{N}1,{/}1 Neste primeiro vers\u00edculo, a express\u00e3o {C}Filho de Deus {/}falta nalguns manuscritos. De facto, parece que ela joga com a declara\u00e7\u00e3o do oficial romano, que reconhecer\u00e1 Jesus como o (ou um) {C}filho de Deus, {/}na hora da sua morte. Fora desses dois lugares, apenas os dem\u00f3nios atribuem esse t\u00edtulo a Jesus (3,11 e 5,7), e Jesus manda-os calar. Parece que, para Marcos, esse t\u00edtulo que damos a Jesus com tanta facilidade, n\u00e3o passa de uma tela que nos oculta a profundidade desse mist\u00e9rio do Pai e do Filho. Depois de se ter visto morrer Jesus, e de se ter acreditado na sua ressurrei\u00e7\u00e3o, poder-se-\u00e1 chamar-Lhe Filho de Deus, sem que essa express\u00e3o oculte a sua grandeza \u00fanica.

{N}1,{/}4 O texto diz, de forma precisa: {C}um baptismo de convers\u00e3o. {/}Isto deve-se ao facto de o baptismo ser um rito cujo significado n\u00e3o \u00e9 o mesmo para todos os grupos religiosos. S\u00f3 por si, significa purifica\u00e7\u00e3o e renova\u00e7\u00e3o, mas Marcos repisa que o baptismo de Jo\u00e3o manifestava uma decis\u00e3o de reorientar a vida, como pedia Jo\u00e3o. A palavra que traduzimos por {C}convers\u00e3o {/}e que outros traduzem por {C}arrependimento {/}significa: dar meia volta na maneira de ver, de pensar e de se comportar.

{N}1,{/}5 {C}Confessavam os seus pecados. {/}Talvez fosse uma confiss\u00e3o p\u00fablica em forma de litania, no estilo das que se l\u00eaem em Ne 9,6 e Dn 9,4. Imaginemos Jo\u00e3o a enumerar todo o tipo de pecados que o povo cometia habitualmente, um pouco como Mois\u00e9s em Dt 27,16-26, e o povo a responder que n\u00e3o voltaria a faz\u00ea-los, depois do que se procedia ao baptismo daqueles que, por esses dias, tinham acorrido em peregrina\u00e7\u00e3o.

{N}1,{/}10 O texto diz: {C}os c\u00e9us rasgaram-se. {/}Era nessa \u00e9poca a forma de dizer que Jesus tinha recebido dos C\u00e9us, ou de Deus, uma vis\u00e3o. E nessa vis\u00e3o Jesus viu o Esp\u00edrito que baixava sobre Ele. Marcos afasta-se do sentido antigo do Esp\u00edrito, sopro de Deus que invadia os profetas. Aqui o Esp\u00edrito \u00e9 antes uma presen\u00e7a, ou uma \u00abun\u00e7\u00e3o\u00bb divina, que se imp\u00f5e suavemente, como faz a pomba quando pousa.

{N}1,{/}11 Ver nota em Mt 3,17.

{N}1,{/}12 {C}Satan\u00e1s {/}\u00e9 uma palavra hebraica que significa: o advers\u00e1rio, aquele que p\u00f5e entraves (Job 1,6; Zc 3,2). A sua tradu\u00e7\u00e3o em Grego \u00e9 {C}o diabo{/}, o acusador.
Segundo Marcos, Jesus foi tentado durante a sua perman\u00eancia no deserto. Ser\u00e1 correcto que os animais se Lhe submetiam, como em Is 11,6? \u00c9 poss\u00edvel que os animais selvagens simbolizem as for\u00e7as do mal: frente \u00e0s hostes do dem\u00f3nio, apresenta-se outro ex\u00e9rcito, o dos anjos, e estes d\u00e3o-Lhe de comer.

{N}1,{/}14 {C}Convertei-vos e acreditai na Boa Not\u00edcia. {/}Jesus retoma a chamada \u00e0 convers\u00e3o, ou seja, \u00e0 mudan\u00e7a de vida, situada no cora\u00e7\u00e3o da mensagem de Jo\u00e3o, mas coloca o acento t\u00f3nico num novo elemento: acreditar na Boa Not\u00edcia, ou seja, na vinda de um tempo de gra\u00e7a, de um ano de reconcilia\u00e7\u00e3o (Is 61,10. Para quem vem ter com Jesus, a abertura do cora\u00e7\u00e3o \u00e0 f\u00e9 \u00e9 t\u00e3o importante como a vontade de levar uma vida recta. Lucas explicar\u00e1 melhor esta mensagem em Lc 4,18-22.

{N}1,{/}16 Sabemos muito pouco sobre o que ter\u00e1 sido a vida de Jesus durante os dezoito meses, ou um pouco mais, que passou com os disc\u00edpulos. Jo\u00e3o teve a preocupa\u00e7\u00e3o de nos falar dos primeiros encontros (Jo 1,29-34). Marcos assinala aqui a chamada que Jesus lhes dirigiu certo dia: \u00abN\u00e3o fostes v\u00f3s que Me escolhestes\u00bb.

{N}1,{/}24 {C}Tu \u00e9s o Santo de Deus! {/}Jo\u00e3o colocar\u00e1 estas mesmas palavras na boca de Pedro. {C}Santo {/}deve ser entendido como \u00abconsagrado\u00bb e tem mais ou menos o mesmo sentido que o \u00abMessias\u00bb, aquele que foi consagrado por uma un\u00e7\u00e3o.

{N}1,{/}26 {N}MANDAVA NOS ESP\u00cdRITOS IMPUROS{/}
O texto original fala-nos de um {C}esp\u00edrito impuro{/}, o que, em certo sentido, quer dizer um esp\u00edrito mau. Impuro \u00e9 todo o que \u00e9 inconcili\u00e1vel com o culto de Deus. Uma pessoa impura n\u00e3o est\u00e1 em pecado, mas n\u00e3o pode participar num acto religioso; era o caso dos leprosos. Em muitos lugares, Lucas fala-nos de esp\u00edritos maus (7,21; 8,2); quer dizer que essa possess\u00e3o envolvia uma escravid\u00e3o ou uma degrada\u00e7\u00e3o da pessoa possu\u00edda. Contudo, os evangelhos falam-nos com maior frequ\u00eancia de {C}dem\u00f3nios. {/}N\u00e3o esque\u00e7amos que em grego a palavra {C}dem\u00f3nio {/}designava um esp\u00edrito n\u00e3o necessariamente mau: havia-os tamb\u00e9m para os artistas e os g\u00e9nios. No evangelho, essa palavra equivale por vezes a {C}esp\u00edrito impuro{/}, mas muitas vezes refere-se pura e simplesmente a doen\u00e7as tais como a surdez, que implicava dist\u00farbios psicol\u00f3gicos: \u00e9 o caso de Mc 1,32.
Conv\u00e9m ter presente que os esp\u00edritos impuros e as possess\u00f5es de toda a esp\u00e9cie ocupavam um lugar importante entre as preocupa\u00e7\u00f5es da sociedade judia do tempo de Jesus. Recomendava-se, por exemplo, que n\u00e3o se sa\u00edsse de noite sem cobrir a cabe\u00e7a, como protec\u00e7\u00e3o contra os malef\u00edcios que algumas aves nocturnas poderiam lan\u00e7ar. J\u00e1 havia exorcistas que expulsavam os dem\u00f3nios \u00e0 for\u00e7a de ora\u00e7\u00f5es. Existia tamb\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o, que continuaria depois na Igreja, de exigir ao dem\u00f3nio, tentando for\u00e7\u00e1-lo, que dissesse o seu nome, o que outorgava um certo poder sobre ele. Do mesmo modo, quando se deparava com um verdadeiro dem\u00f3nio, este encarregava-se de dizer ao exorcista verdades que podiam deix\u00e1-lo mal parado ou derrot\u00e1-lo. Jesus entrou, pois, numa pr\u00e1tica que j\u00e1 existia, tal como aproveitou a liberdade de palavra que tinham os homens reunidos na sinagoga, ao s\u00e1bado, mas imediatamente se nota n'Ele uma autoridade e uma for\u00e7a impressionantes.

{N}1,{/}29 Estamos em Cafarnaum, povoa\u00e7\u00e3o situada nas margens do lago, junto \u00e0 fronteira entre o territ\u00f3rio de Herodes Antipas e o de seu irm\u00e3o Herodes Filipe (Lc 3,1). Nesse lugar foram efectuadas escava\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas que deixaram a descoberto as ru\u00ednas das casas do tempo de Jesus. Foi descoberto um s\u00edtio onde foram sendo constru\u00eddas igrejas sucessivas sobre os restos de uma casa circular que foi identificada quase com certeza como {C}a casa{/} (3,20), ou seja, a casa de Pedro e da sua fam\u00edlia, onde tamb\u00e9m morava Andr\u00e9 e a sogra de Pedro.
\u00c9 muito prov\u00e1vel que a presen\u00e7a e a actividade de Jesus nessa casa tenham sido, primeiro para Pedro e Andr\u00e9, e depois para os outros, um modelo do que deveriam fazer quando fossem mission\u00e1rios na Galileia (Mc 3,10).

{N}1,{/}44 Jesus n\u00e3o podia ignorar as leis sobre a lepra (Lv 14). Actua como um bom judeu, preocupado em observar prescri\u00e7\u00f5es de car\u00e1cter tanto civil como religioso.

