{N}1,{/}1 {N}A PALAVRA (VERBO) \u00c9 DEUS, OU N\u00c3O?{/}
E {C}a Palavra era Deus. {/}Esta afirma\u00e7\u00e3o tem sido discutida, n\u00e3o s\u00f3 porque exige um m\u00ednimo de reflex\u00e3o, mas, sobretudo, porque fere certos preconceitos doutrinais. Tal \u00e9 o caso das Testemunhas de Jeov\u00e1, que n\u00e3o hesitam em traduzir: a Palavra era um Deus. E, para justificar tal tradu\u00e7\u00e3o, apoiam-se no texto de Jo 10,34-36: a palavra grega {C}Theos{/}, dizem eles, tanto pode significar um Deus como Deus e, quando se trata de Deus, aparece sempre o artigo em Grego: O Theos, o Deus. Mas aqui n\u00e3o tem nenhum artigo, portanto, trata-se de um Deus.
A realidade \u00e9 muito diferente. Quando se trata, n\u00e3o de um sujeito, mas de um atributo, como \u00e9 o caso em: {C}era Deus{/}, o Grego b\u00edblico coloca o artigo se Deus \u00e9 considerado uma Pessoa, mas n\u00e3o o coloca se {C}Deus {/}significa a natureza divina. Certamente Aquele que \u00e9 Deus (ou as pessoas que s\u00e3o Deus) constituem uma s\u00f3 coisa com a natureza divina, mas a pessoa n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que a natureza. Portanto, n\u00e3o se usa artigo quando se diz {C}aquilo que \u00e9 Deus{/}, e usa-se quando se designa {C}Aquele que \u00e9 Deus.{/}
Temos um exemplo disso no livro dos Reis. Em 1Rs 8,60, Salom\u00e3o declara: \u00abAssim todos os povos da terra saber\u00e3o que Jav\u00e9 \u00e9 Deus e que n\u00e3o h\u00e1 outro fora d'Ele\u00bb. {C}Deus {/}aparece sem artigo: s\u00f3 Jav\u00e9 \u00e9 Ser divino. Pelo contr\u00e1rio, em 1Rs 18,21, Elias diz ao povo: \u00abSe Jav\u00e9 \u00e9 Deus, segui-O, se \u00e9 Baal, segui-o\u00bb. Deus aparece com artigo, porque a elei\u00e7\u00e3o se faz entre duas pessoas. De igual modo, em Dt 32,39 e Js 2,11 v\u00eaem-se dois exemplos de {C}Deus {/}sem artigo, querendo dizer, de cada vez, que Jav\u00e9 \u00e9 um ser Todo-poderoso e soberano.
Se passarmos para o Novo Testamento, encontramos um novo dado. Recordamos, no coment\u00e1rio a Jo 20,11, que, desde os dias da Ressurrei\u00e7\u00e3o e do Pentecostes, a f\u00e9 crist\u00e3 tinha adquirido a certeza de que Jesus era Filho de Deus no sentido mais firme do termo. Rapidamente se come\u00e7ou a jogar com as palavras {C}Deus {/}e {C}Senhor {/}para designar o Pai e o Filho, sem que este \u00faltimo fosse privado da sua categoria divina. \u00c9 f\u00e1cil ver como Paulo os nomeia sempre juntos: para ele, Deus \u00e9 o Pai e, segundo o que dissemos sobre o usos do artigo em grego, Paulo escreve sempre: {C}o Deus, {/}porque se trata da pessoa do Pai.
Em tais condi\u00e7\u00f5es, se Jo\u00e3o queria dizer que a Palavra era de natureza divina, ou seja, que partilhava da natureza divina de Deus-Pai, mas sem ser a mesma pessoa que o Pai, s\u00f3 podia exprimir-se tal como fez: a Palavra era {C}Deus{/}, sem artigo. E diz, imediatamente a seguir: Estava com Deus desde o come\u00e7o: e aqui aparece {C}o Deus, {/}com artigo, porque diz que a Palavra estava voltada para a Pessoa de Deus-Pai.
\u00c9 verdade que, desde o in\u00edcio da Igreja, tanto para os judeus como para os gregos, a f\u00e9 crist\u00e3 em Jesus, Filho de Deus, nascido de Deus, e que partilha o mist\u00e9rio divino do Pai, constitu\u00eda um desafio para a raz\u00e3o filos\u00f3fica e para as religi\u00f5es que tinham sido ensinadas, e o mesmo continua a ser, ainda hoje, para as Testemunhas de Jeov\u00e1. Ora, traduzir: a Palavra (ou o Verbo) era um Deus, \u00e9 completamente absurdo, visto que, se quisessem ser consequentes com o seu argumento, tamb\u00e9m em 16,27 deveriam traduzir: Sa\u00ed de um Deus, pois a\u00ed tamb\u00e9m n\u00e3o aparece artigo.

{N}1,{/}2 Sabe-se que Jo\u00e3o coloca neste cap\u00edtulo o termo grego \u00abLogos\u00bb, o qual pode traduzir-se por Verbo ou Palavra, em portugu\u00eas. Tivemos dificuldade em preferir Palavra, embora Verbo tenha perdido na nossa l\u00edngua o sentido primitivo. Palavra, por outro lado, pode surpreender o leitor. Dissemos, no coment\u00e1rio, que \u00aba Express\u00e3o de Deus\u00bb seria uma tradu\u00e7\u00e3o mais precisa. 
Mas, ao traduzir \u00abLogos\u00bb por Palavra, pomos um feminino onde Jo\u00e3o pusera um masculino. Sabemos que em Deus n\u00e3o h\u00e1 lugar para a diferen\u00e7a entre masculino e feminino, e os crist\u00e3os da Igreja grega falaram muitas vezes da Sabedoria para designar a Segunda Pessoa divina. Mas neste lugar Jo\u00e3o afirma que o Logos n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o Cristo, e como n\u00f3s pusemos Palavra, temos que dizer \u00abEla\u00bb nos vers\u00edculos 2, 3, 4, 10, 11, 12.

{N}1,{/}3 \u00c9 poss\u00edvel cortar a frase de outro modo, ficando a tradu\u00e7\u00e3o assim: Nada do que existiu, existiu sem Ela. 1,4 N'Ela estava a vida e a vida \u00e9 a luz dos homens.

{N}1,{/}5 Devemos traduzir: as trevas {C}n\u00e3o conseguiram apag\u00e1-la, n\u00e3o a {/}detiveram, sufocaram, ou: as trevas {C}n\u00e3o a acolheram{/}? A segunda tradu\u00e7\u00e3o anunciar\u00e1 o que Jo\u00e3o dir\u00e1 em 1,11. A primeira v\u00ea o mundo, desde as suas origens, invadido por trevas que a luz deve superar: \u00e9, pois, o an\u00fancio de 3,19.

{N}1,{/}12 {C}Acreditam no seu Nome. {/}Ver Jo 20,30. Na B\u00edblia, o Nome de Deus significa o seu poder, que podemos invocar. O vers\u00edculo significa: acreditaram no seu poder divino e sabem que podem invoc\u00e1-lo.

{N}1,{/}17 Mais precisamente: {C}A Lei foi-nos dada por meio de Mois\u00e9s. {/}Este dom precedia uma vinda.

{N}1,{/}18 Jo\u00e3o utiliza aqui uma palavra que significa: {C}Filho-\u00danico. {/}Os manuscritos antigos dividem-se; o texto mais prov\u00e1vel \u00e9 o seguinte: o Deus Filho-\u00danico; outros l\u00eaem: o Filho Filho-\u00danico.

{N}1,{/}29 Alguns manuscritos antigos dizem:{C} Betabar\u00e1{/}, lugar conhecido nessa regi\u00e3o. A maioria diz: Bet\u00e2nia, mas n\u00e3o se conhece nenhuma Bet\u00e2nia do outro lado do Jord\u00e3o.

{N}1,{/}38 {C}Onde moras? {/}Come\u00e7am a ser disc\u00edpulos da Sabedoria: Pr 8,34; Eclo 6,36.

{N}1,{/}47 {N}JO\u00c3O E OS SAMARITANOS{/}
{C}Eis um israelita verdadeiro. {/}Quando o Evangelho fala do Messias, percorre habitualmente, n\u00e3o o vocabul\u00e1rio comum dos judeus, mas o dos samaritanos, herdeiros afastados do reino de Israel e das tribos do norte. Falou de Elias, o grande profeta de Israel, do Profeta mencionado por Deuteron\u00f3mio 18,15, um dos livros que tamb\u00e9m figuravam na B\u00edblia dos samaritanos; no vers\u00edculo 45, a frase est\u00e1 deturpada e toda a for\u00e7a foi colocada em: do qual falou Mois\u00e9s na Lei, porque os samaritanos reivindicavam Mois\u00e9s, mas n\u00e3o os profetas, quase todos judeus; Jesus \u00e9 o filho de Jos\u00e9, um nome querido pela gente do norte, que era o territ\u00f3rio das tribos de Jos\u00e9. Natanael, ent\u00e3o, responde: {C}Tu \u00e9s o Rei de Israel. {/}Jesus replica evocando o sonho de Jacob em Betel, um homem e um lugar que ainda s\u00e3o tipicamente samaritanos.
Tudo isso nos leva a pensar que pelo menos algumas partes do evangelho de Jo\u00e3o ter\u00e3o sido escritas para os samaritanos, ou, mais precisamente, para comunidades crist\u00e3s do outro lado do Jord\u00e3o, que se sentiam mais pr\u00f3ximas dos samaritanos do que dos judeus. No cap\u00edtulo 4, a conversa excepcionalmente longa com a samaritana apresentar\u00e1 as mesmas caracter\u00edsticas, at\u00e9 \u00e0 resposta do v. 42, porque a express\u00e3o {C}Salvador do mundo {/}parece ter nascido, por essa altura, na prov\u00edncia da Samaria. Nos cap\u00edtulos seguintes Jo\u00e3o escrever\u00e1 muitas vezes: {C}os judeus, {/}como se falasse de um grupo estrangeiro.
A descoberta, na China, de documentos importantes provenientes de crist\u00e3os chamados {C}nestorianos, {/}que levaram at\u00e9 l\u00e1 o Evangelho durante o s\u00e9culo sexto, lan\u00e7ou alguma luz sobre as suas antigas tradi\u00e7\u00f5es. Provinham de pa\u00edses situados a oriente do Jord\u00e3o, e consideravam-se herdeiros de Jo\u00e3o; as suas tradi\u00e7\u00f5es olhavam com desconfian\u00e7a os judeus da Judeia.

