper\u00e1rios da \u00faltima hora representassem originalmente os pobres, seguidores de Jesus. A sociedade religiosa n\u00e3o lhes tinha dado a oportunidade de despertar e de participar no trabalho de Deus. Portanto, os ambientes instalados n\u00e3o devem escandalizar-se por Jesus demonstrar tanto apre\u00e7o pelos pequenos e pelos pecadores, esquecendo os justos. Tamb\u00e9m n\u00e3o dever\u00e3o escandalizar-se se Deus, um dia, lhes vier a atribuir os \u00faltimos lugares. Eles, que desde a primeira hora conheceram a Lei e se sentiram obrigados a cumpri-la, podem ser os \u00faltimos a receber a sua paga.
Parece ter sido este o sentido original da par\u00e1bola, mas Mateus refere-a visivelmente a outra situa\u00e7\u00e3o, a dos povos pag\u00e3os que entram na Igreja, e n\u00f3s devemos referi-la \u00e0s massas por evangelizar que vivem em redor de Igrejas sem ambi\u00e7\u00e3o.

{N}20,{/}28 {N}A REDEN\u00c7\u00c3O{/}
{C}Resgatar, reparar, libertar, resgate{/}: estas palavras, cuja diferen\u00e7a nem sempre vemos, acompanham as imagens e as ideias que habitualmente formamos sobre a Reden\u00e7\u00e3o.
Por detr\u00e1s das palavras do Novo Testamento que traduzimos por {C}resgatar{/}, pode ser conveniente distinguir quatro palavras hebraicas do Antigo Testamento, que nem sempre foram traduzidas pelas mesmas palavras gregas.
Em primeiro lugar, temos o verbo {C}resgatar. {/}Este resgate \u00e9 uma aquisi\u00e7\u00e3o, mas o que se adquire \u00e9 um bem que a maior parte das vezes pertenceu \u00e0 fam\u00edlia e que esta recupera. A palavra resgate encontra-se mais vezes no pequeno livro de Rute do que em todo o resto da B\u00edblia. No Novo Testamento, poderia ser traduzido com maior frequ\u00eancia pelo verbo libertar: Rm 8,23; Ef 1,7; Cl 1,14; Gl 3,13; 4,5. Em Hb 9,15 e Tm 2,14, o \u00fanico termo que conv\u00e9m \u00e9 resgatar.
Tamb\u00e9m aparece a palavra {C}aquisi\u00e7\u00e3o {/}Quando a B\u00edblia recorda a elei\u00e7\u00e3o que Deus fez de um povo que Lhe pertence, fala por vezes de uma aquisi\u00e7\u00e3o, para indicar que Deus Se faz dono e propriet\u00e1rio de Israel, e que ningu\u00e9m, da\u00ed em diante, poderia arrebatar-Lho. Encontraremos esse sentido em 2Pd 2,1, para designar os que tinham sido chamados a fazer parte do povo de Deus. Em Ap 14,3 e 4, s\u00e3o os 144.000 eleitos e virgens do Monte Si\u00e3o que foram adquiridos (ou tomados) dentre os restantes seres humanos.
No presente texto de Mateus, e no texto paralelo de Mc 10,45, pelo contr\u00e1rio, e depois em 1Tm 2,6, a palavra que traduzimos por {C}resgate {/}deve ser entendida como o sacrif\u00edcio de expia\u00e7\u00e3o que se devia pagar por uma falta cometida. Aqui, em Mateus, Jesus refere-Se ao Servo de Deus do livro de Isa\u00edas, que oferece a sua vida para reparar as faltas do seu povo (Is 52,13-53,12). \u00c9 o \u00fanico lugar do evangelho em que Jesus d\u00e1 esse sentido \u00e0 sua morte, mas os Actos mostram-nos que os pregadores do Evangelho gostavam de utilizar a profecia de Isa\u00edas para proclamar Jesus como Messias. Ter\u00e1 sido a partir da\u00ed, certamente, que desenvolveram as tr\u00eas afirma\u00e7\u00f5es que lemos em v\u00e1rios lugares da prega\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica: Jesus morreu pelos nossos pecados; morreu, para que sejam perdoados os pecados; tornou-Se v\u00edtima pelos nossos pecados.
Essa ideia de sacrif\u00edcio pelos nossos pecados pode surpreender-nos na medida em que, instintivamente, tentamos iludir a nossa responsabilidade em rela\u00e7\u00e3o a essa desordem universal que \u00e9 o pecado; reconhe\u00e7amos, al\u00e9m do mais, que nos sentimos humilhados pelo simples facto de outro ter de pagar por n\u00f3s. Mas o nosso enfado prov\u00e9m do facto de esse resgate ter sido com bastante frequ\u00eancia comentado de forma muito surpreendente. Enquanto os textos b\u00edblicos que falam de resgate, considerados no seu conjunto, insistem mais no aspecto de liberta\u00e7\u00e3o do que no aspecto de pagamento, alguns entenderam que a morte de Jesus foi um pagamento que Ele fez ao dem\u00f3nio para abrandar o seu dom\u00ednio sobre a humanidade. Outros falam de ofensas feitas a Deus, que exigiam uma repara\u00e7\u00e3o, e que ficaram saldadas atrav\u00e9s dos sofrimentos e do sacrif\u00edcio de Cristo.