{N}2,{/}1 {C}E Jesus anunciava a Palavra. A Palavra {/}\u00e9 um dos termos do vocabul\u00e1rio da Igreja primitiva. Designava naquele momento a proclama\u00e7\u00e3o da mensagem crist\u00e3 (Act 6,4; 10,44; 14,25; Rm 10,8). Para o evangelista, \u00e9 claro que Jesus cumpre na casa onde se aloja o minist\u00e9rio de ensino que \u00e9 pr\u00f3prio do mission\u00e1rio. Por um lado, \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus, tal como esta se encontra nas leituras do Antigo Testamento; \u00e9 tamb\u00e9m a inspira\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica que Lhe permite fazer a aplica\u00e7\u00e3o viva da mesma, tal como se v\u00ea em Lc 4,21. Tanto o Evangelho como os escritos apost\u00f3licos mostram que Jesus, e depois a Igreja, tinham renovado a tradi\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica: n\u00e3o se tratava simplesmente de repetir textos venerados; pelo contr\u00e1rio, estes serviam de apoio para confirmar que tinha come\u00e7ado uma nova era.

{N}2,{/}10 {C}O Filho do Homem tem poder na Terra para perdoar pecados. {/}Para entender esta frase, devemos interrogar-nos primeiro se foi pronunciada pelo pr\u00f3prio Jesus, e se Ele a ter\u00e1 pronunciado neste momento. \u00c9 um facto que aparece igual nos tr\u00eas evangelhos sin\u00f3pticos: certamente fazia parte da tradi\u00e7\u00e3o primitiva. Compreend\u00ea-la-emos melhor se recordarmos que os judeus dessa \u00e9poca n\u00e3o costumavam pronunciar o nome de Deus, substituindo-o por \u00abos C\u00e9us\u00bb. Os que criticavam Jesus, ter\u00e3o dito, muito provavelmente: \u00abQuem pode perdoar pecados, a n\u00e3o ser os C\u00e9us?\u00bb, e Jesus respondeu: \u00abMas o Filho do Homem tem poder na Terra para perdoar pecados...\u00bb, tal como se diz em Mt 16,19 e 18,18.
Na religi\u00e3o judaica ningu\u00e9m tinha poder para perdoar os pecados; o sacerdote s\u00f3 podia atestar que n\u00e3o tinha havido pecado ou que o pecado tinha sido reparado atrav\u00e9s da restitui\u00e7\u00e3o ou do sacrif\u00edcio. O que Jesus afirma em primeiro lugar, e que toda a gente pode compreender, \u00e9 o perd\u00e3o concedido na terra, e ratificado por Deus; contudo, di-lo de tal modo que atribui a Si pr\u00f3prio uma autoridade que ningu\u00e9m se atreveria a reclamar.

{N}2,{/}16 Este pormenor ajuda-nos a captar o ambiente onde Jesus Se encontrava. A cr\u00edtica n\u00e3o prov\u00e9m de fariseus que, do exterior, viriam fazer observa\u00e7\u00f5es aos disc\u00edpulos. No in\u00edcio, a prega\u00e7\u00e3o de Jesus constitu\u00eda um assunto local da Galileia, e a institui\u00e7\u00e3o dos fariseus ainda n\u00e3o se tinha sentido tocada. V\u00e1rios doutores da Lei dessa prov\u00edncia interessam-se pela campanha levada a cabo por Jesus, e partilham as suas orienta\u00e7\u00f5es, estando presentes entre os disc\u00edpulos: s\u00e3o convidados com Jesus. Mas apercebem-se imediatamente que toda a gente vai ficar em estado de impureza devido a essa refei\u00e7\u00e3o com pecadores, e em casa de pecadores, e comunicam aos outros a sua inquieta\u00e7\u00e3o: \u00abPara onde nos leva Ele? Vamos ter de nos purificar outra vez!\u00bb

{N}3,{/}5 O texto original diz: entristecido por ver {C}o endurecimento do seu cora\u00e7\u00e3o. {/}\u00c9 o momento de recordar que, na cultura hebraica, {C}o cora\u00e7\u00e3o{/} significa a consci\u00eancia ou o mundo interior. Estes bons crentes n\u00e3o t\u00eam um cora\u00e7\u00e3o mau, mas est\u00e3o prisioneiros dos seus princ\u00edpios, e Jesus entristece-se ao v\u00ea-los {C}t\u00e3o pouco abertos. {/}Embora o facto de se ter o esp\u00edrito fechado n\u00e3o seja pecado, por si s\u00f3, isso leva, no entanto, as pessoas a condenar facilmente quem n\u00e3o pensa como elas, e assim utilizar\u00e3o todos os meios para se libertarem de quem semeia inquieta\u00e7\u00e3o nos esp\u00edritos.

{N}3,{/}14 V\u00e1rios manuscritos antigos acrescentam aqui, a seguir a {C}dos Doze{/}, as seguintes palavras: {C}aos quais nomeou ap\u00f3stolos. {/}\u00c9 muito prov\u00e1vel que tenham sido copiadas de Lc 6,13, pensando que, se Lucas as anotou, ter\u00e1 sido porque Jesus as pronunciou e, portanto, deviam tamb\u00e9m fazer parte do relato de Marcos. \u00c9 muito mais prov\u00e1vel que Lucas tenha acrescentado {C}aos quais deu o nome de ap\u00f3stolos{/}, visto que era costume falar dos Doze como de {C}os ap\u00f3stolos. {/}Para Jesus tratava-se apenas dos {C}Doze, {/}e o evangelho conservou quase sempre esse termo (veja-se, ainda 1Cor 15,5). A palavra {C}ap\u00f3stolos{/}, que \u00e9 grega, foi certamente introduzida na primeira comunidade crist\u00e3.

{N}3,{/}31 {N}OS IRM\u00c3OS DE JESUS{/}
Aqui pretendemos apenas completar o que j\u00e1 dissemos no coment\u00e1rio a este vers\u00edculo 3,31. Podemos estranhar que os testemunhos do evangelho a este respeito sejam habitualmente interpretados com t\u00e3o pouca imparcialidade. Ser\u00e1 porque a insist\u00eancia (e por vezes os excessos) da prega\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica referente a Maria s\u00e3o rebatidos por um exame mais objectivo dos textos? O que chama mais a aten\u00e7\u00e3o, \u00e9 que, neste ponto, muitos negam testemunhos e dados sem mais argumentos que alguns \u00abtalvez\u00bb e \u00abpode-se pensar\u00bb.
Recordemos primeiro que \u00abMaria sempre virgem\u00bb n\u00e3o \u00e9 apenas uma {C}tradi\u00e7\u00e3o antiga{/}, como inclusivamente tem sido escrito por autores cat\u00f3licos, mas faz parte da f\u00e9 e do Credo. N\u00e3o se trata de um sentimento piedoso em rela\u00e7\u00e3o a factos discut\u00edveis que seriam alheios \u00e0 revela\u00e7\u00e3o. Se Deus-Filho \u00danico Se fez realmente homem, e foi concebido atrav\u00e9s de uma acto livre, digno simultaneamente de Deus e de uma mulher consciente da gra\u00e7a \u00fanica de que estava a ser objecto, a que viria a ser sua m\u00e3e no sentido mais forte da palavra, \u00e9 imposs\u00edvel que Deus n\u00e3o a tenha feito sua de forma exclusiva e definitiva. Nenhuma pessoa que tenha tido uma experi\u00eancia espiritual forte se atrever\u00e1 a p\u00f4r este ponto em quest\u00e3o. E \u00e9 este sentimento (referimo-nos a uma intui\u00e7\u00e3o da verdade divina) que est\u00e1 subjacente \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o constante da f\u00e9 crist\u00e3. Esclarecer plenamente este ponto n\u00e3o \u00e9, portanto, outra coisa sen\u00e3o descobrir o rosto de Deus tal como Ele Se manifestou nas Escrituras. E se outras Igrejas continuam a desconhecer este aspecto das maravilhas divinas, isso n\u00e3o \u00e9 raz\u00e3o suficiente para que o calemos.
Ora bem, ser\u00e3o amb\u00edguos, estes textos? Dissemos que se os irm\u00e3os de Jesus fossem filhos de sua M\u00e3e, o autor deveria ter escrito: \u00abtua M\u00e3e e os filhos de tua M\u00e3e\u00bb. Mas isto n\u00e3o se l\u00ea em parte nenhuma. Ainda mais, se tr\u00eas evangelhos quiseram recordar a resposta de Jesus nesse momento, por que raz\u00e3o n\u00e3o a confirmaram com um texto que se ajustava muito bem ao caso, e que todos conheciam: \u00abtornei-me estrangeiro para os meus irm\u00e3os, um estranho para os filhos de minha m\u00e3e\u00bb (Sl 69,9). Este salmo \u00e9 citado em mais de quinze lugares do N.T., mas nunca aparece o vers\u00edculo 9, aquele que mais devia chamar a aten\u00e7\u00e3o da Igreja se Jesus tivesse tido irm\u00e3os.
S\u00e3o muito d\u00e9beis os argumentos que negam que a palavra {C}irm\u00e3o {/}designe aqui parentes. O \u00fanico que encontr\u00e1mos foi o que se segue. Certo exegeta descobre que em determinado lugar do N.T. (e apenas nesse lugar), se encontra a palavra grega {C}primo {/}(Cl 4,10) e conclui: se Paulo a usou nesse lugar, porque n\u00e3o a ter\u00e1 utilizado ao falar dos irm\u00e3os do Senhor, se estes fossem realmente primos? Paulo utilizou-a simplesmente nos Colossenses porque os seus correspondentes gregos conheciam Aristarco como {C}primo de Barnab\u00e9{/}, mas noutro lugar falou dos {C}irm\u00e3os {/}do Senhor, porque era esse o nome que todos davam aos primos de Jesus num contexto aramaico. Al\u00e9m disso, como j\u00e1 referimos, os textos gregos da B\u00edblia conservaram sempre o termo {C}irm\u00e3o{/} quando o encontravam no texto hebraico ou aramaico.
Fal\u00e1mos do peso que tem o testemunho de Mc 15,40, apoiado por Mc 15,47 e Mt 27,56 em rela\u00e7\u00e3o a Maria, m\u00e3e de Tiago e de Jos\u00e9. E basta isso para que v\u00e1rios exegetas proponham conjecturas e hip\u00f3teses para impugnar esta afirma\u00e7\u00e3o. Ao fim e ao cabo, s\u00f3 nos podemos interrogar por que raz\u00e3o a virgindade de Maria e a men\u00e7\u00e3o do seu filho \u00fanico provocam tanto mal-estar a muita gente s\u00e9ria e inteligente. \u00abOdiaram-Me sem motivo\u00bb, diz Jo\u00e3o 15,25.