{N}2,{/}3 Seguimos alguns manuscritos antigos que apresentam uma vers\u00e3o um pouco mais extensa deste vers\u00edculo, de tal forma que nele aparece por tr\u00eas vezes a palavra {C}vinho.{/}

{N}2,{/}11 {N}OS S\u00cdMBOLOS DO EVANGELHO DE JO\u00c3O{/}
\u00c9 verdade que o Evangelho de Jo\u00e3o se dedicou \u00e0 revela\u00e7\u00e3o do simbolismo de muitos pormenores dos acontecimentos de que o evangelista foi testemunha; Jo\u00e3o achou a chave dos mesmos no seu conhecimento das Escrituras. Alguns poder\u00e3o fazer hoje a pergunta: ter\u00e1 Deus querido todos estes simbolismos? Jesus tinha-os presentes no seu esp\u00edrito quando actuava? N\u00e3o s\u00e3o antes uma interpreta\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o, talvez admir\u00e1vel, mas n\u00e3o menos subjectiva?
\u00c9 imposs\u00edvel dar uma resposta simples a tais perguntas. Tivemos oportunidade de recordar que nunca houve uma interpreta\u00e7\u00e3o \u00ab\u00fanica\u00bb da Escritura. Ela \u00e9 portadora do Esp\u00edrito (2Tm 3,16) e \u00e9 o Esp\u00edrito que revela a cada um parte dos tesouros que ela encerra. Assinalaremos aqui alguns simbolismos que parecem ter sido inscritos por Jo\u00e3o no seu relato das bodas de Can\u00e1.
{N}CAN\u00c1{/}
O evangelista conservou na mem\u00f3ria este acontecimento de Can\u00e1, mas rel\u00ea-o agora \u00e0 luz da Ressurrei\u00e7\u00e3o, e as aproxima\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas multiplicam-se porque a alegria das Bodas de Deus com a humanidade \u00e9 agora revelada.
As primeiras palavras do relato situam a festa no tempo: ao terceiro dia. \u00c9 o \u00faltimo dia da \u00absemana inaugural\u00bb que se segue ao Pr\u00f3logo do Evangelho de Jo\u00e3o, sendo pois o s\u00e9timo dia desde o come\u00e7o do minist\u00e9rio na Galileia, segundo a apresenta\u00e7\u00e3o que dele faz o quarto evangelista.
Esse terceiro dia re-situa o acontecimento na Hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o. Por ocasi\u00e3o da teofania e da conclus\u00e3o da Alian\u00e7a no Sinai, Deus tinha dito a Mois\u00e9s: \u00abVai ter com o povo e manda que se purifique hoje e amanh\u00e3...; e estejam preparados para depois de amanh\u00e3 (o terceiro dia), porque Jav\u00e9 descer\u00e1 depois de amanh\u00e3 sobre a montanha do Sinai, \u00e0 vista de todo o povo\u00bb (Ex 19,10-11).
O terceiro dia, por\u00e9m, tamb\u00e9m recorda ao crente a Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo e as promessas da vida eterna.
No entanto, em Can\u00e1 ainda \u00abn\u00e3o tinha chegado a sua hora\u00bb, hora da paix\u00e3o e da cruz, mas tamb\u00e9m a hora em que resplandecer\u00e1 a sua Gl\u00f3ria de Filho de Deus e o seu amor pelos homens.
\u00abA M\u00e3e de Jesus\u00bb, primeira a ser mencionada no relato, interv\u00e9m discretamente junto a seu Filho; est\u00e1 atenta \u00e0 falta de vinho, sem o qual a festa teria sido um fiasco. Maria, filha de Israel, apresenta ao seu Filho a ang\u00fastia do seu povo; junto com este, Ela aguarda a salva\u00e7\u00e3o que lhe foi prometida. Perante o pedido de sua M\u00e3e, Jesus responde num tom muito diferente: \u00abMulher, que existe entre n\u00f3s?\u00bb Com efeito, que existe de comum entre a falta de vinho, um incidente lament\u00e1vel, mas banal, e o \u00abprimeiro dos sinais\u00bb pelo que Jesus manifesta a sua gl\u00f3ria? A partir desse momento, Jesus instaura o Reino de Deus sobre a Terra.
A refer\u00eancia \u00e0 Hora insiste nessa dist\u00e2ncia entre o facto pontual e a revela\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica do acontecimento. Maria compreende que a resposta de Jesus ultrapassa infinitamente as apar\u00eancias, e ordena aos criados: \u00abFazei o que Ele mandar\u00bb; Maria, por sua vez, convida os criados \u00e0 atitude fundamental que A fez viver e agir desde o dia da Anuncia\u00e7\u00e3o: Eis aqui a escrava do Senhor, fa\u00e7a-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38).
Maria revela-Se sob um duplo aspecto: como filha de Israel, vemo-la solid\u00e1ria com o seu povo; como M\u00e3e de Jesus \u00e9, desde j\u00e1, figura da Igreja, o Israel de Deus.
Jesus manda servir o vinho \u00e0 mesa de Can\u00e1, utilizando as talhas de pedra que continham a \u00e1gua das purifica\u00e7\u00f5es rituais, s\u00edmbolo ritual do juda\u00edsmo. Esse vinho, outorgado em profus\u00e3o, e conservado at\u00e9 esse dia, proclama a eclos\u00e3o da Nova Alian\u00e7a, anunciada pelos profetas e inaugurada em Jesus Cristo.
Desse modo, a Hist\u00f3ria da humanidade tem apenas dois tempos: o tempo da promessa e o tempo do cumprimento. Pelo seu mist\u00e9rio pascal, Cristo leva \u00e0 sua plenitude e transfigura essa Hist\u00f3ria: convida a humanidade a participar do banquete eterno das Bodas do Cordeiro (Ap 19,9).

{N}2,{/}13 Poder-nos-\u00edamos assombrar pelo facto de Jo\u00e3o situar aqui o epis\u00f3dio dos vendedores do Templo. Ver a este respeito o coment\u00e1rio a Mt 21,1. \u00c9 bastante prov\u00e1vel que Jo\u00e3o tenha articulado a \u00faltima redac\u00e7\u00e3o do seu evangelho \u00e0 volta de tr\u00eas P\u00e1scoas, o que n\u00e3o deixa de apresentar uma pequena dificuldade porque, com toda a probabilidade, o minist\u00e9rio p\u00fablico de Jesus n\u00e3o ter\u00e1 durado mais de dezoito meses e, por conseguinte, durante esse lapso de tempo ter\u00e1 havido apenas duas P\u00e1scoas, sendo a segunda a da sua Paix\u00e3o. Sabe-se que os restantes evangelistas n\u00e3o quiseram mencionar mais do que uma subida de Jesus a Jerusal\u00e9m e, portanto, falam apenas de uma P\u00e1scoa, a \u00faltima.

{N}2,{/}25 {C}Conhecia o homem por dentro{/}. Isto pode ser entendido como o que havia na pessoa que estava \u00e0 sua frente, ou ainda: o que existe na natureza humana. Jo\u00e3o prefere, sem d\u00favida, deixar em aberto as duas interpreta\u00e7\u00f5es.

{N}3,{/}5 N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que a men\u00e7\u00e3o da \u00e1gua neste lugar cont\u00e9m uma alus\u00e3o ao Baptismo: o Evangelho de Jo\u00e3o tem sempre presentes os sacramentos do Baptismo e da Eucaristia. Contudo, este par\u00e1grafo n\u00e3o quer tanto convidar-nos a aproximar-nos do Baptismo como chamar-nos a procurar o essencial: um renascer do Esp\u00edrito. No in\u00edcio do G\u00e9nesis tudo nascia da \u00e1gua e do Esp\u00edrito; hoje, por Jesus, esperam-nos um novo nascimento e um mundo novo.

{N}3,{/}11 Porque aparece este {C}n\u00f3s{/}? Muito provavelmente porque \u00e9 o come\u00e7o de um dos discursos que Jo\u00e3o construiu com base em palavras de Jesus, e nos quais diz aos seus leitores o que as palavras de Jesus viriam a significar para a Igreja. O {C}n\u00f3s {/}refere-se \u00e0 Igreja ou, com maior exactid\u00e3o, aos ap\u00f3stolos, testemunhas, tal como em Jo 1,3.
Qual o objectivo deste discurso depois das palavras sobre o novo nascimento? Jo\u00e3o pretende mostrar, certamente, como o Baptismo \u00e9 s\u00e9rio; n\u00e3o se trata apenas de um desses baptismos como o de Jo\u00e3o, ou outros, celebrados por diversos grupos, que apenas significavam um compromisso pessoal. Atrav\u00e9s do Baptismo crist\u00e3o acede-se \u00e0 f\u00e9 no Nome do Filho do Homem, quer dizer, no seu car\u00e1cter divino, e acolher essa f\u00e9 \u00e9 como ter passado pelo Ju\u00edzo: entra-se na vida eterna.

{N}3,{/}33 O texto grego diz o seguinte: {C}\u00c9 como reconhecer que Deus \u00e9 verdadeiro. {/}N\u00e3o esque\u00e7amos que, na cultura hebraica, {C}verdadeiro {/}e {C}fiel {/}s\u00e3o uma s\u00f3 e a mesma palavra. Sabe-se, al\u00e9m disso, que as duas grandes qualidades de Deus s\u00e3o a Gra\u00e7a e a Verdade, ou a Gra\u00e7a e a Fidelidade. {C}Receber o testemunho de Jesus {/}significa ter reconhecido n'Ele o que j\u00e1 se encontrava no cora\u00e7\u00e3o da revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica. Ter reconhecido n'Ele e nos seus actos aquilo que a B\u00edblia nos leva a esperar, o cumprimento de todas as palavras e promessas anteriores: ter visto a continuidade da obra de Deus.

{N}3,{/}36 O texto diz, exactamente: {C}Quem rejeita o Filho nunca ver\u00e1 a vida, e a ira de Deus permanece sobre ele. {/}Este texto \u00e9 muito duro. Para Jo\u00e3o, que escreve estas frases, quem n\u00e3o acredita \u00e9 o crente judeu que n\u00e3o reconhece em Jesus o Messias prometido por Deus; da\u00ed que possamos dizer: aquele que se recusa a acreditar. Nunca ver\u00e1 a vida: n\u00e3o ver\u00e1 que se realiza para ele a promessa feita por Deus ao seu povo, e essa promessa era a vida em plenitude, fruto do Esp\u00edrito dado aos crentes. A ira de Deus permanecer\u00e1 sobre ele: essa ira significa uma condena\u00e7\u00e3o j\u00e1 pronunciada por Deus, e que mais tarde ou mais cedo se vai realizar. Quem n\u00e3o quer acreditar no Filho, apesar dos sinais que Deus lhe deu, esfor\u00e7ar-se-\u00e1 em v\u00e3o por tentar apaziguar Deus por meio dos sacrif\u00edcios que Lhe oferecer\u00e1, segundo a Lei; ver\u00e1 como se multiplicam os seus fracassos, e compreender\u00e1 ent\u00e3o que isso \u00e9 o castigo pelos seus pecados. Contudo, tanto para Jo\u00e3o como para Paulo, a nossa reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus n\u00e3o significa apenas que Deus perdoa, mas que \u00e9 uma nova rela\u00e7\u00e3o que come\u00e7a: quem acredita deixa de duvidar do amor de Deus. Assim, pois, quando escrevemos: fica com o Deus que condena, isso deve ser entendido nos sentidos que acab\u00e1mos de dizer: n\u00e3o receber\u00e1 a paz de Deus e, de igual modo, apenas conhecer\u00e1 um Deus que condena.

{N}4,{/}6 \u00c9 em Sicar, abaixo do monte Garizim, perto do po\u00e7o de Jacob, que o caminho de Jesus se cruza com o da Samaritana. O primeiro traz a Boa Not\u00edcia aos que s\u00e3o vistos em Jerusal\u00e9m como her\u00e9ticos e impuros, a outra veio para tirar \u00e1gua. Jesus faz brotar a luz no cora\u00e7\u00e3o da mulher, na qual a sede despertada est\u00e1 misturada com muitas contradi\u00e7\u00f5es. Que ambiguidade nesse di\u00e1logo iniciado \u00e0 beira do po\u00e7o! Contudo, Jesus veio para chamar todo o ser para a luz. A cada palavra, a cada pergunta da mulher, as respostas de Jesus s\u00e3o como outros tantos golpes de picareta de um cavador misterioso; de etapa em etapa, Jesus leva a mulher a descer ao mais profundo de si mesma, e \u00e9 ent\u00e3o, e s\u00f3 ent\u00e3o, que brota a \u00e1gua viva. E nessa nova luz que nesse momento a inunda, tudo cobra nela um novo sentido: a sua pr\u00f3pria identidade, a sua rela\u00e7\u00e3o com a Lei e o seu reencontro com Deus.
A nova lei, anunciada pelos profetas, \u00e9 agora revelada por Jesus, sendo esse o dom de Deus por excel\u00eancia, para toda a humanidade. Frente \u00e0 pergunta da mulher em rela\u00e7\u00e3o ao lugar onde Deus deve ser adorado, o v\u00e9u \u00e9 descerrado pela \u00faltima vez. Deveis adorar o Pai em esp\u00edrito e verdade. Moldados pelo Esp\u00edrito, que permanece em v\u00f3s, \u00absereis adoradores do Pai tal como Ele quer\u00bb.