\u00c9 bem verdade que Jesus morreu pelos nossos pecados, mas a Reden\u00e7\u00e3o vai muito mais al\u00e9m do que o pagamento de uma s\u00e9rie de d\u00edvidas. H\u00e1 um ordenamento do mundo, bem como um ordenamento do homem, que supera as nossas perspectivas a curto prazo. Era necess\u00e1rio que tudo culminasse num equil\u00edbrio perfeito, para que tudo pudesse voltar para Deus. Jesus tinha por miss\u00e3o assegurar esse regresso de um mundo afastado, e o pecado era o maior factor do nosso afastamento. A unidade do universo e dos filhos de Deus dispersos s\u00f3 podia ser realizada atrav\u00e9s de uma reconcilia\u00e7\u00e3o que seria tamb\u00e9m uma reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus depois da falta original - a dos esp\u00edritos tutores e regedores da cria\u00e7\u00e3o. A morte volunt\u00e1ria de Jesus era a recomposi\u00e7\u00e3o, em sentido figurado, de tal quebra. Da\u00ed a garantir que Jesus, no momento de morrer, teve diante dos seus olhos todas as nossas faltas individuais, \u00e9 totalmente descabido; contudo, todas as nossas faltas fazem parte do passivo e nenhuma das nossas \u00abrevoltas\u00bb (Is 53,5 e 1Jo 3,4) podia ser assim esquecida sem mais.
Os que no passado entenderam esse texto de Paulo como afirma\u00e7\u00e3o de um pecado importante efectivamente cometido pelo primeiro homem, n\u00e3o deixaram de ver na morte de Jesus a repara\u00e7\u00e3o desse pecado t\u00e3o misterioso. Muitas vezes os artistas pintaram um cr\u00e2nio, que seria de Ad\u00e3o, ao p\u00e9 da cruz. No entanto, os evangelhos n\u00e3o est\u00e3o interessados nem nesse pecado, nem nesse pecador: ver coment\u00e1rio sobre o Pecado Original, em Gn 3.
At\u00e9 aqui fic\u00e1mo-nos por uma vis\u00e3o intelectual e moral da Reden\u00e7\u00e3o, mas devemos ir mais longe. Quando os ap\u00f3stolos comentam o sacrif\u00edcio de Jesus, morto pelos nossos pecados, morto para nossa liberta\u00e7\u00e3o (Rm 3,25; 4,25; 5,6-11; 2Cor 5,20-21 e 1Pd 2,21-25), n\u00e3o pretendem principalmente dar uma explica\u00e7\u00e3o, mas antes provocar a nossa admira\u00e7\u00e3o frente \u00e0 grandeza do amor divino. Generosidade de Deus Pai, em primeiro lugar (Rm 8,3; Jo 3,16; 1Jo 4,10-11), mas imediatamente a seguir reconhecimento e humilde prostra\u00e7\u00e3o frente ao sacrif\u00edcio volunt\u00e1rio do Filho (Rm 5,7-11). Da\u00ed procede a sua entrega total \u00e0 pessoa de Jesus (Gl 2,19-20).
Foi dito que nunca houve ningu\u00e9m t\u00e3o amado como Jesus o foi, \u00e9 e vir\u00e1 a ser, e este \u00e9 outro aspecto da Reden\u00e7\u00e3o. Se acreditamos que o sacrif\u00edcio de Cristo salva a humanidade inteira (1Jo 2,2), bem como que este mesmo Filho-Verbo ilumina toda a consci\u00eancia humana (Jo 1,9), tamb\u00e9m \u00e9 um facto que a imensa maioria dos povos nunca soube nada disso. Contudo, a partir do momento em que Deus elege para Si um povo ao qual Se revela e ao qual revela o seu plano de salva\u00e7\u00e3o (Is 54,13; Jr 31,34; Ef 3,5), toda uma parte da Reden\u00e7\u00e3o se realizar\u00e1 atrav\u00e9s das rela\u00e7\u00f5es m\u00fatuas entre Deus e esse povo eleito (Is 62,1-5; Sf 3,17). Os que foram chamados viram o amor de Deus e acreditaram (1Jo 4,16). Fica assim aberta para Deus a possibilidade de fazer com eles uma experi\u00eancia \u00fanica, a do amor rec\u00edproco, na claridade plena.
\u00c9 essa a raz\u00e3o pela qual Jesus quer - sendo essa tamb\u00e9m uma das suas maiores motiva\u00e7\u00f5es - que o seu sacrif\u00edcio purifique (Ef 5,26) e santifique (1Cor 6,11) aqueles que adquiriu (Act 20,28) ou vai adquirir para Deus (Ap 5,9-10; 14,3). Jesus consagra-Se por eles (Jo 17,19; Hb 10,14). Por outro lado, a contempla\u00e7\u00e3o das humilha\u00e7\u00f5es e do amor do Filho sugerir-lhes-\u00e1, a eles, todas as loucuras pr\u00f3prias do amor, tal como constituir\u00e1, na eternidade, a admira\u00e7\u00e3o das pot\u00eancias celestes (1Pd 1,12).