{N}4,{/}16 Toda esta interpreta\u00e7\u00e3o da par\u00e1bola do Semeador conservava a marca do uso que dela se fazia durante a prepara\u00e7\u00e3o dos novos crentes para o baptismo: os catequistas queriam que os auditores reflectissem sobre as disposi\u00e7\u00f5es com que acolhiam a doutrina da f\u00e9. Jesus, pelo contr\u00e1rio, deve ter insistido noutro aspecto: mesmo quando as sementes deparam com muitas dificuldades, os mission\u00e1rios devem ter esperan\u00e7a na colheita.

{N}5,{/}40 {C}Talit\u00e1 c\u00fami! {/}Estas palavras foram proferidas por Jesus, que falava aramaico, como todos os judeus da Palestina. Marcos conservou-nos algumas outras palavras de Jesus na sua pr\u00f3pria l\u00edngua (7,34; 15,34).
H\u00e1 aqui um dado interessante para os que gostam de averiguar qual era o idioma original dos nossos evangelhos, porque os nossos textos do Novo Testamento est\u00e3o todos em grego, mas certamente muitas p\u00e1ginas do evangelho foram traduzidas de textos anteriores, redigidas numa l\u00edngua semita. Nessa \u00e9poca, eram dois os idiomas semitas: o {C}aramaico{/}, falado pelo povo, e o {C}hebraico, {/}que era a l\u00edngua sagrada. Aqui Marcos cita-nos o aramaico de Jesus. Se reproduzia um relato primitivo redigido em aramaico, n\u00e3o havia raz\u00e3o nenhuma para que quisesse conservar essas duas palavras que em nada se distinguiam do resto. Mas se, pelo contr\u00e1rio, o relato primitivo foi redigido em hebraico, idioma que n\u00e3o se falava mas que se utilizava em textos sagrados, compreender-se-\u00e1 melhor que o seu redactor tenha querido conservar algumas palavras de Jesus, que n\u00e3o precisava de traduzir porque toda a gente as entendia. Depois Marcos ter\u00e1 traduzido para Grego tudo o que estava em hebraico, respeitando as palavras aramaicas do texto, mas acrescentando a sua tradu\u00e7\u00e3o, para os gregos que n\u00e3o as entendiam. Isto viria demonstrar que os primeiros escritos, que constitu\u00edram a base dos nossos evangelhos, estavam em hebraico, o que seria uma prova de que, desde o come\u00e7o, esses testemunhos, directamente provenientes dos ap\u00f3stolos, eram considerados escritos sagrados.

{N}6,{/}1 {C}Este homem n\u00e3o \u00e9 o carpinteiro...?{/} \u00c9 este o \u00fanico lugar em que Jesus \u00e9 chamado {C}filho de Maria. {/}Na boca dos judeus, deveriam chamar-Lhe {C}filho de Jos\u00e9, {/}seria um facto estranho, talvez at\u00e9 um insulto. Mas manuscritos antigos cont\u00eam: o filho do carpinteiro, tal como em Mt 13,55. Al\u00e9m disso, Or\u00edgenes afirma que em nenhuma parte do evangelho Jesus \u00e9 chamado o carpinteiro. Outros manuscritos cont\u00eam: o filho do carpinteiro e de Maria. O texto actual deve ter sido modificado por respeito a Maria.

{N}6,{/}45 O Evangelho de Jo\u00e3o situa neste lugar o discurso sobre o p\u00e3o da vida e a ruptura verificada entre Jesus e a maior parte dos seus disc\u00edpulos. O presente vers\u00edculo confirma-nos que a\u00ed teve lugar a primeira das decep\u00e7\u00f5es das quais resultaria o isolamento de Jesus e o triunfo dos seus advers\u00e1rios. Jesus atravessa o lago e aproveita esta ocasi\u00e3o para uma breve miss\u00e3o na Dec\u00e1pole, territ\u00f3rio povoado por uma maioria de gregos, quer dizer, por esses grupos \u00e9tnicos t\u00e3o numerosos na Palestina que, por n\u00e3o serem judeus, tinham adoptado a l\u00edngua e a cultura gregas. Jesus reconhece, em 7,24, que a sua miss\u00e3o limita-se \u00e0s ovelhas perdidas de Israel, mas \u00e9 poss\u00edvel que nos equivoc\u00e1ssemos se pretend\u00eassemos conferir sempre um car\u00e1cter absoluto e uma extens\u00e3o ilimitada a cada um dos seus ditos.

{N}6,{/}52 {C}N\u00e3o tinham compreendido o acontecimento dos p\u00e3es{/}: n\u00e3o tinham entendido que Jesus era dono da natureza.

{N}6,{/}56 {C}Tocar a franja do seu manto. {/}Jesus usava um manto com franjas nas quatro pontas, como pedia a Lei (Nm 15,38), que deviam ser para todos uma recorda\u00e7\u00e3o da Lei.

{N}7,{/}1 Toda a presente sec\u00e7\u00e3o (cap. 6-9) comum a Marcos e Mateus cont\u00e9m factos agrupados muito antes de os evangelhos terem sido escritos, muito possivelmente com um fim catequ\u00e9tico. O presente epis\u00f3dio encerra um ensinamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 verdadeira pureza requerida do crist\u00e3o; como vem na sequ\u00eancia da multiplica\u00e7\u00e3o dos p\u00e3es, pode ser entendida como uma prepara\u00e7\u00e3o para a eucaristia. Al\u00e9m da frase de Jesus que rejeita a discrimina\u00e7\u00e3o entre o puro e o impuro, fundamental na Lei judaica, prepara a entrada na Igreja dos povos pag\u00e3os que estas pr\u00e1ticas de pureza teriam mantido fora da Igreja.
Jesus discute com uma delega\u00e7\u00e3o de doutores da Lei enviados de Jerusal\u00e9m, tal como em 3,22; talvez o presente facto tenha sucedido na mesma ocasi\u00e3o. Em 7,3-4, Marcos comenta o facto para os seus leitores romanos, pouco conhecedores das tradi\u00e7\u00f5es judaicas.

{N}7,{/}5 {C}A tradi\u00e7\u00e3o dos antepassados. {/}\u00c9 o nome que os doutores da Lei d\u00e3o \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es que se v\u00e3o formando entre eles e que s\u00e3o transmitidas por via oral. S\u00e3o ditas \u00abdos antepassados\u00bb para lhes conferir alguma autoridade, e \u00e9 esta autoridade que Jesus p\u00f5e em quest\u00e3o. Jesus ataca estas tradi\u00e7\u00f5es num ponto que indignava muitos judeus do seu tempo. N\u00e3o se trata de que Jesus seja um \u00abprotestante\u00bb de outros tempos e oponha a B\u00edblia, como \u00fanica fonte da revela\u00e7\u00e3o, \u00e0 Tradi\u00e7\u00e3o da comunidade religiosa de Israel. Jesus aceita, tal como os fariseus, a interpreta\u00e7\u00e3o oficial da B\u00edblia (Mt 23,2), mas n\u00e3o se precipita a chamar Tradi\u00e7\u00e3o aos ensinamentos dos mestres do momento.
Em seguida Jesus profere a famosa frase: {C}o que entra no homem... {/}No caso presente, refere-se aos alimentos comidos com m\u00e3os impuras. Nessa \u00e9poca, iam-se multiplicando os ritos de purifica\u00e7\u00e3o com \u00e1gua, quer antes das refei\u00e7\u00f5es, quer durante as mesmas (Jo 2,6). Contudo, por certo, a frase de Jesus, na sua express\u00e3o t\u00e3o universal, abrange a discrimina\u00e7\u00e3o entre alimentos puros e impuros (Lv 11).
{C}O que entra de fora {/}\u00e9 o alimento; {C}o que sai da pessoa {/}s\u00e3o as inten\u00e7\u00f5es.
{C}Porque n\u00e3o entra no seu cora\u00e7\u00e3o mas no est\u00f4mago{/}: Jesus desmistifica a linguagem e separa o biol\u00f3gico do interior ou espiritual. Op\u00f5e cora\u00e7\u00e3o e est\u00f4mago, tal como Paulo opor\u00e1 o est\u00f4mago e o corpo em 1Cor 6,13.

