{N}1,{/}5 {N}JESUS \u00c9 O SENHOR:  SER\u00c1 ESTA AFIRMA\u00c7\u00c3O UMA INVEN\u00c7\u00c3O DA F\u00c9?{/}
A figura de Jesus, tal como ressalta dos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, \u00e9 a figura de um Rabi, dum doutor da Lei segundo a mais pura tradi\u00e7\u00e3o do povo de Israel (Jo 3,2). Mesmo que, com o desenrolar da Hist\u00f3ria, se tenha dado aos conflitos com os Fariseus um pouco mais de import\u00e2ncia do que eles realmente tiveram, tamb\u00e9m n\u00e3o se esqueceu, por outro lado, que os ensinamentos de Jesus, sob muitos aspectos, estavam pr\u00f3ximos da doutrina dos Fariseus (Mc 2,16; 12,28; 12,32). Disc\u00edpulos ou opositores, eles viam-n'O como um doutor da Lei autodidacta (Jo 7,15). Como, portanto, se ter\u00e1 passado disso \u00e0 figura do Cristo, tal como aparece, sobretudo, nas cartas de Paulo: Senhor da Hist\u00f3ria, novo Ad\u00e3o, Aquele que recebeu o \u00abNome\u00bb incomunic\u00e1vel?
Na ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus acreditaram os ap\u00f3stolos e toda a comunidade crist\u00e3, que nasceu dessa certeza. Que Ele fosse o Messias, ningu\u00e9m duvidava; que fosse Filho de Deus, num sentido muito especial, completamente oposto \u00e0quilo que os judeus entendiam por esse termo, tamb\u00e9m era objecto de cren\u00e7a. Mas foi preciso muito tempo para da\u00ed tirar todas as ila\u00e7\u00f5es, e \u00e9 verdade que esta passagem foi mais dif\u00edcil de aceitar por aqueles que tinham conhecido Jesus pessoalmente, e O tinham visto atrav\u00e9s dos \u00f3culos da sua cultura judaica. N\u00e3o porque Jesus n\u00e3o tivesse sido plenamente Judeu, at\u00e9 pela sua maneira de ensinar, mas porque aquilo que eles tinham amado n'Ele os impedia de ver mais longe. Reconheciam-se certamente na carta de Tiago, o mais \u00abjudeu\u00bb dos escritos apost\u00f3licos; o autor desta carta, ao mesmo tempo que reconhece Jesus como \u00abnosso Senhor\u00bb, come\u00e7a por ver n'Ele o mestre de uma nova lei, que retoma o que h\u00e1 de melhor no Antigo Testamento (2,1 e 8).
As comunidades crist\u00e3s da Palestina v\u00e3o ligar-se, portanto, a essa imagem que lhes ficou do rabi galileu, impelidas nesse sentido pelo grupo de Nazar\u00e9, os \u00abirm\u00e3os de Jesus\u00bb (Gl 1,19). Ele tinha ressuscitado, \u00e9 certo, mas n\u00e3o tinha feito o mundo voltar \u00e0 estaca zero, e a sua heran\u00e7a era, primeiro que tudo, uma moral depurada. Durante v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es, estes \u00abjudeo-crist\u00e3os\u00bb v\u00e3o sentir-se como que estrangeiros perante a f\u00e9 da Igreja, cujo centro, entretanto, passar\u00e1 de Jerusal\u00e9m para Roma.
Foi a\u00ed que Paulo desempenhou o papel decisivo, sem o ter escolhido. Ele n\u00e3o inventou o Cristo Senhor e Redentor: Este j\u00e1 estava presente nas primeiras proclama\u00e7\u00f5es de Pedro (Act 2,32-36; 3,15). Mas Paulo n\u00e3o tinha sido marcado (e ao mesmo tempo limitado) pela imagem e as palavras do rabi galileu; pelo contr\u00e1rio, a sua convers\u00e3o tinha sido um encontro com o pr\u00f3prio Deus, na pessoa de Jesus, e ele tinha assumido uma posi\u00e7\u00e3o eminente, por semelhan\u00e7a com a prega\u00e7\u00e3o itinerante do Mestre (2Cor 5,16).