{N}21,{/}4 O texto de Zacarias que Mateus cita aqui diz o seguinte: {C}montado num jumento, num jumentinho, cria de um animal de carga. {/}N\u00e3o esque\u00e7amos que a poesia hebraica utiliza constantemente dois versos paralelos; o jumento ou burrinho \u00e9 o mesmo que o burro, designado apenas por outras palavras; \u00e9 identificado como {C}filho {/}de um animal de carga, ou seja, trata-se, simplesmente, de um animal de carga. Mas Mateus, que gosta de colocar sempre duas pessoas ou dois objectos ali onde os outros v\u00eaem apenas um, apresenta nesta passagem uma jumenta com o seu jumentinho (2).

{N}21,{/}25 Alargamos o texto, que diz simplesmente: \u00abO baptismo de Jo\u00e3o era de Deus ou dos homens?\u00bb Por\u00e9m, \u00e9 evidente que essa express\u00e3o designa todo o acontecimento: Jo\u00e3o, que punha as multid\u00f5es em movimento, chamando-as \u00e0 penit\u00eancia e dando-lhes o baptismo.

{N}21,{/}32 O texto diz: \u00abJo\u00e3o veio ao vosso encontro pelo caminho que conduz \u00e0 justi\u00e7a\u00bb;  noutras tradu\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, \u00abJo\u00e3o veio at\u00e9 v\u00f3s para vos mostrar o caminho da justi\u00e7a...\u00bb

{N}23,{/}1 {N}JESUS E OS FARISEUS{/}
O cap\u00edtulo 23 de Mateus deve ler-se \u00e0 luz das oposi\u00e7\u00f5es e persegui\u00e7\u00f5es que a Igreja sofreu na Palestina, at\u00e9 ao momento em que os crist\u00e3os foram exclu\u00eddos da comunidade judia. A ruptura foi definitiva com os decretos emitidos pelos fariseus no ano 95, no seu conc\u00edlio de J\u00e2mnia, quando reorganizaram a comunidade israelita, depois da destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m. Foi ent\u00e3o que determinaram o c\u00e2none dos livros sagrados e que tamb\u00e9m encerraram a religi\u00e3o judaica em tradi\u00e7\u00f5es e costumes muito precisos, pondo fim a uma atitude mais aberta que tinha facilitado, na \u00e9poca de Cristo, um incremento impressionante do proselitismo judeu no mundo romano, e que tinha multiplicado as convers\u00f5es dos \u00abgregos\u00bb.
O Evangelho de Mateus, escrito durante esses anos, apresenta-se muito pol\u00e9mico em rela\u00e7\u00e3o aos fariseus, pois apresenta-os como prot\u00f3tipos desse juda\u00edsmo, advers\u00e1rio da Igreja. Ao falar dos fariseus do tempo de Jesus, Mateus tende a ver neles os seus principais inimigos. Contudo, embora quando o faz deforme a realidade hist\u00f3rica melhor espelhada por Lucas, n\u00e3o podemos, por isso, rejeitar o testemunho que ele nos deixa de uma oposi\u00e7\u00e3o fundamental entre farisa\u00edsmo e evangelho: o livro de Mateus \u00e9 palavra de Deus, e isso significa que nos d\u00e1 a vis\u00e3o que Deus quis que conserv\u00e1ssemos, sobre as situa\u00e7\u00f5es enfrentadas por Jesus.
Apesar de, sob muitos aspectos, Jesus ter feito sua a interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia dada pelos fariseus (que eram numerosos entre os primeiros disc\u00edpulos), a sua religi\u00e3o, constitu\u00edda, em grande parte, por deveres e direitos, n\u00e3o estava em conson\u00e2ncia com outra vis\u00e3o resultante do \u00fanico facto de Jesus ser o Filho, entregue pelo Pai, para salva\u00e7\u00e3o dos pecadores.
No presente cap\u00edtulo, Mateus apresenta uma pol\u00e9mica entre Jesus e os fariseus. Esta n\u00e3o pode deixar nenhum crist\u00e3o indiferente, pois o farisa\u00edsmo \u00e9 a express\u00e3o, em \u00e9poca determinada, de uma atitude religiosa t\u00e3o presente entre n\u00f3s como o era no tempo de Jesus. Em tempos passados, muitos autores crist\u00e3os falaram dos fariseus como se todos eles tivessem sido gente hip\u00f3crita, de m\u00e1 f\u00e9. Ao ler esses coment\u00e1rios, pressup\u00f5e-se que tais autores intu\u00edam, sem no entanto querer reconhecer, at\u00e9 que ponto eles pr\u00f3prios, cl\u00e9rigos, mestres, suposta elite do povo crist\u00e3o, ocupavam na Igreja o mesmo lugar dos fariseus na sociedade do seu tempo, e ca\u00edam sob as mesmas acusa\u00e7\u00f5es do evangelho. Ansiosos por se distinguirem deles, mais n\u00e3o podiam fazer sen\u00e3o pint\u00e1-los de forma caricatural. Hoje, pelo contr\u00e1rio, h\u00e1 muitos, na Igreja, que gostariam, n\u00e3o s\u00f3 de justificar os fariseus por semelhantes alega\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m de ignorar ou, inclusivamente, de rejeitar as advert\u00eancias do evangelho que se lhes referem. \u00c9 poss\u00edvel que a raz\u00e3o de tal fervor seja a mesma que inspirou a atitude oposta em \u00e9pocas passadas - canonizam os fariseus na mesma medida em que passaram a ocupar os seus postos, incorrendo no mesmo perigo: o de serem aqueles s\u00e1bios e prudentes aos quais n\u00e3o foi revelado o mist\u00e9rio de Jesus.