{N}7,{/}17 O texto diz: {C}interrogaram-n'O sobre esta par\u00e1bola. {/}Esta frase \u00e9 par\u00e1bola porquanto nos faz descobrir um aspecto importante do Reino de Deus, e s\u00f3 com o tempo se entender\u00e3o todas as suas projec\u00e7\u00f5es. Toda a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 pura e o pecado nasce do homem. Isto \u00e9 t\u00e3o revolucion\u00e1rio que s\u00f3 em particular Jesus poder\u00e1 explic\u00e1-lo aos seus disc\u00edpulos. Al\u00e9m disso, apesar de o ter explicado, a Igreja precisar\u00e1 de v\u00e1rios, conflitos e revela\u00e7\u00f5es para da\u00ed tirar as suas conclus\u00f5es (Act 10-11; Ef 3,5; Gl 2,11).

{N}7,{/}19 O texto da segunda parte deste vers\u00edculo poderia traduzir-se por: \u00ab...converte-se em esterco - de facto, declarou puros todos os alimentos\u00bb, ou ainda \u00ab...converte-se em esterco e assim todos os alimentos s\u00e3o purificados\u00bb.
Com a segunda tradu\u00e7\u00e3o a frase soa muito melhor, mas n\u00e3o se v\u00ea o que Jesus queria dizer.
Com a primeira tradu\u00e7\u00e3o, que adoptamos, Marcos faz um par\u00eantesis gramatical pouco correcto, de onde tira a conclus\u00e3o do vers\u00edculo 18, uma conclus\u00e3o que Jesus n\u00e3o ter\u00e1 certamente formulado. De facto, ao afirmar que todos os alimentos s\u00e3o puros, Jesus teria armado um esc\u00e2ndalo tremendo, sem necessidade. Ele pr\u00f3prio observava as leis de pureza, tal como o fazia o povo, quer dizer, sem os mil pormenores acrescentados pela tradi\u00e7\u00e3o, aos quais estavam muito apegados os fariseus. Este ponto n\u00e3o ter\u00e1 import\u00e2ncia pr\u00e1tica enquanto os judeus n\u00e3o se tornarem crist\u00e3os; nessa altura a Igreja dir-lhes-\u00e1 que passam a ser livres no que se refere \u00e0s leis pr\u00f3prias do povo judeu (Act 15).

{N}7,{/}31 Jesus continua a caminhar junto \u00e0s fronteiras da Galileia. Na Dec\u00e1pole encontra-Se num territ\u00f3rio cuja popula\u00e7\u00e3o e maioritariamente pag\u00e3. {C}Davam gl\u00f3ria ao Deus de Israel{/}: esta express\u00e3o, que conv\u00e9m \u00e0 gente n\u00e3o israelita, anuncia o tempo em que os pag\u00e3os evangelizados pela Igreja dar\u00e3o gl\u00f3ria ao Deus de Israel: Rm 15,7-11; Ef 2,11-13).
O milagre do surdo-mudo que lemos aqui segue um esquema parecido com o de 8,22: ambos se completam para mostrar a realiza\u00e7\u00e3o de Is 35,5. S\u00e3o apresentados como figura da cura que recebem os disc\u00edpulos de Jesus ao serem baptizados. {C}Efat\u00e1{/}: palavra de Jesus, conservada em aramaico.

{N}8,{/}10 Dalmanuta: localidade t\u00e3o desconhecida como Magad\u00e3, que aparece em Mt 15,39.

{N}8,{/}12 {N}O BOM USO DOS SINAIS{/}
{C}A esta gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 dado nenhum sinal. {/}Na realidade, Jesus deu muitos sinais (Jo 20,30) e Jo\u00e3o insiste no facto de que os seus milagres fazem parte dos sinais que permitem reconhec\u00ea-l'O (Jo 10,38). Contudo, aqui d\u00e1 a impress\u00e3o que Jesus Se nega a faz\u00ea-los porque tentam for\u00e7\u00e1-l'O a isso (Jo 6,30) e porque n\u00e3o se d\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para passar do sinal \u00e0 f\u00e9 (Jo 6,26).
H\u00e1 outras passagens, por\u00e9m, onde Jesus Se queixa de precisarmos sempre de sinais para acreditar (Jo 4,48). Para Ele, o sinal que Deus d\u00e1, tal como a ora\u00e7\u00e3o escutada, \u00e9 como o dom de uma pessoa que se revela, e \u00e9 assim que devemos acolh\u00ea-lo (Jo 16,24). Parece muitas vezes que, nas nossas rela\u00e7\u00f5es com Deus, consideramos a confian\u00e7a como uma coisa dif\u00edcil e dolorosa, e parece-nos justo que Deus n\u00e3o a reclame sem ter dado provas claras da sua exist\u00eancia, de que nos ouve e de que os nossos servi\u00e7os ou obedi\u00eancia ser\u00e3o recompensados. Contudo, desde o momento em que Lhe exigimos tais garantias, negamos-Lhe a \u00fanica coisa que Lhe interessa. Que gosto sentir\u00e1 Deus em que cumpramos as nossas obriga\u00e7\u00f5es religiosas ou realizemos boas obras? Isso em nada O afecta. Pelo contr\u00e1rio, toda a sua alegria (e esta palavra n\u00e3o \u00e9 demasiado forte), consiste em come\u00e7ar j\u00e1 aqui na Terra esse jogo do amor rec\u00edproco em que somos capazes de dar um passo adiante para ver como reagir\u00e1, e um segundo, e um d\u00e9cimo, se Ele Se obstina em n\u00e3o responder. \u00c9 assim que nos aproximamos da vida eterna.

{N}8,{/}34 Nestes vers\u00edculos t\u00e3o decisivos, temos de utilizar v\u00e1rias vezes {C}vida {/}para traduzir {C}alma{/}, termo que aparece no original, pois Jesus utiliza-a em sentido hebraico, em que a alma \u00e9 tamb\u00e9m {C}a vida {/}ou a pr\u00f3pria {C}pessoa. {/}No vers\u00edculo 35 aparece {C}salvar a sua alma {/}(no sentido de conserv\u00e1-la) e {C}perder a sua alma {/}(no sentido de se arriscar, de se sacrificar); no vers\u00edculo 36, {C}causar dano \u00e0 sua alma, {/}ou perder a pr\u00f3pria vida, e no vers\u00edculo 37, resgatar a sua alma, ou dar em troca da sua vida - em todos estes casos cada um pode escolher entre {C}si mesmo {/}e {C}a sua vida.{/}
{C}De que serve ao homem...? {/}As palavras que se seguem aludem a um ju\u00edzo, ou a uma hora de verdade, em que cada um poder\u00e1 comprovar o \u00eaxito ou o fracasso da sua pr\u00f3pria exist\u00eancia.

{N}8,{/}38 {C}O Filho do Homem. {/}Este t\u00edtulo orienta-nos para a vinda gloriosa de Cristo. Ele vir\u00e1 {C}na Gl\u00f3ria do seu Pai{/}, um pouco como em Dn 7,13, mas aqui trata-se do seu Pai. Rodeados dos seus santos anjos: os anjos de Deus, que s\u00e3o santos porquanto recebem d'Ele a sua miss\u00e3o.

{N}9,{/}1 {C}Alguns dos que est\u00e3o aqui... {/}No texto actual dos evangelhos, esta frase \u00e9 interpretada como um an\u00fancio da Transfigura\u00e7\u00e3o: nesta, que \u00e9 narrada imediatamente a seguir, alguns dos ap\u00f3stolos viram o Reino identificado com Jesus glorificado.
Mas esta frase tamb\u00e9m se relaciona com o texto que a precede (8,38). Depois de anunciar a sua vinda gloriosa, Jesus afirma que alguns dos presentes presenciar\u00e3o esta vinda. Ent\u00e3o a express\u00e3o:{C} vindo com poder{/} deveria entender-se como a vinda de Cristo Juiz. Por isso v\u00e1rios autores pensam que Jesus Se referia \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m, que v\u00e1rios dos seus disc\u00edpulos presenciariam e que, para Ele, era como que a antecipa\u00e7\u00e3o do ju\u00edzo. Segundo outros, Jesus afirmava que voltaria em breve e, nisso, estava enganado.
Por essa raz\u00e3o, cabe-nos dizer que talvez Lucas se aproxime mais do sentido primitivo: alguns aqui presentes {C}n\u00e3o morrer\u00e3o sem terem visto o Reino de Deus {/}(Lc 8,27), o que se entende muito bem, se for referido \u00e1 Transfigura\u00e7\u00e3o. Jesus deu a entender por v\u00e1rias vezes que o Reino j\u00e1 tinha chegado e que n\u00e3o se devia esperar a sua vinda como a de um acontecimento estrondoso (Lc 17,20).
Por outro lado, nos tr\u00eas evangelhos sin\u00f3pticos, a Transfigura\u00e7\u00e3o \u00e9, a par do baptismo de Jesus, administrado por Jo\u00e3o, um dos poucos sinais divinos concedidos a Jesus: ambos assinalam o come\u00e7o de uma nova etapa da sua miss\u00e3o. A Transfigura\u00e7\u00e3o anuncia a Paix\u00e3o j\u00e1 muito pr\u00f3xima; Jesus di-lo com toda a clareza em Lc 9,31, e \u00e9 essa a raz\u00e3o da advert\u00eancia de Jesus aos seus ap\u00f3stolos no v. 9 de Marcos. Sabendo Jesus que ia produzir-se esta manifesta\u00e7\u00e3o gloriosa, e tendo decidido que apenas tr\u00eas dos ap\u00f3stolos O acompanhariam, este an\u00fancio antecipado permitiria aos restantes receber posteriormente o testemunho dos tr\u00eas privilegiados.
\u00c9 muito poss\u00edvel que, nos tempos que se seguiram, a espera de uma pr\u00f3xima vinda de Jesus tenha levado a modificar este dito de Jesus, referindo-o a essa vinda. Em seguida esse dito, j\u00e1 com o novo sentido, teria trazido para Marcos e Lucas a frase anterior: Se algu\u00e9m se envergonhar... De qualquer forma, esta frase um tanto enigm\u00e1tica est\u00e1 relacionada com a espera da primeira gera\u00e7\u00e3o crist\u00e3 (1Cor 15,51; 1Ts 4,15) e com os boatos que corriam acerca do ap\u00f3stolo Jo\u00e3o (Jo 21,23). Al\u00e9m disso, \u00e9 de notar que, apesar das d\u00favidas sobre a sua origem, os evangelistas conservaram-na.

