{N}O OFEL{/}

Ofel \u00e9 o nome com que habitualmente se designa a antiga cidade de David. Em rigor, a palavra Ofel quer dizer \u00abtumor\u00bb. De facto, o lugar caracteriza-se pela eleva\u00e7\u00e3o do terreno que fica logo a sul do Monte do Templo. Quando a cidade se estendeu pela colina ocidental, levou consigo o seu antigo nome, Si\u00e3o, permanecendo o nome Ofel para a velha cidade de David estabelecida sobre a colina que desce da muralha sul da esplanada do Templo at\u00e9 \u00e0 piscina de {N}Silo\u00e9{/}, e que fica entre o {N}C\u00e9dron,{/} a leste, e o{N} Tiropeon{/} a oeste.
Este tri\u00e2ngulo com quatro ou cinco hectares conserva as marcas de um passado que se vai esclarecendo \u00e0 medida que progridem as escava\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas. Aos poucos pode ler-se nas pedras a hist\u00f3ria da cidade com os seus muros, as suas antigas casas, e ainda mais os engenhosos trabalhos realizados no decorrer dos s\u00e9culos para roubar aos inimigos a \u00e1gua t\u00e3o preciosa da fonte de Gion.
Assim se compreende o papel que a Cidade Santa desempenhou na hist\u00f3ria dos homens e dos crentes.

{K}- A CIDADE DE DAVID{/}
Os arque\u00f3logos come\u00e7aram a interessar-se pela hist\u00f3ria de Jerusal\u00e9m a partir dos finais do s\u00e9c. XIX. Os grandes trabalhos iniciados no declive oriental do Ofel, a partir de 1962, e as novas escava\u00e7\u00f5es trouxeram uma valios\u00edssima informa\u00e7\u00e3o sobre a cidade de David.

{K}AS ORIGENS{/}
O Ofel j\u00e1 era ocupado a partir do IV mil\u00e9nio. Um novo povoamento, provavelmente de agricultores, aparece na parte oriental da colina nos princ\u00edpios do III mil\u00e9nio. O local, abandonado por mais de um mil\u00e9nio, foi de novo reconstru\u00eddo: ser\u00e1 esta a cidade dos {N}Jebuseus,{/} uma cidade-reino como as que havia frequentemente na Palestina, e que a B\u00edblia enumera a prop\u00f3sito da conquista, de entre as sete na\u00e7\u00f5es cananeias que deviam ser sacrificadas [Dt_7,1]. Deste per\u00edodo n\u00e3o se conhece nada, salvo as cartas de um rei de Jerusal\u00e9m, Abde-Heba, escritas em ac\u00e1dico e descobertas nos arquivos do fara\u00f3 El Amarna, as quais nos proporcionam uma certa informa\u00e7\u00e3o acerca das rela\u00e7\u00f5es entre o Egipto e esta cidade no s\u00e9c. XIV a.C. Datam desta \u00e9poca os enormes alicerces que deviam sustentar a fortaleza da cidade jebuseia.

{K}O TEMPO DOS REIS{/}
No sop\u00e9 da vertente ocidental da colina, um muro israelita de 4,50 de largura retoma o tra\u00e7ado do antigo muro jebuseu; este protegia a cidade, cujas casas se dispunham de forma escalonada at\u00e9 ao cimo do monte. Muitas destas casas foram descobertas, como uma de pedra talhada, composta de quatro divis\u00f5es e chamada \u00abcasa de Ariel\u00bb, devido ao nome do seu propriet\u00e1rio gravado num peda\u00e7o de cer\u00e2mica; o seu nome \u00e9 citado por Jeremias [Jr_36,9] - [Jr_36,12]. V\u00e1rias pe\u00e7as de cer\u00e2mica dos s\u00e9culos VIII e VII a.C., objectos de metal e madeira, estatuetas da deusa da fertilidade e alguns bras\u00f5es d\u00e3o-nos uma ideia da cultura da \u00e9poca.
Todas estas coisas constituem hoje os vest\u00edgios da total destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m da parte dos Babil\u00f3nios. No dia sete do quinto m\u00eas do ano dezanove do reinado de Nabucodonosor, um dos seus oficiais, Nabuzard\u00e3, chefe da guarda, entrou em Jerusal\u00e9m, {C}incendiou o Templo de Jav\u00e9, o pal\u00e1cio real e todas as casas de Jerusal\u00e9m e todas as resid\u00eancias,{/} e as tropas do ex\u00e9rcito caldeu demoliram as muralhas da cidade [2Rs_25,8] - [2Rs_25,10].