{N}4,{/}10 Muitos interrogam-se sobre o que \u00e9 {C}o dom de Deus. {/}No entanto, n\u00e3o \u00e9 preciso procurar uma aplica\u00e7\u00e3o precisa; o {C}dom {/}\u00e9 outra palavra utilizada para designar os benef\u00edcios prometidos a David (Is 55,3), que Pedro resume numa palavra: o dom do Esp\u00edrito Santo (Act 2,33).

{N}4,{/}11 O texto faz a mulher dizer: {C}Senhor, n\u00e3o tens... {/}\u00c9 bom saber que, em Grego, a palavra Senhor tanto pode ser utilizada para as pessoas se dirigirem a Deus, como para se dirigirem cortesmente a um desconhecido; o que faz a diferen\u00e7a \u00e9 a mai\u00fascula, tal como em Portugu\u00eas. Quando no evangelho algu\u00e9m diz a Jesus: Senhor, geralmente foi o evangelista que colocou essa palavra, pois, com toda a naturalidade, ele fazia com que os seus interlocutores falassem como ele pr\u00f3prio e os seus leitores se dirigiriam a Cristo. Nalguns discursos do seu evangelho, Jo\u00e3o gosta de repetir sete vezes a palavra {C}Senhor{/}, para nos recordar que tais discursos p\u00f5em em destaque o car\u00e1cter divino de Jesus. Aqui, pelo contr\u00e1rio, parece mais natural que a mulher chame Senhor a um desconhecido.

{N}4,{/}22 O texto grego diz: {C}V\u00f3s adorais O que n\u00e3o conheceis. {/}Por\u00e9m, por detr\u00e1s do texto, est\u00e1 uma constru\u00e7\u00e3o hebraica que requereria a tradu\u00e7\u00e3o: v\u00f3s adorais {C}onde {/}n\u00e3o conheceis. Jesus afirma, portanto, que Jerusal\u00e9m \u00e9 o lugar designado por Deus, e que a elei\u00e7\u00e3o do monte Garizim pelos samaritanos se deve \u00e0 sua ignor\u00e2ncia acerca da B\u00edblia.

{N}4,{/}24 {C}Adorar em esp\u00edrito e verdade. Em esp\u00edrito, {/}quer dizer, com aquilo que de mais elevado e mais interior existe em n\u00f3s: os dons da ora\u00e7\u00e3o, que nos v\u00eam do Esp\u00edrito, conferem-nos uma capacidade nova para estar em comunh\u00e3o com Deus, e para que o nosso esp\u00edrito se deixe dominar e instruir por Ele (Rm 8,26; 1Cor 2,11). Contudo, o Esp\u00edrito s\u00f3 pode actuar desse modo de forma livre e cont\u00ednua, quando n\u00f3s tivermos descoberto as zonas profundas do nosso esp\u00edrito, depois de termos silenciado a agita\u00e7\u00e3o e os ru\u00eddos dos desejos e das emo\u00e7\u00f5es superficiais. {C}Em verdade{/}, porque n\u00e3o bastam o bom cora\u00e7\u00e3o e a generosidade. Tamb\u00e9m devemos purificar o entendimento, porque todos conservamos em n\u00f3s imagens e ideias muito imperfeitas de Deus e da sua vontade, inclusivamente se somos ferozes advers\u00e1rios das imagens. Devemos podar muitas certezas e muitos sistemas de pensamento, inclusive no terreno da f\u00e9, para nos abrirmos ao mist\u00e9rio de Deus.

{N}4,{/}28 Manuscritos antigos diziam que a mulher {C}correu \u00e0 cidade. {/}Naquela \u00e9poca, por\u00e9m, a gente decente n\u00e3o corria (ver Lc 15,20) e o texto foi corrigido.

{N}5,{/}18 Poucas passagens da B\u00edblia afirmam com tanta for\u00e7a a divindade de Jesus como esta. Reparemos na ordem das afirma\u00e7\u00f5es: {C}chegava at\u00e9 a dizer que Deus era seu Pai, fazendo-Se assim igual a Deus. {/}N\u00e3o se pode dizer, sem nos equivocarmos, que Jesus \u00e9 Deus, se n\u00e3o dissermos, ao mesmo tempo, que Ele \u00e9 o Filho; sendo o Filho, pode ser igual a Deus (entendamos a Deus {C}Pai{/}), n\u00e3o como um rival, mas como Aquele que em Deus nasce do Pai, que Se despoja da sua condi\u00e7\u00e3o divina e que recupera a Gl\u00f3ria do Pai. Ver nota a Fl 2,6.

{N}5,{/}43 {C}Eu vim em nome de meu Pai. {/}Para entender bem este par\u00e1grafo, conv\u00e9m ter presente que, em Hebraico (que est\u00e1 sempre por detr\u00e1s do Grego de Jo\u00e3o), a mesma preposi\u00e7\u00e3o pode significar {C}em, com {/}e {C}por meio de. Em nome de {/}significa, pois, n\u00e3o s\u00f3 em representa\u00e7\u00e3o de meu Pai, mas com o Nome (ou o poder) de meu Pai. Quem {C}vem em seu pr\u00f3prio nome, {/}vem nada mais que com as suas capacidades humanas; pode muito bem representar outras pessoas, e ter numerosas recomenda\u00e7\u00f5es.

{N}5,{/}44 Jo\u00e3o utiliza duas vezes a palavra gl\u00f3ria: a primeira vez, referindo-se \u00e0 que se verifica entre os homens (e a frase d\u00e1 a entender que isto sup\u00f5e reciprocidade: eu falo muito bem de ti para que depois tu fales o mesmo em rela\u00e7\u00e3o a mim); a segunda vez \u00e9 a Gl\u00f3ria de Deus, a mesma que Ele partilha com o Filho na eternidade.

{N}5,{/}45 Nos livros de Mois\u00e9s s\u00f3 existe a passagem de Dt 18,15-22, que pode ser interpretada como um claro an\u00fancio do Messias, e assim era geralmente entendido (ver o Profeta, em Jo 1,21; 6,14). Contudo, para Jo\u00e3o, podiam ser invocados muitos outros textos. Partindo de um bom conhecimento da B\u00edblia e da inspira\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica, era f\u00e1cil encontrar no Pentateuco numerosas cenas e imagens que se enquadrassem perfeitamente com a pessoa de Jesus e com as situa\u00e7\u00f5es com que Se tinha confrontado; temos um exemplo disso em Jo 3,14.

{N}6,{/}1 Quanto ao lugar da multiplica\u00e7\u00e3o do p\u00e3o, h\u00e1 contradi\u00e7\u00f5es entre os evangelhos e diverg\u00eancias entre os manuscritos. Jo\u00e3o situa o milagre perto de Tiber\u00edades. Depois Jesus envia os seus disc\u00edpulos para Cafarnaum (6,17), ou Betsaida (Mc 6,45), mas \u00e9 a mesma direc\u00e7\u00e3o. Em seguida, quando sobe para a barca, tocam terra em Genesar\u00e9. Os que procuram Jesus encontram-no entre Genesar\u00e9 e Cafarnaum, e Jesus pronuncia o discurso do P\u00e3o da Vida na sinagoga de Cafarnaum (Jo 6,30-59).
Lucas 9,10 parece contradizer Jo 6,1, mas este texto n\u00e3o \u00e9 seguro, e Betsaida n\u00e3o \u00e9 mencionada neste lugar em manuscritos antigos.
Em Jo 6,21, as \u00faltimas palavras n\u00e3o aparecem em v\u00e1rios manuscritos, e l\u00ea-se: {C}chegou \u00e0 margem{/}, ou seja, perto de Genesar\u00e9, a meio caminho de Cafarnaum, para onde se dirigiam e onde n\u00e3o chegam.
Estas precis\u00f5es ajudam-nos a distinguir esta multiplica\u00e7\u00e3o da segunda, que ter\u00e1 lugar na margem oriental.

{N}6,{/}33 {N}EU DESCI DO C\u00c9U{/}
{C}Porque o p\u00e3o de Deus {/}(ou o p\u00e3o que Deus d\u00e1){C} \u00e9 aquele que desce do c\u00e9u e d\u00e1 vida ao mundo. {/}Neste cap\u00edtulo deparamos sete vezes com essa express\u00e3o: {C}desce do c\u00e9u. {/}\u00c9 suficiente para nos dar a entender que, para Jo\u00e3o, essa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial. \u00c9 muito dif\u00edcil de aceitar por quem tenha uma forma\u00e7\u00e3o um pouco racionalista: como \u00e9 que o Filho, sendo Deus, pode descer do c\u00e9u? No s\u00e9culo quarto os nestorianos foram acusados de dividir Cristo: insistiam de tal forma na realidade humana de Jesus, que parecia tratar-se de uma pessoa \u00e0 parte do Filho de Deus. Era quase como se, do alto do C\u00e9u, o Filho eterno se tivesse unido intimamente a um homem a quem pilotava, assumindo tudo o que esse homem excepcional fizesse. Pode ser que os nestorianos tenham cometido esse erro, pois n\u00f3s tamb\u00e9m o cometemos com muita frequ\u00eancia. Existe uma forma muito comum de falar de Jesus, que coloca uma grande dist\u00e2ncia entre Ele e o mist\u00e9rio de Deus, onde habita o Filho eterno.
\u00c9 prov\u00e1vel que alguns digam: o Filho n\u00e3o pode perder a sua condi\u00e7\u00e3o divina e troc\u00e1-la por uma condi\u00e7\u00e3o humana. Por certo Ele n\u00e3o perde a sua natureza divina, mas de alguma forma dep\u00f5e-na para voltar a tom\u00e1-la (Jo 10,17-18), o que \u00e9 muito diferente. Essa encarna\u00e7\u00e3o do Filho de Deus (Jo 1,14) s\u00f3 pode chocar a nossa raz\u00e3o, bem como a concep\u00e7\u00e3o do ser divino existente entre os fil\u00f3sofos gregos. No entanto, encontramo-la em todos os textos do Novo Testamento que nos falam do mist\u00e9rio do Filho; ver Jo 3,32; 6,62; 8,14 e nota a Fl 2,6.

{N}6,{/}48 Aqui devemos recordar, mais do que nunca, o que se diz na Introdu\u00e7\u00e3o a respeito dos Discursos do Evangelho de Jo\u00e3o. Jo\u00e3o encarrega-se de prolongar as palavras aut\u00eanticas de Jesus atrav\u00e9s de um longo discurso em que Jesus Se apresenta como o Messias, portador da palavra de vida e que veio para dar a vida aos que cr\u00eaem n'Ele. N\u00e3o existe a menor d\u00favida de que Jesus n\u00e3o falou expressamente da Eucaristia nesse momento e ao p\u00fablico referido, nem sequer aos seus ap\u00f3stolos: que poderiam entender de tal revela\u00e7\u00e3o? Jo\u00e3o, por\u00e9m, constr\u00f3i o discurso e adapta os pontos fortes dos ensinamentos de Jesus para uso dos seus auditores, crist\u00e3os que, na Igreja, se unem misteriosamente a Cristo, por meio dos sacramentos e, neste caso, atrav\u00e9s da Eucaristia.
\u00c9 evidente que as palavras de Jesus em 48-58 provocam o assombro entre os seus ouvintes. Um cat\u00f3lico, habituado \u00e0 muito firme doutrina da Igreja sobre a presen\u00e7a do corpo e do sangue de Cristo na Eucaristia, v\u00ea facilmente uma contradi\u00e7\u00e3o entre essa doutrina e o que lhe dita a sua raz\u00e3o. Surgem-lhe d\u00favidas sobre essa presen\u00e7a real do corpo e do sangue de Cristo na Eucaristia e, ao ler este par\u00e1grafo, pensa imediatamente que era este o ponto em que Jesus insistia e que escandalizava os seus auditores. Na realidade, as nossas d\u00favidas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 f\u00e9 n\u00e3o s\u00e3o as mesmas que as dos crist\u00e3os aos quais Jo\u00e3o dirigia o seu discurso. O que mais lhes custava era admitir que o Filho eterno tivesse tido de Se fazer {C}carne e sangue{/}, isto \u00e9, um homem vulgar e mortal, para santificar os crentes. A dificuldade que o Evangelho p\u00f5e aqui em destaque n\u00e3o tem a ver com o sacramento, mas com o mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o. Ver coment\u00e1rio a 6,52. \u00c9 esse o ponto central do discurso, como j\u00e1 dizia a nota precedente, e como veremos nos vers\u00edculos 62-63.