Se Jesus n\u00e3o tivesse ressuscitado, teria continuado a ser um mestre: at\u00e9 a\u00ed as suas palavras eram quase mais importantes do que a sua pessoa. Mas o corpo desaparecido do t\u00famulo, na manh\u00e3 de P\u00e1scoa, se correspondia \u00e0 verdade, constitu\u00eda, s\u00f3 por si, uma fenda aberta nas leis do universo. Em seguida, todas as apari\u00e7\u00f5es do ressuscitado traziam consigo uma \u00fanica Mensagem: Jesus, Senhor! Estava-se longe de Jeremias, envolto numa aur\u00e9ola de gl\u00f3ria, ou de Elias, arrebatado ao c\u00e9u. No Pentecostes, Pedro disse que, atrav\u00e9s dessa ressurrei\u00e7\u00e3o, Deus acabara de reabilitar o seu \u00absanto Servo\u00bb (Act 3,13), mas acrescentara: \u00abDeus constituiu-O Senhor\u00bb. Muito em breve ser\u00e1 necess\u00e1rio reconhecer em Jesus o \u00abfilho da mulher elevado ao c\u00e9u, para a\u00ed receber em suas m\u00e3os o Livro da Hist\u00f3ria\u00bb (Ap 12,5; 5,7). Paulo e Jo\u00e3o t\u00eam o direito de falar, pois s\u00e3o verdadeiras testemunhas: ambos foram convidados a admirar de relance as moradas celestes (Ap 4,1; 2Cor 12,2).
Agora era a pessoa de Jesus que revelava a chave das suas palavras, pois Ele era Deus, nascido de Deus. Quando Paulo falar\u00e1 de Cristo como \u00abimagem de Deus\u00bb (Cl 1,15), n\u00e3o come\u00e7ar\u00e1 por nos convidar a reconhecer nos gestos de Jesus a bondade do Pai: pensar\u00e1 primeiro que tudo no Filho que, desde as origens, \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o, a projec\u00e7\u00e3o e a sabedoria activa do Deus eternamente invis\u00edvel. Foi Ele que atravessou o tempo, e a nossa Hist\u00f3ria, para que, por Ele, toda a cria\u00e7\u00e3o e a Hist\u00f3ria dos homens se reconciliem com o mist\u00e9rio divino (Cl 1,20).
Nos evangelhos, Jesus queria ser apenas o arauto do Reino de Deus. Com Paulo, por\u00e9m, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 Reino a n\u00e3o ser no Filho, feito homem e ressuscitado (Cl 3,1). Nisso reside o fosso que separa a f\u00e9 crist\u00e3 e a posi\u00e7\u00e3o daqueles que, dentre os judeus, sentem mais simpatia pela figura de Jesus. N\u00e3o foi Paulo que ergueu um muro de incompreens\u00e3o: a fonte de esc\u00e2ndalo era a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, bem como a sua morte na cruz.
O esc\u00e2ndalo n\u00e3o \u00e9 menor para o crist\u00e3o de hoje. Por muita f\u00e9 que tenhamos, somos por vezes assaltados pela d\u00favida: ser\u00e1 tudo isto verdade? E muitos livros escritos por descrentes, ou at\u00e9 por crist\u00e3os instru\u00eddos, v\u00eam confirmar as nossas d\u00favidas: \u00abA ressurrei\u00e7\u00e3o? N\u00e3o tem outra base para al\u00e9m de um t\u00famulo encontrado vazio... -  e mesmo assim, quem sabe?... Em seguida houve quem interpretasse, quem julgasse ver... Disseram que tinha ressuscitado, mas isso era uma forma de O envolver numa aur\u00e9ola e de consolidar a esperan\u00e7a da comunidade...\u00bb.
Todas estas raz\u00f5es, por\u00e9m, n\u00e3o prov\u00eam de uma convic\u00e7\u00e3o \u00edntima no cora\u00e7\u00e3o do crente; um instinto divino diz-lhe que a verdade reside no mist\u00e9rio e n\u00e3o nas interpreta\u00e7\u00f5es que pretendem elimin\u00e1-lo (1Jo 2,27). Dizemos bem: \u00abum instinto divino\u00bb, pois n\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o de sentimento. N\u00f3s acreditamos, o que significa, em primeiro lugar, que recebemos o testemunho dos ap\u00f3stolos e da Igreja, e que acreditamos, tal como eles acreditaram. Mas, se acolhermos a f\u00e9, Deus n\u00e3o nos deixar\u00e1 sozinhos frente \u00e0s nossas d\u00favidas, pois h\u00e1 uma promessa para aquele que cr\u00ea: o dom do Esp\u00edrito Santo (Act 2,38). Os textos b\u00edblicos, tanto do Antigo como do Novo Testamento, dizem claramente que n\u00e3o haver\u00e1 f\u00e9 que se mantenha sem uma experi\u00eancia espiritual (Hb 12,18-24), e isto \u00e9 ainda mais verdade para aqueles que vivem, como \u00e9 muitas vezes o nosso caso, numa civiliza\u00e7\u00e3o imperme\u00e1vel \u00e0 f\u00e9 (1Cor 12,3).