{N}9,{/}13 {C}Como est\u00e1 escrito nas Escrituras acerca dele{/}. Nenhum texto se refere directamente \u00e0 morte de Elias. Pode ser que esta anota\u00e7\u00e3o seja apenas uma f\u00f3rmula para dizer: trataram-no segundo o que Deus tinha previsto e ordenado. Ser\u00e1 melhor reconhecermos aqui a maneira pr\u00f3pria de Jesus de interpretar a Escritura. As profecias referentes ao Servo de Jav\u00e9, que para Jesus se encontravam no centro da profecia do Antigo Testamento, aplicavam-se tanto aos seus ap\u00f3stolos e profetas como a Si pr\u00f3prio.

{N}9,{/}14 N\u00e3o por acaso, os disc\u00edpulos encontram-se em apuros enquanto Jesus est\u00e1 no Monte. J\u00e1 quando Mois\u00e9s subira ao Sinai, o dem\u00f3nio quisera tirar a sua desforra, e sucedeu o epis\u00f3dio do Bezerro de Ouro.
Cada evangelista trata este epis\u00f3dio segundo o seu estilo pr\u00f3prio. Marcos desenvolve um relato semelhante ao de Lucas com a ajuda de outras fontes (muito possivelmente a catequese de Pedro). Nota-se a dificuldade em integrar tudo num \u00fanico relato: os par\u00e1grafos 20-27 enquadram-se mal depois de 14-19. Depois da pergunta de Jesus em 16, \u00e9 de esperar uma resposta do povo, resposta que merece a declara\u00e7\u00e3o de Jesus em 19. Por outro lado, a s\u00faplica do pai, em 17-18, tem a sua resposta em 21-24. Fala-se do dem\u00f3nio, de um esp\u00edrito mudo (17), surdo-mudo (25). \u00c9 um dem\u00f3nio rebelde, que n\u00e3o quer escutar as ordens do exorcista e que se recusa a dizer o seu nome, tornando-se assim mais dif\u00edcil expuls\u00e1-lo.

{N}9,{/}29 O presente facto vem temperar o entusiasmo que poderiam sentir os disc\u00edpulos de Jesus ao ver os seus milagres. Jesus acabara de repreender Pedro, que s\u00f3 sabia expressar a sua confian\u00e7a no triunfo do Messias. Agora a advert\u00eancia vale tanto para os ap\u00f3stolos como para todos os disc\u00edpulos que lhes suceder\u00e3o: que n\u00e3o confiem demasiado nos milagres que Jesus promete a quem tiver um gr\u00e3ozinho de f\u00e9, pois, tal como os seus contempor\u00e2neos, tamb\u00e9m eles s\u00e3o uma gente incr\u00e9dula. {C}Com a ora\u00e7\u00e3o, {/}ou: com a ora\u00e7\u00e3o {C}e o jejum{/}? Os manuscritos dividem-se sobre este ponto, e \u00e9 quase imposs\u00edvel saber qual foi a palavra aut\u00eantica, porque Jesus nunca insistiu sobre o valor do jejum. Talvez o prescrevesse no caso dos exorcismos.

{N}9,{/}33 H\u00e1 duas coisas diferentes neste par\u00e1grafo: a quest\u00e3o de saber quem \u00e9 o maior, e o acolhimento de Jesus na pessoa dos pequenos.
\u00c9 interessante comparar este par\u00e1grafo com as vers\u00f5es de Mateus e de Lucas, porque cada um dos evangelistas tem a sua maneira pr\u00f3pria de situar essas duas quest\u00f5es. V\u00eam, em primeiro, os textos paralelos de Mt 1-10 e Lc 9,46-48. Depois a atitude de Tiago e Jo\u00e3o, em Mt 20,20 e Mc 10,35, que \u00e9 substitu\u00edda por uma disputa equivalente em Lc 22,24. Por \u00faltimo temos a resposta de Jesus, \u00e0queles a quem n\u00e3o agrada v\u00ea-l'O a aben\u00e7oar as crian\u00e7as: Mt 19,13; Mc 10,13; Lc 18,15.
No presente par\u00e1grafo Jesus responde, em primeiro lugar, \u00e0 primeira quest\u00e3o: quem quiser ser o primeiro, que se fa\u00e7a o servo de todos.
Depois, quando manda uma crian\u00e7a aproximar-se, f\u00e1-lo para mostrar que o mais importante n\u00e3o \u00e9 a categoria daquele a quem se recebe, mas o facto de que na sua pessoa se acolha Cristo e o seu Pai.
Em Lc 9,46-48, combinaram-se as duas respostas de Jesus, de modo a formar apenas uma: porqu\u00ea dar tanta import\u00e2ncia \u00e0s preced\u00eancias e \u00e0s hierarquias, se o encontro de pessoas apenas encobre um encontro com o pr\u00f3prio Deus na pessoa do outro?
Marcos e Lucas reservam para o incidente narrado em Mc 10,13 as palavras sobre o esp\u00edrito de inf\u00e2ncia e o acolhimento do Reino.
Mateus esqueceu-se da interven\u00e7\u00e3o de Jesus por causa de uma rivalidade verificada entre os seus; no seu evangelho, Jesus responde como deve fazer um Mestre perante uma pergunta piedosa dos seus disc\u00edpulos. De s\u00fabito lan\u00e7a o tema do Reino dos C\u00e9us, e o que lhe interessa \u00e9 uma atitude espiritual; em consequ\u00eancia de tal facto, passa por alto a advert\u00eancia de Jesus aos seus ap\u00f3stolos, e muito especialmente aos tr\u00eas \u00abgrandes\u00bb (Pedro e os dois filhos de Zebedeu): a necessidade de se tornarem servos. Mas Jesus chama a crian\u00e7a a fim de ensinar o esp\u00edrito de inf\u00e2ncia. S\u00f3 depois disso falar\u00e1 do acolhimento aos pequenos, passando de repente das crian\u00e7as para os \u00abpequenos\u00bb, ou seja, para os crentes simples e sem t\u00edtulos.
Em Mateus, apenas em 20,20 responder\u00e1 Jesus aos que procuram o primeiro lugar.

{N}9,{/}43 {C}Ir para a geena{/}, ou para o inferno. Jesus fala do abismo para o qual s\u00e3o lan\u00e7ados aqueles que sacrificaram tudo a fim de conservar um \u00eddolo do qual se tinham feito escravos. N\u00e3o devemos pensar que destru\u00edram o seu destino? N\u00e3o existem palavras nem imagens que possam exprimir esta perda irrepar\u00e1vel, daqueles que destru\u00edram o seu destino, o que nunca acabar\u00e1 para eles. Haver\u00e1 para eles uma verdadeira eternidade, no fim dos tempos? Que tipo de pena inconsol\u00e1vel e de frustra\u00e7\u00e3o irremedi\u00e1vel ser\u00e1 o pre\u00e7o deste fracasso definitivo, de n\u00e3o ter dado \u00e0 luz o que se levava dentro? O Evangelho d\u00e1-nos a entender que toda a nossa sorte \u00e9 jogada na exist\u00eancia presente, e que a nossa liberdade \u00e9 rainha, mas n\u00e3o consegue descrever aquilo a que chamamos inferno e purgat\u00f3rio. Jesus, pelo seu lado, retoma duas imagens que se podem ler nos profetas: a {C}geena{/}, quer dizer, o vale que limitava Jerusal\u00e9m a sudoeste, um lugar coberto de sepulturas, profanado por m\u00faltiplos sacrif\u00edcios de crian\u00e7as que ali tinham sido queimadas, e considerado maldito; e depois o {C}fogo {/}e o {C}verme, {/}que devora os cad\u00e1veres dos rebeldes em Is 66,24.

{N}9,{/}50 Numerosas p\u00e1ginas dos nossos evangelhos foram repetidas de cor durante anos, antes de serem redigidas. Numa \u00e9poca em que se dispunha de muito poucos livros para a vida corrente, e em que n\u00e3o havia jornais nem notici\u00e1rios, a mem\u00f3ria tinha uma capacidade enorme. As pessoas conseguiam repetir discursos inteiros de cor, e quem falava utilizava algumas f\u00f3rmulas que facilitavam a memoriza\u00e7\u00e3o daquilo que dizia. Uma das mais vulgares era empregar uma palavra-chave no fim de um tema, palavra essa que se encontrava no in\u00edcio de um segundo tema, e servia para estabelecer a liga\u00e7\u00e3o. Foi assim que o {C}sal{/} do vers\u00edculo 49 ligou no relato duas frases de Jesus que n\u00e3o queria que se perdesse, mas que nada tinham a ver com o par\u00e1grafo 42-49.
O final do vers\u00edculo 49 muda muito consoante os manuscritos antigos de que dispomos: parece ter desconcertado toda a gente. O mais prov\u00e1vel \u00e9 que o evangelista tenha empregado uma compara\u00e7\u00e3o em que o sal representava aquilo que tem um efeito duradouro. Os alimentos salgados conservam-se, e as oferendas salgadas eram consideradas detentoras de um valor de eternidade. De igual modo, o fogo, de que se acabara de falar, corresponderia a um estado definitivo.