{N}23,{/}5 O texto diz, mais exactamente: \u00abAumentam as filact\u00e9rias e alargam as franjas das suas vestes\u00bb. As filact\u00e9rias eram pequenos estojos que continham cita\u00e7\u00f5es da B\u00edblia. Pretendia-se assim aplicar, \u00e0 letra, as palavras de Dt 6,8.

{N}23,{/}15 {C}Percorreis o mar e a terra. {/}O s\u00e9culo em que Jesus viveu conheceu o desenvolvimento m\u00e1ximo dos esfor\u00e7os judaicos no sentido de converter os pag\u00e3os. A condena\u00e7\u00e3o de Jesus talvez se deva ao facto de os mission\u00e1rios quererem conquistar os pag\u00e3os para maior gl\u00f3ria do seu pr\u00f3prio grupo (Gl 6,13).

{N}23,{/}16 Este par\u00e1grafo sobre os juramentos deve ter sido um pouco desenvolvido pelo evangelista, que vivia fora da Palestina. Lemos nos autores cl\u00e1ssicos que muitos n\u00e3o-judeus tinham tido experi\u00eancias desagrad\u00e1veis por ocasi\u00e3o de juramentos semelhantes.

{N}24,{/}15 Mateus refere-se aqui \u00e0 profecia de Dn 9,27 e 12,11, que falava da \u00abAbomina\u00e7\u00e3o do devastador\u00bb (ou seja, {C}o \u00cddolo do invasor{/}), instalada no Templo. Isto tinha sucedido no ano 167 a.C., e a isto se referia o autor de Daniel. Mateus escreve depois do cerco de Jerusal\u00e9m e do inc\u00eandio do Templo, e sabe que as tropas romanas n\u00e3o colocaram os seus estandartes nem os seus \u00eddolos dentro do Templo: sabe apenas que cercaram a cidade santa de Jerusal\u00e9m. Por isso, ao recordar as palavras de Daniel, convida o leitor a que {C}entenda bem{/}, ou seja, que a adapte um pouco.

{N}24,{/}26 Nos vers\u00edculos 26-27, o contraste entre as tentativas de salva\u00e7\u00e3o terrena e limitada dos falsos Messias e a vinda do Filho do Homem serve de transi\u00e7\u00e3o para passar ao par\u00e1grafo seguinte, relacionado com os dias do Ju\u00edzo.

{N}24,{/}30 {C}Aparecer\u00e1 o sinal do Filho do Homem. {/}Alguns interrogam-se se ser\u00e1 uma cruz colorida no c\u00e9u, e se tamb\u00e9m a ver\u00e3o os que estiverem do outro lado do planeta... \u00c9 prov\u00e1vel que esta frase se deva traduzir por: aparecer\u00e1 o Filho do Homem, como \u00fanico sinal, como se depreende de Lc 11,30.
{C}Todas as tribos da terra... {/}Ver Zc 12,12 e Ap 1,7. Reconhecem-se culpadas ao ver que, de uma forma ou de outra, feriram o Salvador e rejeitaram o evangelho.
{C}Com poder e grande gl\u00f3ria{/}: estes dois qualificativos s\u00e3o palavras que na B\u00edblia se referem ao pr\u00f3prio Ser Divino. {C}Enviar\u00e1 os seus anjos{/}: tal como em 16,27, estes s\u00e3o os anjos de Deus, bem como os eleitos tamb\u00e9m s\u00e3o de Deus.
Os anjos e a trombeta s\u00e3o figuras tradicionais dos livros apocal\u00edpticos para as descri\u00e7\u00f5es do Ju\u00edzo final (1Ts 4,16; Ap 8,6). A trombeta que se tocava para congregar os filhos de Israel (Nm 10,2) tinha passado a representar a outra congrega\u00e7\u00e3o, que traria os eleitos para o lugar do Ju\u00edzo. Reunir os eleitos: nisso consiste a colheita de Deus (Mt 9,37; 13,4; Ap 14,14-20).