{N}3,{/}20 {N}O VOCABUL\u00c1RIO DA JUSTIFICA\u00c7\u00c3O{/}
A partir do momento em que abordamos os textos t\u00e3o importantes de Paulo sobre a \u00abjustifica\u00e7\u00e3o\u00bb, \u00e9 bom precisar o sentido das palavras que ele emprega e que deveremos exprimir bem na nossa l\u00edngua, que n\u00e3o \u00e9 a sua. A diferen\u00e7a, quanto ao resto, n\u00e3o reside apenas aqui, entre o Grego e o Portugu\u00eas; Paulo utiliza as palavras da B\u00edblia grega dos {C}Setenta{/}, aquela que, em certa medida, tinha determinado a linguagem religiosa dos judeus de l\u00edngua grega, e essas palavras devem ser compreendidas \u00e0 luz das experi\u00eancias religiosas do Antigo Testamento.
O nosso vocabul\u00e1rio sobre a justifica\u00e7\u00e3o e a gra\u00e7a foi fortemente marcado pelas intermin\u00e1veis controv\u00e9rsias teol\u00f3gicas e pelas pol\u00e9micas entre cat\u00f3licos e protestantes dos s\u00e9culos XVI a XVIII. Os nossos antepassados de antes de Cristo estavam bem longe de imaginar semelhantes quest\u00f5es. O vocabul\u00e1rio da reden\u00e7\u00e3o, do pecado e da justifica\u00e7\u00e3o nasceu da experi\u00eancia que deles tinham os v\u00e1rios grupos ou pessoas, sobre algu\u00e9m, menos importante, e outro, mais poderoso, que passava a ser seu protector. O mais poderoso estabelece uma alian\u00e7a com obriga\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas. Sucede que o inferior se revolta, {C}peca {/}contra o seu soberano (2Rs 18,14; Ez 17,15) e o atrai\u00e7oa. O soberano, pelo seu lado, pode apreciar a fidelidade do seu aliado, considerando-o {C}justo.{/}
A\u00ed temos, portanto, as palavras da Alian\u00e7a. N\u00e3o se duvida, por certo, da miseric\u00f3rdia de Deus, de que Ele saiba ou n\u00e3o perdoar, mas o povo tamb\u00e9m est\u00e1 consciente da justi\u00e7a de Deus: se puser em pr\u00e1tica os mandamentos da Alian\u00e7a, merecer\u00e1 um olhar favor\u00e1vel da parte de Deus. Os profetas trar\u00e3o uma evolu\u00e7\u00e3o \u00e0 espera do ju\u00edzo: nesse dia Deus justificar\u00e1 os seus, ou seja, reconhec\u00ea-los-\u00e1 como justos, e perdoar-lhes-\u00e1. Outra ideia abre caminho, enquanto o povo continua a pecar: o homem precisa de convers\u00e3o, e esta s\u00f3 pode ser obra de Deus (1Rs 18,37); mas n\u00e3o \u00e9 isso que corresponde \u00e0 palavra {C}justifica\u00e7\u00e3o{/}.
Depois do ex\u00edlio, na ora\u00e7\u00e3o dos Salmos, vemos desenvolver-se o desejo do crente sincero de cumprir o melhor poss\u00edvel os preceitos da Lei, sabendo que, quem os puser em pr\u00e1tica, viver\u00e1 por Eles (Lv 18,5). Conhecedor da sua pr\u00f3pria debilidade, n\u00e3o se cansar\u00e1 de pedir a Deus um {C}cora\u00e7\u00e3o puro{/}, disposto a observar a sua Lei. Por\u00e9m, quando lemos que Deus{C} justifica{/}, isso significa sempre que Ele reconhece a justi\u00e7a de algu\u00e9m e a proclama.
Era esta a forma pela qual sentiam e se exprimiam os crentes de origem judaica, ou os convertidos \u00e0 religi\u00e3o judaica, aos quais Paulo se dirigia. Este, por\u00e9m, prop\u00f5e uma reorienta\u00e7\u00e3o radical das palavras e da atitude religiosa. At\u00e9 ent\u00e3o, a {C}justifica\u00e7\u00e3o {/}dependia sobretudo do homem e da sua fidelidade em p\u00f4r em pr\u00e1tica os preceitos da Lei. A {C}justi\u00e7a {/}era um conjunto de qualidades reunidas no cora\u00e7\u00e3o e na vida do crente, mas era apreciada, em primeiro lugar, como uma perfei\u00e7\u00e3o moral e legal, que merecia a benevol\u00eancia de Deus. A rela\u00e7\u00e3o com Deus era, em grande parte, jur\u00eddica: a Lei estabelecia um c\u00f3digo de direitos e obriga\u00e7\u00f5es, e mesmo quando a piedade esperava muito da miseric\u00f3rdia divina, cada um assumia-se como respons\u00e1vel pela sua pr\u00f3pria justifica\u00e7\u00e3o.
Paulo, por\u00e9m, revela o valor universal da vinda do Cristo, ou seja, do Messias. Por Ele, e gra\u00e7as \u00e0 f\u00e9, Deus reordena a pessoa humana. A palavra grega utilizada por Paulo tanto significava \u00abjusti\u00e7a\u00bb como \u00abprocesso de justifica\u00e7\u00e3o\u00bb (chegar a ser justo, ou tornar-se justo, ou reconhecer como justo). A partir de agora a {C}justifica\u00e7\u00e3o {/}passar\u00e1 a ser uma refundi\u00e7\u00e3o da pessoa no mais profundo de si mesma: a f\u00e9 crist\u00e3 abre o esp\u00edrito, situando-o no cora\u00e7\u00e3o da verdade. Se a palavra justi-ficar (h\u00edfen propositado) nos desconcerta, \u00e9 f\u00e1cil substitu\u00ed-la por outras palavras portuguesas, de origem muito pr\u00f3xima: recti-ficar, re-abilitar, re-ordenar, re-ajustar, re-formar (h\u00edfenes propositados).
Essa meia volta sofrida pela palavra ser\u00e1 acompanhada por uma evolu\u00e7\u00e3o da palavra, passando a significar {C}compra {/}ou {C}reden\u00e7\u00e3o {/}(ver nota a Mt 20,28). Por outro lado, o facto de a nova justi\u00e7a constituir uma perfei\u00e7\u00e3o interior, obra de Deus, leva-nos a re-situar as palavras {C}santo {/}e {C}justo {/}uma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 outra.
Para o Antigo Testamento, a {C}santidade {/}\u00e9 pr\u00f3pria de Deus, pois exprime o seu mist\u00e9rio, aquilo que O mant\u00e9m afastado de tudo o que n\u00e3o \u00e9 Ele, e de tudo aquilo que d'Ele se pode dizer. {C}Santo {/}op\u00f5e-se a {C}profano. {/}No livro de Daniel e nos Salmos chama-se {C}santos {/}aos seres celestiais que est\u00e3o perto de Deus; n\u00f3s dir\u00edamos os anjos (Dn 4,10 e 14; Sl 89,6). No dom\u00ednio terrestre, a palavra {C}santo {/}aplica-se \u00e0s pessoas e coisas consagradas a Deus, que, portanto, obedecem a leis diversas das leis pr\u00f3prias dos profanos: s\u00e3o assim os sacerdotes, o Santu\u00e1rio e os objectos de culto. Mesmo quando Deus diz a todo o povo: \u00abSede santos porque Eu sou santo\u00bb, a palavra n\u00e3o tem o sentido que actualmente lhe dar\u00edamos. Ela associa a ideia de justi\u00e7a \u00e0 de ser um povo diferente dos outros por ter sido consagrado a Deus. No Antigo Testamento, quando se quer exprimir que uma pessoa \u00e9 perfeita e agrad\u00e1vel aos olhos de Deus, utilizam-se as palavras {C}justa {/}e {C}piedosa.{/}
Desde o momento em que a {C}justi\u00e7a {/}\u00e9 entendida como uma refundi\u00e7\u00e3o da pessoa e lhe d\u00e1 acesso \u00e0 comunh\u00e3o com Deus, passa a ser sin\u00f3nimo de {C}santidade. {/}Encontr\u00e1mos, em dois lugares, as duas palavras associadas, por ordem diferente (1Cor 6,11; Ap 22,11), o que demonstra que n\u00e3o se trata de duas etapas sucessivas, ou de duas ac\u00e7\u00f5es divinas diferentes, mas de duas palavras cujo sentido se completa para uma pessoa familiarizada com a linguagem grega dos Setenta. Vulgarmente a palavra {C}santo {/}tem, em Paulo, o sentido de \u00abconsagrado a Deus\u00bb, e \u00e9 assim que muitas vezes encontramos a express\u00e3o \u00abos santos\u00bb para designar os crist\u00e3os. Contudo, tamb\u00e9m Paulo manifesta que os que s\u00e3o consagrados a Deus devem ser imaculados e irrepreens\u00edveis, quer dizer, santos, no sentido em que n\u00f3s o entendemos (1Cor 1,8; Cl 1,22); essa santidade crist\u00e3 ser\u00e1 uma imita\u00e7\u00e3o da perfei\u00e7\u00e3o divina (Mt 5,45).

