{N}1,{/}1: (1-9) Os dois livros das Cr\u00f3nicas procuram fazer uma s\u00edntese da Hist\u00f3ria do povo de Deus e dos seus destinos, pondo em destaque o reinado de David e da sua dinastia. A primeira parte \u00e9 reconstitu\u00edda a partir de listas geneal\u00f3gicas de Ad\u00e3o at\u00e9 David. Para o autor, {C}a Hist\u00f3ria \u00e9 uma sucess\u00e3o de gera\u00e7\u00f5es,{/} que transmitem aos descendentes a situa\u00e7\u00e3o global dos antepassados, onde sobressai a colabora\u00e7\u00e3o dada ao projecto de Deus.
As listas geneal\u00f3gicas chegam at\u00e9 David e aos sacerdotes. David \u00e9 o ponto de partida da esperan\u00e7a messi\u00e2nica. E os sacerdotes s\u00e3o chefes do culto que, fundamentado nas tradi\u00e7\u00f5es passadas, fornece uma identidade religiosa \u00e0 comunidade judaica.

{N}10,{/}1: (1-14: Supondo conhecida a hist\u00f3ria do reinado de Saul, o texto evoca a sua morte, na vergonha e sem descend\u00eancia, situa\u00e7\u00e3o que contrasta com o fiel rei David, cuja dinastia desafiaria os tempos.
  10-29: A obra cobre o reinado de David, desde a morte de Saul \u00e0 morte de David. O cronista acompanha os passos paralelos de Samuel e Reis, eliminando cenas menos edificantes ou pormenores chocantes. A figura do rei David permanece humana, mas \u00e9 idealizada. Tudo concorre para mostrar o rei aben\u00e7oado por Deus, cabe\u00e7a duma dinastia perp\u00e9tua, decidido a criar uma capital (Jerusal\u00e9m) para a\u00ed instalar o Templo e o seu culto.

{N}11,{/}1: (1-9) David \u00e9 introduzido directamente como \u00fanico rei de um povo j\u00e1 unido. O seu primeiro acto \u00e9 conquistar Jerusal\u00e9m, que ser\u00e1 o centro pol\u00edtico e religioso de Israel. O v. 9 mostra que Deus aben\u00e7oa o grande rei, cujo perfil, com o tempo, se tornou exemplar.

{N}11,{/}10: (10-47) David, desde o in\u00edcio, tem ao seu lado todo o povo, o ex\u00e9rcito e os homens de valor. Portanto, tem \u00e0 m\u00e3o todas as condi\u00e7\u00f5es para exercer um governo justo, que d\u00ea solidez \u00e0 identidade nacional de Israel.

{N}12,{/}1: (1-23) \u00c9 o tempo em que David sobrevive \u00e0s escondidas, perseguido por Saul. Os contingentes que chegam de todas as partes para se aliarem a David mostram o descontentamento geral e a busca de um novo chefe. Deste modo, o autor frisa que a chefia de David \u00e9 desejada por todo o Israel.

{N}12,{/}24: (24-41) A reuni\u00e3o de todos os homens armados em Hebron representa o povo que aceita David como rei. O clima de festa e alegria mostra que o acontecimento \u00e9 simb\u00f3lico: na mente do autor, o facto de David ser consagrado por todo o povo mostra que Jav\u00e9 o confirma como rei. Doravante, o messianismo dav\u00eddico torna-se uma esp\u00e9cie de sacramento da presen\u00e7a e governo de Jav\u00e9.

{N}13,{/}1: (1-14) O primeiro acto solene de David como rei \u00e9 reunir todo o povo incluindo sacerdotes e levitas para, em assembleia (eccles\u00eda) de car\u00e1cter religioso, assumir a transfer\u00eancia da arca da alian\u00e7a para Jerusal\u00e9m. O incidente com Oza \u00e9 explicado em 1Cr 15,11-13: ainda n\u00e3o existe um sacerd\u00f3cio organizado para administrar convenientemente o culto.

{N}14,{/}1: (1-17) Chefe de uma fam\u00edlia numerosa, reconhecido pelos reis vizinhos e vitorioso contra os inimigos, David chega ao auge da sua gl\u00f3ria. Consultando a Deus antes de tomar uma decis\u00e3o, o rei mostra que o poder pol\u00edtico deve estar ao servi\u00e7o do projecto de Jav\u00e9, que produz liberdade e vida para todos.

{N}15,{/}1: (1-16,3) A transfer\u00eancia da Arca para Jerusal\u00e9m \u00e9 feita em clima de grande festa. E a cidade torna-se santa, porque nela agora est\u00e1 a moradia de Jav\u00e9, que a transforma em cidade de todo o povo. A narrativa desenvolve o acontecimento mais do que o texto paralelo de Samuel; sublinha a import\u00e2ncia da iniciativa e o papel desempenhado pelos levitas, cuja organiza\u00e7\u00e3o, ao que parece, se deve a David; sublinha ainda o car\u00e1cter religioso e cultural da transfer\u00eancia, transformada em prociss\u00e3o, com holocaustos, sacrif\u00edcios pac\u00edficos, refei\u00e7\u00f5es partilhadas nos lugares sagrados e b\u00ean\u00e7\u00e3os.

