{N}1,{/}1: T\u00edtulo de todo o livro. Co\u00e9let pode ser nome pr\u00f3prio ou de algu\u00e9m que fala \u00e0 comunidade reunida ou ainda o seu porta-voz, dizendo em voz alta o que todos murmuram baixinho. O autor invoca o renome do rei Salom\u00e3o para o lan\u00e7amento duma obra de sabedoria.

{N}1,{/}2: (2-3) \u00c9 a s\u00edntese de todo o livro: examinando a situa\u00e7\u00e3o em que o povo vive e, mais profundamente, a condi\u00e7\u00e3o humana, a conclus\u00e3o \u00e9 que tudo \u00e9 fr\u00e1gil e passageiro. Que proveito tiram os humanos do seu trabalho?

{N}1,{/}4: (4-11) O perigo est\u00e1 em perder o sentido da vida. Quando isso acontece, todas as coisas perdem o significado. A vida torna-se repeti\u00e7\u00e3o mon\u00f3tona e enfadonha, sem motiva\u00e7\u00e3o nenhuma.

{N}1,{/}12: (12-18) Salom\u00e3o era considerado o modelo do homem s\u00e1bio. Mas o autor assegura que nem conhecimento nem erudi\u00e7\u00e3o garantem a felicidade. Ao contr\u00e1rio: o conhecimento faz descobrir ainda melhor que a vida \u00e9 passageira e vazia.

{N}2,{/}1: (1-16) Eis o quadro de como se imagina uma pessoa feliz e realizada: sucesso, grandes obras, prazeres, dinheiro, saber e poder. No entanto, a morte nivela toda a gente: o s\u00e1bio e o insensato t\u00eam a mesma sorte. Se aparece um ponto positivo (v. 10), tudo \u00e9 v\u00e3o e correr atr\u00e1s do vento.

{N}2,{/}17: (17-23) H\u00e1 quem pense que o muito trabalho poder\u00e1 assegurar felicidade e realiza\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, de que vale fatigar-se para acumular coisas que a pr\u00f3pria pessoa n\u00e3o conseguir\u00e1 desfrutar? No fim, tudo fica para outros que, em geral, n\u00e3o fizeram esfor\u00e7o nenhum.

{N}2,{/}24: (24-26) Comer, beber e gozar o fruto do seu trabalho... \u00e9 o que resta de bom! A semelhan\u00e7a com a doutrina epicurista n\u00e3o retira o paradoxo a esta m\u00e1xima, quase refr\u00e3o (v. 24; 5,17; 8,15; 9,7). No mar da pol\u00e9mica, \u00e9 apenas um argumento que est\u00e1 longe de abarcar a concep\u00e7\u00e3o que o autor tem da vida, longe de excluir o sentido do dever. Por outro lado, o texto evoca com ironia a explica\u00e7\u00e3o que os s\u00e1bios costumavam dar (Job 27,16-24) a prop\u00f3sito do esc\u00e2ndalo dos maus bem sucedidos (v. 26).

{N}3,{/}1: (1-15) Uma introdu\u00e7\u00e3o aberta a v\u00e1rias leituras, incluindo a do ordeiro arranjo da vida que n\u00e3o atropela as coisas e atribui a cada uma o seu tempo e lugar, \u00e9 seguida de catorze pares de contr\u00e1rios que cobrem a globalidade da ac\u00e7\u00e3o humana e a deitam por terra. N\u00e3o se trata do ritmo cadenciado de altos e baixos que tece a vida humana; verifica-se que, ao lado de cada momento positivo, est\u00e1 o seu contr\u00e1rio para o engolir, o pulverizar e lhe retirar o bocado de sentido que parecia ter. \u00abA metade da exist\u00eancia humana \u00e9 sinistra e est\u00e1 orientada para a morte\u00bb. Tudo isto, apesar de Deus ter a vis\u00e3o total do projecto (vv. 14-15) e n\u00e3o ser alheio \u00e0 vida no tempo.

{N}3,{/}16: (16-22) A vida humana est\u00e1 cercada de limita\u00e7\u00f5es: a justi\u00e7a caminha lado a lado com a injusti\u00e7a, mas o destino dos justos e injustos est\u00e1 nas m\u00e3os de Deus. O homem n\u00e3o \u00e9 capaz nem sequer de saber se a sua condi\u00e7\u00e3o e destino s\u00e3o superiores aos dos animais.

{N}4,{/}1: (1-3) A opress\u00e3o \u00e9 o espect\u00e1culo mais terr\u00edvel que acontece na sociedade. Quando um sistema \u00e9 injusto, todos acabam por ser v\u00edtimas suas, a ponto de ser prefer\u00edvel morrer, ou at\u00e9 mesmo nunca ter nascido.

