{N}1,{/}1: (1-36) Contrastando com a descri\u00e7\u00e3o marcadamente idealizada no livro de Josu\u00e9, temos aqui uma apresenta\u00e7\u00e3o mais realista da conquista da Terra, entrela\u00e7ando sucessos e fracassos. Na falta de uma ac\u00e7\u00e3o concertada entre as tribos, cada uma vive amea\u00e7ada pelas cidades cananeias existentes no territ\u00f3rio que lhe foi atribu\u00eddo. A luta foi longa e gradual, valendo o esfor\u00e7o solid\u00e1rio que se foi construindo com o tempo.

{N}2,{/}1: (1-5) A situa\u00e7\u00e3o vivida parece contr\u00e1ria ao que se poderia esperar da promessa divina de dar a Terra... Numa primeira tentativa de explica\u00e7\u00e3o, os atrasos na conquista seriam queridos por Deus, porque o povo n\u00e3o O quis escutar nem seguir.

{N}2,{/}6: (2,6-3,6) O texto fornece a chave para se compreender esta etapa da hist\u00f3ria das tribos onde a infidelidade substitui periodicamente a consci\u00eancia dos compromissos assumidos. A gera\u00e7\u00e3o que luta mant\u00e9m viva essa consci\u00eancia (vv. 6-10a). A nova gera\u00e7\u00e3o por\u00e9m, quebra essa mem\u00f3ria e amea\u00e7a fazer o projecto voltar atr\u00e1s (v. 10b). O resultado \u00e9 um vaiv\u00e9m na hist\u00f3ria, entre a {C}fidelidade a Jav\u00e9{/} e o seu projecto, e o {C}culto aos \u00eddolos{/}.
Os vv. 11-16 apresentam um esquema teol\u00f3gico em quatro tempos que, na sua singeleza, parece ajustar-se a certas altern\u00e2ncias hist\u00f3ricas:
{N}a){/}{C}Pecado = aliena\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia esclarecida{/}: o povo abandona Jav\u00e9, o Deus que produz liberdade e vida, para servir aos \u00eddolos que corrompem, produzindo um sistema injusto (vv. 11-13).
{N}b){/}{C}Castigo = perda da liberdade e da vida{/}: servindo aos \u00eddolos da escravid\u00e3o e da morte, o povo perde a liberdade e a vida, que tinham sido duramente conquistadas (vv. 14-15a).
{N}c){/}{C}Convers\u00e3o = regresso \u00e0 consci\u00eancia esclarecida{/}: no extremo limite do sofrimento, o povo volta a cair em si e clama por Jav\u00e9 (v. 15b; 3,9.15).
{N}d){/}{C}Gra\u00e7a = liberta\u00e7\u00e3o{/}: Jav\u00e9 responde ao clamor, fazendo surgir chefes (ju\u00edzes) que organizam o povo e o ajudam a reconquistar a liberdade e a vida (v. 16).
Mas a Hist\u00f3ria continua, e as novas gera\u00e7\u00f5es parecem estar sempre a recair (vv. 17-19). \u00c0 primeira vista, ter\u00edamos a tenta\u00e7\u00e3o de dizer que a Hist\u00f3ria \u00e9 um c\u00edrculo vicioso, que volta e termina sempre no mesmo lugar. O autor, por\u00e9m, mostra que tal c\u00edrculo pode ser quebrado: para isso, \u00e9 necess\u00e1rio que cada gera\u00e7\u00e3o assine o projecto de Jav\u00e9 e continue a luta dos antepassados. O desafio \u00e9 extinguir completamente a idolatria, que impede a liberdade e a vida (2,20-3,6).