{N}3,{/}25 N\u00f3s traduzimos:{C} v\u00edtima que, mediante o seu pr\u00f3prio Sangue, nos consegue o perd\u00e3o,{/} {C}contanto que acreditemos{/}, para facilitar a compreens\u00e3o. Contudo, o texto diz, mais exactamente: \u00abEle \u00e9 o propiciat\u00f3rio, mediante o seu sangue, pela F\u00e9\u00bb. O {C}propiciat\u00f3rio {/}\u00e9 o termo cl\u00e1ssico utilizado para designar a tampa (ou placa superior) da Arca, sobre a qual se pensava que Deus residia, e sobre a qual se fazia a aspers\u00e3o com o sangue das v\u00edtimas todos os anos, no dia da Expia\u00e7\u00e3o.

{N}5,{/}2 {C}Por meio d'Ele temos acesso \u00e0 gra\u00e7a. {/}O texto diz, mais exactamente: \u00abpor Ele tivemos acesso a essa gra\u00e7a em que nos mantemos\u00bb. A palavra {C}essa {/}n\u00e3o deve ser esquecida, e a palavra {C}gra\u00e7a {/}dever\u00e1 ser libertada de significados mais precisos que os te\u00f3logos posteriores lhe deram. Essa gra\u00e7a ou \u00abfavor\u00bb divino outra coisa n\u00e3o \u00e9 do que a paz com Deus. Foi adquirida pela f\u00e9, e j\u00e1 n\u00e3o deve ser posta em d\u00favida.

{N}5,{/}20 {C}Foi bem maior a gra\u00e7a. {/}N\u00e3o esque\u00e7amos que a gra\u00e7a \u00e9, em primeiro lugar, um dom, ou uma interven\u00e7\u00e3o divina, destinados a levantar esta humanidade pecadora.

{N}5,{/}21 O texto exacto \u00e9: \u00abde igual modo, a gra\u00e7a reinou pela justifica\u00e7\u00e3o (ou pela justi\u00e7a), para a vida eterna, por Jesus Cristo, nosso Senhor\u00bb. Essa justifica\u00e7\u00e3o \u00e9 obra de Deus, que endireita, ordena e torna justos, segundo o seu pr\u00f3prio crit\u00e9rio, aqueles que cr\u00eaem: estes est\u00e3o no recto caminho da vida eterna.