{N}4,{/}4: (4-6) Um sistema social baseado na competi\u00e7\u00e3o e na inveja produz inseguran\u00e7a e trabalho insano. Isto s\u00f3 \u00e9 resolvido quando a competi\u00e7\u00e3o d\u00e1 lugar \u00e0 fraternidade e partilha, possibilitando que o homem viva tranquilo.

{N}4,{/}7: (7-12) A gan\u00e2ncia e a sorte fazem as pessoas viverem s\u00f3 para si mesmas, tristemente. O relacionamento leva a viver melhor, pois nele se partilham dificuldades e conquistas, tristezas e alegrias.

{N}4,{/}13: (13-16) Um governo insensato que acha n\u00e3o precisar de conselhos, est\u00e1 a caminho da ru\u00edna. Algu\u00e9m do povo se tornar\u00e1 chefe e chegar\u00e1 ao poder, renovando a vida social. Mais tarde, por\u00e9m, a mesma coisa se repetir\u00e1. 

{N}4,{/}17: (4,17-5,6) No relacionamento com Deus, o importante \u00e9 dispor-se a escutar e a obedecer, em vez de insistir nos sacrif\u00edcios. Poucas palavras! N\u00e3o adianta prometer o que de antem\u00e3o n\u00e3o se pretende cumprir. Com Deus n\u00e3o se brinca.

{N}5,{/}7: (7-8) Praticamente inevit\u00e1vel, a autoridade comete abusos: oprime o pobre, viola o direito e a justi\u00e7a. E ningu\u00e9m \u00e9 chamado \u00e0 pedra. A culpa \u00e9 sempre dos servi\u00e7os que est\u00e3o acima, sem que se veja onde termina a cadeia dos pretextos aduzidos.

{N}5,{/}9: (9-16) A experi\u00eancia mostra que a gan\u00e2ncia pelo dinheiro \u00e9 insaci\u00e1vel. Mas de que adianta acumular riquezas, e em troca perder o sentido da vida? A s\u00e1tira atinge o pr\u00f3prio dinheiro, que n\u00e3o \u00e9 seguran\u00e7a de vida nem fonte de felicidade. A cr\u00edtica prepara de longe a posi\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica sobre o desapego (cf. Mt 6,19-21.24.25-34).

{N}5,{/}17: (17-19) Repete-se aqui o pensamento-chave do autor (cf. nota em 2,24-26). Vivendo na alegria do momento presente, a pessoa descobre que a eternidade - experi\u00eancia de Deus e da vida - n\u00e3o consiste em viver muito, mas sim em viver intensamente cada momento, sendo a felicidade sempre limitada e parcial.

{N}6,{/}1: (1-9) De que adianta acumular bens, se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel depois goz\u00e1-los? Vem qualquer estranho desfrut\u00e1-los (v. 2); n\u00e3o se realiza sequer a distin\u00e7\u00e3o da sepultura digna (v. 3). A vida perde completamente o sentido; o feto abortado tem melhor sorte que os vivos. A condi\u00e7\u00e3o e felicidade s\u00e3o t\u00e3o madastras que nem a possibilidade de gerar cem filhos (v. 3) ou de viver dois mil anos (v. 6) lhes altera o estatuto. A vida longa, antes apresentada como recompensa dos justos (Ex 20,12; Dt 5,16; 22,7), j\u00e1 n\u00e3o satisfaz; n\u00e3o passaria de sensaboria prolongada.

{N}6,{/}10: (10-12) Esta conclus\u00e3o da primeira parte do livro aponta para os limites da ci\u00eancia e da teologia. As duas perguntas finais (v. 12) referem-se a Deus: s\u00f3 Ele conhece o mist\u00e9rio da vida, e s\u00f3 Ele sabe o futuro. In\u00fatil ao homem, que passa como a sombra (v. 12;8,13; Jo 8,9;7,7.9), pedir contas ao Todo-poderoso; ignora o que lhe conv\u00e9m na curta exist\u00eancia, n\u00e3o sabe o que vir\u00e1 depois da sua morte.

{N}7,{/}1: (1-7) Uma s\u00e9rie de compara\u00e7\u00f5es (cf. 3,2-8) sobre a felicidade e a infelicidade sublinha a precaridade dos bens humanos e adianta alguns paradoxos. Nem sempre rir \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o! A morte lembra ao s\u00e1bio que a condi\u00e7\u00e3o humana \u00e9 limitada e fr\u00e1gil. O insensato, por\u00e9m, n\u00e3o compreende, e pensa que a vida \u00e9 uma festa cont\u00ednua.