{N}24,{/}32 A par\u00e1bola da figueira convida a discernir os sinais dos tempos (Lc 12,54): uma s\u00e9rie de acontecimentos d\u00e3o a entender que se chegou a uma nova etapa da Hist\u00f3ria sagrada. {C}Sabeis que est\u00e1 pr\u00f3ximo{/}. Neste contexto n\u00e3o significa que sinais de aviso indicam um acontecimento imediatamente posterior (como poderia ser a invas\u00e3o romana), mas que acontecimentos vis\u00edveis ({C}todas estas coisas, {/}ou seja, tudo o que se refere \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m), assinalam qualquer coisa que n\u00e3o se pode ver: a vinda do Reino de Deus (como Lucas precisa em 21,31).

{N}24,{/}36 O texto diz: {C}Quanto \u00e0quele dia e \u00e0quela hora. {/}O {C}dia{/}, sem mais, \u00e9 o dia do Ju\u00edzo (dia de Jav\u00e9, em Am 5 e Sf 1,5). A {C}hora{/} \u00e9 a prevista nos des\u00edgnios eternos de Deus. {C}Nem o Filho{/}: Jesus salvaguarda o mist\u00e9rio das decis\u00f5es do Pai. Este \u00e9 o \u00fanico lugar do evangelho em que Jesus \u00e9 chamado {C}o Filho{/}, sem mais (como em Hb 1). A sua personalidade divina n\u00e3o impede que Ele Se tenha \u00abesvaziado a Si mesmo, assumindo a condi\u00e7\u00e3o de servo\u00bb (Fl 2,6), com as limita\u00e7\u00f5es e ignor\u00e2ncias consequentes.

{N}25,{/}1 {C}Naquele dia{/}: esta par\u00e1bola est\u00e1 relacionada com o trecho anterior, ou seja, com a visita do Senhor e a chamada a estar vigilante em qualquer tempo. N\u00e3o existem raz\u00f5es para que seja relacionada especialmente com os acontecimentos desenvolvidos no cap\u00edtulo anterior.

{N}25,{/}24 Aqui h\u00e1 duas imagens juntas: a primeira \u00e9 tomada da vida do campon\u00eas, a segunda das opera\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias: o patr\u00e3o, segundo se diz, n\u00e3o semeou nem depositou.

{N}25,{/}28 O talento inutilizado ser\u00e1 entregue ao que j\u00e1 \u00abtem\u00bb. A par\u00e1bola volta a colocar-nos perante a perspectiva j\u00e1 expressa na frase: \u00abassim na terra como no c\u00e9u\u00bb. O jogo de Deus atrav\u00e9s da sua cria\u00e7\u00e3o exprime qualquer coisa da sua natureza eterna, e Ele n\u00e3o pode fracassar. As grandes linhas da sua obra j\u00e1 est\u00e3o escritas, e n\u00e3o o termo, que \u00e9 a reuni\u00e3o de tudo em Cristo. Algumas figuras excepcionais s\u00e3o objecto da elei\u00e7\u00e3o de Deus \u00abdesde o seio de sua m\u00e3e\u00bb, porque o seu papel \u00e9 um elemento indiscut\u00edvel do plano de salva\u00e7\u00e3o, e elas n\u00e3o deixar\u00e3o de cumprir a sua miss\u00e3o. O que n\u00f3s n\u00e3o fizermos, ser\u00e1 pedido a outros, que ficar\u00e3o felizes por se sacrificarem.

