{N}1,{/}1: (1-21) Cap\u00edtulo introdut\u00f3rio \u00e0 sec\u00e7\u00e3o narrativa (1-6). Daniel e os seus companheiros, destacados dentre os exilados para a corte do soberano, mant\u00eam-se fi\u00e9is \u00e0 observ\u00e2ncia da Lei divina, no sector-tipo das regras alimentares. De facto, as prescri\u00e7\u00f5es alimentares constitu\u00edam parte importante das observ\u00e2ncias judaicas (cf. Ez 4,13-14; Os 9,3; Jt 10,5; 1Mc 1,62-63) e, nos tempos da heleniza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada sob Ant\u00edoco Epif\u00e2nio, infringi-las era sin\u00f3nimo de apostasia, isto \u00e9, de abandono da verdadeira religi\u00e3o (cf. 2Mc 6,8-7,42).
As cortes da antiguidade oriental costumavam procurar-se servidores qualificados seleccionando e formando jovens nas escolas de escribas. Foi o que aconteceu a estes judeus, que receberam outros nomes (vv. 4-5 e 7; cf. 2Rs 23,34), e foram chamados a viver numa civiliza\u00e7\u00e3o em que a sabedoria compreendia per\u00edcia no ocultismo e adivinha\u00e7\u00e3o (vv. 4 e 17).
  1-6: Uma s\u00e9rie de relatos de acontecimentos forma a primeira parte do livro (ver enquadramentos em 1,21 e 6,29) e apresenta o perfil ideal de judeu fiel e her\u00f3ico em contexto de persegui\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma hist\u00f3ria exemplar, na qual Daniel e os seus tr\u00eas companheiros saem vitoriosos de priva\u00e7\u00f5es que atentam contra a vida e reputa\u00e7\u00e3o, o que leva os pag\u00e3os a renderem-se ao Deus que os salvou.

{N}2,{/}1: (1-16) Na antiguidade, os sonhos premonit\u00f3rios e a sua interpreta\u00e7\u00e3o tinham grande influ\u00eancia no comportamento pessoal e nas decis\u00f5es relativas aos destinos dos povos. Na B\u00edblia, eram um meio de comunica\u00e7\u00e3o entre Deus e os humanos. O soberano teve um sonho e ficou perturbado (v. 1; cf. 7,28). Apesar do seu arb\u00edtrio prepotente, n\u00e3o consegue resposta satisfat\u00f3ria dos especialistas da adivinha\u00e7\u00e3o (vv. 2 e 27). Ser\u00e1 que Daniel e o seu Deus ser\u00e3o capazes de responder ao desafio?
  2,1-49: O sonho misterioso de Nabucodonosor - a est\u00e1tua colossal, feita de materiais diversos - d\u00e1 a Daniel a oportunidade de manifestar a sabedoria e o discernimento prof\u00e9tico que v\u00eam de Deus e superam a pequenez dos saberes pag\u00e3os (cf. 2,27-30;4,4-6;5,7-12;9,22-23). \u00c9 prov\u00e1vel que este aparente recuo aos tempos do lend\u00e1rio soberano da Babil\u00f3nia seja mensagem cifrada, dirigida aos judeus que experimentam a opress\u00e3o de Ant\u00edoco IV, no s\u00e9culo II a.C.

{N}2,{/}17: (17-23) Como na hist\u00f3ria de Jos\u00e9 no Egipto (Gn 40-41), a sabedoria e a religi\u00e3o corrente dos povos n\u00e3o conseguem decifrar os acontecimentos mais ou menos enigm\u00e1ticos que lhes dizem respeito. Jav\u00e9, por\u00e9m, \u00e9 o Senhor da Hist\u00f3ria e da vida, a luz que penetra todos os segredos e dirige os caminhos das sociedades humanas. Numa vis\u00e3o nocturna, o \u00abmist\u00e9rio\u00bb (vv. 19 e 28) \u00e9 revelado a Daniel que, deste modo, discerne os meandros do projecto divino que se desenrolam nos altos e baixos da Hist\u00f3ria humana (cf. Mc 4,11; Rm 16,25; Ef 3,10). Tal \u00e9 a abrang\u00eancia dos motivos do louvor proferido por Daniel.