{N}6,{/}66 {N}A CRISE DOS DISC\u00cdPULOS{/}
Jo\u00e3o \u00e9 o \u00fanico que nos fala de tal crise entre os seguidores de Jesus e do afastamento de numerosos disc\u00edpulos, embora os sin\u00f3pticos tamb\u00e9m d\u00eaem a entender que se verificou uma redu\u00e7\u00e3o na multid\u00e3oque O rodeava. Marcos 9,30 diz-nos, pouco depois, que Jesus seguia de povoa\u00e7\u00e3o em povoa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o queria que se conhecesse o seu paradeiro, porque estava ocupado na forma\u00e7\u00e3o dos seus disc\u00edpulos. Podemos pensar, ent\u00e3o, que j\u00e1 n\u00e3o acorriam multid\u00f5es, e, se tivermos em conta o que diz Jo\u00e3o neste par\u00e1grafo, compreende-se melhor como, nos outros evangelhos, Jesus passa do ensino das multid\u00f5es \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos verdadeiros fi\u00e9is.
Contudo, se houve uma crise grave, qual foi o motivo? Jo\u00e3o d\u00e1 uma resposta dupla. A primeira \u00e9 que a turba estava decepcionada com o messianismo (outros dir\u00e3o com a nega\u00e7\u00e3o do messianismo) de Jesus. Em Israel, cada um fazia a sua ideia pessoal do Messias, embora houvesse um ponto comum, que era a restaura\u00e7\u00e3o nacional. Pois bem, quando a popularidade de Jesus atinge o seu ponto mais alto, desmorona-se. Marcos 6,45 confirma \u00e0 sua maneira a desilus\u00e3o de que nos fala Jo\u00e3o em 6,14-17.
O segundo motivo \u00e9 mais profundo. Recusar o messianismo tal como o povo o entendia n\u00e3o punha em quest\u00e3o os ensinamentos de Jesus; aqui, pelo contr\u00e1rio, Jo\u00e3o quis fazer-nos captar a incapacidade dos simpatizantes de se porem \u00e0 altura da revela\u00e7\u00e3o que Jesus lhes entregava. Estimavam-no enormemente como Mestre, maravilhavam-se com os seus poderes de cura, acreditavam que Deus actuava por meio d'Ele, mas, quando come\u00e7aram a perceber o que Jesus trazia consigo, abandonaram-n'O. H\u00e1 pessoas que s\u00f3 juram por este ou aquele grande homem, aceitando como sagrado tudo o que ele diga. Tal atitude provoca fastio ou zombaria; felizmente, essas pessoas n\u00e3o s\u00e3o numerosas, e a maioria mostra mais sabedoria. Ora, foi precisamente essa maioria do povo judeu, alertada pela Lei contra qualquer culto \u00e0 personalidade, que se escandalizou com o facto de Jesus evitar qualquer compara\u00e7\u00e3o e qualquer tentativa de lhe atribuir um lugar entre os Mestres e Profetas.
Jo\u00e3o n\u00e3o imaginou de forma directa e imediata o discurso do cap\u00edtulo 6; deve ter reunido aqui v\u00e1rias frases que Jesus opunha \u00e0 esperan\u00e7a messi\u00e2nica, tal como a via espelhada no povo. Ora bem, Jesus diz e repete que Ele \u00e9 o p\u00e3o que desceu do c\u00e9u. Al\u00e9m disso, o que \u00e9 ainda mais grave, todas as suas afirma\u00e7\u00f5es se desligam do Antigo Testamento, que ele cita cuidadosamente. Que longe se est\u00e1 dos escritos religiosos do seu tempo e, inclusivamente, dos livros mais tardios do Antigo Testamento! Jerusal\u00e9m... o Templo, os suspiros de Israel oprimido, a compaix\u00e3o do Eterno pelo seu povo... Muito pelo contr\u00e1rio, Jesus parece estar apenas interessado em que o Pai seja descoberto no Filho: a\u00ed est\u00e1 o reino. Finalmente, se a hora \u00e9 \u00fanica, \u00e9 porque Deus Se tornou presente.
Os disc\u00edpulos fazem marcha atr\u00e1s porque n\u00e3o est\u00e3o dispostos a abandonar toda a sua heran\u00e7a religiosa s\u00f3 pela f\u00e9 n'Aquele que exerce sobre eles uma tal atrac\u00e7\u00e3o: n\u00e3o escut\u00e1-l'O e acreditar nas suas palavras, mas acreditar n'Ele. Quem poderia censur\u00e1-los? {C}Ningu\u00e9m pode vir a Mim, se isso n\u00e3o lho \u00e9 concedido pelo Pai {/}(65).
Jesus nunca lhes disse para renegarem as suas pr\u00e1ticas religiosas, mas apenas que elas deviam ser coroadas por qualquer coisa completamente distinta: a busca e a experi\u00eancia da comunh\u00e3o com Deus pelo Filho, e gra\u00e7as \u00e0 vida no Esp\u00edrito. \u00c9 f\u00e1cil ver que essa crise dos disc\u00edpulos de Jesus est\u00e1 sempre latente no mundo crist\u00e3o: a ideia de que a totalidade de Deus e do universo nos seja oferecida inclusivamente hoje n'Ele e s\u00f3 n'Ele \u00e9 intoler\u00e1vel para os s\u00e1bios, e alguns n\u00e3o descansar\u00e3o enquanto n\u00e3o tiverem feito de Jesus um dos maiores ou o maior dentre os homens, mas sem {C}acreditar n'Ele.{/}

{N}6,{/}71 {C}Judas, filho de Sim\u00e3o Iscariotes. {/}V\u00e1rios manuscritos dizem: Judas Iscariotes, filho de Sim\u00e3o. Esta diverg\u00eancia \u00e9 pouco importante. Em todo o caso, is-cariote significa: o homem de {C}Keriot{/}, uma aldeiazinha da Judeia.

{N}7,{/}34 Mais uma afirma\u00e7\u00e3o not\u00e1vel. As palavras {C}enviou-Me {/}aparecem um grande n\u00famero de vezes neste evangelho (ver pormenor assinalado em 9,7). Se observarmos de perto, veremos que Jesus n\u00e3o foi enviado como poderia ser enviado um profeta, mas que foi enviado de junto do Pai. Contudo, embora Jesus seja, sob determinado aspecto, O que \u00e9 enviado e O que volta para Deus, Ele n\u00e3o \u00e9 em Deus um ser inferior que participaria de Deus; Jesus di-lo muito bem: ali onde Eu sou, porque Ele \u00e9.

{N}8,{/}8 {C}Come\u00e7ou a escrever no ch\u00e3o. {/}Esta pequena frase provoca com frequ\u00eancia a seguinte reflex\u00e3o: Ent\u00e3o, Jesus sabia escrever. Na realidade, por\u00e9m, este par\u00e1grafo n\u00e3o \u00e9 nenhuma prova disso, porque, na l\u00edngua grega, o verbo escrever tem um sentido muito vasto. No in\u00edcio significava: tra\u00e7ar sinais ou marcas. Contudo, \u00e9 dif\u00edcil pensar que, tendo sido educado num povo em que a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica estava muito desenvolvida, Jesus n\u00e3o soubesse ler. Se O vemos a escolher a leitura e a ler na sinagoga de Nazar\u00e9 (Lc 4,16), \u00e9 porque n\u00e3o tinha ficado ao n\u00edvel dos que soletram. Assim, devia saber escrever, por pouco que fosse.
Jesus falava Aramaico; na escola da sinagoga ensinaram-Lhe um pouco de Hebraico, a l\u00edngua sagrada; tendo sido criado na Galileia, \u00e9 mais que prov\u00e1vel que soubesse fazer-se entender em Grego, para as necessidades di\u00e1rias, e foi nesta l\u00edngua que respondeu a Pilatos.

{N}8,{/}14 {C}Os judeus... {/}(v.11, 15, 35). N\u00e3o faltam raz\u00f5es para pensar que Jo\u00e3o escreveu o seu evangelho para as comunidades crist\u00e3s da prov\u00edncia al\u00e9m-Jord\u00e3o (10,40; 11,54), uma prov\u00edncia que se sentia bastante alheia ao mundo judeu de Jerusal\u00e9m e da Judeia. Isto explica, possivelmente, a raz\u00e3o por que Jo\u00e3o, identificando-se com os seus leitores, diz \u00abos judeus\u00bb, como se n\u00e3o fosse um deles. Por outro lado, Jo\u00e3o via nessas comunidades uma corrente muito influente, que viria a ser chamada posteriormente dos judeo-crist\u00e3os. Estes reconheciam Jesus como o Messias, mas n\u00e3o queriam fazer nada que os opusesse \u00e0 comunidade judaica. Falavam de Jesus Filho de Deus, mas n\u00e3o davam a esta express\u00e3o toda a for\u00e7a que ela tem para a f\u00e9 crist\u00e3. Devido a isso, quando Jo\u00e3o refere os judeus que acreditavam em Jesus mas n\u00e3o O entendiam (8,31), suspeitamos que ele est\u00e1 a pensar, na realidade, nesses judeo-crist\u00e3os que trinta anos mais tarde dominariam certas igrejas da Palestina.

{N}8,{/}46 Muitos, no passado, compreenderam e traduziram: {C}Qual de v\u00f3s Me convencer\u00e1 de pecado?{/} - como se Jesus dissesse: V\u00f3s sabeis que Eu nunca cometi pecados. Mas sabemos que a palavra grega tem um sentido mais vasto: erro, falsidade, actua\u00e7\u00e3o incorrecta. Aqui Jesus refere-Se a tudo aquilo que, pela sua actua\u00e7\u00e3o, poderia desacredit\u00e1-l'O como profeta.

{N}8,{/}48 {C}Est\u00e1s louco {/}(nalguns manuscritos{C}: Est\u00e1s possu\u00eddo por um dem\u00f3nio). {/}Isto significa em l\u00edngua grega: tens a mente enferma. \u00c9s um samaritano: isto \u00e9 um insulto, e compreend\u00ea-lo-emos melhor se verificarmos que este evangelho foi escrito para leitores pr\u00f3-samaritanos e antijudeus, o que \u00e9 mais prov\u00e1vel. Nos vers\u00edculos seguintes notar-se-\u00e1 como Jesus se situa no campo oposto ao dos judeus: v\u00f3s... Aquele a Quem chamais: nosso Deus... A\u00ed a oposi\u00e7\u00e3o judeus-samaritanos une-se \u00e0 outra mais fundamental: V\u00f3s sois c\u00e1 de baixo, Eu sou l\u00e1 de cima (8,23).

{N}8,{/}51 Neste par\u00e1grafo, Jesus afirma por duas vezes: Se algu\u00e9m guardar a minha Palavra, jamais ver\u00e1 a morte. Lemos tamb\u00e9m, em 11,26, qualquer coisa de muito parecido: quem cr\u00ea em Mim n\u00e3o morrer\u00e1. \u00c9 certo que Jesus acrescenta de cada vez \u00abpara sempre\u00bb, mas deixa-nos muito surpreendidos: haver\u00e1 realmente uma morte eterna, da qual se salva aquele que recebe as palavras do Filho de Deus feito homem, e O reconhece como o Filho de Deus? \u00c9 digno de nota o facto de Jesus retomar o que fora dito pelo Deuteron\u00f3mio, oferecendo a Israel morte ou vida consoante observe ou n\u00e3o a Palavra de Deus. N\u00e3o Se dirige \u00e0 humanidade inteira, nem retira todo o valor \u00e0s outras religi\u00f5es, mas adverte o povo judeu que hesita em reconhec\u00ea-l'O. Ainda mais, poder\u00edamos dizer que Jo\u00e3o faz com que Jesus fale para a sua pr\u00f3pria gente, ou seja, para essas comunidades j\u00e1 divididas pela corrente judeo-crist\u00e3, que n\u00e3o tardariam a definhar e morrer, porque tiveram medo de situar Cristo no pr\u00f3prio Deus.