{N}6,{/}15 O que inspira a Paulo o par\u00e1grafo 6,15-23 \u00e9, sem d\u00favida, o facto de lhe virem furtivamente \u00e0 mem\u00f3ria duas palavras: {C}reino {/}e {C}obedi\u00eancia. {/}Ao dirigir-se aos gregos, raramente lhes falou do Reino de Deus, por esta express\u00e3o era uma ideia-for\u00e7a apenas para o povo de Israel; contudo, neste lugar, esse termo sugere-lhe a luta entre o mal e o estado de justi\u00e7a, ou a obra divina da justifica\u00e7\u00e3o. Quanto \u00e0 palavra grega {C}obedi\u00eancia{/}, tamb\u00e9m tem o sentido de acolhimento, e era habitualmente utilizada na Igreja para designar o acolhimento da f\u00e9 e a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 doutrina. Temos, assim, o crist\u00e3o transformado em escravo obediente da Justi\u00e7a e do seu reino, fazendo do seu corpo e dos seus actos e gestos armas para combater o mal.

{N}6,{/}23 Traduzimos de forma um pouco mais extensa este vers\u00edculo, mais condensado em Grego, a fim de fazer ressaltar os dois tipos de oposi\u00e7\u00e3o aqui combinados por Paulo: sal\u00e1rio e dom gratuito; morte e vida eterna.

{N}7,{/}7 Aqui entra em cena o personagem do pecado, que intervir\u00e1 ao longo de todo o cap\u00edtulo. N\u00e3o se trata do pecado, no sentido em que o entendemos, como acto livre, pelo qual fazemos aquilo que sabemos ser mau. \u00c9 antes a personifica\u00e7\u00e3o das for\u00e7as que nos impelem para o mal, for\u00e7as essas que desde sempre t\u00eam assediado a humanidade e a quem Ad\u00e3o, tanto pai como s\u00edmbolo de toda a ra\u00e7a, entregou a sua primeira v\u00edtima.
Dever\u00edamos meditar sobre o vers\u00edculo 20, em que Paulo d\u00e1 a entender que a nossa responsabilidade pessoal \u00e9 muito limitada. \u00c0 imagem de Ad\u00e3o, que se deixou seduzir pela serpente, somos tanto v\u00edtimas e irrespons\u00e1veis como culpados. Por isso nos \u00e9 recomendando que n\u00e3o julguemos; por isso devemos ir al\u00e9m do exame de consci\u00eancia, pelo qual nos reconhecemos pessoalmente pecadores e culpados, e as revis\u00f5es de vida, em que cada um se interroga sobre as suas debilidades: h\u00e1 um pecado do mundo que devemos aprender a olhar de frente, sobre o qual devemos ter ideias claras, e que requer o compromisso do crist\u00e3o em todos os grandes problemas da humanidade.

{N}7,{/}25 Paulo n\u00e3o divide a pessoa humana num esp\u00edrito, que seria bom, e num corpo, que seria pecador. \u00c9 atrav\u00e9s do corpo que o pecado, essa for\u00e7a instalada no mundo e na sociedade, nos alcan\u00e7a e solicita a nossa complac\u00eancia, e \u00e9 o nosso esp\u00edrito, ou a nossa raz\u00e3o, que reconhece a lei de Deus.

{N}8,{/}3 Podemos analisar o texto mais preciso do original:
- {C}aquilo que para a Lei era imposs\u00edvel{/}: estabelecer, por \u00faltimo, a harmonia do homem com Deus
- {C}os instintos ego\u00edstas tornaram-na impotente{/}: o homem, pela sua condi\u00e7\u00e3o material, era prisioneiro das for\u00e7as hostis a Deus na sua obra no mundo
- {C}Ele enviou o seu pr\u00f3prio Filho numa condi\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 do pecado{/}: ao envi\u00e1-l'O na semelhan\u00e7a (ou na mesma situa\u00e7\u00e3o) da carne (ou da condi\u00e7\u00e3o carnal) em que o pecado tem poder
- {C} em vista do pecado{/}: com a finalidade de responder a esse reinado do pecado no mundo.
{C}condenou o pecado na sua carne mortal{/}: desmontou as falsas evid\u00eancias e as justifica\u00e7\u00f5es desse pecado no mundo, mediante a paix\u00e3o e ressurrei\u00e7\u00e3o do Filho feito carne.

{N}8,{/}5 Na natureza humana, a divis\u00e3o n\u00e3o reside entre o corpo e a alma (para falar segundo o esquema aristot\u00e9lico corpo-alma, adoptado pela grande maioria da nossa teologia). Reside, antes, no dinamismo e na actividade da pessoa humana desde o momento em que nela se faz sentir a chamada do esp\u00edrito. A diferen\u00e7a que Paulo estabelece aqui entre os que vivem \u00absegundo a carne\u00bb, ou \u00abna carne\u00bb, e os que vivem \u00absegundo o esp\u00edrito\u00bb, ou \u00abno esp\u00edrito\u00bb, limita-se a reconhecer a oposi\u00e7\u00e3o entre diferentes chamadas e projectos de vida, consoante tenhamos ou n\u00e3o elegido a resposta a Deus, depois de O termos acolhido e de ter experimentado a ac\u00e7\u00e3o do seu Esp\u00edrito. A moral crist\u00e3, mesmo quando reconhece as bases morais da lei antiga, n\u00e3o ser\u00e1 crist\u00e3 a n\u00e3o ser na medida em que for tanto fiel como criativa frente \u00e0s chamadas do Esp\u00edrito. Paulo n\u00e3o entra aqui no problema do discernimento dos esp\u00edritos.

