{N}1,{/}1: A actividade de Miqueias come\u00e7a depois do ano 740 a.C. No cen\u00e1rio internacional, o imp\u00e9rio ass\u00edrio est\u00e1 em grande ascens\u00e3o, constituindo grave amea\u00e7a para o reino de Israel (Samaria) e o reino de Jud\u00e1 (Jerusal\u00e9m).
  1-3: Estes cap\u00edtulos resumem o essencial dum processo instaurado contra Israel, num encadeado de senten\u00e7as condenat\u00f3rias dos desvios verificados. Apesar da prosperidade econ\u00f3mica, tanto no reino do Norte como no do Sul, a globalidade da na\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 feliz. Reina a injusti\u00e7a. Elites privilegiadas de Samaria e de Jerusal\u00e9m acham-se seguras, enquanto muitos irm\u00e3os deserdados se encontram na pen\u00faria e no sofrimento. Por outro lado, a guerra anda a rondar; o ex\u00e9rcito ass\u00edrio \u00e9 uma presen\u00e7a e uma amea\u00e7a.

{N}1,{/}2: (2-7) Usando o g\u00e9nero liter\u00e1rio da teofania (= manifesta\u00e7\u00e3o de Deus), o profeta anuncia que Jav\u00e9 vai julgar Samaria e Jerusal\u00e9m, respectivamente capitais de Israel e Jud\u00e1. Tornaram-se focos de idolatria, paga com prostitui\u00e7\u00e3o. Na linguagem prof\u00e9tica, prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 a infidelidade a Jav\u00e9 em troca do culto votado a outros \u00eddolos. \u00abLugares altos\u00bb \u00e9 uma express\u00e3o que indica os lugares de culto idol\u00e1trico, situados geralmente em montes ou eleva\u00e7\u00f5es, onde tamb\u00e9m existia, por vezes, prostitui\u00e7\u00e3o sagrada.

{N}1,{/}8: (8-16) Miqueias lamenta a devasta\u00e7\u00e3o da sua terra natal e duma s\u00e9rie de cidades a sudoeste do territ\u00f3rio. A onda assoladora parte da antiga Filisteia e sobe a caminho de Jerusal\u00e9m. Trata-se, provavelmente, da invas\u00e3o de Senaquerib em 701 a.C. Usando o nome das cidades, com jogo de palavras imposs\u00edvel de traduzir, o profeta descreve a desgra\u00e7a de cada uma. Por fim, entrev\u00ea o momento em que a \u00abgl\u00f3ria de Israel\u00bb (= o rei ou a arca da Alian\u00e7a) ter\u00e1 que ser escondida na gruta de Odolam, como fez David quando perseguido por Saul (cf. 1Sm 22,1; 2Sm 23,13).

{N}2,{/}1: (1-5) Com a implanta\u00e7\u00e3o da realeza e das cortes, a igualdade e fraternidade primitivas foram cedendo o lugar \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o, cada vez mais vincada, entre uma elite ciosa de lucros e a massa dos pequenos. O povo trabalhador, muitas vezes devedor insolvente, era reduzido \u00e0 escravid\u00e3o, enquanto os senhores exploravam os pobres, a\u00e7ambarcando casas e propriedades. Ora, isso opunha-se aos compromissos da alian\u00e7a no seu ideal de comunh\u00e3o e fraternidade. O profeta anuncia o julgamento: em breve, o invasor tomar\u00e1 tudo, e n\u00e3o haver\u00e1 mais um povo, pois a terra pertencer\u00e1 aos estrangeiros.

{N}2,{/}6: (6-7) Os visados reagem \u00e0s amea\u00e7as, invocando a seu favor a teologia oficial que p\u00f5e em destaque o apoio incondicional da alian\u00e7a: Jav\u00e9 nunca amaldi\u00e7oa o povo eleito, porque \u00e9 seu aliado.

{N}2,{/}8: (8-11) Tais concidad\u00e3os deixaram de sentir com os demais e tornaram-se seus inimigos, atrav\u00e9s de espolia\u00e7\u00f5es e expropria\u00e7\u00f5es injustas. Abrigo para a noite, a capa (v. 8), mesmo hipotecada, devia ser devolvida ao seu dono, o mais tardar ao p\u00f4r do sol (Dt 24,10-13). A fam\u00edlia estava a ser lesada na honra (v. 9) ou estatuto que o Senhor lhe conferira: liberdade e direito \u00e0 heran\u00e7a da terra. O mau profeta alinha nas orgias dos ricos (v. 11).