{N}8,{/}56 O texto original diz: {C}A sua alegria consistiu em aguardar o meu dia; ele viu-o e alegrou-se. {/}Jesus n\u00e3o fala de uma vis\u00e3o que Abra\u00e3o tenha tido. O mais prov\u00e1vel \u00e9 que Jo\u00e3o veja toda a Hist\u00f3ria de Isaac, come\u00e7ando pelo seu sacrif\u00edcio, como figura de Cristo. Al\u00e9m disso, atribui a Jesus essa mesma interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia: Isaac, filho de Abra\u00e3o, confunde-se com Aquele que representa e que ser\u00e1 o descendente de Abra\u00e3o. Na realidade, essa forma de interpretar os textos sagrados, est\u00e1 muito afastada da nossa l\u00f3gica, mas faz parte das resson\u00e2ncias que temos o direito de procurar a\u00ed. Ver nota a Lc 24,25.

{N}9,{/}22 N\u00e3o esque\u00e7amos que Jo\u00e3o est\u00e1 a transmitir as palavras de Jesus aos crist\u00e3os das suas comunidades e que as modifica um pouco a fim de as tornar mais actuais. Escreveu nos momentos em que a comunidade judia, reorganizada depois dos desastres da guerra romana dos anos 66-70, acabara de decidir a expuls\u00e3o dos judeus convertidos ao cristianismo. \u00c9 por isso que for\u00e7a um pouco os termos, porque \u00e9 dif\u00edcil pensar que a comunidade judaica do tempo de Jesus tenha tomado uma tal decis\u00e3o, quando ainda nem sequer havia Igreja. No par\u00e1grafo que se segue (27-30), Jo\u00e3o continua a adaptar as palavras de Jesus \u00e0 situa\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os que O rodeavam, e evoca as discuss\u00f5es suscitadas entre os judeus disc\u00edpulos de Mois\u00e9s e os crist\u00e3os disc\u00edpulos de Jesus.

{N}9,{/}24 {C}Confessa a verdade. {/}O texto diz: {C}d\u00e1 gl\u00f3ria a Deus. {/}Esta era a forma b\u00edblica de exigir a algu\u00e9m que reconhecesse a sua falta. Suponhamos que algu\u00e9m tivesse sido apontado como culpado, quer deitando sortes, quer por qualquer outro meio tradicional; devia ent\u00e3o dar gl\u00f3ria a Deus, ou seja, reconhecer que Deus tinha feito sair \u00e0 luz a sua falta secreta (Js 7,19).
{C}N\u00e3o sabemos donde Ele \u00e9. {/}Porque certamente saiu de Deus. Jo\u00e3o n\u00e3o hesita em repeti-lo at\u00e9 nos cansarmos; com efeito, todo o Evangelho depende desta afirma\u00e7\u00e3o. A \u00fanica justifica\u00e7\u00e3o da mensagem crist\u00e3 com a salva\u00e7\u00e3o \u00fanica que ela traz \u00e9 que, na pessoa de Jesus, se concentra corporalmente a plenitude de Deus (Cl 2,9).

{N}9,{/}39 {C}Eu vim a este mundo para  um julgamento. {/}Este julgamento n\u00e3o \u00e9 apenas o que a vinda de Jesus trouxe ao mundo judeu e grego do seu tempo. O evangelho nunca deixa de provocar, ao longo da Hist\u00f3ria, uma s\u00e9rie de julgamentos. Por um lado, a prossecu\u00e7\u00e3o dos julgamentos libertadores trazidos por Jesus nunca terminou de minar, de mil maneiras, as certezas humanas. Por outro, o papel da Igreja, no plano de Deus, n\u00e3o consiste unicamente em pregar a boa mensagem pela qual se salvar\u00e3o os homens. Ela \u00e9, al\u00e9m do mais, a continua\u00e7\u00e3o do povo de Deus, de cujas experi\u00eancias e erros nos fala a B\u00edblia, sendo necess\u00e1rio que em todo o momento ela redescubra at\u00e9 que ponto os caminhos de Deus n\u00e3o correspondem aos da sabedoria humana. Os que v\u00eaem, v\u00e3o ficar cegos: n\u00e3o se trata apenas dos fariseus do tempo de Jesus. Os que v\u00eaem s\u00e3o os que sabem e fazem a lei, inclusivamente na Igreja.

{N}10,{/}1 Os manuscritos antigos diferem deste texto em muitos pormenores.
Em 10,8, numerosos manuscritos dizem: {C}que vieram antes de Mim. {/}Esta frase torna-se assim mais clara; Jesus estaria a fazer alus\u00e3o aos que tinham provocado levantamentos sangrentos contra os Romanos nos anos anteriores. Jo\u00e3o, por\u00e9m, sente repugn\u00e2ncia em dizer antes ou depois quando se trata do Filho que {C}\u00c9{/}; e Ele n\u00e3o veio como os demais.
Nos vers\u00edculos 11 e 14 temos tr\u00eas vezes a express\u00e3o {C}o bom pastor{/}, sinal da import\u00e2ncia que Jo\u00e3o atribui a esse t\u00edtulo ou a essa imagem. Sabe-se que na B\u00edblia s\u00f3 Deus \u00e9 o Pastor de Israel. Na realidade, deveria dizer-se n\u00e3o {C}o bom pastor{/}, mas {C}o belo pastor{/}, porque \u00e9 esse o primeiro sentido da palavra, mas, em Grego, esta exprime simultaneamente o sentido de bom e de belo.
Em 10,16, numerosos manuscritos dizem: e daqui para a frente n\u00e3o haver\u00e1 mais que um s\u00f3 rebanho...
Em 10,18, alguns dizem: ningu\u00e9m me {C}tirou {/}a minha vida. Neste caso, Jo\u00e3o p\u00f5e Cristo ressuscitado a falar no passado.