{N}8,{/}20 O mundo criado \u00e9 reflexo de Deus at\u00e9 certo ponto, mas n\u00e3o mais do que isso. Mal centremos a nossa aten\u00e7\u00e3o nas nossas rela\u00e7\u00f5es com essa natureza, descobriremos a\u00ed muitas contradi\u00e7\u00f5es e trag\u00e9dias; bastaria observar, por exemplo, o sofrimento animal. Se tivermos presente o processo evolutivo que abarca toda a Hist\u00f3ria do universo, \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o pensar que toda essa aventura, com os seus desperd\u00edcios incalcul\u00e1veis, anda em busca do seu sentido. Paulo tamb\u00e9m nos diz: o sentido s\u00f3 se descobrir\u00e1 quando os filhos de Deus tiverem alcan\u00e7ado a Gl\u00f3ria que os espera.
{C}Por vontade d'Aquele que a submeteu.  {/}\u00c9 prov\u00e1vel que n\u00e3o se trate do dem\u00f3nio, que teria destru\u00eddo a cria\u00e7\u00e3o, nem do homem, que manipula a seu bel-prazer a ecologia, mas de Deus, que ordena, segundo a mesma sabedoria, tanto o homem e a sua reden\u00e7\u00e3o, como a natureza e a sua futura transfigura\u00e7\u00e3o. Da\u00ed prov\u00eam todas as manifesta\u00e7\u00f5es observadas pela ci\u00eancia, de uma press\u00e3o interna, ou de um impulso para chegar mais al\u00e9m, tanto na alquimia c\u00f3smica, como na evolu\u00e7\u00e3o dos seres vivos.

{N}9,{/}5 O texto original diz: \u00abe um deles, segundo a carne, \u00e9 Cristo, Aquele que est\u00e1 acima de tudo, Deus bendito pelos s\u00e9culos, Amen!\u00bb Trata-se aqui de uma dessas doxologias, ou exclama\u00e7\u00f5es de louvor, que os judeus, e Paulo com eles, proferiam espontaneamente quando citavam o nome de Deus. A articula\u00e7\u00e3o da frase convida-nos a compreender que Paulo aplica a Cristo esse louvor divino: Qualifica\u00e7\u00e3o apenas como o descendente dos Pais, precisando que essa sua linhagem, segundo a carne, inclui, paralelamente, a sua filia\u00e7\u00e3o divina; por esta Ele est\u00e1 acima de tudo, como Deus (ou para dizer melhor, da mesma natureza divina, porque Deus n\u00e3o aparece aqui acompanhado de artigo e, portanto, n\u00e3o se trata de uma pessoa, da pessoa do Pai).

{N}9,{/}13 O texto diz: \u00abe odiei Esa\u00fa\u00bb. N\u00e3o esque\u00e7amos que o verbo \u00abodiar\u00bb em hebraico tem um sentido muito amplo. Quando se prefere uma coisa a outra, ent\u00e3o diz-se: amo isto e odeio aquilo (ou seja, recuso-o e n\u00e3o o tomo em conta)... Ver Lc 14,26 e 16,13.

{N}10,{/}4 O texto diz: \u00abO fim da Lei \u00e9 Cristo, para que todo aquele que acredita se torne justo\u00bb. Paulo n\u00e3o nega que os in\u00fameros crentes que serviram a Deus observando a Lei tenham sido santificados e salvos, quer antes, quer depois de Cristo. Toda a revela\u00e7\u00e3o do Antigo Testamento j\u00e1 era portadora de salva\u00e7\u00e3o: ela forjou homens, um povo, e confiou-lhes uma miss\u00e3o. N\u00e3o obstante tal facto, a f\u00e9 em Cristo permite-nos aceder a uma nova ordem (a reconcilia\u00e7\u00e3o ou justifica\u00e7\u00e3o definitiva); a nossa pessoa adquire ent\u00e3o uma nova dimens\u00e3o que as pessoas experimentadas saber\u00e3o reconhecer, sem terem de entrar, sequer, nas nossas confid\u00eancias, e que \u00e9 muito preciosa aos olhos de Deus; uma nova realidade foi semeada no mundo, porque at\u00e9 os nossos m\u00ednimos gestos s\u00e3o portadores do Esp\u00edrito.

{N}10,{/}6 N\u00e3o tentemos procurar no texto citado por Paulo (Dt 30,12-13) uma profecia da Ascens\u00e3o de Jesus ou da \u00abdescida aos infernos\u00bb. A Escritura \u00e9 portadora do Esp\u00edrito e, quando Paulo se deixa levar pela sua convic\u00e7\u00e3o, as palavras da Escritura v\u00eam-lhe com muita naturalidade \u00e0 mente, e ele toma-as ou transforma-as segundo as suas conveni\u00eancias, porque n\u00e3o procura nelas argumentos mas palavras portadoras de uma for\u00e7a. Reparemos que, nesta passagem, a palavra hebraica \u00ababismo\u00bb, de Dt 30,13, significa \u00abo oceano\u00bb, mas que, no Grego de Paulo, passou a ser o {C}mundo das profundezas{/}, a morada dos mortos.