{N}25,{/}34 Jesus refere-se a uma cena t\u00edpica do seu pa\u00eds. Habitualmente os pastores apascentam alternadamente as ovelhas brancas e as cabras, de cor castanha ou negra. Contudo, as duas ra\u00e7as nunca se misturam, e podem ver-se duas filas ou dois grupos de cor diferente. As ovelhas deveriam ser gente do povo de Deus, segundo o uso b\u00edblico. As cabras (e os cabritos), pelo contr\u00e1rio, eram figura tradicional dos dem\u00f3nios: ver nota em Lv 16,5.
O pastor {C}separa as ovelhas dos cabritos. {/}Ver Ez 34,17; mas a\u00ed os carneiros e os bodes representam os chefes.
{C}Quando o Filho do Homem vier na sua Gl\u00f3ria{/}: isto significa muito mais do que a glorifica\u00e7\u00e3o de Jesus, pois a Gl\u00f3ria e o Poder, que na B\u00edblia s\u00e3o atributos pr\u00f3prios de Deus, passam a pertencer-Lhe. O trono da Gl\u00f3ria \u00e9 {C}seu.{/}
Outros d\u00e3o maior import\u00e2ncia a um ju\u00edzo dos {C}pag\u00e3os {/}(pois a palavra utilizada por Jesus pode ser traduzida por \u00abos pag\u00e3os\u00bb, ou \u00abas na\u00e7\u00f5es\u00bb). Aqui Jesus rejeitaria completamente uma convic\u00e7\u00e3o dos judeus segundo a qual os pag\u00e3os n\u00e3o teriam parte na ressurrei\u00e7\u00e3o.
Se, pelo contr\u00e1rio, traduzirmos: {C}as na\u00e7\u00f5es{/}, esta par\u00e1bola d\u00e1-nos a entender o car\u00e1cter social do Ju\u00edzo. Os actos individuais de que se falar\u00e1 em seguida constru\u00edram uma Hist\u00f3ria. A salva\u00e7\u00e3o n\u00e3o se realiza num plano puramente espiritual, mas nestes actos de servi\u00e7o muito vulgares, sem os quais n\u00e3o haveria nomes nem Hist\u00f3ria.
{C}Recebei como heran\u00e7a o Reino. {/}V\u00ea-se que n\u00e3o h\u00e1 simetria entre a frase sobre os bons, e a condena\u00e7\u00e3o dos maus. Para os primeiros, a posse do Reino \u00e9, ao mesmo tempo, um pr\u00e9mio pelas suas obras, e a realiza\u00e7\u00e3o de um dom de Deus que, desde toda a eternidade, preparou para eles o caminho da sua justifica\u00e7\u00e3o: Ef 1,5; 2,10. Por outro lado, o fogo eterno foi preparado, n\u00e3o desde toda a eternidade, mas apenas como consequ\u00eancia do pecado dos anjos que introduziram o mal no mundo. Ningu\u00e9m foi destinado ao inferno.

{N}26,{/}19 {C}Prepararam a P\u00e1scoa. {/}Aqui h\u00e1 um problema de data. Segundo Jo\u00e3o, Jesus morreu no dia em que os judeus celebravam a P\u00e1scoa, e isso esclarece v\u00e1rios detalhes da sua Paix\u00e3o (Jo 18,28; 19,14; 19,31; 19,42). Como explicar que os sin\u00f3pticos situem a \u00daltima Ceia nesse dia de P\u00e1scoa, e n\u00e3o nos dias anteriores? As hip\u00f3teses mais s\u00e9rias s\u00e3o as seguintes:
1. Jesus teria celebrado a P\u00e1scoa de acordo com um calend\u00e1rio n\u00e3o oficial, como faziam certos grupos religiosos (os ess\u00e9nios de Qumran, por exemplo). Segundo uma tradi\u00e7\u00e3o muito antiga de v\u00e1rias igrejas orientais, Jesus teria celebrado a \u00daltima Ceia na ter\u00e7a-feira, sendo preso nessa noite, e o seu processo ter-se-ia estendido atrav\u00e9s de quarta e quinta-feira, antes de ser crucificado na manh\u00e3 de sexta-feira.
2. Jesus n\u00e3o teria celebrado a P\u00e1scoa judaica, mas uma ceia de despedida destinada a substituir a antiga P\u00e1scoa, e, por isso, a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 teria conferido a essa ceia os matizes de uma ceia pascal.
\u00c9 muito poss\u00edvel que estas duas explica\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o se excluem, sejam igualmente v\u00e1lidas e se confirmem mutuamente.

{N}26,{/}26 Note-se a sucess\u00e3o de pronunciar a b\u00ean\u00e7\u00e3o, no v. 26, e dar gra\u00e7as, no v. 27. A prop\u00f3sito de Marcos 8,1, fizemos notar o sentido dos dois relatos da multiplica\u00e7\u00e3o dos p\u00e3es, um aplicado \u00e0s comunidades crist\u00e3s no meio judeu, e o outro \u00e0s igrejas de maioria grega. Aqui \u00e9 evidente que Mateus utiliza alternadamente pronunciar a b\u00ean\u00e7\u00e3o e dar gra\u00e7as, para significar que a Ceia de Jesus ser\u00e1 continuada por todas as eucaristias do mundo judeu e pag\u00e3o.

{N}26,{/}31 O texto diz: Todos v\u00f3s {C}trope\u00e7areis em Mim{/} esta noite, ou seja: Eu vou ser para v\u00f3s causa de queda. Isto pode ser parafraseado da seguinte maneira: a vossa f\u00e9 ir\u00e1 abaixo porque a minha atitude deixar-vos-\u00e1 desconcertados, ou desorientados.

{N}26,{/}57 Os evangelhos apresentam vers\u00f5es diferentes do processo de Jesus perante as autoridades judias. Ver, a este respeito, o coment\u00e1rio a Mt 27,1.

{N}27,{/}3 A morte de Judas difere da narra\u00e7\u00e3o de Act 1,18. Este outro relato parece inspirar-se na lenda de Aicar (subjacente a v\u00e1rios par\u00e1grafos do livro de Tobias). N\u00e3o passa de um dado curioso, aqui inserido, no contexto do discurso de Pedro.