{N}10,{/}35 Ningu\u00e9m pode anular a Escritura. Com esta resposta, que deixa os seus ouvintes muito surpreendidos, Jesus convida-nos a olhar mais de perto muitos textos b\u00edblicos que menosprezamos e que n\u00e3o sabemos aprofundar, porque n\u00e3o enquadram com a nossa maneira de pensar e com as nossas pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es religiosas. Os ouvintes de Jesus sabiam que o Nome do Deus \u00fanico n\u00e3o se pode comunicar a nenhuma criatura; mas era preciso excluir toda a comunh\u00e3o do homem com Deus para salvar esta certeza e esta f\u00e9? N\u00e3o se podia dizer que Deus Se torna presente dentro da pr\u00f3pria humanidade? Pois bem, todo o Evangelho de Jo\u00e3o p\u00f5e em evid\u00eancia, juntamente com a Divindade do Enviado de Deus, a vontade de Deus que quer divinizar-nos, ao passo que os advers\u00e1rios de Jesus se ficavam pelo plano dos preceitos e das tradi\u00e7\u00f5es que era preciso observar para se ser catalogado entre os bons. 
Mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que essa afirma\u00e7\u00e3o de Jesus toca o tema da aus\u00eancia de erro na Escritura, e sabemos que de h\u00e1 um ou dois s\u00e9culos para c\u00e1 o car\u00e1cter da verdade divina que se atribui aos Livros Sagrados tem sido contestado com argumentos procedentes de partes muito diversas.
{N}A AUS\u00caNCIA DE ERROS NA B\u00cdBLIA{/}
Para um crente, a aus\u00eancia de erros na Palavra de Deus \u00e9 ineg\u00e1vel, mas mesmo assim \u00e9 necess\u00e1rio precisar que tipo de verdade esperamos dessa Palavra. Basta, por exemplo, comparar dois relatos do mesmo facto nos diversos evangelhos, para ver que as contradi\u00e7\u00f5es verificadas nos pormenores s\u00e3o numerosas. Compare-se, por exemplo, Mt 20,30 e Mc 10,46; Mt 18,1-3 e Mc 9,33-35. Devemos admitir, portanto, que Deus n\u00e3o ditou aos autores dos livros sagrados uma acta oficial do sucedido. Os testemunhos e a forma de os transmitir oralmente at\u00e9 ao momento em que foram postos por escrito obedeceram \u00e0 regra geral: os melhores testemunhos dependem sempre, em parte, da pessoa que v\u00ea e que, sem querer, d\u00e1 logo uma certa interpreta\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que viu.
Contudo, \u00e0 medida que se foi desenvolvendo a civiliza\u00e7\u00e3o moderna, foram surgindo dificuldades ainda maiores. Em primeiro lugar, verificou-se o desenvolvimento das ci\u00eancias, e levantaram-se muitos problemas devido \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o surgida entre a vis\u00e3o do mundo e das origens do homem dada pela ci\u00eancia, e a que tinham os autores da B\u00edblia, sobretudo nos primeiros cap\u00edtulos do {C}G\u00e9nesis{/}. Ent\u00e3o os crist\u00e3os dividiram-se. Enquanto os fundamentalistas se atinham \u00e0 letra do relato, chegando a negar os factos cient\u00edficos mais comprovados, os outros tiveram de reconhecer que a verdade do relato b\u00edblico n\u00e3o consistia na descri\u00e7\u00e3o das nossas origens, mas no lugar que essas p\u00e1ginas atribu\u00edam \u00e0s criaturas e ao homem no plano de Deus. Ver, a este respeito, nota a Gn 1.
Surgiram depois as dificuldades hist\u00f3ricas. Foi necess\u00e1rio reconhecer que os autores da B\u00edblia n\u00e3o dispunham dos nossos meios para investigar o passado, mas, por outro lado, viam na Hist\u00f3ria uma ilustra\u00e7\u00e3o da ac\u00e7\u00e3o de Deus nela: o quadro era verdadeiro, embora nem todos os factos se pudessem verificar. A partir do momento em que o leitor entrava nessa perspectiva, podia aceitar, sem medo, que n\u00e3o se pode duvidar da Escritura.
Vem em seguida a evolu\u00e7\u00e3o da moral. Muitas leis morais herdadas da B\u00edblia e consideradas at\u00e9 ent\u00e3o obrigat\u00f3rias para toda a pessoa de boa f\u00e9, deixaram de ser evidentes para os nossos contempor\u00e2neos. N\u00e3o se deveriam relativizar as proibi\u00e7\u00f5es sexuais da B\u00edblia? Veja-se, a este respeito, o coment\u00e1rio a 1Cor 7.
O movimento de emancipa\u00e7\u00e3o feminista suscitou, por sua vez, uma objec\u00e7\u00e3o terr\u00edvel: a B\u00edblia foi totalmente escrita no marco de uma cultura patriarcal. As experi\u00eancias religiosas que narra foram na sua imensa maioria vividas, interpretadas e contadas por homens, em circunst\u00e2ncias que n\u00e3o proporcionavam \u00e0 mulher meios de express\u00e3o nem de manifesta\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria identidade. Que valor tem a imagem de um Deus machista, guerreiro e dominador, que ressalta de tantas p\u00e1ginas da B\u00edblia? E a inferioridade proclamada da mulher (1Tm 2,11-15), n\u00e3o lan\u00e7a um manto de d\u00favida sobre toda a mensagem humana da B\u00edblia?
Um \u00faltimo ataque prov\u00e9m de um olhar mais imparcial a respeito das outras religi\u00f5es. A partir do momento em que se admitiu que Deus previu, efectivamente, a salva\u00e7\u00e3o de todos os homens, e n\u00e3o s\u00f3 daqueles que cr\u00eaem e s\u00e3o baptizados, de que servem tantos discursos do Novo Testamento, sobretudo aqueles que parecem dizer que, sem o Evangelho, sem o Baptismo, sem a f\u00e9 de Cristo, n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o? Ver, a este respeito, as notas a Mc 16,15 e Ap 22,3.
Assim, devemos dizer algumas palavras sobre a Aus\u00eancia de Erros na Escritura.
{N}A AUS\u00caNCIA DE ERROS: O SACRAMENTO DA PALAVRA{/}
O livro sagrado \u00e9 totalmente obra de Deus e totalmente obra de um autor humano, tal como dizemos na nota sobre a Inspira\u00e7\u00e3o, a prop\u00f3sito de 2Tm 3,16. Deus n\u00e3o o ditou. Tamb\u00e9m n\u00e3o pressionou o autor para que dissesse o que nunca tinha pensado dizer, e para que o fizesse em contraposi\u00e7\u00e3o com a sua pr\u00f3pria cultura. A obra do Esp\u00edrito foi mais discreta, porque o Esp\u00edrito sabe fazer-Se nosso esp\u00edrito. Deus e o homem: o homem forneceu a sua experi\u00eancia religiosa e a da sua comunidade, cada uma delas com as suas limita\u00e7\u00f5es; Deus fez com que esse livro ocupasse o seu lugar num conjunto em que se devia inscrever toda a revela\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria a todos aqueles que Ele quisesse chamar para conhecerem o seu Filho \u00danico. S\u00f3 a partir desse duplo projecto, de Deus e do homem, se pode falar de erros ou de aus\u00eancia de erros na Escritura.
Devemos confessar que o uso habitual do termo {C}aus\u00eancia de erros{/}, para nos referirmos a este tema, \u00e9 bastante infeliz, pois, \u00e0 partida, provoca uma posi\u00e7\u00e3o defensiva. O advers\u00e1rio ataca: Essa B\u00edblia cont\u00e9m erros! E respondemos-lhe como podemos. O fundamentalista mant\u00e9m-se na sua. Adaptando a Hist\u00f3ria contada por Di Melo, certo arque\u00f3logo diz ao fundamentalista: \u00abAcab\u00e1mos de encontrar umas ossadas num terreno que tem 30.000 anos de idade; a vossa cria\u00e7\u00e3o do homem h\u00e1 apenas 5.000 anos \u00e9 uma f\u00e1bula!\u00bb \u00abUm momento\u00bb, responde o fundamentalista, \u00abo que se passa \u00e9 que Deus colocou esses ossos nesse lugar para provar a nossa f\u00e9\u00bb. A imensa maioria dos crentes responder\u00e1, simplesmente, que, embora a inspira\u00e7\u00e3o do autor garanta a verdade da mensagem religiosa, n\u00e3o o liberta dos seus limites humanos nem das caracter\u00edsticas da sua cultura. Contudo, seria certamente prefer\u00edvel recordar que a Verdade \u00e9 Deus.
Deus revela-Se e comunica-Se, mas o que Ele procura sempre \u00e9 colocar-nos na verdade, e nunca dar-nos verdades das quais poder\u00edamos fazer um pequeno tratado, para o qual bastaria olhar a fim de ter sempre a resposta adequada. Mais do que defender a B\u00edblia e falar de aus\u00eancia de erros em geral, de forma abstracta, dever\u00edamos interrogar-nos se, por vezes, a B\u00edblia n\u00e3o nos ter\u00e1 induzido em erro, ou n\u00e3o nos ter\u00e1 levado a tomar uma decis\u00e3o desacertada. Descobriremos certamente, mais de uma vez, certos preconceitos do autor e as limita\u00e7\u00f5es do seu olhar: isso \u00e9 pr\u00f3prio de qualquer cultura e de qualquer obra humana. Por\u00e9m, se abordarmos o texto com o olhar da f\u00e9, dele sempre se desprender\u00e1 a certeza de termos tocado a verdade. A p\u00e1gina, lida com f\u00e9 e colocada de novo no conjunto da B\u00edblia, n\u00e3o nos enganar\u00e1. Descobriremos que todo o Antigo Testamento \u00e9 uma longa pedagogia de Deus, que muitas verdades foram surgindo pouco a pouco e que algumas, inclusivamente, s\u00f3 se consolidaram com a vinda de Deus. Contudo, se precisarmos de uma chave para interpretar esse longo caminhar do povo de Deus, e reintroduzir algumas personagens muito ausentes, ou muito menosprezadas (como no caso das mulheres), encontr\u00e1-la-emos na pessoa do Filho de Deus feito homem; Deus ordenou toda a revela\u00e7\u00e3o de maneira a faz\u00ea-la conduzir tudo a Ele, e \u00e9 n'Ele que ela acaba.
No texto de Jo\u00e3o que cit\u00e1mos, Jesus apoiou-Se numa frase e numa palavra precisa. O leitor moderno tem, pois, o direito de se interrogar se tamb\u00e9m pode apoiar-se com a mesma certeza nas palavras que encontre. Mas nunca encontraremos crit\u00e9rios simples, de aplica\u00e7\u00e3o f\u00e1cil, que nos permitam ler, sem erros, as palavras inspiradas. A Hist\u00f3ria ensina-nos que as discuss\u00f5es religiosas entre advers\u00e1rios que faziam o mesmo uso da B\u00edblia muito poucas vezes levaram a uma reconcilia\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, quando temos de tomar uma decis\u00e3o, quantas vezes nos pergunt\u00e1mos se pod\u00edamos confiar na palavra b\u00edblica? O problema \u00e9 outro.
O uso da Palavra de Deus \u00e9 como um jogo que compromete toda a pessoa; as suas regras permanecem ocultas para quem olha a B\u00edblia de fora (como faz o dem\u00f3nio, nas Tenta\u00e7\u00f5es de Jesus). O crente que recebe a B\u00edblia como uma revela\u00e7\u00e3o da Sabedoria divina, a mesma que se manifestou plenamente em Jesus Cristo, saber\u00e1 discernir quando for necess\u00e1rio. Por\u00e9m, mesmo assim, continuar\u00e1 a haver lugar para os nossos pr\u00f3prios erros, porque a nossa cultura e a nossa experi\u00eancia religiosa n\u00e3o est\u00e3o mais asseguradas do que as dos s\u00e9culos passados.

{N}11,{/}23 O texto diz: {C}voltar\u00e1 a levantar-se. {/}De facto, o evangelho e os outros textos do Novo Testamento n\u00e3o utilizam uma palavra especial para falar da ressurrei\u00e7\u00e3o; dizem: {C}levantar-se {/}ou ent\u00e3o {C}despertar. {/}Podemos, portanto, conservar o sentido original.

{N}11,{/}25 O texto \u00e9 duvidoso. V\u00e1rios manuscritos dizem apenas: {C}Eu sou a ressurrei\u00e7\u00e3o.{/}

{N}11,{/}32 Podemos pensar que Maria abandonou o grupo dos disc\u00edpulos para ir at\u00e9 junto do seu parente, L\u00e1zaro, irm\u00e3o de Marta. J\u00e1 em Bet\u00e2nia, mandou chamar Jesus, convencida de que, por ela, o Mestre n\u00e3o hesitaria em empreender a viagem; mas Jesus n\u00e3o veio.

{N}11,{/}41 O vers\u00edculo 42 \u00e9 dif\u00edcil de traduzir de uma maneira que confira ao texto um sentido aceit\u00e1vel. Pode-se entender por: dou-Te gra\u00e7as, n\u00e3o porque Tu vais fazer este milagre (isso j\u00e1 Eu sabia), mas porque esta gente poder\u00e1 acreditar.

{N}11,{/}44 Esta ressurrei\u00e7\u00e3o de L\u00e1zaro apresenta um problema: como \u00e9 poss\u00edvel que os outros evangelhos n\u00e3o falem dela? N\u00e3o teve lugar numa aldeia da Galileia, como aconteceu com a filha de Jairo ou com o rapaz de Naim, mas \u00e0s portas de Jerusal\u00e9m, e tudo d\u00e1 a entender que L\u00e1zaro era um homem de boa condi\u00e7\u00e3o. Se pertencia \u00e0 primeira comunidade, n\u00e3o falavam dele? Ou teria morrido passado pouco tempo? Isso explicaria o facto de Jo\u00e3o ter mencionado que, nessa primeira ocasi\u00e3o, estava morto e bem morto.
H\u00e1 que ter em conta, por\u00e9m, que este milagre est\u00e1 ligado aos par\u00e1grafos seguintes, que s\u00e3o daqueles em que Jo\u00e3o apresenta factos precisos que nunca foram postos em d\u00favida; al\u00e9m disso, ao que parece, Jo\u00e3o ter\u00e1 tido acesso ao pequeno mundo que rodeava os sumos sacerdotes (Jo 18,15). Devemos recordar, sobretudo, que os evangelhos n\u00e3o tentam coleccionar os milagres, mas conservaram apenas aqueles que ajudavam a descobrir o que \u00e9 o evangelho e quem \u00e9 Jesus.

{N}11,{/}46 \u00c9 pertinente perguntar onde ter\u00e1 Jo\u00e3o obtido tantas informa\u00e7\u00f5es sobre o sucedido no Sin\u00e9drio. Atrav\u00e9s de Nicodemos e de Jos\u00e9 de Arimateia, que eram membros do mesmo, e que parecem ter ficado bastante pr\u00f3ximos da primeira comunidade, em \u00e9pocas posteriores? Mas tamb\u00e9m n\u00e3o se pode ignorar que o disc\u00edpulo que Jesus amava tinha acesso \u00e0 casa do sumo sacerdote (Jo 18,15).

{N}12,{/}1 {C}Seis dias antes da P\u00e1scoa. {/}Marcos fala de dois dias. \u00c9 poss\u00edvel um erro dum ou do outro, embora seja pouco prov\u00e1vel em Jo\u00e3o. Contudo, n\u00e3o devemos esquecer que o relato dos evangelhos deixa entender que Jesus celebrou a P\u00e1scoa seguindo outro calend\u00e1rio, que n\u00e3o o oficial. E existem fortes raz\u00f5es para pensar que Ele celebrou a \u00daltima Ceia na ter\u00e7a-feira, quando, para a P\u00e1scoa, o dia oficial era a sexta-feira.

{N}12,{/}28 {C}J\u00e1 o glorifiquei e voltarei a glorific\u00e1-lo. {/}Refere-se, aparentemente, ao Nome de Deus, mas a continua\u00e7\u00e3o do par\u00e1grafo mostra que Jo\u00e3o mant\u00e9m uma certa ambiguidade: a glorifica\u00e7\u00e3o do Nome ser\u00e1, ao mesmo tempo, a de Jesus, levantado da terra, que atrai tudo a Si (13,31).

{N}12,{/}34 {C}A Lei diz que o Messias vai permanecer aqui  para sempre{/}: \u00e9 o que diz a profecia de Daniel 7,14.

{N}12,{/}41 Uma vez mais o evangelho transfere para Jesus tudo o que o Antigo Testamento dizia do pr\u00f3prio Deus: foi a gl\u00f3ria do Filho-Senhor que o profeta viu! Imediatamente Jesus aponta o pecado, ou a nossa loucura, de n\u00e3o darmos o passo da f\u00e9: n\u00e3o vimos mais do que a gl\u00f3ria humana, quando pod\u00edamos ganhar a Gl\u00f3ria de Deus.

{N}14,{/}2 O texto de certo n\u00famero de manuscritos \u00e9 um pouco diferente: Na casa de meu Pai h\u00e1 muitas moradas; sen\u00e3o fosse assim, ter-vo-lo-ia dito. Agora vou preparar-vos um lugar.