{N}2,{/}12: (12-13) Este aditamento t\u00edpico do ex\u00edlio ou do p\u00f3s-ex\u00edlio introduz o tema da reuni\u00e3o do rebanho disperso, sob a orienta\u00e7\u00e3o divina (cf. Jr 23,3-7; Ez 34; Jo 10,7-18).

{N}3,{/}1: (1-4) \u00c9 uma s\u00e9ria den\u00fancia dos chefes que abusam dos poderes e devoram o povo. Acabar\u00e3o na vergonha e no luto (cf. Ez 24,17-22).

{N}3,{/}5: (5-8) Estamos no tempo em que os profetas deixaram de ser arautos de Deus e defensores da justi\u00e7a e da verdade, para servirem os interesses de quem lhes paga melhor. Por isso, o pr\u00f3prio Deus Se afasta, recusando falar e agir atrav\u00e9s deles. Diferente \u00e9 a atitude de Miqueias, que denuncia o crime e o pecado instalados no meio do povo.

{N}3,{/}9: (9-12) S\u00e3o conhecidas as melhorias constru\u00eddas na cidade sob o rei Ezequias (cf. 2Rs 20,20). Mas os respons\u00e1veis devem saber que o sangue, o crime, a injusti\u00e7a e os subornos n\u00e3o fortificam Jerusal\u00e9m. Minada nos alicerces, a capital e o seu templo ser\u00e3o destru\u00eddos. A viol\u00eancia do or\u00e1culo impressiona; estava bem vivo no tempo de Jeremias (26,18).

{N}4,{/}1: (1-5) Encontra-se em Is 2,2-4 este or\u00e1culo, cheio de esperan\u00e7a, que anuncia um futuro novo e definitivo: Jerusal\u00e9m ser\u00e1 a capital da justi\u00e7a; os povos convertidos afluir\u00e3o a Si\u00e3o (cf. Is 60); ser\u00e3o encerradas as escolas de guerra e o armamento convertido em instrumentos produtivos. Sem tomar \u00e0 letra todos os pormenores, h\u00e1 etapas do projecto divino sobre o mundo, \u00e0 espera de construtores.
  4-5: Profeta de mau agoiro para Jerusal\u00e9m (3,12), Miqueias tamb\u00e9m \u00e9 portador de esperan\u00e7a, como se v\u00ea por estes cap\u00edtulos que dirigem a Si\u00e3o uma s\u00e9rie de promessas de salva\u00e7\u00e3o.

{N}4,{/}6: (6-8) Da situa\u00e7\u00e3o de castigo que dispersa e deixa marcas profundas, a for\u00e7a de Deus \u00e9 capaz de reunir (cf. 2,12-13; Ez 34) e refazer um povo novo, um rebanho harmonioso.

{N}4,{/}9: (9-14) A situa\u00e7\u00e3o presente est\u00e1 repassada de sofrimento. A dispers\u00e3o e o ex\u00edlio s\u00e3o inevit\u00e1veis; mas s\u00e3o dores de parto, indiciadoras de vida. A coliga\u00e7\u00e3o das na\u00e7\u00f5es contra Jerusal\u00e9m evoca talvez a movimenta\u00e7\u00e3o gerada pelo ex\u00e9rcito ass\u00edrio em 701 (cf. 2Rs 18,13-16); a certeza messi\u00e2nica, na sua modalidade tradicional, est\u00e1 no triunfo do rei em Si\u00e3o.

{N}5,{/}1: (1-5) O novo Messias vir\u00e1 de Bel\u00e9m, como David (cf. 1Sm 16,1-13). Mateus compreendeu este or\u00e1culo como an\u00fancio do lugar onde nasceria Jesus (Mt 2,5-6). Deus escolhe os pequenos e os fracos para confundir os grandes e os fortes. Falando da m\u00e3e que est\u00e1 para dar \u00e0 luz, o trecho alude \u00e0 promessa feita por Is 7,14, alguns anos antes, na qual a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 reconheceu o an\u00fancio do nascimento de Jesus (cf. Mt 1,23). Os vv. 4-5 exprimem a esperan\u00e7a que o povo de Deus manifesta de sobreviver \u00e0s grandes pot\u00eancias opressoras, como a Ass\u00edria e a Babil\u00f3nia (= terra de Nemrod).

{N}5,{/}6: (6-14) No meio das na\u00e7\u00f5es, o \u00abresto de Jacob\u00bb desempenhar\u00e1 pap\u00e9is diversos, segundo o procedimento dos povos. Ser\u00e1 sempre um sinal da presen\u00e7a divina que n\u00e3o dever\u00e1 basear-se em falsos apoios humanos, for\u00e7as militares ou magia de \u00eddolos (cc. 9-13). O segredo ser\u00e1 confiar sempre em Deus e no seu projecto.