{N}2,{/}24: (24-49) A interven\u00e7\u00e3o do profeta em nome do \u00abDeus que est\u00e1 no C\u00e9u e revela os mist\u00e9rios\u00bb (v. 27), livra da morte decretada os s\u00e1bios da Babil\u00f3nia e desvenda o des\u00edgnio de Deus e a sua consuma\u00e7\u00e3o. A est\u00e1tua complexa, formada por sec\u00e7\u00f5es de materiais diversos, simboliza a hist\u00f3ria dos imp\u00e9rios pag\u00e3os que se sucedem em degrada\u00e7\u00e3o progressiva. A sequ\u00eancia aleg\u00f3rica evoca os imp\u00e9rios que dominaram o antigo Oriente: Babil\u00f3nia (ouro), M\u00e9dia (prata), P\u00e9rsia (bronze), Alexandre (ferro), imp\u00e9rio posteriormente dividido pelo Egipto dos L\u00e1gidas e a S\u00edria dos Sel\u00eaucidas (ferro e cer\u00e2mica) cujo representante \u00faltimo era ent\u00e3o Ant\u00edoco IV. A cabe\u00e7a de ouro e o tronco, mais ou menos precioso e resistente, est\u00e3o assentes em p\u00e9s de barro. Basta uma pedra para que o conjunto caia aparatosamente em estilha\u00e7os (vv. 34-35) e, como a palha das eiras, seja levado pelo vento. Tal como os demais elementos, a referida pedra, embora de simbolismo velado (v. 35), aponta para o Reino de Deus.
Resta ao soberano esclarecido e vencido confessar a sua f\u00e9 no Deus de Israel e recompensar o seu ilustre servidor (vv. 46-49). Este preferiu manter-se \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do rei, \u00e0 frente dos s\u00e1bios, associando os tr\u00eas compatriotas (Ananias, Misael e Azarias) \u00e0 administra\u00e7\u00e3o das prov\u00edncias da Babil\u00f3nia, tra\u00e7o que inscreve esta obra na hagiografia edificante que procura incutir for\u00e7a aos judeus perseguidos.

{N}3,{/}1: (1-23) O autor fala de Nabucodonosor, mas pensa em Ant\u00edoco, o rei tomado pela febre de grandeza e orgulho. As den\u00fancias, intrigas e press\u00f5es eram comuns na Judeia pelos in\u00edcios do s\u00e9c. II a.C., e a resist\u00eancia dos Macabeus revela a for\u00e7a que vem da f\u00e9. O relato mostra a total rejei\u00e7\u00e3o da idolatria, ainda que a pre\u00e7o do mart\u00edrio.
  3,1-98: Os tr\u00eas jovens recusam prestar culto \u00e0 est\u00e1tua de ouro; s\u00e3o lan\u00e7ados na fornalha ardente e Deus livra-os da morte (cf. Is 43,2). O relato conjuga elementos da tradi\u00e7\u00e3o ex\u00edlica (como a marca mesopot\u00e2mica dos nomes dos instrumentos musicais) com incidentes hist\u00f3ricos do reinado de Ant\u00edoco Epif\u00e2nio que, no ano 167 a.C., ergue uma est\u00e1tua de J\u00fapiter no tempo de Jerusal\u00e9m e imp\u00f5e a sua adora\u00e7\u00e3o sob amea\u00e7a de morte (cf. 1Mc 1,41-64; 2Mc 7; Dn 9,27;11,317. Os judeus precisavam ent\u00e3o de motivos e de for\u00e7a para resistir. Os vv. 24-90 procedem da vers\u00e3o grega e encerram exemplares lit\u00fargicos de interesse.

{N}3,{/}24: (24-50) Deus n\u00e3o abandona os seus fi\u00e9is \u00e0 loucura dos perseguidores. A ora\u00e7\u00e3o de Azarias \u00e9 uma s\u00faplica penitencial (cf. 9,15-27; Br 1,15-3,8) de equil\u00edbrio teol\u00f3gico invej\u00e1vel. No meio do sofrimento, o povo reconhece o pecado, encaminha-se para a convers\u00e3o, certo do perd\u00e3o e da interven\u00e7\u00e3o salvadora de Deus.