{N}14,{/}5 Dissemos no coment\u00e1rio que, nesta passagem, as interven\u00e7\u00f5es de pessoas que n\u00e3o entendem a palavra de Jesus n\u00e3o passam de um procedimento de estilo para levar Jesus a precisar melhor o que acaba de dizer (como em 4,11; 6,52...). No entanto, a elei\u00e7\u00e3o dos seus interlocutores n\u00e3o \u00e9 casual. Tom\u00e9 interv\u00e9m pela segunda vez, e Jo\u00e3o falar\u00e1 dele depois da ressurrei\u00e7\u00e3o. O mesmo acontece com Filipe, citado em 6,5 e 12,22. \u00c9 prov\u00e1vel que Tom\u00e9 e Filipe fossem os mais conhecidos destinat\u00e1rios deste evangelho. Se Jo\u00e3o se encontrava ent\u00e3o do outro lado do Jord\u00e3o, como h\u00e1 motivos para pensar, n\u00e3o seria causa de estranheza ver, perto dele, Tom\u00e9, aquele que, segundo as antigas tradi\u00e7\u00f5es, tinha partido dali para o oriente, e cujas comunidades levaram o Evangelho at\u00e9 \u00e0 \u00cdndia.

{N}14,{/}7 Nalguns textos antigos l\u00ea-se: {C}Se Me conheceis, conhecereis... {/}O mesmo acontece no v. 17: porque estar\u00e1 convosco e permanecer\u00e1 em v\u00f3s. Na realidade, isso n\u00e3o altera nada, porque sabemos que, no evangelho de Jo\u00e3o, este discurso, feito aos ap\u00f3stolos, dirigia-se, na realidade, aos crist\u00e3os da sua \u00e9poca. Se Jesus tivesse falado aos ap\u00f3stolos, o discurso teria de estar no futuro, porque eles ainda n\u00e3o tinham recebido o Esp\u00edrito; por\u00e9m, se \u00e9 Jo\u00e3o que se dirige aos crist\u00e3os, ent\u00e3o fala no presente.

{N}14,{/}22 Estes vers\u00edculos 22-27 dizem, de forma muito simples, o que \u00e9 a experi\u00eancia crist\u00e3, portanto, a experi\u00eancia da ilumina\u00e7\u00e3o. Existe uma ilumina\u00e7\u00e3o ligada ao Baptismo quando corresponde ao termo de uma descoberta da f\u00e9 e de um processo de convers\u00e3o (Gl 3,2). Contudo, habitualmente, esta manifesta\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito \u00e0 qual Paulo se refere em v\u00e1rios lugares desaparece, enquanto se desenvolve uma vida na f\u00e9 e na perseveran\u00e7a, sem manifesta\u00e7\u00e3o sens\u00edvel da presen\u00e7a divina. No entanto, Deus tem a sua hora, Ele tem toda a liberdade para nos fazer aceder a um estado de maturidade espiritual em que se estabelece de forma est\u00e1vel essa consci\u00eancia da presen\u00e7a de Deus e, na zona profunda do esp\u00edrito, a paz (Rm 8,16).

{N}16,{/}12 Foi dito, em 15,26, que o Esp\u00edrito testificaria. Aqui, em 16,13, o Esp\u00edrito {C}vos encaminhar\u00e1 para toda a verdade... dir\u00e1 o que escutou e anunciar-vos-\u00e1 as coisas que v\u00e3o acontecer.{/}
Pode-se entender esse \u00abo Esp\u00edrito dir\u00e1\u00bb como uma forma de exprimir as intui\u00e7\u00f5es e a inspira\u00e7\u00e3o que prov\u00eam do Esp\u00edrito de Deus, e que guiam tanto as pessoas como toda a Igreja. No entanto, devemos reconhecer que Jo\u00e3o, aqui, pensa, em primeiro lugar, no profetismo crist\u00e3o.
Com efeito, o Esp\u00edrito n\u00e3o fala e, tal como Jesus o recorda, n\u00e3o tem mensagem pr\u00f3pria, mas faz-se esp\u00edrito dos profetas, e estes s\u00e3o os que transmitem mensagens em que o Apocalipse v\u00ea o testemunho de Jesus.
No Antigo Testamento n\u00e3o se diz que o Esp\u00edrito fala (esta palavra s\u00f3 se encontra em 2Sm 23,2 e Ez 3,24). No Novo Testamento, pelo contr\u00e1rio, a express\u00e3o torna-se frequente: Mt 10,20; Act 8,29; 10,19; 1Tm 4,1 e Ap cap. 2-3 e 22,17. Tamb\u00e9m se falar\u00e1 dos esp\u00edritos para designar essa actividade prof\u00e9tica (1Cor 14,32; 1Jo 4,1; Ap 22,6), o que \u00e9 uma forma de reconhecer que as revela\u00e7\u00f5es tomam a cor de quem as recebe.
Os carismas prof\u00e9ticos s\u00e3o, portanto, para Jo\u00e3o, um aspecto importante da vida da Igreja. Recordamos, no coment\u00e1rio a Hb 7,1, que os profetas desempenharam um papel decisivo na formula\u00e7\u00e3o da f\u00e9. Introduziram uma nova interpreta\u00e7\u00e3o dos textos do Antigo Testamento, que por vezes nos desconcerta, mas que marcou o credo. O Apocalipse \u00e9, na verdade, um testemunho exemplar dessa forma de profecia, tanto nas mensagens transmitidas \u00e0s Igrejas, como nas suas vis\u00f5es da Hist\u00f3ria.

{N}16,{/}22 A ora\u00e7\u00e3o {C}em nome de Jesus {/}n\u00e3o \u00e9 referida aqui como uma forma especial de ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3. At\u00e9 agora n\u00e3o pedistes nada invocando o meu Nome: os ap\u00f3stolos que viviam com Jesus n\u00e3o se Lhe dirigiam na sua ora\u00e7\u00e3o; durante esse per\u00edodo do seu esvaziamento, a humilha\u00e7\u00e3o, Jesus ainda n\u00e3o tinha o Nome divino que Lhe corresponde (Fl 2,9). A ora\u00e7\u00e3o em nome de Jesus significa que quem reza reconheceu plenamente o Filho; embora toda a ora\u00e7\u00e3o deva chegar ao Pai, a Igreja estava t\u00e3o compenetrada do que tinha sido essa vinda do Filho, seguida da sua passagem inaudita da terra \u00e0 Gl\u00f3ria, que preferia ignorar qualquer outro que n\u00e3o fosse Ele.
No fim do seu discurso, vers\u00edculo 32, Jesus recorda que continua a ser o Filho que nada separa do Pai, at\u00e9 ao \u00faltimo instante do seu sacrif\u00edcio.

{N}17,{/}2 {C}Deste-Lhe poder sobre tudo, {/}e n\u00e3o sobre \u00abtodos\u00bb. Isto j\u00e1 se lia em 6,34, e voltaremos a encontr\u00e1-lo em 17,24. Jo\u00e3o possivelmente quer recordar que Jesus n\u00e3o salva s\u00f3 pessoas individuais, mas que as toma a todas como que unidas numa Humanidade que far\u00e1 uma s\u00f3 coisa com Ele.

{N}17,{/}6 {C}Eu manifestei o teu Nome aos homens que Me deste do meio do mundo. {/}Poder\u00edamos pensar que Jesus fala como em 6,43 daqueles dentre os seus ouvintes que foram tocados pelo Pai para escaparem de um mundo malvado e se salvaram. Contudo, se lermos bem o v. 9: {C}N\u00e3o pe\u00e7o pelo mundo, mas por aqueles que me deste{/}, apresenta-se-nos outra interpreta\u00e7\u00e3o. Pode haver a\u00ed um reconhecimento do plano misterioso do Pai, que Se reserva o direito de chamar quem quiser a fim de constituir o seu povo particular sem com isso desqualificar os outros; inclusivamente, quando Deus elegeu Israel, n\u00e3o foi para deixar os outros abandonados. Assim, temos, por um lado, os que s\u00e3o chamados, por outro, o mundo. Este n\u00e3o se identifica de modo algum com uma massa de perdi\u00e7\u00e3o (como dizia Santo Agostinho, t\u00e3o vocacionada para o inferno); est\u00e1, simplesmente, fora do alcance da revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica. Esse mundo s\u00e3o as tr\u00eas quartas partes da humanidade, \u00e0s quais Deus n\u00e3o quis revelar a forma como as vai salvar; mas que foram recordadas de passagem quando se fala do Verbo-luz em Jo 1,9; s\u00e3o o mundo, que Deus Amou tanto, que lhe deu o seu Filho \u00fanico (Jo 3,16). Podemos deduzir deste texto, como daquele que estamos a comentar, que desse mundo apenas se salvar\u00e3o os que acreditam, mas o outro sentido \u00e9 mais \u00f3bvio: Os que v\u00eaem Cristo e acreditam n'Ele ter\u00e3o desde j\u00e1 a salva\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e a vida eterna, mas n\u00e3o diz, de maneira nenhuma, que os outros se condenar\u00e3o. E esse mundo acreditar\u00e1 quando os crist\u00e3os forem {C}um{/} em Deus.

{N}17,{/}21 Nalguns manuscritos, este vers\u00edculo diz o seguinte: {C}que tamb\u00e9m eles sejam um em n\u00f3s.{/}
Esta ora\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 denominada, com frequ\u00eancia, a ora\u00e7\u00e3o sacerdotal. \u00c9-o, em certo sentido, no que se refere a Jesus, que Se sacrifica para santificar os seus (ver notas a Mc 10,45 e 14,22). Por\u00e9m, noutro sentido, Jesus ora tamb\u00e9m pelo povo que desempenhar\u00e1 um papel sacerdotal no mundo, o povo que conhece a Deus segundo a verdade, aquele ao qual Deus Se d\u00e1 a conhecer, e que desempenha uma fun\u00e7\u00e3o \u00fanica na salva\u00e7\u00e3o do mundo.