{K}NEEMIAS RECONSTR\u00d3I AS MURALHAS{/}
Quando Neemias regressou a Jerusal\u00e9m, no ano 445, para empreender a constru\u00e7\u00e3o da cidade, verificou com tristeza os estragos e o deplor\u00e1vel estado das muralhas: {C}Levava comigo apenas o jumento que eu montava. Sa\u00ed de noite pela porta do Vale, e fui at\u00e9 \u00e0 fonte do Drag\u00e3o e \u00e0 porta do Esterco. Comprovei que as muralhas de Jerusal\u00e9m estavam cheias de brechas e as portas consumidas pelo fogo. Segui para a porta da Fonte e para o reservat\u00f3rio de \u00e1gua do rei. Como n\u00e3o havia espa\u00e7o para o animal, continuei a p\u00e9 riacho acima, pela noite dentro. Observei as muralhas, entrei de novo pela porta do Vale, e voltei para casa. As autoridades n\u00e3o chegaram a saber por onde eu tinha andado ou o que \u00e9 que pensava fazer... Mais tarde disse-lhes: \u00abEstais a ver a mis\u00e9ria em que nos encontramos, Jerusal\u00e9m est\u00e1 em ru\u00ednas e as suas portas foram queimadas. Vamos reconstruir as muralhas de Jerusal\u00e9m\u00bb... Eles disseram: \u00abVamos come\u00e7ar o trabalho\u00bb. E arrega\u00e7aram as mangas para realizar esse bom projecto\u00bb{/} [Ne_2,13] - [Ne_2,18]. 
Uma muralha reconstru\u00edda v\u00e1rias vezes, e a partir da qual se dominam as ru\u00ednas das casas desse per\u00edodo pertence - na sua parte mais antiga - a essa reconstru\u00e7\u00e3o feita no regresso do cativeiro.

{K}RESTAURA\u00c7\u00c3O NA \u00c9POCA MACABEIA{/}
As lutas dos Macabeus contra os Sel\u00eaucidas para recuperar a independ\u00eancia da prov\u00edncia judaica e a liberdade religiosa infligiram terr\u00edveis golpes \u00e0s muralhas de Jerusal\u00e9m; isso fez com que fosse necess\u00e1rio p\u00f4r de novo m\u00e3os \u00e0 obra. J\u00f3natas fixou a sua resid\u00eancia em Jerusal\u00e9m e come\u00e7ou a reconstruir e a restaurar a cidade: {C}Aos que estavam executando a reforma das muralhas, em volta do monte Si\u00e3o, mandou que usassem pedras quadradas, para ficarem mais resistentes. Eles assim fizeram{/} [1Mc_10,11]. O primeiro livro dos Macabeus volta ao mesmo assunto no cap. 12: J\u00f3natas voltou, e em seguida, convocou a assembleia dos anci\u00e3os do povo para resolver com eles a constru\u00e7\u00e3o de lugares fortificados na Judeia, da eleva\u00e7\u00e3o da muralha de Jerusal\u00e9m... Ent\u00e3o reuniram-se para reconstruir a cidade, pois {C}o muro junto do riacho no lado oriental caiu{/} [1Mc_12,35] - [1Mc_12,37].