{N}27,{/}7 {C}Para cemit\u00e9rio dos estrangeiros, {/}que tinham falecido em Jerusal\u00e9m durante a peregrina\u00e7\u00e3o. A cita\u00e7\u00e3o que se segue re\u00fane tr\u00eas textos: dois de Jeremias, referindo-se, o primeiro, \u00e0 compra de um campo, o segundo, a uma visita \u00e0 casa de um oleiro; finalmente, um de Zacarias 13,7, que fala das trinta moedas.

{N}27,{/}19 \u00c9 poss\u00edvel que a esposa de Pilatos fosse uma dessas mulheres judias ou pros\u00e9litas que tinham sabido casar-se com romanos de alto n\u00edvel social.

{N}27,{/}23 Jo\u00e3o atribui estes gritos apenas aos sacerdotes e aos pol\u00edcias do Templo. Mateus, pelo contr\u00e1rio, responsabiliza a multid\u00e3o (25).

{N}27,{/}39 {C}As pessoas que passavam por ali insultavam-n'O. {/}Mateus e Marcos continuam a aludir ao Salmo 22. {C}Tu, que destr\u00f3is o Templo{/}: podemos estranhar a difus\u00e3o generalizada das palavras de Jesus sobre o Templo, mas certamente muita gente cuja religi\u00e3o se reduzia a uma f\u00e9 fan\u00e1tica no car\u00e1cter sagrado do seu Templo sentir-se-ia muito incomodada, tal como acontecera com Jeremias (Jr 26).
Ao ler Mateus e Marcos, d\u00e1 a ideia que os chefes dos Sacerdotes estavam presentes. Na realidade, Mt 41-43 expressava, no come\u00e7o, o pensamento dos chefes depois de terem conseguido a condena\u00e7\u00e3o de Jesus: falando de fora, utilizam a terceira pessoa, e n\u00e3o a segunda, como os transeuntes, que insultam Jesus. Contudo, mais tarde, o par\u00e1grafo foi inserido entre os insultos dos transeuntes e dos bandidos. As palavras que lhes s\u00e3o atribu\u00eddas encontram-se no Sl 22,9 e em Sb 2,16.

{N}27,{/}45 Muitos int\u00e9rpretes pensam que essas trevas n\u00e3o se referem a factos hist\u00f3ricos, mas que s\u00e3o simb\u00f3licas. Isto seria uma linguagem apocal\u00edptica, mostrando o ju\u00edzo de Deus estendendo-se sobre a Terra, a partir de Jesus. Tal interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa de suposi\u00e7\u00e3o: t\u00eam-se visto tantos sinais semelhantes at\u00e9 \u00e0 nossa \u00e9poca, que o texto deve ser lido tal como se apresenta, apesar de que, possivelmente, a express\u00e3o \u00abtoda a Terra\u00bb ter\u00e1 sido for\u00e7ada.
A mesma pergunta ser\u00e1 feita a prop\u00f3sito da cortina do Templo, mas aqui, se se tratasse de um facto real, seria estranho que n\u00e3o tiv\u00e9ssemos outro testemunho al\u00e9m desta breve men\u00e7\u00e3o nos evangelhos.
\u00c9 nos vers\u00edculos seguintes, pr\u00f3prios de Mateus (52-54), que se nota claramente o estilo apocal\u00edptico com a sua \u00eanfase: tremor de terra, sepulcros abertos... Mateus continuar\u00e1 com este estilo em 28,2-4, vers\u00edculos pr\u00f3prios do seu estilo.

{N}27,{/}57 A morte de Jesus teve de se consumar antes do p\u00f4r-do-sol, que inaugurava o s\u00e1bado solene. Normalmente a autoridade encarregava-se da sepultura dos condenados. Tanto \u00e9 assim, que em Jo\u00e3o s\u00e3o os chefes dos Judeus que pedem para baixar os cad\u00e1veres. Talvez Jos\u00e9 de Arimateia tenha integrado a delega\u00e7\u00e3o judia que foi pedi-lo a Pilatos.

{N}27,{/}62 Mais uma vez Mateus se destaca dos outros. \u00c9 muito poss\u00edvel que os chefes tenham apresentado uma resposta semelhante, temendo manifesta\u00e7\u00f5es dos disc\u00edpulos. Contudo podemos duvidar que tenham ouvido rumores de ressurrei\u00e7\u00e3o, visto Jesus n\u00e3o ter aflorado o assunto a n\u00e3o ser com os Doze, de uma forma muito privada, e com palavras que eles n\u00e3o entenderam.