{N}10,{/}14 Todo este cap\u00edtulo, e o in\u00edcio do seguinte, exp\u00f5em factos e palavras de Jesus que assombraram e, inclusivamente, chocaram profundamente os que O rodeavam. A sua atitude em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as faz parte da lista dos seus gestos de car\u00e1cter muito singular, que os seus disc\u00edpulos respeitaram, apesar de n\u00e3o os compreenderem. N\u00e3o esque\u00e7amos que aquela era uma sociedade muito machista, em que as crian\u00e7as eram preocupa\u00e7\u00e3o da m\u00e3e, e n\u00e3o interessavam aos grandes do mundo. Para Mateus e Marcos eram {C}crian\u00e7as{/}, para Lucas 18,15, traziam-Lhe at\u00e9 as {C}criancinhas.{/}

{N}10,{/}40 Nalguns manuscritos antigos, o final deste vers\u00edculo \u00e9 apresentado com o mesmo sentido que em Mt 20,23, mas os mais importantes t\u00eam o texto que damos aqui. Alguns autores tomaram esta resposta \u00e0 letra, tentando por isso fixar o protocolo hier\u00e1rquico do C\u00e9u: Maria, Jo\u00e3o Baptista, ou Jos\u00e9, ou Mois\u00e9s, etc...

{N}11,{/}12 Ao contr\u00e1rio de Mateus, segundo o qual a figueira seca imediatamente, Marcos situa o facto no dia seguinte. Neste caso, como em muitos outros, int\u00e9rpretes racionalistas afirmam que a tradi\u00e7\u00e3o posterior inventou um prod\u00edgio que, na realidade, n\u00e3o ocorreu: Porque n\u00e3o perguntaram a pessoas do tempo presente, que foram testemunhas de factos muito parecidos?

{N}11,{/}16 {C}N\u00e3o permitia que se transportasse qualquer objecto... {/}a fim de encurtar o caminho que conduz do Templo \u00e0 cidade.

{N}11,{/}25 {C}Quando estiverdes para rezar... {/}Quando algu\u00e9m persevera na ora\u00e7\u00e3o para pedir qualquer coisa, Deus mostra-lhe que n\u00e3o pode chegar a uma confian\u00e7a total n'Ele enquanto n\u00e3o tiver deposto todo ou qualquer rancor que ainda tenha dentro de si, obrigando-o a perdoar em primeiro lugar. Perdoar para ser escutado: ver ideia semelhante em 1Pd 3,7. As pessoas que t\u00eam o carisma de operar curas come\u00e7am por ajudar o doente a perdoar aos outros, a pedir perd\u00e3o pelos seus pr\u00f3prios erros, a depor os rancores que pode guardar contra si mesmo pelos seus fracassos passados: s\u00f3 ent\u00e3o a gra\u00e7a da cura actuar\u00e1 livremente.

{N}12,{/}13 No relato de Marcos, a alian\u00e7a dos partid\u00e1rios de Herodes com os fariseus, como em 3,6 e 8,14 permite pensar que esta controv\u00e9rsia procede do mesmo per\u00edodo do minist\u00e9rio de Jesus na Galileia.

{N}12,{/}30 {C}Escuta, Israel. {/}O texto hebraico pode traduzir-se por: \u00abJav\u00e9, nosso Deus, \u00e9 o \u00fanico Jav\u00e9\u00bb, ou: \u00abJav\u00e9, nosso Deus, \u00e9 um \u00fanico Jav\u00e9\u00bb. No primeiro caso, equivaleria a dizer: Jav\u00e9 \u00e9 o \u00fanico Deus vivo. No segundo caso, significaria que n\u00e3o pode haver tantos Jav\u00e9s quantos os santu\u00e1rios diferentes existentes em Israel: Ele \u00e9 s\u00f3 um e um s\u00f3 \u00e9 o lugar da sua presen\u00e7a. Na B\u00edblia grega, Jav\u00e9 traduz-se por Senhor, sem artigo, e lemos neste lugar: \u00abSenhor, nosso Deus, \u00e9 \u00fanico Senhor\u00bb, frase que o evangelho de Marcos reproduz fielmente.
{C}Com toda a tua alma, com toda a tua intelig\u00eancia...{/} O texto grego de Dt 6,5 diz, tal como o hebraico: \u00abcora\u00e7\u00e3o, alma, for\u00e7a\u00bb. Marcos acrescenta aqui: \u00abCom toda a tua intelig\u00eancia\u00bb, ou entendimento, restabelecendo assim o sentido original do hebraico, pois, na cultura hebraica, o {C}cora\u00e7\u00e3o {/}designa a faculdade de pensar e de sentir mais do que a afectividade, que se exprime melhor atrav\u00e9s da palavra {C}alma.{/}

{N}12,{/}35 Jesus cita o Salmo 110. Nessa \u00e9poca, pensava-se que o livro dos Salmos era todo ele obra de David. O autor diz: {C}Or\u00e1culo do Senhor ao meu senhor. {/}O segundo{C} meu senhor{/} tem o sentido mais comum e equivale a {C}meu patr\u00e3o. {/}Alguns t\u00eam-se interrogado se este vers\u00edculo n\u00e3o encerraria alguma palavra prof\u00e9tica que anunciava o Messias; de facto, este vers\u00edculo n\u00e3o diz mais do que aquilo que Jesus quis dar a entender. Contentou-Se em deixar sem resposta os doutos, que sabem tudo. Mas \u00e9 evidente que se esse salmo Lhe acudiu repentinamente \u00e0 mem\u00f3ria, foi porque Jesus costumava ter sempre presente no seu esp\u00edrito a sua voca\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica. E se os seus disc\u00edpulos, que se esqueceram de 99% dos seus actos e ditos, se lembraram disto, foi porque o Salmo continua duas express\u00f5es que ter\u00e3o pleno sentido em Jesus ressuscitado: {C}Senta-te \u00e0 minha direita, {/}e: {C}Tu \u00e9s sacerdote para sempre, \u00e0 semelhan\u00e7a de Melquisedec {/}(Hb 7).

{N}12,{/}41 Certa tradi\u00e7\u00e3o judaica afirma que se s\u00f3 restou o muro chamado \u00abdas lamenta\u00e7\u00f5es\u00bb, do Templo agora destru\u00eddo, isso deve-se ao facto de essa parte da obra ter sido erguida com as oferendas dos pobres.

{N}13,{/}1 O discurso aqui inaugurado \u00e9 chamado por vezes: {C}apocalipse {/}dos sin\u00f3pticos; outras vezes: discurso {C}escatol\u00f3gico.{/}
Apocalipse: ver coment\u00e1rio de Mt 23,1.
Escatol\u00f3gico: que se refere aos \u00faltimos tempos, ou tamb\u00e9m, no cristianismo: que se refere \u00e0 plenitude da comunica\u00e7\u00e3o divina, ao definitivo, j\u00e1 presente na nossa Hist\u00f3ria gra\u00e7as \u00e0 vinda de Cristo.
O pretexto do discurso \u00e9 a admira\u00e7\u00e3o pelo Templo reconstru\u00eddo por Herodes. As {C}pedras {/}enormes (com cerca de 5 metros de largura). Os {C}ornamentos{/}, oferecidos por ricos e reis, como, por exemplo, as portas revestidas a ouro. Jesus sentou-Se no {C}monte das Oliveiras{/}: a 500 metros do Templo, em linha recta, separado do edif\u00edcio pela \u00fanica barreira natural do C\u00e9dron. Os disc\u00edpulos interrogaram-n'O em particular, conscientes de que esta profecia da ru\u00edna do Templo ainda por terminar encerrava segredos graves, sendo simultaneamente uma poss\u00edvel fonte de sedi\u00e7\u00e3o (ver 14,57). S\u00f3 Andr\u00e9, irm\u00e3o de Sim\u00e3o Pedro, se junta ao grupo dos tr\u00eas.
Neste cap\u00edtulo, cada evangelista tem a sua interpreta\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria das palavras prof\u00e9ticas de Jesus, as quais nem sempre s\u00e3o f\u00e1ceis de entender, nem foram todas pronunciadas na mesma ocasi\u00e3o. Assim, n\u00e3o basta compar\u00e1-las par\u00e1grafo por par\u00e1grafo: cada evangelista deve ser lido de forma corrida, a fim de o entendermos segundo a sua pr\u00f3pria perspectiva.
Os tr\u00eas evangelhos coincidem no facto de apresentar aqui uma advert\u00eancia de Jesus aos que se preocupam demasiado com os sinais de imin\u00eancia do fim do mundo: N\u00e3o estejais sempre \u00e0 espera da grande Liberta\u00e7\u00e3o, para n\u00e3o correrdes o risco de {C}vos deixardes enganar. {/}Em 13,6, o texto diz apenas: {C}Sou eu, {/}e acrescentamos-lhe as palavras que se seguem, para melhor compreens\u00e3o.