{K}- A FONTE{/}
Por volta do II mil\u00e9nio, os jebuseus empreendem a constru\u00e7\u00e3o da sua capital, mas enfrentam desde o princ\u00edpio o problema da \u00e1gua. Estamos ainda na Idade do Bronze, e a cisterna revestida e calafetada ainda n\u00e3o tinha sido inventada. No local existem duas nascentes: {N}Ain Roguel{/} e {N}Gion.{/} Mas a primeira, situada na conflu\u00eancia da Geena e do C\u00e9dron, est\u00e1 demasiado longe para ser protegida em caso de ass\u00e9dio.

{K}A FONTE DE GION{/}
As tr\u00eas cisternas que por turnos foram utilizadas para fornecer \u00e1gua \u00e0 cidade partem todas da fonte de Gion, a qual brota ainda sob o \u00faltimo degrau da escadaria de acesso. A \u00e1gua nasce de forma intermitente, v\u00e1rias vezes ao dia. O pr\u00f3prio nome da nascente alude ao fen\u00f3meno, pois em hebraico \u00abGihoni\u00bb significa \u00abque brota ou mana\u00bb, se \u00e9 que se lhe associa a raiz Giha, a qual se encontra sete vezes no Antigo Testamento. Este fen\u00f3meno, que parecia misterioso para os antigos, \u00e9 provocado na realidade pelo enchimento e esvaziamento, a intervalos regulares, de um sif\u00e3o natural, ligado \u00e0 natureza do terreno. Situada debaixo da cidade de David, no flanco oriental do declive, a fonte derramava ent\u00e3o as suas \u00e1guas no vale do C\u00e9dron.

{K}A CONSAGRA\u00c7\u00c3O DE SALOM\u00c3O{/}
No primeiro Livro dos Reis, a mencionada fonte serve de refer\u00eancia \u00e0 consagra\u00e7\u00e3o real de Salom\u00e3o. O rei David, velho e doente, espera a morte no seu modesto pal\u00e1cio, longe das intrigas causadas pela sua sucess\u00e3o.
Entretanto Joab, chefe do ex\u00e9rcito, com Abiatar, sumo sacerdote, e Adonias, irm\u00e3o mais velho de Salom\u00e3o, conspiravam para o destronar. Advertido da maquina\u00e7\u00e3o por Betsabeia, m\u00e3e de Salom\u00e3o, e pelo profeta Nat\u00e3, o velho rei consegue impor a sua autoridade num \u00faltimo esfor\u00e7o, e ordena ao profeta Nat\u00e3 e ao sacerdote Sadoc: {C}Tomai convosco os oficiais do rei. Fazei montar o meu filho Salom\u00e3o na minha pr\u00f3pria mula, e descei com ele at\u00e9 Gion. Ali o sacerdote Sadoc e o profeta Nat\u00e3 ungi-lo-\u00e3o rei de Israel... Reinar\u00e1 em meu lugar, pois \u00e9 a ele que eu nomeio chefe de Israel e de Jud\u00e1{/} [1Rs_1,33] - [1Rs_1,35].


{K}- OS CANAIS{/}
Os tr\u00eas sistemas hidr\u00e1ulicos alimentados pela nascente de Gion correspondem a tr\u00eas etapas distintas da hist\u00f3ria de Israel: o po\u00e7o de Warren, o canal de Silo\u00e9 e o t\u00fanel de Ezequias.