{N}18,{/}28 {N}A DATA DA P\u00c1SCOA{/}
Este vers\u00edculo \u00e9 o testemunho mais importante acerca do ponto seguinte: Jesus \u00e9 julgado na manh\u00e3 do dia em que se celebra a P\u00e1scoa e morre nesse mesmo dia, algumas horas antes da ceia pascal. A P\u00e1scoa celebrava-se nesse ano a um s\u00e1bado (Jo 18,31; Mc 15,42), e a ceia pascal celebrava-se na sexta-feira \u00e0 tarde: lembremos que, para os judeus, o \u00abdia\u00bb de 24 horas come\u00e7ava ao come\u00e7o da noite, quando aparecia a primeira estrela, e a noite vem antes do dia, o qual terminava tamb\u00e9m com o crep\u00fasculo.
A P\u00e1scoa celebrava-se sempre na Lua Cheia: no dia 14-15 do m\u00eas de Abib, o m\u00eas da Primavera (m\u00eas de Nis\u00e3, no calend\u00e1rio babil\u00f3nio). Ver Ex 12,6 e 23,15. Podia, por isso, cair em qualquer dia da semana. O facto de ter ca\u00eddo nesse ano a um s\u00e1bado ajuda-nos a precisar o ano da morte de Jesus: com toda a probabilidade, no ano 30, o que concorda perfeitamente com o in\u00edcio da prega\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Baptista, no Outono do ano 28.
O sin\u00f3pticos parecem contradizer Jo\u00e3o, j\u00e1 que dizem que Jesus \u00abcomeu a P\u00e1scoa\u00bb um dia antes, ou seja, na quinta-feira \u00e0 tarde, na v\u00e9spera do dia em que morreu, uma sexta-feira. Como explicar esta diverg\u00eancia?
Uma das explica\u00e7\u00f5es poss\u00edveis \u00e9 a seguinte: Jesus teria celebrado a P\u00e1scoa seguindo outro calend\u00e1rio diverso do oficial: por exemplo, um calend\u00e1rio ess\u00e9nio. Neste caso, a diferen\u00e7a poderia ser de um dia, como parece deduzir-se dos sin\u00f3pticos: na quinta-feira \u00e0 tarde, em vez de sexta-feira \u00e0 tarde. Mas isto n\u00e3o passa de uma suposi\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m se prop\u00f4s outra hip\u00f3tese: Jesus teria seguido um calend\u00e1rio n\u00e3o oficial, com tr\u00eas dias de diferen\u00e7a, e a Ceia Pascal teria tido lugar na ter\u00e7a-feira \u00e0 tarde. Esta data seria confirmada pelo uso muito antigo de certas Igrejas do M\u00e9dio Oriente que impunham dois dias de jejum, ter\u00e7a-feira e sexta-feira, justificando-se a ter\u00e7a-feira por ser o dia da pris\u00e3o de Jesus. Esta diferen\u00e7a teria a vantagem de tornar mais plaus\u00edvel o desenrolar dos acontecimentos do processo de Jesus, que nos parece demasiado r\u00e1pido: compar\u00eancia diante de An\u00e1s na noite de quinta-feira, antes do plen\u00e1rio do Sin\u00e9drio na sexta-feira de manh\u00e3, diante de Pilatos com a flagela\u00e7\u00e3o, a segunda sess\u00e3o, o caminho para o Calv\u00e1rio e a morte de Jesus cerca das tr\u00eas da tarde. Se a pris\u00e3o tivesse tido lugar na noite de ter\u00e7a-feira, seria mais f\u00e1cil seguir o seu desenvolvimento. Esta hip\u00f3tese suscitou no entanto muitas d\u00favidas.
A solu\u00e7\u00e3o mais prov\u00e1vel \u00e9 esta: Jesus n\u00e3o celebrou a P\u00e1scoa. Veja-se a nota a Lc 22,10. Al\u00e9m do que dissemos a\u00ed sobre o modo habitual de responder de Jesus, est\u00e1 o facto de que a narra\u00e7\u00e3o dos Evangelhos foi redigida num ambiente crist\u00e3o que sabia que a \u00daltima Ceia de Jesus tinha sido de facto a inaugura\u00e7\u00e3o da nova P\u00e1scoa. Todos os judeus preparam a P\u00e1scoa nesses dias, e Jesus tamb\u00e9m preparara a \u00absua\u00bb P\u00e1scoa. Por isso os evangelistas n\u00e3o t\u00eam o menor escr\u00fapulo em colocar a palavra {C}P\u00e1scoa {/}na boca dos disc\u00edpulos e do pr\u00f3prio Jesus. Mas as narra\u00e7\u00f5es evang\u00e9licas da \u00daltima Ceia n\u00e3o fazem alus\u00e3o a nenhum dos pormenores da celebra\u00e7\u00e3o judaica, com um cordeiro que ia ser imolado no Templo; nada recorda o esp\u00edrito pascal; s\u00f3 encontramos o Servo sofredor de Jav\u00e9 (Is 52,13) e a Nova Alian\u00e7a (Ex 19; Jr 31,31).

{N}19,{/}34 Podemos surpreender-nos por Jo\u00e3o dar tanta import\u00e2ncia ao seu testemunho sobre este ponto, que nos parece um pormenor secund\u00e1rio; talvez a raz\u00e3o est\u00e1 no uso simb\u00f3lico que Jo\u00e3o faz desta express\u00e3o: {C}a \u00e1gua e o sangue {/}(1Jo 5,6). Mas tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel que Jo\u00e3o proclame aqui a veracidade de todo o seu testemunho sobre a morte de Jesus: ele foi testemunha ocular de tudo o que acaba de escrever, o que n\u00e3o acontece com os outros evangelistas.

{N}19,{/}35 No final do relato da Paix\u00e3o e Morte de Jesus, Jo\u00e3o acrescenta o sinete pessoal do seu testemunho, tr\u00eas vezes repetido. Cristo morreu. O soldado d\u00e1 o golpe com lan\u00e7a e, do cora\u00e7\u00e3o trespassado de Jesus, jorram sangue e \u00e1gua. \u00c9 para Jo\u00e3o o instante em que se revela o sentido do drama.
Era a prepara\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa naquela tarde de sexta-feira, muito perto do local das execu\u00e7\u00f5es, os judeus desciam a colina em direc\u00e7\u00e3o ao templo, para a imola\u00e7\u00e3o do cordeiro pascal. Neste ritual do sacrif\u00edcio pascal, era necess\u00e1rio que n\u00e3o se perdesse uma \u00fanica gota de sangue. Este ano, Jo\u00e3o n\u00e3o se misturou com a multid\u00e3o; manteve-se ali, junto \u00e0 cruz, com Maria e com algumas santas mulheres. Eis ent\u00e3o que o soldado, como o sacerdote \u00e0 mesma hora, no templo, sangra o Cristo, na cruz, at\u00e9 \u00e0 \u00faltima gota. Ent\u00e3o os olhos de Jo\u00e3o abrem-se: a palavra outrora pronunciada por Jo\u00e3o Baptista \u00e0 beira do Jord\u00e3o fica subitamente iluminada: \u00abEis o Cordeiro de Deus, eis Aquele que tira o pecado do mundo\u00bb (Jo 1,29).
O gesto do soldado torna-se gesto prof\u00e9tico porque descobre o mist\u00e9rio do Cordeiro. O sangue redentor foi derramado, j\u00e1 n\u00e3o sobre o altar do templo, mas sobre a terra doravante renovada, vivificada pelo sangue de Cristo. O sacrif\u00edcio do cordeiro pascal inaugurado por Mois\u00e9s encontra aqui o seu cumprimento e a sua transfigura\u00e7\u00e3o. E, tal como o \u00absangue e a \u00e1gua\u00bb do parto, o sangue e a \u00e1gua que jorram do lado de Cristo anunciam hoje o nascimento dos tempos novos, dos quais o Baptismo e a Eucaristia s\u00e3o os sacramentos. Jo\u00e3o recorda ent\u00e3o outra prescri\u00e7\u00e3o do ritual do cordeiro sacrificado: Nenhum dos seus ossos ser\u00e1 quebrado (Ex 12,46).
O cora\u00e7\u00e3o trespassado de Jesus convida-nos a descobrir o poderoso e misterioso amor que inspirou a sua vida. Os disc\u00edpulos de Jesus, que partilharam a sua vida de todos os dias, v\u00e3o ver que as suas recorda\u00e7\u00f5es e as suas emo\u00e7\u00f5es se atenuam e desaparecem com o tempo. Mas v\u00e3o descobrir, tamb\u00e9m, que n\u00e3o houve uma palavra, um gesto ou um sil\u00eancio de Jesus que n\u00e3o exprimisse o seu amor por Deus. O cora\u00e7\u00e3o trespassado pela lan\u00e7a est\u00e1 na origem da nossa devo\u00e7\u00e3o ao Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus. Nunca nos percamos em considera\u00e7\u00f5es ou em palavras para explicar e interpretar a nossa f\u00e9: contemplemos antes o amor de Deus e deixemos que Ele nos transforme para nos tornar semelhantes a Si.
Jesus acabou de morrer entre dois malfeitores, e s\u00e3o dois Fariseus que se preocupam em dar-lhe uma sepultura condigna. Jos\u00e9 de Arimateia interv\u00e9m junto de Pilatos, pois a condi\u00e7\u00e3o social dos disc\u00edpulos n\u00e3o lhes permitia aproximar-se do governador romano. Jos\u00e9 e Nicodemos eram disc\u00edpulos \u00abem segredo\u00bb. Como Jesus nunca deixara de Se identificar com a gente do povo, era dif\u00edcil para as pessoas de condi\u00e7\u00e3o social mais elevada integrar-se no seu grupo. Temos aqui um exemplo das consequ\u00eancias inevit\u00e1veis da op\u00e7\u00e3o de prefer\u00eancia pelos pobres.
{C}Ele sabe que diz a verdade{/}: Jo\u00e3o reserva habitualmente esta forma grega do pronome Ele para Cristo, muito pr\u00f3ximo de n\u00f3s, embora invis\u00edvel, como em 1Jo 2,6; 3,6.

{N}19,{/}38 Podemos estranhar este {C}medo dos judeus {/}numa personagem importante como era Nicodemos. \u00c9 prov\u00e1vel que Jo\u00e3o n\u00e3o fa\u00e7a diferen\u00e7a entre os medos do pobre quando este est\u00e1 em risco de ser preso, e o medo da gente poderosa, quando se lhe pede um gesto considerado indigno da sua classe.
O local das execu\u00e7\u00f5es era uma pedreira abandonada, perto das muralhas de Jerusal\u00e9m. Tinham sido escavados t\u00famulos dos lados, ao passo que o fundo da pedreira fora preenchido de terra, e estava ocupado por jardins (41). Ao meio encontrava-se uma rocha com cerca de cinco metros de altura, \u00e0 qual se chamava Calv\u00e1rio (quer dizer, Cr\u00e2nio), e era a\u00ed que se erguiam as cruzes.

{N}20,{/}8 V\u00e1rios comentaristas que n\u00e3o receberam o dom da f\u00e9 falam da f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o como de uma desforra da esperan\u00e7a defraudada. O mal tinha levado a melhor, e os disc\u00edpulos n\u00e3o tinham for\u00e7a para reivindicar o direito. Era necess\u00e1rio que algum recurso m\u00e1gico desmentisse a evid\u00eancia que os factos revelavam, e foi ent\u00e3o que se deu passagem ao mito de Cristo ressuscitado. Aqui, no entanto, o testemunho de Jo\u00e3o parece mais aut\u00eantico: desde o primeiro momento o sinal do t\u00famulo vazio deu-lhe acesso \u00e0 f\u00e9, e foi-lhe concedido entender a revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica na sua totalidade. Com efeito, havia a revela\u00e7\u00e3o, bastava que algu\u00e9m a entendesse; n\u00e3o era necess\u00e1rio o tempo, nem t\u00e3o-pouco um mito.

{N}21,{/}3 No que se refere a esta pesca, leia-se o final do coment\u00e1rio de Lc 5,1. O verbo {C}manifestar-se{/}, que lemos em 21,1, n\u00e3o se aplica em mais parte nenhuma \u00e0s apari\u00e7\u00f5es de Jesus ressuscitado (excepto nos par\u00e1grafos que foram agregados ao Evangelho de Marcos, em 16,9-12). Lemo-lo, por\u00e9m, em Jo 2,11, e parece que a terceira vez, em 21,14, se refere \u00e0 primeira manifesta\u00e7\u00e3o em Can\u00e1, e ao segundo sinal milagroso contado em 4,54. Na primeira redac\u00e7\u00e3o deste evangelho, era o terceiro milagre realizado por Jesus na Galileia. Jo\u00e3o quis record\u00e1-lo aqui nesta apari\u00e7\u00e3o de Jesus nos mesmos lugares: os dois acontecimentos iluminam-se um ao outro. A pesca tinha dado ocasi\u00e3o a uma primeira chamada; aqui, depois da Ressurrei\u00e7\u00e3o, a resposta tinha uma profundidade muito diferente.

{N}21,{/}15 H\u00e1 tr\u00eas perguntas: Por duas vezes Jesus fala de {C}ovelhas{/}, \u00e0 terceira, fala de {C}cordeiros. {/}Poder\u00edamos pensar que, com os cordeiros e as ovelhas, Jesus faz alus\u00e3o \u00e0 responsabilidade do pastor, que n\u00e3o deve esquecer os mais d\u00e9beis.
Das duas primeiras vezes Jesus interroga utilizando um verbo que significa {C}amar{/}, e Pedro responde com outro verbo {C}amar{/}, que \u00e9 quase equivalente, mas que se aplica mais ao afecto directo e pessoal; esse verbo nunca \u00e9 utilizado no Novo Testamento, quando se nos pede que amemos o pr\u00f3ximo. Da terceira vez, Jesus retoma esse verbo do amor mais \u00edntimo que Pedro Lhe declarou, e Pedro responde tal como fez das duas vezes anteriores. Podemos ver aqui uma progress\u00e3o psicol\u00f3gica.