{N}3,{/}7: (7-11) Baal e Aser\u00e1 eram a divindade masculina e feminina da religi\u00e3o cananeia. Serviam de cimento ideol\u00f3gico do sistema das cidades-estado. O juiz \u00e9 impulsionado pelo \u00abesp\u00edrito de Jav\u00e9\u00bb; a sua ac\u00e7\u00e3o inspira-se no projecto libertador de Jav\u00e9, que atende ao clamor do povo.
  3,7-16,31: Costuma-se dividir os ju\u00edzes em maiores e menores, de acordo com o tamanho da not\u00edcia que se tem sobre eles. Seguindo esse crit\u00e9rio, os ju\u00edzes {C}maiores{/} s\u00e3o: Otoniel, Aod, D\u00e9bora e Barac, Gede\u00e3o, Jeft\u00e9 e Sans\u00e3o. Os {C}menores{/} s\u00e3o: Samgar, Tola, Jair, Abes\u00e3, Elon e Abdon. \u00c9 dif\u00edcil distinguir a fun\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria de cada um deles. O texto leva a pensar que os ju\u00edzes maiores eram chefes que, em circunst\u00e2ncias dif\u00edceis, organizavam uma ou v\u00e1rias tribos para fazer frente aos ataques de cidades-estado cananeias ou de inimigos vizinhos. Os ju\u00edzes menores, ao que parece, eram chefes regulares de tribos, e a sua fun\u00e7\u00e3o era principalmente administrar a justi\u00e7a. O texto, por\u00e9m, parece confundir essa distin\u00e7\u00e3o, apresentando ju\u00edzes maiores tamb\u00e9m como administradores da justi\u00e7a (D\u00e9bora, Jeft\u00e9) e ju\u00edzes menores como guerreiros (Samgar, Tola).
Transparece sempre algum carisma nestes chefes, animados pelo Esp\u00edrito (3,10; 6,34; 11,29; 13,25; 16,6-19; 15,14), cuja miss\u00e3o \u00e9 frequentemente designada pelos dois verbos julgar e salvar, cobrindo tarefas regulares associadas \u00e0 justi\u00e7a e ao governo, sem esquecer o mergulho em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia que amea\u00e7am a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia das tribos.

{N}3,{/}12: (12-31) O ardil de Aod, descrito com pormenores que p\u00f5em a rid\u00edculo o perfil do rei de Moab, \u00e9 uma t\u00e1ctica de guerra empregada em tempos de pouco rigor moral, em particular neste sector.

{N}4,{/}1: (1-24) Este epis\u00f3dio, tamb\u00e9m apresentado em poesia (cap. 5), foi decisivo para o sistema das doze tribos de Israel: a vit\u00f3ria sobre os reis cananeus, situados na faixa central do territ\u00f3rio, favoreceu a uni\u00e3o entre as tribos do Sul e do Norte. O texto, por\u00e9m, est\u00e1 mais interessado nas personagens principais, do que na batalha em si. Contrap\u00f5e duas mulheres a dois homens: D\u00e9bora, profetisa e ju\u00edza decidida e corajosa, contra Barac, guerreiro indeciso e sem coragem. S\u00edsara, general fugitivo, contra Jael, mulher corajosa, que consegue liquidar o principal inimigo de Israel.

{N}5,{/}1: (1-31) Este \u00e9 um dos hinos mais antigos da B\u00edblia, composto logo depois dos acontecimentos. Trata-se de uma vers\u00e3o po\u00e9tica sobre os mesmos factos apresentados no cap\u00edtulo 4. Como se trata de uma batalha decisiva alcan\u00e7ada em Tanac (v. 19), perto de Meguido, \u00e9 apresentada como guerra santa: o autor convida ironicamente os reis e governadores cananeus derrotados a ouvir o que Jav\u00e9 realizou (vv. 2-5). Descreve-se o resultado da vit\u00f3ria: as caravanas de mercadores, que levavam objectos de luxo e armas para as cidades-estado, tiveram o seu caminho cortado (v. 6). N\u00e3o podendo j\u00e1 explorar os camponeses e suas terras, tais cidades n\u00e3o conseguiram oferecer sacrif\u00edcios aos seus deuses por falta de animais, e os seus armaz\u00e9ns ficaram vazios por falta de trigo (v. 8a). No entretanto, os camponeses vitoriosos conseguiram livrar-se dos tributos e puderam gozar de fartura com os despojos da guerra e das caravanas (v. 7). A vit\u00f3ria foi conseguida sem que Israel possu\u00edsse armas de guerra como os cananeus (escudo, lan\u00e7a, carros): foi a vit\u00f3ria do projecto de Jav\u00e9 (v. 8b).
As tribos foram convocadas, sob a chefia de D\u00e9bora. Dependendo da colabora\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o, as tribos s\u00e3o elogiadas ou criticadas (vv. 9-18.23). A estrat\u00e9gia decisiva para a vit\u00f3ria foi o combate na plan\u00edcie, onde a cheia do rio Quison tornou imposs\u00edvel a movimenta\u00e7\u00e3o dos carros cananeus (vv. 19-22). A ac\u00e7\u00e3o de Jael mostra a import\u00e2ncia da mulher nessa luta: \u00e9 ela quem mata o grande general cananeu (vv. 24-27). O c\u00e2ntico termina de forma f\u00fanebre, com a m\u00e3e do opressor esperando inutilmente pela volta do filho vitorioso (vv. 28-30). O v. 31 encerra o c\u00e2ntico com o desejo de que o projecto de Jav\u00e9 seja sempre triunfante.