{K}O PO\u00c7O DE WARREN{/}
Um estudo geol\u00f3gico recente demonstrou, com o apoio do carbono 14, que este sistema hidr\u00e1ulico subterr\u00e2neo foi instalado na \u00e9poca jebuseia. No terreno calc\u00e1rio que constitui o subsolo da Cidade de David, as \u00e1guas originaram, por eros\u00e3o da rocha, os acidentes mais curiosos; e o g\u00e9nio humano aproveitou-se desses elementos oferecidos pela natureza (t\u00faneis, po\u00e7os), alargando-os, protegendo-os, tornando-os mais eficazes, para garantir a sua seguran\u00e7a.
O Po\u00e7o de Warren - que tomou o nome do arque\u00f3logo que descobriu em 1867 esta primeira rede h\u00eddrica subterr\u00e2nea - permitia aceder \u00e0 nascente a partir do interior da cidade em caso de ass\u00e9dio, porquanto a nascente se encontrava fora das muralhas. Este sistema hidr\u00e1ulico compreende um t\u00fanel curto, irregular, praticamente horizontal, que leva a \u00e1gua desde a fonte de Gion at\u00e9 \u00e0 base de um po\u00e7o vertical de 14 m. de altura. Para aceder ao cimo desse po\u00e7o, os habitantes de Jerusal\u00e9m serviam-se de um t\u00fanel cuja entrada se encontrava no interior das muralhas. O primeiro trecho do declive era t\u00e3o empinado que foi preciso fazer degraus na pr\u00f3pria rocha; no trecho seguinte o declive era mais suave. Por este meio, os habitantes podiam recolher \u00e1gua da fonte com toda a seguran\u00e7a, utilizando o habitual sistema de poleias, cordas e odres. O conjunto, t\u00fanel e po\u00e7o, \u00e9 um exemplo excelente do que \u00e9 um {C}sinnor,{/} um sistema complexo para tirar \u00e1gua que \u00e9 poss\u00edvel encontrar, al\u00e9m de outros lugares, em Jasor, Meguido e Gazer.

{K}DAVID TOMA JERUSAL\u00c9M{/}
Quando David, j\u00e1 proclamado rei pelos Anci\u00e3os de Jud\u00e1 e reconhecido tamb\u00e9m pelas tribos de Israel, decide instaurar a sua capital sobre um terreno neutral - entre os dois blocos do Norte e do Sul - fixa-se na cidade jebuseia de Jerusal\u00e9m, e conquista-a.
O relato b\u00edblico conta-nos: {C}Naquele dia, David disse: \u00abTodo aquele que ferir os jebuseus e subir pelo canal...{/} [2Sm_5,8]. Joab ent\u00e3o penetra pela entrada da nascente de Gion servindo-se do t\u00fanel que conduzia ao sop\u00e9 da falha do po\u00e7o de Warren - a escalada n\u00e3o apresenta dificuldades gra\u00e7as \u00e0 irregularidade das paredes rochosas. Isto permite subir pelo t\u00fanel inclinado pelo qual se chega \u00e0 \u00e1gua, e sair pela abertura que desemboca no Ofel.

{K}O CANAL DE SILO\u00c9{/}
O canal de Silo\u00e9 \u00e9 um aqueduto estranhamente a descoberto, pois em toda a parte os canais s\u00e3o constitu\u00eddos por t\u00faneis subterr\u00e2neos. Talhado na rocha, tamb\u00e9m come\u00e7a na nascente de Gion, correndo para o sul ao longo do declive oriental da cidade inferior \u00e0 muralhas. Leva a \u00e1gua desde a nascente at\u00e9 \u00e0 parte mais encastelada do Tiropeon: a {N}piscina{/} antiga [Is_22,11] ou inferior{N}{/} [Is_22,9], um grande reservat\u00f3rio hoje transformado em pomar.
Este aqueduto irrigava os campos vizinhos do vale de C\u00e9dron, atrav\u00e9s de aberturas praticadas nas paredes. Algumas dessas aberturas s\u00e3o vis\u00edveis ainda hoje. Se  se identifica-se este canal com o \u00abSilo\u00e9\u00bb mencionado no cap. 8 do livro de Isa\u00edas, dataria do reinado de Acaz. 
Provavelmente foi aqui que Isa\u00edas disse, na presen\u00e7a de Acaz, a c\u00e9lebre profecia da jovem que d\u00e1 \u00e0 luz: {C}Ficai sabendo que Jav\u00e9 vos dar\u00e1 um sinal: A jovem concebeu e dar\u00e1 \u00e0 luz um filho, e cham\u00e1-lo-\u00e1 Emanuel{/} (que quer dizer Deus-connosco) [Is_7,14] - [Is_7,16].
Tamb\u00e9m aqui o profeta amea\u00e7a o rei incr\u00e9dulo: \u00abJ\u00e1 que este povo desprezou a \u00e1gua de Silo\u00e9 que corre mansa, e tremeu diante de Rason e do filho de Romelias, o Senhor vai fazer cair sobre eles as \u00e1guas torrenciais do rio Eufrates (o rei da Ass\u00edria com toda a sua for\u00e7a)\u00bb [Is_8,6] - [Is_8,7] Israel desprezou a protec\u00e7\u00e3o amorosa de Deus, para p\u00f4r a sua confian\u00e7a no rei Teglatfalasar III, que o rei Acaz chamou em seu aux\u00edlio. Pois bem, os ass\u00edrios ser\u00e3o como um rio devastador, uma torrente que aniquilar\u00e1 certamente os inimigos de Jud\u00e1, mas que far\u00e3o pesar sobre o pequeno Reino do Sul o jugo do seu tem\u00edvel poder.