{N}3,{/}51: (51-90) Na boca de Ananias, Azarias e Misael, o louvor das criaturas (cf. Sl 148,1-12), talvez mais antigo, procede invariavelmente recorrendo \u00e0 enumera\u00e7\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o de apelos e insist\u00eancias. Nada impede que tenha sido usado na festa da liberta\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m e da consagra\u00e7\u00e3o do Templo em 164 a.C. (cf. 1Mc 4,36-59; 2Mc 10,1-8).

{N}3,{/}91: (91-97) Diante do poder de Deus, que protege o seu povo fiel, todos os soberanos do mundo s\u00e3o, como Nabucodonosor, convidados a reconhecer o \u00fanico Deus vivo, que faz e mant\u00e9m alian\u00e7a com os homens. Ver confiss\u00f5es paralelas em Gn 14,20; 1Rs 5,21; 2Cr 2,11.

{N}3,{/}98: (3,98-4,34) Seguindo o processo do sonho, desta vez contado por Nabucodonosor e interpretado por Daniel, recorrendo ao simbolismo da \u00e1rvore c\u00f3smica frondosa e altiva, que tamb\u00e9m se abate (j\u00e1 em Ez 31 prefigurava a sorte do Fara\u00f3), a narrativa condena o orgulho humano, concentrado no abuso do poder, e convida os soberanos a reconhecer a grandeza (vv. 24.22.29.31-32) do \u00fanico Deus vivo, Senhor da Hist\u00f3ria. Tal como Ant\u00edoco IV, Nabucodonosor \u00e9 a personifica\u00e7\u00e3o da autoridade humana que se eleva desmedidamente at\u00e9 ao desvario. Por seu turno, Babil\u00f3nia (v. 27), uma das maravilhas do mundo antigo, ficou como s\u00edmbolo das realiza\u00e7\u00f5es humanas deslumbrantes mas fr\u00e1geis; \u00e9 o nome tipo das civiliza\u00e7\u00f5es orgulhosas, votadas ao fracasso.

{N}5,{/}1: (5,1-6,1) De alcance an\u00e1logo ao do cap\u00edtulo anterior, o texto apresenta mais um epis\u00f3dio em que a clarivid\u00eancia prof\u00e9tica de Daniel supera a capacidade dos \u00abperitos\u00bb convocados, lendo e explicando as tr\u00eas palavras desenhadas por m\u00e3o invis\u00edvel na parede do pal\u00e1cio, onde o rei preside a um banquete sacr\u00edlego: o julgamento divino anuncia a queda pr\u00f3xima do soberano. Ecos hist\u00f3ricos da Babil\u00f3nia visam certamente Ant\u00edoco IV que, em 169 a.C., saqueia o Templo, profana as alfaias sagradas e for\u00e7a a introdu\u00e7\u00e3o de cultos pag\u00e3os (cf. 1Mc 1,16-64;6,1-15; 2Mc 3,1-40;5,11-20;6,2-4).

{N}6,{/}2: (2-29) A competi\u00e7\u00e3o doentia entre sacerdotes ou a persegui\u00e7\u00e3o religiosa contra os judeus, no tempo dos Macabeus, parece constituir o quadro hist\u00f3rico desta exorta\u00e7\u00e3o ao mart\u00edrio e \u00e0 esperan\u00e7a. A narrativa \u00e9 exemplar: apoia-se na maravilha verificada na fornalha do cap\u00edtulo 3; n\u00e3o traduz o perfil governativo de Dario; mostra como os acusadores perecem na cova dos le\u00f5es donde Daniel sai ileso. N\u00e3o ser\u00e1 j\u00e1 o s\u00edmbolo da liberta\u00e7\u00e3o da morte, a ressurrei\u00e7\u00e3o (cf. Dn 12,1-3)?