{N}13,{/}9 {C}Sereis entregues aos tribunais judeus: {/}ver nota a Mt 10,17. Assim tereis oportunidade de {C}dar testemunho{/}: Act 9,15; 23,11.
{C}Mas antes a Boa Not\u00edcia deve ser anunciada a todas as na\u00e7\u00f5es {/}(10). \u00c9 prov\u00e1vel que n\u00e3o se trate de um sinal do fim do mundo, mas que se inscreva no contexto dos presentes par\u00e1grafos, referentes \u00e0 trag\u00e9dia que viria a ocorrer na Palestina, cerca de trinta anos mais tarde. A destrui\u00e7\u00e3o do Templo e o termo do culto n\u00e3o ter\u00e3o lugar antes de ter come\u00e7ado uma nova era, em que o evangelho ser\u00e1 pregado em muitas na\u00e7\u00f5es e as comunidades da Igreja ser\u00e3o implantadas em todas as partes do imp\u00e9rio romano. No que se refere a este sinal, ver 14,9 e 2Ts 2,6.

{N}13,{/}14 Nos par\u00e1grafos que se seguem, os int\u00e9rpretes n\u00e3o est\u00e3o de acordo entre si sobre o ponto de saber em que medida Jesus distinguiu o que se refere \u00e0 queda de Jerusal\u00e9m e o fim do mundo. Muitos apresentam a seguinte alternativa: se distinguirmos claramente os dois acontecimentos, ser\u00e1 que o texto foi corrigido pelos evangelistas depois da queda de Jerusal\u00e9m, que n\u00e3o tinha trazido consigo esse fim do mundo? Por outro lado, se foram palavras de Jesus, deve ter confundido os dois acontecimentos porque, certamente, esperava para muito em breve o fim da Hist\u00f3ria.
Na realidade, n\u00e3o temos motivos para afirmar que Jesus tinha esta opini\u00e3o equivocada (ver em Mt 10,23 e 16,28). Ao recolher no evangelho todas as palavras que sup\u00f5em uma longa espera da Igreja, e que nem todas podem ter sido forjadas pelos evangelistas a partir do nada, n\u00e3o h\u00e1 qualquer raz\u00e3o para negar uma profecia de uma ru\u00edna iminente da na\u00e7\u00e3o judia, iniciando o longo per\u00edodo dos tempos do Evangelho.
O presente texto refere-se, com toda a probabilidade, \u00e0 crise judaica dos anos 66-70. Mas tamb\u00e9m \u00e9 certo que Jesus deve ter-se exprimido com termos gerais e figuras, como lemos em Mateus e Marcos, e n\u00e3o com a precis\u00e3o pr\u00f3pria de Lucas.

{N}13,{/}19 {C}Haver\u00e1 uma tribula\u00e7\u00e3o, {/}ou uma ang\u00fastia. Esta palavra refere-se habitualmente aos sofrimentos que precedem o Ju\u00edzo de Deus. Aqui aplica-se \u00e0 crise da na\u00e7\u00e3o judaica, como tamb\u00e9m as palavras que se seguem, visto ser esta crise uma vinda de Deus \u00e0 Hist\u00f3ria, a fim de a julgar. {C}Se o Senhor n\u00e3o abreviasse esses dias{/}: a tradi\u00e7\u00e3o judaica estava consciente de que as piores desgra\u00e7as nunca alcan\u00e7am o merecido pelos nossos pecados. {C}Por causa dos eleitos{/}, que intercedem em favor dos pecadores, Deus abreviar\u00e1 o castigo.

{N}13,{/}21 Concluindo esta profecia da crise judaica, Marcos retoma a advert\u00eancia inicial (13,6): cuidado com os Libertadores, que se apresentem como o Messias. Estes falsos Messias (ou Cristos) n\u00e3o faltaram durante a crise de 66-70, nem t\u00e3o-pouco nos anos seguintes, quando Bar Koqueba tentou novamente quebrar o jugo dos romanos, sendo reconhecido como Messias pelo grande mestre judeu Aquiba, at\u00e9 ter perecido em 135.
Os eleitos, ou seja, os disc\u00edpulos de Jesus, n\u00e3o se deixar\u00e3o arrastar pelo nacionalismo, n\u00e3o s\u00f3 porque este est\u00e1 destinado ao fracasso, mas porque pretende dar a Israel a sua salva\u00e7\u00e3o, depois de este ter deixado passar a hora de Deus (Lc 19,42).

{N}13,{/}24 Marcos diz: \u00abNesses dias\u00bb, sem mais precis\u00e3o, depois de ter conclu\u00eddo, em 13,23, as advert\u00eancias de Jesus aos seus ap\u00f3stolos. \u00c9 f\u00e1cil ver que agora Jesus n\u00e3o Se dirige directamente a eles, nem d\u00e1 instru\u00e7\u00f5es para esses dias, porque a quem couber presenci\u00e1-los, n\u00e3o poder\u00e1 escapar.
{C}O sol obscurecer-se-\u00e1...{/} Aqui temos figuras tradicionais de um universo que se descomp\u00f5e perante a majestade do juiz supremo, figuras tiradas de Is 13,10 e 34,4.
{C}Ai de quem...! {/}O texto diz: Ai do homem, opondo assim: o Filho do Homem... e \u00abaquele homem\u00bb.

{N}14,{/}18 {C}Enquanto estavam \u00e0 mesa. {/}O texto diz: {C}recostados. {/}Isto de comer recostados relaciona-se com o facto de a \u00daltima Ceia ter sido celebrada numa casa c\u00f3moda e mobilada (14,15). Por certo Jesus e os seus ap\u00f3stolos n\u00e3o comeriam habitualmente \u00e0 maneira dos gregos - gente instalada na vida, mas Jesus quis que este dia fosse celebrado com um certo luxo.

{N}14,{/}22 A frase: {C}isto \u00e9 o meu corpo {/}n\u00e3o bastaria, por si s\u00f3, para estabelecer a identidade do p\u00e3o com o corpo de Cristo, no sentido mais forte. No idioma hebraico, que Jesus utilizou, n\u00e3o existe o verbo {C}ser {/}em sentido pr\u00f3prio, mas antes com o sentido de {C}estar. {/}Para entender o alcance teol\u00f3gico deste relato, h\u00e1 que tomar em conta todo o contexto. Esta ceia \u00e9 um banquete sagrado, como o era a ceia pascal dos judeus. Devemos ainda tomar em conta o car\u00e1cter santo e santificante da pessoa humana de Jesus (ver em Mc 7,31; Lc 8,46; e todo o discurso do p\u00e3o da vida, em Jo 6). Isto n\u00e3o se depreende dos simples textos, mas da compreens\u00e3o que os ap\u00f3stolos e a Igreja tiveram deste mist\u00e9rio. \u00c9 f\u00e1cil ver, por exemplo, em 1Cor 11, 26-29, a for\u00e7a que Paulo reconhece \u00e0s palavras de Jesus, no que se refere \u00e0 consagra\u00e7\u00e3o do p\u00e3o e do c\u00e1lice.
{C}Pronunciar a b\u00ean\u00e7\u00e3o... {/}(22), {C}dar gra\u00e7as... {/}(23). A primeira express\u00e3o era utilizada na eucaristia das comunidades de origem judaica, a segunda na eucaristia das comunidades gregas (ver coment\u00e1rio de Mc 8,1).
O texto n\u00e3o fala de p\u00e3o e de vinho, mas de p\u00e3o e de {C}c\u00e1lice, {/}seguindo talvez o uso da linguagem corrente, mas tamb\u00e9m porque este termo \u00e9 mais rico de sentido, pelo menos na cultura hebraica. No entanto, podemos encontrar {C}p\u00e3o e vinho {/}em Gn 14,14 e Pr 9,5.

{N}14,{/}24 {C}Sangue, que ser\u00e1 derramado por uma multid\u00e3o. {/}Muito se tem discutido sobre estas palavras, porque o texto original conserva a forma hebraica utilizada por Is 53,11-12: {C}em favor de muitos, {/}entendendo-se, ent\u00e3o: de muitos, e n\u00e3o de todos. Mas esta forma gramatical significa: {C}pela multid\u00e3o.{/}
De facto, no texto do profeta, o servo sacrifica-se {C}pela multid\u00e3o, {/}quer dizer, pelo povo de Israel. E Jesus tamb\u00e9m Se sacrifica (Jo 17,19, dir\u00e1: {C}consagro-Me{/}) a fim de purificar e santificar o povo que vai adquirir, o resto de Israel. Aqui n\u00e3o se trata de expiar, como alguns t\u00eam pensado, as culpas individuais de alguns, ou de muitos, ou de todos, nem t\u00e3o-pouco se trata de saber se Jesus paga apenas pelos crist\u00e3os ou por todos os homens. Quando o evangelho diz que Jesus Se sacrifica por n\u00f3s, n\u00e3o entra nessa vis\u00e3o da reden\u00e7\u00e3o, nem nessa contabilidade dos pecados reparados ou n\u00e3o.
Mateus e Marcos utilizam a mesma express\u00e3o (aquela que, al\u00e9m disso, aparecem em Mt 20,28 e Mc 10,45) e v\u00eaem nessa multid\u00e3o o novo povo resgatado. Da mesma forma, em Jo 17,19, Jesus consagra-Se pelos seus, tal como em Hb 10,14; em Ef 5,25, Cristo sacrifica-Se pela Igreja. Em Act 20,28, Ele adquire a Igreja ao pre\u00e7o do seu sangue, o que nos recorda o primeiro sentido de {C}reden\u00e7\u00e3o{/}: trata-se de adquirir (Ap 5,9-10) o que \u00e9 propriedade de outro. O texto de Lc 22,19-20 dir\u00e1: que \u00e9 entregue e que \u00e9 derramado {C}por v\u00f3s. {/}Unicamente{C} {/}1Tm 2,6 diz, de forma muito imprecisa, {C}por todos.{/}