{K}O CANAL DE EZEQUIAS{/}
No s\u00e9c. VIII  a.C., Ezequias, rei de Jud\u00e1, empreende uma obra audaz e original, que n\u00e3o teve compara\u00e7\u00e3o nas na\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas do M\u00e9dio Oriente. Para assegurar a defesa de Jerusal\u00e9m e o aprovisionamento de \u00e1gua para os seus habitantes, j\u00e1 que Senaquerib e o seu ex\u00e9rcito amea\u00e7avam atacar a cidade, Ezequias constr\u00f3i este t\u00fanel, justamente c\u00e9lebre, pois permite a Jerusal\u00e9m resistir ao ass\u00e9dio de 701 a.C., at\u00e9 ao dia da sua liberta\u00e7\u00e3o milagrosa. Quando Ezequias viu que Senaquerib vinha com inten\u00e7\u00f5es de atacar Jerusal\u00e9m, reuniu com todos os chefes e homens de valor e chegaram a um acordo: fechar todas as fontes de \u00e1gua que havia fora da cidade... Pois diziam \u00abPorque \u00e9 que o rei da Ass\u00edria deveria encontrar tanta \u00e1gua ao chegar aqui?\u00bb [2Cr_32,2] -[2Cr_32,4]. Ent\u00e3o Ezequias fechou a sa\u00edda superior das \u00e1guas do Gion e desviou-as, por um subterr\u00e2neo, para a parte ocidental da Cidade de David [2Cr_32,30].
O t\u00fanel de Ezequias, que parte tamb\u00e9m da nascente de Gion, utiliza a parte do t\u00fanel j\u00e1 existente que conduz as \u00e1guas desde a nascente at\u00e9 \u00e0 base do po\u00e7o de Warren. Depois segue debaixo de terra ao longo e por debaixo da Cidade de David at\u00e9 desembocar na piscina de Silo\u00e9, na extremidade do Tiropeon. Com esta obra (o novo t\u00fanel e a piscina de Silo\u00e9, na qual caem as \u00e1guas de Gion), Ezequias projectava abrir um lugar de distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua que estava protegido ao sul de Ofel. \u00c9 poss\u00edvel que Ezequias tenha levantado a muralha para proteger o novo reservat\u00f3rio, mas embora este suposto muro conste em todos os bons tra\u00e7ados da velha Jerusal\u00e9m, n\u00e3o foi poss\u00edvel encontrar algum vest\u00edgio dele; o que n\u00e3o quer dizer que ele n\u00e3o tenha existido!