{N}6,{/}1: (1-5) Reabre-se o processo de Jav\u00e9 contra o seu povo. Em vez de juiz que dita senten\u00e7as, o pr\u00f3prio Deus aceita debater a causa com o parceiro, diante da Cria\u00e7\u00e3o, chamada a testemunhar; recorre a uma sequ\u00eancia de interroga\u00e7\u00f5es em que os benef\u00edcios - designadamente os do \u00eaxodo, travessia do deserto e entrada na Terra Prometida - contrastam com os ultrajes (os \u00abimprop\u00e9rios\u00bb de Sexta-Feira Santa) do lado do povo. Que mal te fiz Eu?
  6,1: (6,1-7,7) Ap\u00f3s os or\u00e1culos de esperan\u00e7a num futuro novo, reacendem-se as den\u00fancias de Miqueias contra os desvios do presente. A culpa n\u00e3o pode ser imputada aos benef\u00edcios com que Deus cumulou o seu povo. O formalismo religioso alimenta-se do culto, mas pode encobrir uma vida fraterna injusta que n\u00e3o engana Deus.

{N}6,{/}6: (6-8) O parceiro humano tamb\u00e9m se interroga sobre as exig\u00eancias divinas, mas o seu horizonte truncado fica-se pelas simples paragens do culto. Ora, multiplicar sacrif\u00edcios ou imolar crian\u00e7as (cf. Lv 20,2-3; Dt 12,31) n\u00e3o \u00e9 resposta ao projecto de Deus que ama as pessoas e a vida. Ali\u00e1s, a conclus\u00e3o do v. 8 traduz, em f\u00f3rmula admir\u00e1vel, o ideal da Alian\u00e7a, o n\u00facleo das reivindica\u00e7\u00f5es sublimes dos profetas, que t\u00eam muito a ver com o pr\u00f3ximo: o apego \u00e0 justi\u00e7a, o respeito pelo direito, o amor misericordioso, o trilhar os caminhos do Senhor na humildade vigilante.

{N}6,{/}9: (9-16) Miqueias denuncia a falsifica\u00e7\u00e3o de pesos e medidas usadas no com\u00e9rcio. Segundo o profeta, Jerusal\u00e9m segue o mau exemplo dos piores reis da Samaria (Amri e Acab). Ela n\u00e3o deve esquecer o destino que teve a capital do reino do Norte, que foi tomada e destru\u00edda em 722 a.C. Ora, Deus assegura que o sofrimento e a pen\u00faria n\u00e3o ficar\u00e3o eternamente do mesmo lado.

{N}7,{/}1: (1-7) O profeta lamenta a pervers\u00e3o alargada, a esp\u00e9cie de injusti\u00e7a universal que afecta radicalmente as rela\u00e7\u00f5es familiares mais pr\u00f3ximas. Em contraste not\u00f3rio, o v. 7 proclama a confian\u00e7a do profeta na salva\u00e7\u00e3o. O texto foi, talvez durante algum tempo, a conclus\u00e3o do livro.

{N}7,{/}8: (8-13) A comunidade dispersa sente o desprezo a que \u00e9 votada pelos diversos pa\u00edses, mas confia que, a seu tempo, Jav\u00e9 Se encarregar\u00e1 de defender a sua honra e de restaurar Jerusal\u00e9m, perante a estupefac\u00e7\u00e3o dos povos vizinhos.
  7,8-20: Esta parte parece ter sido acrescentada ao livro de Miqueias depois do ex\u00edlio. O povo tem consci\u00eancia dos erros passados; sofreu no entretanto o castigo da invas\u00e3o e da destrui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Celebra aqui um lote de esperan\u00e7as, num vivo di\u00e1logo com Deus: tem f\u00e9, espera e suplica; obt\u00e9m empenhamentos divinos e a confirma\u00e7\u00e3o de que pode contar com a interven\u00e7\u00e3o eficaz do Deus da Promessa e da Alian\u00e7a.

{N}7,{/}14: (14-17) \u00c0 s\u00faplica do v. 14 corresponde a sequ\u00eancia de maravilhas operadas por Deus a favor do seu povo. O \u00eaxodo, cuja hist\u00f3ria todos conhecem, mostra que Jav\u00e9 pode facilmente inverter as situa\u00e7\u00f5es, provocando sil\u00eancio e espanto nos que agora cantam vit\u00f3ria.

{N}7,{/}18: (18-20) Um hino final ao Deus fiel e misericordioso, que tem gosto no perd\u00e3o e n\u00e3o recusa reassumir, na sua plenitude, os compromissos gratuitamente oferecidos a Abra\u00e3o (promessa) e a Mois\u00e9s (alian\u00e7a).