{N}7,{/}1: (1-8) O texto \u00e9 simb\u00f3lico, de contornos pouco precisos mas sugestivos: o {C}mar{/} \u00e9 a hist\u00f3ria dos homens e as {C}quatro feras{/} s\u00e3o os quatro imp\u00e9rios que dominaram o M\u00e9dio Oriente, do s\u00e9c. VII ao s\u00e9c. II a.C. A primeira fera ({C}le\u00e3o{/}) \u00e9 o imp\u00e9rio babil\u00f3nico; a segunda ({C}urso{/}) \u00e9 o imp\u00e9rio medo; a terceira ({C}leopardo{/}) \u00e9 o imp\u00e9rio persa; a quarta ({C}fera medonha{/}) \u00e9 o imp\u00e9rio de Alexandre Magno. Os {C}dez chifres{/} s\u00e3o os reis da dinastia grega dos Sel\u00eaucidas, que dominaram a S\u00edria no s\u00e9c. II a.C.; o {C}chifre pequeno{/} \u00e9 Ant\u00edoco IV Epif\u00e2nio (175-163 a.C.) que, para conseguir e solidificar o seu poder, eliminou v\u00e1rios concorrentes.
  7-12: A segunda parte do livro \u00e9 constitu\u00edda por um conjunto de vis\u00f5es concedidas a Daniel e narradas em discurso de primeira pessoa. A vis\u00e3o encerra normalmente alguma parte do enigma e clama por uma interpreta\u00e7\u00e3o que, no geral, \u00e9 fornecida por um enviado do c\u00e9u, um anjo. Desde Ezequiel que a profecia se aproximou destes moldes apocal\u00edpticos (reveladores), com mensagens viradas para o futuro e, simultaneamente, dirigidas \u00e0s tribula\u00e7\u00f5es presentes dos fi\u00e9is. Trata-se de escrita circunstanciada, por vezes cifrada, de interpreta\u00e7\u00e3o aberta e n\u00e3o arbitr\u00e1ria.

{N}7,{/}9: (9-14) O segundo painel desta vis\u00e3o desenha o julgamento divino que visa a quarta fera. Sob a apar\u00eancia dum venerando Anci\u00e3o, o pr\u00f3prio Deus d\u00e1 poderes muito especiais (v. 14) a um \u00ab{C}Filho de Homem{/}\u00bb que, entre nuvens, se aproxima do trono divino. O nome \u00abFilho de Homem\u00bb \u00e9 j\u00e1 enunciado no livro de Ezequiel com a express\u00e3o {C}\u00abcriatura humana\u00bb,{/} precisamente para designar a fr\u00e1gil condi\u00e7\u00e3o humana. Aqui, \u00e9 personagem simb\u00f3lica (personifica\u00e7\u00e3o do povo dos santos ou entidade pessoal), com dimens\u00e3o messi\u00e2nica. Jesus usou-o como t\u00edtulo preferencial (cf. Mt 8,20;17,9-22;25,31). Em contraste com outros nomes messi\u00e2nicos que, ao tempo, tinham significa\u00e7\u00f5es definidas e faziam apelo a modelos precisos de actua\u00e7\u00e3o, {C}Filho do Homem{/} era um nome de significado aberto, instrumento precioso ao servi\u00e7o de esperan\u00e7as que ultrapassavam de longe muitas outras fixa\u00e7\u00f5es antigas.

{N}7,{/}15: (15-28) Os elementos simb\u00f3licos sugerem o n\u00facleo da mensagem: Ant\u00edoco incarna o \u00faltimo assalto do mal contra o povo de Deus (cf. nota em 7,1-8), mas a esperan\u00e7a subsiste porque se aproximam o julgamento de Deus, a morte do perseguidor e a consequente glorifica\u00e7\u00e3o dos m\u00e1rtires. Os tr\u00eas anos e meio de malvadez (v. 25) aproximam-se da dura\u00e7\u00e3o efectiva da persegui\u00e7\u00e3o de Ant\u00edoco, de 168 a 165 a.C.; simbolicamente - a metade do n\u00famero perfeito (sete) - deixam adivinhar o fracasso da iniciativa \u00edmpia. Mais tarde, dentro do jeito actualizador, a tradi\u00e7\u00e3o judia e crist\u00e3 identificou a quarta fera com o imp\u00e9rio romano (cf. Ap 13).