{K}UMA PROEZA T\u00c9CNICA{/}
A abertura do t\u00fanel foi uma verdadeira aventura: duas equipas de mineiros partiram de extremos opostos e encontraram-se mais ou menos ao meio, num ponto facilmente identific\u00e1vel. Mas essa conjun\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi isenta de riscos e dificuldades. Uma inscri\u00e7\u00e3o gravada na parede de pedra comemora esse dia hist\u00f3rico: {C}\u00abFoi assim que se realizou a escava\u00e7\u00e3o. Quando as picaretas golpearam umas contra as outras e quando n\u00e3o faltavam mais que tr\u00eas c\u00f4vados de terreno a derrubar, ouviu-se a voz de algu\u00e9m que gritava do outro lado, pois havia-se aberto uma brecha na rocha, da direita para a esquerda. No dia da perfura\u00e7\u00e3o, os mineiros furaram a rocha cada um buscando o ponto de encontro, picareta contra picareta. Ent\u00e3o as \u00e1guas flu\u00edram desde a fonte at\u00e9 \u00e0 piscina, cerca de mil e duzentos c\u00f4vados. A rocha elevava-se cem c\u00f4vados sobre a cabe\u00e7a dos mineiros\u00bb.{/}
Nos \u00faltimos trechos, antes de encontrar-se, ambas as equipas de mineiros devem ter-se guiado atrav\u00e9s de gritos para encontrarem os do outro lado. Isto explicaria as hesita\u00e7\u00f5es que precederam a reuni\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel que os mineiros tenham deparado com rochas mais duras e se tenham visto obrigados a mudar de direc\u00e7\u00e3o, o que explicaria a origem do percurso em S do t\u00fanel na sua parte central. O t\u00fanel de Ezequias desemboca na piscina de Silo\u00e9, a {N}piscina{/} (ou reservat\u00f3rio) superior [Is_36,2], um novo dep\u00f3sito que n\u00e3o se deve confundir com a piscina inferior.

{K}A PISCINA DE SILO\u00c9{/}
Para a festa das Tendas (ou Tabern\u00e1culos), celebrada no in\u00edcio do Outono antes da chegada das primeiras chuvas, os sacerdotes desciam todos os dias \u00e0 piscina de Silo\u00e9 para tirar \u00e1gua com um c\u00e2ntaro de ouro que depois derramavam como liba\u00e7\u00e3o sobre o altar do Templo. Nesta festa, os peregrinos exteriorizavam a sua alegria agitando os seus lulab (uma esp\u00e9cie de ramo composto por uma palmeira a que juntavam ramos de salgueiro e de murta, e um cedrat, uma esp\u00e9cie de limoeiro verde) enquanto cantavam o Grande Hallel (Salmos 113 a 118, segundo a numera\u00e7\u00e3o hebraica). Quatro candelabros de ouro, acesos no \u00e1trio das mulheres, iluminavam toda a cidade; era a vez da festa da \u00e1gua e da luz, que o salmo 118 recorda no vers\u00edculo 26: \u00abBendito o que vem em nome de Jav\u00e9\u00bb, uma refer\u00eancia messi\u00e2nica.
A cura do cego de nascen\u00e7a, no evangelho de S. Jo\u00e3o, inscreve-se neste contexto lit\u00fargico e messi\u00e2nico. Jo\u00e3o esclarece, nesta ocasi\u00e3o, que Silo\u00e9 quer dizer \u00abenviado\u00bb [Jo_9,7]. O lugar aonde Jesus, depois de ter ungido com barro os olhos do cego, o enviou a lavar-se, \u00e9 literalmente a piscina do \u00abenviado\u00bb. E Jesus \u00e9 este enviado que proclama: {C}\u00abEu sou a luz do mundo. Quem Me segue n\u00e3o andar\u00e1 nas trevas, mas possuir\u00e1 a luz da vida{/} [Jo_8,12].
E \u00e9 no mesmo contexto da corrente de \u00e1gua que devemos ler a promessa da \u00e1gua viva. No \u00faltimo dia da festa, que \u00e9 o mais solene, Jesus ficou de p\u00e9 e gritou: {C}\u00abSe algu\u00e9m tem sede, venha a Mim, e aquele que acredita em Mim, beba. \u00c9 como diz a Escritura: "Do seu seio jorrar\u00e3o rios de \u00e1gua viva"\u00bb{/} [Jo_7,37] - [Jo_7,39].