{N}16,{/}4: (4-36) Apresentando trechos dos salmos 105, 96 e 106, o texto mostra uma celebra\u00e7\u00e3o do culto no p\u00f3s-ex\u00edlio. O {C}centro do culto{/} \u00e9 a proclama\u00e7\u00e3o do Deus vivo, que age na Hist\u00f3ria, libertando o seu povo, estabelecendo alian\u00e7a com ele, protegendo-o dos inimigos e encaminhando-o para a vida. Este mesmo Deus \u00e9 o rei do seu povo, que um dia governar\u00e1 todas as na\u00e7\u00f5es, reunindo todos os homens numa sociedade justa e fraterna.

{N}16,{/}37: (37-43) At\u00e9 que o Templo seja constru\u00eddo, o culto \u00e9 celebrado em dois lugares: em Jerusal\u00e9m celebra-se o louvor junto \u00e0 Tenda; em Gabaon oferecem-se os sacrif\u00edcios. O reconhecimento cont\u00ednuo do Deus vivo sustenta a caminhada de um povo para construir a cidade segundo o projecto d'Ele.

{N}17,{/}1: (1-15) Cf. nota em 2Sm 7,1-17. No contexto do p\u00f3s-ex\u00edlio, um descendente de David ser\u00e1 o Messias, que vir\u00e1 no futuro para restabelecer toda a grandeza de Israel.

{N}17,{/}16: (16-27) Cf. nota em 2Sm 7,18-29.
{N}
17,{/}18: (18-20) Estes cap\u00edtulos relatam as vit\u00f3rias de David sobre os povos vizinhos, seguindo de perto 2Sm 8-21, mas deixando de lado tudo quanto parecia ensombrar a gl\u00f3ria e virtude do rei: adult\u00e9rio com Betsabeia, incesto de Amnon, revolta de Absal\u00e3o...

{N}18,{/}1: (1-13: Ao ser escolhido, o rei comprometia-se a libertar o povo dos seus inimigos. Aqui, o resumo das conquistas de David mostra que ele cumpriu essa primeira parte do contrato com o povo (cf. tamb\u00e9m nota em 2Sm 2,1-5).

{N}18,{/}14: (14-17) Cf. nota em 2Sm 8,15-18.

{N}19,{/}1: (19,1-20,3) Cf. nota em 2Sm 10,1-19. Note-se que David j\u00e1 n\u00e3o acompanha o ex\u00e9rcito (20,1). O autor de Cr\u00f3nicas omite a narra\u00e7\u00e3o do pecado de David, e o castigo que se seguiu (cf. 2Sm 11,1-12,15). Sobre 20,1-3, cf. nota em 2Sm 12,26-31.

{N}20,{/}4: (4-7: Estes epis\u00f3dios ficariam melhor depois de 1Cr 14,8-17, onde se narram as lutas contra os filisteus, durante os primeiros anos do reinado de David.

{N}21,{/}1: (1-22,1) O recenseamento \u00e9 medida que desagrada a Deus e desagua em castigo negociado. Aqui, \u00e9 sugerida por Sat\u00e3, o advers\u00e1rio (cf. Job 1-2; Zc 3,1), ao passo que em Samuel \u00e9 o pr\u00f3prio Senhor quem p\u00f5e \u00e0 prova David. Cf. nota em 2Sm 24,1-25. Salientando o pre\u00e7o pago por David, o autor mostra que o lugar do Templo tem valor imenso. Segundo esse livro, o \u00fanico erro de David transforma-se em ocasi\u00e3o para ele fixar o lugar do culto ao Deus verdadeiro.

{N}22,{/}2: (2-19) Para o autor, \u00e9 importante frisar que David deixou tudo preparado para a constru\u00e7\u00e3o do Templo em Jerusal\u00e9m. Desse modo, ele n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 o fundador pol\u00edtico da na\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m o seu organizador religioso. Portanto, os cap\u00edtulos imediatos mostram que David fez os preparativos para a sua constru\u00e7\u00e3o e para a organiza\u00e7\u00e3o do pessoal ligado ao culto: levitas, sacerdotes e cantores.