{N}6,{/}1: (1-6) A introdu\u00e7\u00e3o ao ciclo sublinha claramente os temas do princ\u00edpio do livro: infidelidade do povo; opress\u00e3o inimiga permitida pelo Senhor; s\u00faplica dos israelitas a contar com o castigo; envio dum salvador que liberta do peso estrangeiro.
  6-9: O ciclo de Gede\u00e3o, um dos mais coloridos do livro, d\u00e1-nos uma ideia do que era Israel nesta \u00e9poca: um povo dado \u00e0 agricultura, amea\u00e7ado pelos n\u00f3madas e condescendente com o culto dos deuses locais. A sec\u00e7\u00e3o divide-se em tr\u00eas partes: a origem da miss\u00e3o de Gede\u00e3o (6,1-32); as campanhas de Gede\u00e3o contra os madianitas (6,33-8,21); a tentativa falhada duma realeza (8,22-9,57).

{N}6,{/}7: (7-10) Um profeta analisa a causa da situa\u00e7\u00e3o: o povo abandonou o projecto de Jav\u00e9. A infidelidade no campo religioso parece ser o culto prestado aos deuses dos amorreus. O pesadelo madianita \u00e9 o castigo da infidelidade do povo.

{N}6,{/}11: (11-24;36-40) Gede\u00e3o \u00e9 o chefe que tentar\u00e1 reorganizar o povo. A primeira coisa a fazer ser\u00e1 voltar ao projecto do Deus libertador (v. 13) e colocar-se ao servi\u00e7o dele. O sinal confirma a miss\u00e3o (cf. nota em Ex 4,1-9). \u00c9 um belo exemplar duma narrativa de voca\u00e7\u00e3o, com teofania ou apari\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo entre o enviado por Deus e o destinat\u00e1rio humano.

{N}6,{/}25: (25-32) Para um regresso ao projecto de Jav\u00e9, \u00e9 necess\u00e1rio romper com a religi\u00e3o de Baal, e Gede\u00e3o come\u00e7ou por dar o exemplo com um grupo de corajosos.

{N}6,{/}33: (33-35) Retomando o projecto de Jav\u00e9, Gede\u00e3o consegue reunir v\u00e1rias tribos para enfrentar o inimigo externo.

{N}7,{/}1: (1-8) Gede\u00e3o lidera um grupo popular para combater os madianitas. N\u00e3o se trata de um ex\u00e9rcito profissional, mas de um grupo minorit\u00e1rio, cheio de coragem (v. 3).

{N}7,{/}9: (7,9-8,3) O combate contra os madianitas apresenta um estratagema de guerrilha, que \u00e9 recurso humilde contra ex\u00e9rcitos organizados. A tenda simboliza a vida dos madianitas n\u00f3mades, e o p\u00e3o de cevada lembra a vida agr\u00edcola dos israelitas: o sonho anuncia a vit\u00f3ria dos israelitas sobre os madianitas (vv. 13-14). O texto de 7,23-8,3 parece reflectir uma tradi\u00e7\u00e3o diferente, que foi unida aqui. A narrativa dc 7,22 continua em 8,4.

{N}8,{/}4: (4-21) Os habitantes de Sucot e Fanuel n\u00e3o se solidarizam com Gede\u00e3o, pois n\u00e3o acreditam no sucesso da campanha e temem a repres\u00e1lia dos madianitas. Gede\u00e3o conduz mais esta campanha, agora na Transjord\u00e2nia, descrita aqui com conhecimento preciso da regi\u00e3o.

{N}8,{/}22: (22-35) As tribos tinham feito longa luta para superar o sistema das cidades-estado, onde os reis se perpetuavam no poder atrav\u00e9s de sucess\u00e3o din\u00e1stica (de pai para filho). A proposta feita a Gede\u00e3o (v. 22) significava reconhec\u00ea-lo como rei, \u00e0 semelhan\u00e7a do que acontecia entre povos vizinhos. Na resposta de Gede\u00e3o (v. 23), temos o argumento invocado contra a realeza em 1Sm 8,7;12,12, e o ideal defendido pelas tribos: a \u00fanica autoridade sobre o povo \u00e9 Jav\u00e9 e isso n\u00e3o permite constituir poderes absolutos, que sempre acabam por explorar e oprimir o povo. Sobre os vv. 33-35, cf. nota em 2,6-3,6.