{N}14,{/}36 Pai, ou {C}Pap\u00e1{/}: Jesus foi o primeiro a chamar o Pai com esta simplicidade e carinho, escandalosos para qualquer um que n\u00e3o tenha recebido o esp\u00edrito de filho (Rm 8,15; Gl 4,6).
{C}N\u00e3o se fa\u00e7a o que Eu quero. {/}A natureza de Jesus \u00e9 t\u00e3o complexa como a nossa. O facto de o seu esp\u00edrito estar totalmente unido \u00e0 vontade divina n\u00e3o significa que todos os temores e o pr\u00f3prio instinto de conserva\u00e7\u00e3o se tenham desvanecido. \u00c9 pr\u00f3prio do Esp\u00edrito n\u00e3o divinizar o homem de forma que este se sinta dono de si, mas abandon\u00e1-lo por momentos, ou antes deix\u00e1-lo numa grande inseguran\u00e7a, mesmo quando o mant\u00e9m firme na obedi\u00eancia a Deus. Jesus concede a Si pr\u00f3prio tr\u00eas tempos de ora\u00e7\u00e3o, a fim de submeter e pacificar esta rebeldia inerente \u00e0 sua natureza.

{N}14,{/}63 {C}Rasgou as pr\u00f3prias vestes{/}: ao longo de uns vinte cent\u00edmetros, em que o rasg\u00e3o j\u00e1 estava feito, tendo sido depois remendado com linha fina. F\u00ea-lo conforme o ritual, que exigia este gesto de indigna\u00e7\u00e3o, ao escutar um blasfemo.

{N}14,{/}68 V\u00e1rios manuscritos acrescentam aqui: e o galo cantou. Mas isto \u00e9 para justificar o v. 72, em que o galo canta {C}pela segunda vez. {/}Na Palestina, os galos costumam cantar duas vezes: uma, depois da meia-noite, e outra \u00e0 aurora. Assim, o galo de Pedro canta ao romper da aurora, que \u00e9 a segunda vez.

{N}15,{/}1 {C}Reuniram-se em conselho. {/}V\u00e1rios manuscritos dizem: fizeram uma consulta, o que se referiria a um acordo com Pilatos.

{N}15,{/}8 O povo subiu at\u00e9 \u00e0 resid\u00eancia de Pilatos, que, muito provavelmente, era no Pal\u00e1cio de Herodes (n\u00e3o de Herodes Antipas, presente em Jerusal\u00e9m nesses dias: Lc 23,7), mas de seu pai, Herodes o Grande. O evangelho d\u00e1 a entender que os chefes dos sacerdotes interv\u00eam para apoiar a peti\u00e7\u00e3o a favor de Barrab\u00e1s, mas que esta j\u00e1 foi apresentada por um grupo importante, provavelmente encabe\u00e7ado por nacionalistas zelotas.

{N}15,{/}21 {C}Sim\u00e3o, pai de Alexandre e de Rufo{/}: s\u00e3o nomes romanos; estes filhos eram, certamente, conhecidos da Igreja primitiva. Contudo, n\u00e3o existem provas de que se trate de Rufo, nomeado em Rm 16,13.
O caminho para o Calv\u00e1rio era relativamente curto: pouco mais de um quil\u00f3metro atrav\u00e9s das ruas estreitas e muito concorridas de Jerusal\u00e9m

{N}15,{/}25 {C}Era por volta das nove da manh\u00e3. {/}O texto diz: a {C}terceira hora. {/}Se nos limitarmos \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o tradicional do calend\u00e1rio da Paix\u00e3o, em que Jesus \u00e9 detido em Gets\u00e9mani na noite de quinta para sexta-feira, e se quisermos conservar duas compar\u00eancias de Jesus perante as autoridades judias, e depois a longa compar\u00eancia perante Pilatos, com as interven\u00e7\u00f5es da multid\u00e3o, teremos de atrasar ao m\u00e1ximo a hora da crucifix\u00e3o. Diremos ent\u00e3o que estas anota\u00e7\u00f5es: hora terceira, hora nona, t\u00eam apenas um valor simb\u00f3lico, destinado a recordar a hora dos sacrif\u00edcios no templo, e comentaremos: era a terceira hora, porquanto ainda n\u00e3o soara a sexta, ou seja, o meio-dia. Por outro lado, se situarmos a pris\u00e3o de Jesus na noite de ter\u00e7a para quarta-feira, a anota\u00e7\u00e3o de Marcos \u00e9 muito veros\u00edmil.

{N}16,{/}9 Estes vers\u00edculos 9-20 n\u00e3o pertencem ao texto de Marcos e faltam nos manuscritos mais antigos. Alguns manuscritos antigos encerram outra conclus\u00e3o mais breve:
{C}Tudo o que fora transmitido aos que rodeavam Pedro era por estes proclamado de maneira fidedigna. Atrav\u00e9s deste mesmo Jesus, por meio deles, foi difundida, do oriente ao poente, a mensagem sagrada e incorrupt\u00edvel dos tempos da salva\u00e7\u00e3o.{/}
Em v\u00e1rios manuscritos l\u00ea-se ainda outra conclus\u00e3o, de estilo gn\u00f3stico e muito tardia.

{N}16,{/}16 {N}QUEM N\u00c3O ACREDITAR SER\u00c1 CONDENADO{/}
O texto original diz: {C}Quem n\u00e3o acreditar ser\u00e1 condenado. {/}Mesmo que entendamos isto como aquele que resiste a acreditar, esta frase encerra uma afirma\u00e7\u00e3o terr\u00edvel, de efeitos incalcul\u00e1veis.
Quem {C}n\u00e3o acredita {/}\u00e9 aquele a quem \u00e9 apresentada a mensagem. No contexto deste par\u00e1grafo, uma s\u00e9rie de sinais acompanhar\u00e3o a mensagem, sinais esses bastante eloquentes para que possa ser reconhecida como mensagem vinda do C\u00e9u. Quem n\u00e3o acreditar, em tais circunst\u00e2ncias, {C}ser\u00e1 condenado, {/}quer dizer que, ao ser julgado por Deus e prestar contas dos seus actos bons ou maus, receber\u00e1 uma condena\u00e7\u00e3o por essa desconfian\u00e7a, pois houve uma falta da sua parte. O mesmo se l\u00ea em Mt 10,40.
Quem acreditar e for baptizado, ser\u00e1 {C}salvo{/}, quer dizer, gozar\u00e1 desde j\u00e1 dos dons que Deus tem reservados para os que O reconheceram na pessoa do seu Filho, os que, gra\u00e7as \u00e0 f\u00e9, beneficiam de um reordenamento de todo o seu ser. Estes s\u00e3o simultaneamente benefici\u00e1rios e cooperadores do mist\u00e9rio de salva\u00e7\u00e3o que Deus leva a cabo no cora\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria da humanidade. De facto, nessa obra, que interessa tanto aos que est\u00e3o perto como aos que est\u00e3o longe, uma parte essencial est\u00e1 reservada para o seu povo especial. E se este renunciasse a cumprir essa miss\u00e3o, a humanidade estaria {C}condenada a perder-se{/}, em todo o sentido da palavra.
Podemos interrogar-nos como p\u00f4de Deus permitir que tais verdades fossem interpretadas de forma t\u00e3o tendenciosa pela Igreja ocidental, e isto at\u00e9 finais do s\u00e9culo dezanove. Os portadores da f\u00e9 estavam convencidos de que todos deviam acolher a sua prega\u00e7\u00e3o, mesmo que eles falassem uma l\u00edngua odiada, ou incompreendida, ou n\u00e3o apresentassem os sinais indicados no evangelho. Quiseram impor o baptismo sem terem preparado previamente um renascimento das pessoas, como se atribu\u00edssem ao rito um efeito m\u00e1gico. Afirmavam que quem n\u00e3o acreditasse perdia a salva\u00e7\u00e3o eterna e estava condenado a um inferno sem fim, o que o texto n\u00e3o diz. Ver, a este respeito, a Introdu\u00e7\u00e3o ao livro de Jonas.
Essa interpreta\u00e7\u00e3o inexacta que transformava a institui\u00e7\u00e3o eclesial no partido dos salvos, frente \u00e0 massa dos perdidos, satisfazia o fundo de viol\u00eancia subjacente no cora\u00e7\u00e3o de qualquer comunidade, quando se julga eleita por Deus para entregar ao mundo a \u00fanica verdade.
Podemos estranhar que esta interpreta\u00e7\u00e3o incorrecta da Escritura tenha sido t\u00e3o vulgarmente aceite, sem terem aparecido profetas que a combatessem. Tal facto encerra um mist\u00e9rio. No entanto, saibamos reconhecer que essa vis\u00e3o do mundo a branco e preto, sem meias tintas, estimulou em milh\u00f5es de crentes uma vontade f\u00e9rrea de dominar os seus instintos, e realizar muitas vezes ac\u00e7\u00f5es her\u00f3icas: tudo menos pecar.