{N}10,{/}9 Este par\u00e1grafo \u00e9 como que um coment\u00e1rio \u00e0 profecia de Joel citada por Pedro no dia de Pentecostes. Note-se que Paulo atribui pura e simplesmente a Cristo o t\u00edtulo de Senhor, o que, no texto de Joel, s\u00f3 se diz de Jav\u00e9 Deus.

{N}11,{/}25 O destino do povo judeu interessa-nos sobremaneira dado que os seus antepassados s\u00e3o tamb\u00e9m os nossos. Os ap\u00f3stolos e os primeiros crist\u00e3os nunca pensaram que tinham renegado esse povo (Act 13,26-32; 26,22): pelo contr\u00e1rio, eles eram os eleitos de Deus e tinham acolhido o Salvador esperado por toda a sua ra\u00e7a. Com eles tinha come\u00e7ado, na realidade, um novo povo (Sl 22,32), e n\u00e3o outro, porque eles eram o \u00abpequeno resto de Israel\u00bb.
A nossa f\u00e9 est\u00e1 arraigada em acontecimentos da Hist\u00f3ria, tanto do Antigo como do Novo Testamento, sendo por isso que os evangelhos puseram em evid\u00eancia a cat\u00e1strofe nacional e a destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m no ano 70, tal como Jesus o tinha anunciado. Lucas considera que essa trag\u00e9dia do Salvador rejeitado marcar\u00e1 o destino do povo judeu at\u00e9 ao fim do tempo das na\u00e7\u00f5es, ou seja, at\u00e9 ao fim da Hist\u00f3ria (Lc 21,24). O evangelho n\u00e3o diz mais nada.
Paulo, por\u00e9m, pede-nos que n\u00e3o confundamos duas coisas. Por um lado, Deus chama aquele que quer conhecer Cristo e acreditar n'Ele, em qualquer parte do mundo, e a esses confia as maiores e mais secretas das suas obras. Pode, durante um certo tempo, multiplicar as suas chamadas no meio de um povo determinado, como fez durante dez s\u00e9culos em terras da cristandade, e depois deix\u00e1-lo fora da grande corrente da f\u00e9. Neste sentido, a grande massa do povo judeu passou ao lado dessa chamada. Contudo, isso n\u00e3o pode anular as promessas de Deus ao povo judeu: de que o faria um povo diferente, encarregado de uma miss\u00e3o \u00fanica, que ele continua a cumprir com vista \u00e0 salva\u00e7\u00e3o do mundo.
Isto \u00e9 um convite a que n\u00f3s tamb\u00e9m repensemos a nossa experi\u00eancia de Igreja. Embora os crist\u00e3os conscientes da sua chamada por parte de Deus e da sua voca\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica n\u00e3o sejam muito numerosos, a Igreja, como povo crist\u00e3o, continua a cumprir a sua miss\u00e3o: ela \u00e9 necess\u00e1ria para a salva\u00e7\u00e3o do mundo e \u00abas for\u00e7as da morte n\u00e3o prevalecer\u00e3o contra ela\u00bb.

{N}11,{/}28 Fixemo-nos nessa esp\u00e9cie de indiferen\u00e7a de Deus em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que tanto nos preocupa: como \u00e9 poss\u00edvel que Deus permita que tantas pessoas \u00e0 nossa volta abandonem a verdadeira f\u00e9? Pelo facto de termos sido eleitos por Deus para ser o povo que d\u00e1 testemunho do seu amor surpreendente, e da sua descida ao meio dos homens, s\u00f3 podemos sentir a urg\u00eancia de comunicar essa luz aos outros: que alegria para Paulo, e para n\u00f3s, actualmente, quando um judeu ou um descrente reconhece o \u00fanico Salvador! Que riqueza para quem recebe esse dom! Mas Deus est\u00e1 de tal maneira presente na vida dos homens, e actua neles de tantas formas, que nem o seu plano de salva\u00e7\u00e3o, nem as riquezas que Ele quer distribuir, ser\u00e3o diminu\u00eddos pelos fracassos da sua Igreja, quer seja no plano familiar, quer mundial. \u00c9 certo que cada pessoa \u00e9 capaz de guardar para si tanto o talento que lhe foi confiado como a alegria \u00abextra\u00bb que lhe foi oferecida em Deus. Mas outros por\u00e3o a render esse talento, tanto aqui na terra como sob outros c\u00e9us, e no mundo futuro regozijar-nos-emos com isso, mesmo que quem o tenha perdido seja um dos nossos conhecidos, e quem tenha sabido p\u00f4-lo a render seja um desconhecido.

{N}12,{/}3 O texto original \u00e9 mais preciso: \u00abposso dizer a cada um de v\u00f3s que n\u00e3o pretenda mais do que aquilo em que deve pensar (ou pretender, ou projectar), mas que pense (ou projecte) na forma de o fazer sabiamente, segundo a medida da f\u00e9 (ou dos dons espirituais) que tenha recebido\u00bb.