{N}8,{/}1: (1-27) Mais uma vis\u00e3o simb\u00f3lica (vv. 2-14), explicada por um anjo (vv. 15-26), delineia a hist\u00f3ria da regi\u00e3o. Ao carneiro com dois chifres (o reino da M\u00e9dia e da P\u00e9rsia), sucede o bode com um enorme chifre (Alexandre Magno), dom\u00ednio repartido pelos seus quatro generais. De um deles brota um rei ousado (v. 23), Ant\u00edoco IV que toma Jerusal\u00e9m, suprime os sacrif\u00edcios e persegue os judeus (v. 25). Tem os dias contados (vv. 14-26). O projecto divino d\u00e1 \u00e2nimo \u00e0 comunidade dos fi\u00e9is.

{N}9,{/}1: (1-27) A profecia das setenta semanas deu azo a numerosas especula\u00e7\u00f5es. Os comentadores procuraram, na concord\u00e2ncia hist\u00f3rica, a predi\u00e7\u00e3o da data da vinda do Messias ou do fim do mundo, quando o autor intentou sobretudo dar alento \u00e0 f\u00e9 dos judeus sob Ant\u00edoco Epif\u00e2nio; a persegui\u00e7\u00e3o ter\u00e1 um fim e logo dar\u00e1 lugar \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o. Os setenta anos de que falam Jr 25,11-14;29,14 e 2Cr 36,21, s\u00e3o uma cifra arredondada e sugestiva. As setenta semanas de anos (v. 25) evocam o simbolismo dos ciclos sab\u00e1ticos que desabrocham no jubileu (cf. Lv 25,2-18), um tempo de gra\u00e7a.
Isso n\u00e3o impede que os vv. 24-27 fa\u00e7am alus\u00e3o ao assassinato do sumo sacerdote Onias II, em 170 a.C., \u00e0 invas\u00e3o e profana\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m por Ant\u00edoco. \u00c9 not\u00e1vel a qualidade da ora\u00e7\u00e3o (vv. 4-19). Parecida com a de Azarias em 3,25-45, inspiradora de Br 1,15-3,8, \u00e9 uma confiss\u00e3o de f\u00e9 na grandeza de Deus, uma verifica\u00e7\u00e3o do pecado do povo (vv. 4-14), seguida duma premente s\u00faplica (vv. 15-19), ditada pelo presente atribulado.

{N}10,{/}1: (10,1-11,1) Numa grande vis\u00e3o final, no quadro duma apari\u00e7\u00e3o ang\u00e9lica, o anjo Gabriel (\u00abHomem de Deus\u00bb) desvenda o desabrochar da Hist\u00f3ria, o que acaba por gerar algum pavor. Para tanto, o mensageiro interrompeu o combate com o anjo (o \u00abPr\u00edncipe\u00bb) dos persas, tendo a seu lado Miguel (\u00abQuem \u00e9 como Deus?\u00bb), anjo protector do povo de Deus (v. 21;12,1). Na literatura apocal\u00edptica, cada povo era assistido por um anjo, bom ou mau. O mundo celeste era o reflexo do mundo terrestre; quando as na\u00e7\u00f5es entravam em guerra, os anjos implicados tamb\u00e9m lutavam entre si (cf. Ap 12,7-12).

{N}11,{/}2: (2-39) Um relance inicial abarca a hist\u00f3ria do Oriente, desde Ciro, rei dos persas, ao reinado de Ant\u00edoco Epif\u00e2nio. O interesse est\u00e1 na oposi\u00e7\u00e3o entre os L\u00e1gidas do Egipto (reino do Sul) e os Sel\u00eaucidas da S\u00edria (reino do Norte), ambos herdeiros do imp\u00e9rio de Alexandre Magno. A luta \u00e9 interrompida por tentativas de alian\u00e7as matrimoniais (vv. 6 e 17). No v. 21 aparece Ant\u00edoco IV como opressor da Palestina. Intimado pelos romanos a deixar o Egipto que tinha invadido, ele vinga-se perseguindo os judeus. Estes resistem at\u00e9 ao mart\u00edrio, confiando em Deus e enfrentando o opressor. No seu orgulho, Ant\u00edoco IV chega a colocar-se no lugar de Deus, tornando-se personifica\u00e7\u00e3o do mal, que se op\u00f5e ao Reino de Deus.