{N}23,{/}1: (1-32) Antes do ex\u00edlio na Babil\u00f3nia, os levitas foram os grandes pregadores que alimentavam a f\u00e9 no Deus do \u00eaxodo e lembravam as consequ\u00eancias dessa f\u00e9 (cf. livro do Deuteron\u00f3mio). No p\u00f3s-ex\u00edlio, eles s\u00e3o reabsorvidos no ambiente do culto como auxiliares dos sacerdotes para quest\u00f5es materiais ligadas ao Templo. 
  23,1-29,30: Segundo o autor do livro, o \u00faltimo acto de David foi convocar uma grande assembleia dos chefes de Israel para proclamar Salom\u00e3o como rei. Neste contexto, o autor apresenta o regulamento do culto (23-26), seguido pelo regulamento civil (27). Depois, v\u00eam as instru\u00e7\u00f5es sobre o Templo (28) e a solene entroniza\u00e7\u00e3o de Salom\u00e3o (29). Com isto, o autor procura fundamentar e confirmar a institui\u00e7\u00e3o religiosa que dava forma \u00e0 comunidade p\u00f3s-ex\u00edlica. Usando e retrabalhando antigas tradi\u00e7\u00f5es, ele pro-cura fornecer uma organiza\u00e7\u00e3o s\u00f3lida a um povo que n\u00e3o teve possibilidades de se organizar devido \u00e0s domina\u00e7\u00f5es estrangeiras.

{N}24,{/}1: (1-31) Na verdade, antes do ex\u00edlio, desde o tempo de Salom\u00e3o houve atritos entre levitas e sacerdotes (cf. 1Rs 2,26-27), atritos que continuaram depois do ex\u00edlio. O autor procura sanar essa divis\u00e3o, a fim de que a unidade religiosa se torne poss\u00edvel. No presente texto, levitas e sacerdotes t\u00eam a mesma import\u00e2ncia.

{N}25,{/}1: (1-31) No p\u00f3s-ex\u00edlio, os cantores t\u00eam papel importante no culto, e s\u00e3o divididos, como os sacerdotes, em vinte e quatro turnos. O canto sacro \u00e9 considerado Palavra de Deus, tanto que os cantores s\u00e3o chamados profetas e videntes. \u00c9 nesse tempo que o Salt\u00e9rio adquire a sua import\u00e2ncia como livro de cantos do Templo e como parte integrante da Palavra de Deus.

{N}26,{/}1: (1-32) Centro da vida judaica no p\u00f3s-ex\u00edlio, o Templo adquiriu uma estrutura complexa. O bom funcionamento exigia fiscaliza\u00e7\u00e3o (guardas) e orienta\u00e7\u00e3o (a fun\u00e7\u00e3o dos porteiros era acolher e orientar os peregrinos; cf. Sl 15).

{N}27,{/}1: (1-34) Para o autor, Israel deve a sua organiza\u00e7\u00e3o civil e militar a David. Isso, por\u00e9m, \u00e9 apenas uma tentativa de o exaltar como rei ideal. A organiza\u00e7\u00e3o administrativa e militar, em plano nacional, foi de facto obra de Salom\u00e3o (cf. 1Rs 4,7-5,8 e notas).

{N}28,{/}1: (1-21) Retoma-se aqui o relato interrompido em 23,2. Recordando a profecia de Nat\u00e3 (cf. nota em 17,1-15 e 2Sm 7,1-17), passa-se directamente ao tema do Templo e aos projectos para execut\u00e1-lo. No p\u00f3s-ex\u00edlio, o Templo \u00e9 o centro da vida da comunidade sendo ent\u00e3o dirigido pelos sacerdotes e n\u00e3o pela dinastia de David, a qual j\u00e1 n\u00e3o existe. Deste modo, o Templo torna-se a grande heran\u00e7a projectada por Deus e preparada por David.

{N}29,{/}1: (1-9) Relatando o gesto generoso de David, seguido pelas outras autoridades e pelo povo, o autor convida a entregar para o bem comum tudo o que cada um tem de maior valor. No p\u00f3s-ex\u00edlio, o bem comum era simbolizado pelo Templo, \u00fanica institui\u00e7\u00e3o que podia preservar, nessas circunst\u00e2ncias, a tradi\u00e7\u00e3o viva e manter a identidade do povo, reunido em torno de Jav\u00e9, cujo projecto \u00e9 liberdade e vida para todos. De facto, Deus quer que todos se voltem para a concretiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica desse projecto, que implica ren\u00fancia \u00e0s posses, a fim de que todos tenham o necess\u00e1rio para uma vida digna.

{N}29,{/}10: (10-22) Tudo pertence a Deus. Numa ora\u00e7\u00e3o de louvor, posta na boca de David mas ajustada \u00e0 f\u00e9 e piedade do p\u00f3s-ex\u00edlio, pergunta-se: Que poder\u00e1 o homem dar a Deus? Apenas {C}reconhecimento,{/} que se extravasa em ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as e oferta volunt\u00e1ria daquilo que recebeu de Deus. Com Deus o homem aprende a dar, e de Deus recebe o que dar.

{N}29,{/}23: (23-30) O primeiro livro das Cr\u00f3nicas termina com breve resumo da vida de David. O autor deixa claro que o livro \u00e9 {C}uma{/} vers\u00e3o da Hist\u00f3ria e indica as fontes que usou, entre as quais os livros de Samuel e Reis.