{N}28,{/}2 {C}De repente houve um grande tremor de terra. {/}Este par\u00e1grafo de Mateus prov\u00e9m de uma tradi\u00e7\u00e3o diferente, que tamb\u00e9m encontramos no Evangelho de Pedro, um ap\u00f3crifo muito antigo. N\u00e3o descreve a reac\u00e7\u00e3o das mulheres ao comprovar o t\u00famulo vazio, mas afirma o facto da Ressurrei\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de figuras muito coloridas. Pondo de parte algumas imagens demasiado infantis que se l\u00eaem no Evangelho de Pedro, mostra, no entanto, o Anjo do Senhor, sentado sobre a pedra que acabara de fazer rodar. Elimina, portanto, tudo o que se refere ao t\u00famulo vazio. Depois, o epis\u00f3dio dos guardas parecer\u00e1 um pouco inveros\u00edmil a muitos, embora estejam dispostos a acreditar.
Em seguida, nota-se a mesma desordem no texto de Mateus: mal o anjo pede \u00e0s mulheres que partam para a Galileia ao encontro de Jesus, Ele mesmo lhes aparece. Esta apari\u00e7\u00e3o (28,9) reproduz de uma forma mais solene a apari\u00e7\u00e3o a Maria Madalena em Jo 20,11. Lucas, pelo contr\u00e1rio, recorda uma visita de Pedro ao sepulcro (24,12), a mesma referida em Jo 20,3.
Estas apari\u00e7\u00f5es em Jerusal\u00e9m, que come\u00e7am aqui e continuam em Lc 24 e Jo 20, op\u00f5em-se, sob alguns aspectos, \u00e0s apari\u00e7\u00f5es de Jesus na Galileia, relatadas em Mt 28,16; Mc 16,14; Jo 21. \u00c9-nos permitido duvidar de que tais apari\u00e7\u00f5es em Jerusal\u00e9m tenham tido lugar no pr\u00f3prio dia de P\u00e1scoa. De facto, nesse caso, por que raz\u00e3o enviaria Jesus os disc\u00edpulos \u00e0 Galileia, para logo a seguir regressarem a Jerusal\u00e9m a fim de receber o Esp\u00edrito? Al\u00e9m disso, custa acreditar que, passados apenas dois dias ap\u00f3s a morte de Jesus, j\u00e1 estivessem maduros para voltar a receber os seus ensinamentos.
Por isso muitos pensam que, tal como expressa o Evangelho ap\u00f3crifo de Pedro, terminada a festa, os disc\u00edpulos regressaram \u00e0 Galileia (enquanto dois deles partiam para Ema\u00fas). O t\u00famulo vazio n\u00e3o lhes tinha comunicado a f\u00e9, e sentiam-se desorientados. Na Galileia houve diversos encontros com Jesus, em que alguns deles duvidaram (Mt 28,17), e s\u00f3 depois, em Jerusal\u00e9m, Jesus Se lhes teria apresentado de novo.
Apesar de tudo, as afirma\u00e7\u00f5es de Jo\u00e3o, t\u00e3o preciso em tudo o que se relaciona com a Paix\u00e3o, constituem um argumento muito forte para acreditar que Jesus Se manifestou aos ap\u00f3stolos no pr\u00f3prio dia de P\u00e1scoa. Diz-se com frequ\u00eancia que n\u00e3o devemos fiar-nos de Jo\u00e3o, porque o seu texto cont\u00e9m n\u00fameros e anota\u00e7\u00f5es com valor simb\u00f3lico. Contudo, o facto de algum detalhe ter valor simb\u00f3lico, n\u00e3o impede que isso tenha realmente ocorrido. E se as apari\u00e7\u00f5es particulares a Pedro, a Maria Madalena ou aos disc\u00edpulos de Ema\u00fas sucederam tal como Jo\u00e3o e Lucas no-las contam, como deviam eles cont\u00e1-las para que acredit\u00e1ssemos neles?

{N}28,{/}11 Esta per\u00edcope pr\u00f3pria de Mateus relaciona-se certamente com um boato que corria entre os judeus acerca do roubo do corpo de Jesus. Basta a exist\u00eancia de tal boato para confirmar o que diz o Evangelho: o cad\u00e1ver tinha desaparecido e as autoridades eram incapazes de dar contas do sucedido.
O relato de Mateus, por\u00e9m, cont\u00e9m alguns pormenores pouco veros\u00edmeis. N\u00e3o esque\u00e7amos que, ao contar factos que os ap\u00f3stolos n\u00e3o tinham presenciado, o evangelista via-se obrigado a fundamentar-se em testemunhos em segunda m\u00e3o, por vezes em boatos; o facto de o seu relato ser Palavra de Deus n\u00e3o impede que os boatos n\u00e3o possam pretender uma credibilidade total.

{N}28,{/}16 Ao contr\u00e1rio das apari\u00e7\u00f5es em Jerusal\u00e9m, as apari\u00e7\u00f5es na Galileia n\u00e3o se fixam na identifica\u00e7\u00e3o de Jesus, que Se d\u00e1 a reconhecer, a tocar... A presen\u00e7a de Cristo, j\u00e1 glorificado, imp\u00f5e-se aos disc\u00edpulos reunidos.
{C}Estarei convosco. {/}Presen\u00e7a de Cristo-Deus, semelhante \u00e0 presen\u00e7a assegurada aos profetas da B\u00edblia pelo pr\u00f3prio Deus (Ex 3,12; Jz 6,16). {C}Todos os dias{/}: a presen\u00e7a activa de Jesus preencher\u00e1 todo o tempo da Hist\u00f3ria.