{N}11,{/}40: (11,40-12,4) Seguem-se dois quadros virados para o futuro. Um (11,40-45) entrev\u00ea, em termos gerais, o fim do perseguidor e n\u00e3o poupa os tr\u00eas inimigos tradicionais de Israel (v. 41), aliados do rei \u00edmpio. De facto, Ant\u00edoco faleceu em Elam, no Outono de 164 a.C.
O outro quadro (12,1-4) evoca o fim dos tempos (cf. Mt 24): \u00e0 ang\u00fastia \u00edmpar sucede a participa\u00e7\u00e3o na vit\u00f3ria final, mediante a ressurrei\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is inscritos no Livro (cf. Is 4,2-3). Em contraste com a dimens\u00e3o colectiva de Ez 37,1-4, a ressurrei\u00e7\u00e3o individual \u00e9 a resposta inovadora \u00e0s interroga\u00e7\u00f5es postas pelo mart\u00edrio (cf. 2Mc 7,9.11.14.23). \u00c9 um dos grandes textos do Antigo Testamento sobre a esperan\u00e7a na ressurrei\u00e7\u00e3o da carne.

{N}12,{/}5: (5-13) O autor volta aos recursos inerentes \u00e0 vis\u00e3o (10) e tece algumas suposi\u00e7\u00f5es sobre \u00abos tempos do fim\u00bb. Tr\u00eas anos e meio (metade de sete, o n\u00famero perfeito) \u00e9, na cronologia simb\u00f3lica, a dura\u00e7\u00e3o tipo da persegui\u00e7\u00e3o (cf. 7,25;9,27; Ap 11,2-3), empreendimento viciado \u00e0 raiz e votado ao fracasso. O tema da revela\u00e7\u00e3o guardada em segredo (v. 9) para desvendar mais tarde, \u00e9 frequente na literatura apocal\u00edptica (cf. 8,26). O \u00ab\u00eddolo abomin\u00e1vel\u00bb (v. 11; 8,13;0,27;11,31) tem os dias contados e ceder\u00e1 oportunamente o lugar \u00e0 regularidade do sacrif\u00edcio quotidiano.

{N}13,1{/}: (1-64) A hist\u00f3ria de Susana chegou-nos atrav\u00e9s da vers\u00e3o grega do Antigo Testamento e deve ter circulado antes isoladamente. O significado do nome deste profeta (Daniel=\u00abDeus julga\u00bb) facilitou a sua colagem ao livro de Daniel. O objectivo da narrativa \u00e9 mostrar que Deus n\u00e3o abandona os inocentes que clamam por Ele (vv. 42-43.60). Em oposi\u00e7\u00e3o aos dois anci\u00e3os in\u00edquos - representantes dos ju\u00edzes que condenam inocentes e absolvem culpados (v. 53), fazem chantagem e extors\u00f5es (vv. 21 e 57) - sobressaem a fidelidade e rectid\u00e3o de Susana, modelo para as mulheres judias (vv. 22-23.63). O autor compraz-se a assinalar a pr\u00e1tica da Lei de Mois\u00e9s em terras de dispers\u00e3o e ex\u00edlio (vv. 61-62).

{N}14,{/}1: (1-42) Dois ap\u00eandices mostram que a idolatria \u00e9 uma insensatez. O primeiro (vv. 1-22) inscreve-se na corrente de outras s\u00e1tiras bem conhecidas (Sl 115,5-8;135,15-18; Is 40,19-20;44,9-20; Jr 10,3-5; Sb 15 e 16), gra\u00e7as a um relato vivo que desmascara a impostura dos sacerdotes que vivem \u00e0 sombra de \u00eddolos surdos e mudos. O segundo (vv. 23-42) apresenta mais um epis\u00f3dio da luta de Daniel contra a idolatria babil\u00f3nica. Embora divinizada, a Serpente n\u00e3o passa dum ser fr\u00e1gil que at\u00e9 morre de indigest\u00e3o. A pol\u00e9mica mant\u00e9m-se muito \u00e0 superf\u00edcie. 
As prova\u00e7\u00f5es infligidas ao profeta reutilizam o esquema da cova dos le\u00f5es (Dn 6). A interven\u00e7\u00e3o de Habacuc \u00e9 a presen\u00e7a palp\u00e1vel do Deus que d\u00e1 a vida e nunca abandona os que O amam (v. 38).