{K}A GEENA{/}
Situado a sul de Jerusal\u00e9m, entre o monte Si\u00e3o e o Monte do Mau Conselho, o vale da Geena desemboca no vale do C\u00e9dron, aos p\u00e9s da aldeia de Silo\u00e9. Na altura da reparti\u00e7\u00e3o da Terra entre as tribos, a Geena serviu de limite entre os territ\u00f3rios de Jud\u00e1 e Benjamim: a fronteira ... vai descendo o vale de Enom, ao lado dos Jebuseus para sul, indo at\u00e9 Ben-Rogel  [Js_18,16]. Se segundo a tradi\u00e7\u00e3o, no Novo Testamento, este vale \u00e9 chamado Geena, o seu nome na \u00e9poca israelita corresponde a Gue Ben-Hinom (Vale do filho de Hinom) e deve o seu nome, muito provavelmente, a uma pessoa ilustre jebuseia ou cananeia.

{K}O TOFET{/}
O que deu a este vale o seu triste nome - que far\u00e1 que no Novo Testamento o utilizem como s\u00edmbolo do lugar dos condenados - foi a pr\u00e1tica de sacrif\u00edcios de crian\u00e7as que os cananeus, e mais tarde os israelitas id\u00f3latras ofereceram ao deus Moloc neste lugar, como atestam numerosos textos do Antigo Testamento: (O rei Acaz){C} imitou o comportamento dos reis de Israel e chegou at\u00e9 a sacrificar o seu filho no fogo, conforme os costumes abomin\u00e1veis das na\u00e7\u00f5es que Jav\u00e9 tinha expulsado diante dos israelitas{/} [2Rs_16,3]. Com efeito, as escava\u00e7\u00f5es trouxeram \u00e0 luz esqueletos de crian\u00e7as carbonizadas.
No seu tempo, os profetas levantaram-se veementemente contra estas pr\u00e1ticas b\u00e1rbaras: {C}Escutai a palavra de Jav\u00e9, \u00f3 reis de Jud\u00e1 e habitantes de Jerusal\u00e9m. Assim fala Jav\u00e9 dos ex\u00e9rcitos, o Deus de Israel: \u00abVou mandar contra este lugar uma calamidade t\u00e3o grande, que far\u00e1 retinir os ouvidos de quem a ouvir. Porque eles Me abandonaram e profanaram este lugar, queimando incenso a outros deuses, que nem eles, nem os seus antepassados, nem os reis de Jud\u00e1 conheciam. Encheram este lugar com sangue de inocentes, e constru\u00edram lugares altos para Baal, para queimar os seus filhos no fogo em holocausto a Baal... Por isso - or\u00e1culo de Jav\u00e9 - vir\u00e3o dias em que  este lugar j\u00e1 n\u00e3o se chamar\u00e1 Tofet ou vale de Ben-Enom, mas vale da Matan\u00e7a\u00bb{/} [Jr_19,6].

{K}HACELDAMA{/}
Na Geena, o convento greco-ortodoxo de Santo Onofre consagra o lugar onde, desde o s\u00e9c. IV, a tradi\u00e7\u00e3o diz que estava o \u00abCampo de Sangue\u00bb.
Nos relatos evang\u00e9licos, \u00abHaceldama, o \u00abCampo de Sangue\u00bb, substitui o primitivo nome de \u00abCampo do Oleiro\u00bb, depois de Judas ter devolvido o dinheiro da trai\u00e7\u00e3o: {C}Recolhendo as moedas, os sumos sacerdotes disseram: \u00ab\u00c9 contra a Lei coloc\u00e1-las no tesouro do Templo, porque \u00e9 pre\u00e7o de sangue\u00bb. Ent\u00e3o discutiram em conselho, e deram-nas em troca pelo Campo do Oleiro, para l\u00e1 fazerem o cemit\u00e9rio dos estrangeiros. \u00c9 por isso que esse campo at\u00e9 hoje \u00e9 chamado \u00abCampo de Sangue\u00bb{/}.
Assim se cumpriram as palavras do profeta Zacarias: {C}Ent\u00e3o eles pesaram o dinheiro do meu sal\u00e1rio: trinta siclos de prata. E Jav\u00e9 disse-me: \u00abEnvia ao fundidor este pre\u00e7o fabuloso com que fui avaliado por eles\u00bb{/} [Zc_11,12] - [Zc_11,13].