{N}9,{/}1: (1-6) O texto \u00e9 ir\u00f3nico e descreve o processo de ascens\u00e3o ao poder de Abimelec que se imp\u00f4s como rei em Siqu\u00e9m; mas o ensaio n\u00e3o resultou. A narrativa procede de meios hostis \u00e0 realeza.

{N}9,{/}7: (7-21) Os vv. 8-15 reproduzem uma f\u00e1bula popular, que apresenta a mais severa cr\u00edtica ao poder pol\u00edtico: somente aquele que nada produz \u00e9 que se presta para exercer o poder, e a seguran\u00e7a que ele oferece n\u00e3o passa de armadilha contra a liberdade do povo. Os vv. 16-20 aplicam essa f\u00e1bula \u00e0 situa\u00e7\u00e3o, mostrando que o povo dever\u00e1 arcar com as consequ\u00eancias das suas pr\u00f3prias decis\u00f5es.

{N}9,{/}22: (22-25;42-49) Os \u00abju\u00edzes\u00bb, que lutam com desprendimento em favor do povo, s\u00e3o guiados pelo \u00abespirito de Jav\u00e9\u00bb ou pelo \u00abanjo de Jav\u00e9\u00bb (3,10.15;4,6; 6,12; 11,9; 13,25). Eles trazem a paz (3,11; 3,30; 5,31; 8,28). E quem \u00e9 movido pela gan\u00e2ncia do poder e oprime o povo torna-se presa do \u00abesp\u00edrito mau\u00bb, que provoca divis\u00e3o e disc\u00f3rdia, desencadeando uma sequ\u00eancia crescente de morte.

{N}9,{/}26: (26-41) Este epis\u00f3dio, inserido, aqui posteriormente, mostra uma tentativa de subvers\u00e3o contra a prepot\u00eancia de Abimelec. O texto nota que essa tentativa se frustrou e que acabou por lan\u00e7ar o povo nas m\u00e3os do inimigo. 

{N}9,{/}50: (50-57) Acontece o que Joat\u00e3o tinha previsto (cf. nota em 9,7-21). De novo, uma mulher \u00e9 quem p\u00f5e fim \u00e0 carreira do opressor (cf. nota em 4,1-24).

{N}10,{/}1: (l-5) Tola e Jair s\u00e3o \u00abju\u00edzes menores\u00bb (cf. nota em 3,7-16,31).

{N}10,{/}6: (6-18) Repete-se aqui o esquema que encontr\u00e1mos anteriormente (cf. nota em 2,6-3,6). O texto tem car\u00e1cter de liturgia penitencial: reconhecer os erros repetidos produz consciencializa\u00e7\u00e3o mais profunda.

{N}11,{/}1: (1-11) Muitas vezes, aqueles que s\u00e3o desprezados e marginalizados tornam-se, dentro do projecto de Deus, instrumentos de liberta\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que se verifica aqui com Jeft\u00e9; expulso de casa, foram-no buscar para salvador.
O Novo Testamento mostrar\u00e1 que a nova constru\u00e7\u00e3o se apoia justamente sobre a pedra rejeitada (cf. Mt 21,42).

{N}11,{/}12: (12-28) O texto \u00e9 confuso. Pelo que parece, tenta resolver pacificamente - dentro de celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas - alguns problemas sobre a posse de territ\u00f3rios situados na Transjord\u00e2nia.

{N}11,{/}29: (29-40) O texto \u00e9 uma advert\u00eancia contra promessas que n\u00e3o estejam de acordo com o projecto de Jav\u00e9, que \u00e9 projecto de vida e n\u00e3o de morte. O rigor em cumprir os votos foi-se atenuando (cf. Lv 27,1-25).
\u00abChorando... porque vou morrer virgem\u00bb (v. 37)... Na \u00e9poca era desonra para uma mulher n\u00e3o casar e sobretudo n\u00e3o ter filhos.

{N}12,{/}1: (1-7) A tribo de Efraim era poderosa e arrogante, sempre alerta para evitar que alguma outra pudesse sobressair (cf. 8,1-3). {C}Chib\u00f4let{/} significa espiga de trigo.