{N}12,{/}6 {C}Quem tem o Dom da profecia, deve exerc\u00ea-lo de acordo com a f\u00e9. {/}O{C} {/}texto preciso \u00e9: \u00abse \u00e9 a profecia, (que seja) segundo a {C}analogia {/}da f\u00e9\u00bb. Em toda a B\u00edblia, \u00e9 a \u00fanica vez que aparece a palavra analogia. Encontra-se {C}analogicamente {/}em Sb 13,5, no sentido de \u00abpor indu\u00e7\u00e3o\u00bb. Por outras palavras, o discurso prof\u00e9tico deve proceder de uma vis\u00e3o da f\u00e9, ou melhor, de uma intui\u00e7\u00e3o ou de uma injec\u00e7\u00e3o da f\u00e9 recebida pelo profeta (1Cor 12,9).

{N}14,{/}9 {C}Senhor dos vivos e dos mortos. {/}Seja qual for o valor l\u00f3gico de tal argumento, Paulo n\u00e3o exprime mais do que a f\u00e9 apost\u00f3lica da qual o nosso credo \u00e9 o testemunho: a obra redentora de Cristo vai muito mais al\u00e9m da salva\u00e7\u00e3o dos que creram n'Ele e O invocaram. Os homens de todos os tempos -  e de todas as religi\u00f5es -  descobrir\u00e3o um dia que a maneira como Deus conduziu as suas vidas e os salvou est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 descida do Filho ao nosso universo.

{N}14,{/}16 \u00c9 a mesma ideia de 1Cor 10,20, expressa por outras palavras.

{N}14,{/}23 O texto diz, exactamente: \u00abtudo o que n\u00e3o procede da {C}convic\u00e7\u00e3o {/}\u00e9 pecado\u00bb. Em Grego \u00e9 a mesma palavra que {C}f\u00e9. {/}Por isso, no passado, alguns preferiram ignorar o contexto e traduzir assim este vers\u00edculo: \u00abTudo o que n\u00e3o procede da f\u00e9 \u00e9 pecado\u00bb. Via-se a\u00ed um argumento para sustentar que enquanto uma pessoa n\u00e3o tiver f\u00e9, s\u00f3 pode pecar.

{N}15,{/}8 Paulo v\u00ea nessa dupla atitude de Deus em rela\u00e7\u00e3o aos judeus e \u00e0s \u00abna\u00e7\u00f5es\u00bb, quer dizer, aos n\u00e3o judeus, uma manifesta\u00e7\u00e3o das duas grandes qualidades que toda a tradi\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica Lhe atribui: a gra\u00e7a e a fidelidade. O que Paulo diz aqui ultrapassa, certamente, o caso dos judeus e dos n\u00e3o-judeus. Se acreditarmos que Deus fez da cria\u00e7\u00e3o o seu objecto de brincadeira (um hindu diria a sua dan\u00e7a), e que quis expressar no tempo aquilo que Ele pr\u00f3prio \u00e9 e vive na eternidade, temos nela a chave para compreender que tenha querido, tanto revelar-se a uma minoria, como salvar a maioria dos homens, sem que esta tivesse parte na sua revela\u00e7\u00e3o.
Com os primeiros, Deus faz a experi\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o m\u00fatua, que come\u00e7a j\u00e1 a ser no tempo o que ser\u00e1 na eternidade: aqui ajusta-se bem a palavra {C}fidelidade. Deus{/} faz promessas, n\u00f3s respondemos-Lhe, lan\u00e7amos-Lhe desafios, amamo-l'O livremente, e a eternidade est\u00e1 presente na sua totalidade, embora em sombra. Foi o mesmo que viveu o Verbo eterno na Galileia, uma Hist\u00f3ria que n\u00e3o foi mais do que um instante no tempo dos homens, mas na qual estava encerrado o todo de Deus.
Estamos mal situados para dizer o que Deus faz com os outros, com aqueles que n\u00e3o conheceram a Deus feito carne. No entanto, Paulo fala de {C}gra\u00e7a {/}e, sob essa palavra t\u00e3o el\u00e1stica, coloca todo o imprevisto das fantasias divinas. \u00c9 prov\u00e1vel que a nossa passagem do tempo \u00e0 eternidade de Deus encerra uma reviravolta desconcertante de todos os valores, e que Deus n\u00e3o possa conduzir para Si toda a Hist\u00f3ria humana sem que, por fim, n\u00e3o se tenha a impress\u00e3o de que todos se enganaram quanto ao que era esperado deles, e que a festa seja pura e simplesmente o que dela fizeram a fantasia e a generosidade de Deus. Finalmente, a alegria ser\u00e1 maior pelo vibrar da humanidade, para sempre, com a surpresa \u00abdaqueles a quem Ele n\u00e3o tinha sido anunciado\u00bb (Rm 15,21).

{N}16,{/}7 Pretendeu-se que J\u00fania (ou J\u00fanias, nome masculino) ou J\u00falia, tal como o escrevem alguns dos textos mais antigos, tenha sido a mulher de Andr\u00f3nico, partilhando com ele o t\u00edtulo de ap\u00f3stolo, outorgado aos fundadores das Igrejas. Isso autorizaria algumas discuss\u00f5es, n\u00e3o sem o risco de cair no \u00abpreteritismo\u00bb, isto \u00e9, no erro de querer fazer uma coisa nova, copiando o passado. Tudo \u00e9 poss\u00edvel, mas primeiro seria necess\u00e1rio saber se a palavra {C}ap\u00f3stolo {/}j\u00e1 estava bem definida.