{N}12,{/}8: (8-15) Abes\u00e3, Elon e Abdon s\u00e3o \u00abju\u00edzes menores\u00bb (cf. nota em 3,7-16,31).

{N}13,{/}1: (13,1-l6,3l) Os filisteus eram um grupo provindo do Mediterr\u00e2neo e que se fixou na costa sul de Cana\u00e3, por volta de 1200 a.C. Rapidamente se tornaram perigosos para a sobreviv\u00eancia de Israel.
A hist\u00f3ria de Sans\u00e3o, a mais longa no livro dos Ju\u00edzes, salienta de in\u00edcio que Sans\u00e3o \u00e9 um instrumento escolhido por Jav\u00e9 para libertar o povo amea\u00e7ado pelos filisteus. O resto da hist\u00f3ria deixa bem claro que Deus \u00e9 livre para escolher os seus instrumentos, e n\u00e3o Se restringe a escolher aqueles que os homens julgam moralmente perfeitos, nem realiza a sua ac\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dos meios que n\u00f3s consideramos os mais apropriados. A for\u00e7a deste her\u00f3i contrasta com a sua fraqueza relativamente \u00e0s mulheres. No conjunto dos epis\u00f3dios h\u00e1 muito sabor popular, embelezamentos, ironias e s\u00e1tiras contra o inimigo filisteu. O lado religioso tamb\u00e9m est\u00e1 presente: a for\u00e7a de Sans\u00e3o vem-lhe de Deus, mediante a presen\u00e7a dum esp\u00edrito divino (14,6-9; 16,28) ou merc\u00ea da sua qualidade de {C}nazir{/} (13,5; 16,17; cf. Nm 6,1-8). Notar como a exist\u00eancia de Sans\u00e3o acaba em grandeza e entrega: aceita a pr\u00f3pria morte para tirar a vida aos chefes inimigos (16,30), libertando assim o seu povo.

{N}17,{/}1: (17-18) Estes cap\u00edtulos, conservando narrativas antigas, procuram dar um panorama de como o culto a Jav\u00e9 se desenvolveu na \u00e9poca de Israel antes da monarquia. Em \u00e9pocas mais remotas, o culto era feito em fam\u00edlia, e o pai era o sacerdote, ou algu\u00e9m nomeado por ele. Na falta do pai, a m\u00e3e tomava a iniciativa de estabelecer o culto (17,1-6). Depois, essa actividade sacerdotal come\u00e7ou a ser realizada pelos levitas itinerantes, que moravam junto de uma fam\u00edlia e exerciam o cargo a troco do pr\u00f3prio sustento (17,7-13). Mais tarde, esses levitas tamb\u00e9m serviram como foco de uni\u00e3o cultual de toda uma tribo (18,19-20). N\u00e3o havia ainda nenhum santu\u00e1rio central para todas as tribos. A \u00fanica coisa que se procurava preservar, atrav\u00e9s dessa religiosidade popular, era a adora\u00e7\u00e3o a Jav\u00e9, o Deus do \u00eaxodo. Durante a monarquia, esse culto foi centralizado em Jerusal\u00e9m. O cap. 18 relata tamb\u00e9m um facto hist\u00f3rico: a migra\u00e7\u00e3o da tribo de D\u00e3 para o Norte. Isso aconteceu porque o territ\u00f3rio onde D\u00e3 se havia estabelecido n\u00e3o era favor\u00e1vel, por causa da forte press\u00e3o dos filisteus.

{N}19,{/}1: (19-21) Estas narrativas mostram alguns princ\u00edpios b\u00e1sicos para se preservar um m\u00ednimo de relacionamento e unidade entre as tribos. Destaca-se como dever sagrado a hospitalidade: o retardamento da narrativa (19,1-9) \u00e9 justamente para salientar esse aspecto. Os habitantes de Gaba\u00e1 e os benjaminitas violam esse dever (19,10-30). O cap. 20 mostra como as tribos reagiam com rigor contra aqueles que violavam essa hospitalidade, talvez o \u00fanico gesto de solidariedade capaz de manter a sobreviv\u00eancia num territ\u00f3rio ainda cheio de inimigos.
O cap. 21 mostra como era necess\u00e1rio salvaguardar a exist\u00eancia de todas as tribos e evitar a todo o custo o exterm\u00ednio de uma delas: nessas circunst\u00e2ncias, o rigorismo cede lugar \u00e0 piedade e \u00e0 compreens\u00e3o.