{N}7,{/}8: (8-14) Tristeza e alegria, realiza\u00e7\u00e3o e frustra\u00e7\u00e3o alternam-se imprevisivelmente na condi\u00e7\u00e3o limitada da vida humana. Como noutros passos, o autor insiste em que o homem ignora o futuro e n\u00e3o pode descobrir por si o projecto de Deus sobre o mundo. O melhor ainda \u00e9 aceitar a realidade tal qual ela \u00e9.

{N}7,{/}15: (15-24) O autor critica a tese da retribui\u00e7\u00e3o temporal (v. 15; 8,14); sabe que todo o ser humano \u00e9 pecador (v. 20); reconhece a complexidade em que mergulha. O mist\u00e9rio da vida \u00e9 formado de realidades contr\u00e1rias, que n\u00e3o podem ser eliminadas ou minimizadas uma em benef\u00edcio da outra. O importante \u00e9 conservar os termos opostos e suportar a tens\u00e3o entre eles, at\u00e9 que surja a novidade. S\u00f3 Deus \u00e9 \u00edntegro, (capaz de unir) os contr\u00e1rios. Para aprender a ser \u00edntegro, o homem deve temer a Deus.

{N}7,{/}25: (25-29) O autor reconhece que s\u00e3o poucos os homens sensatos. A observa\u00e7\u00e3o sobre a mulher \u00e9 t\u00edpica de uma sociedade patriarcal machista. Deus tem um projecto e confia ao homem a sua realiza\u00e7\u00e3o; o homem, por\u00e9m, desvia-se e complica a pr\u00f3pria vida, tentando construir projectos ego\u00edstas.

{N}8,{/}1: Sabedoria \u00e9 capacidade de discernir a verdade por tr\u00e1s das apar\u00eancias. Quem \u00e9 capaz disso, n\u00e3o se perturba diante dos conflitos.

{N}8,{/}2: (2-9) Numa concep\u00e7\u00e3o sacral, o rei det\u00e9m o poder. O \u00abjuramento divino\u00bb tanto pode ser o pronunciamento do Senhor em favor da dinastia dav\u00eddica (cf. 2Sm 7; Sl 89), como o juramento de obedi\u00eancia ao rei, feito por s\u00fabditos ou conselheiros. O s\u00e1bio \u00e9 capaz de discernir a atitude a tomar. O homem violenta o homem (v. 9). Ningu\u00e9m tem poder sobre o sopro de vida (v. 8).

{N}8,{/}10: (10-15) A prosperidade e impunidade dos injustos \u00e9 sempre uma tenta\u00e7\u00e3o para os justos, que acabam por interrogar: Por que ser\u00e1 que Deus n\u00e3o faz logo justi\u00e7a? Valer\u00e1 a pena continuar a ser justo? Os factos desmentem a doutrina dos s\u00e1bios sobre a retribui\u00e7\u00e3o. Sobre o v. 15, cf. notas em 2,24-26; 3,9-15 e 5,17-19.

{N}8,{/}16: (16-17) Por mais que se esforce com a sua ci\u00eancia e tecnologia, diante da obra de Deus na vida e na Hist\u00f3ria, o homem encontra-se sempre diante do mist\u00e9rio. Cf. notas em 3,1-15 e 6,10-12.

{N}9,{/}1: (1-6) Sem perspectiva de vida ap\u00f3s a morte, a exist\u00eancia humana aparece como feixe de contradi\u00e7\u00f5es. Justos e s\u00e1bios est\u00e3o nas m\u00e3os de Deus (v. 1); bons e maus, por\u00e9m, experimentam todos a mesma sorte (v. 3). O v. 4 faz alus\u00e3o a um julgamento divino que segue crit\u00e9rios misteriosos e incontrol\u00e1veis. Sobre o juramento do v. 2, cf. Nm 5,19-22; 1Rs 8,31-32.

{N}9,{/}7: (7-12) O autor retoma novamente o que j\u00e1 disse em 2,24-26; 3,9-15; 5,17-19; 8,10-13. Al\u00e9m de satisfazer \u00e0s necessidades b\u00e1sicas da sobreviv\u00eancia (comer e beber), o autor agora acrescenta a actividade humana por excel\u00eancia: o amor.

{N}9,{/}13: (13-18) A sabedoria \u00e9 capaz de derrotar as armas dos poderosos. Embora a sabedoria do pobre seja sempre desprezada como in\u00fatil, \u00e9 com ela que o povo consegue derrotar o opressor.

{N}10,{/}1: (1-3) Uma pessoa que n\u00e3o tem bom senso pode contaminar as outras, e geralmente pensa que todas s\u00e3o iguais.

{N}10,{/}4: (4-7) Calma e discernimento s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas para governar e enfrentar situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis. Co\u00e9let n\u00e3o aplaude as convuls\u00f5es sociais que d\u00e3o lugar \u00e0 desordem.

{N}10,{/}8: (8-11) A sabedoria consiste em agir com prud\u00eancia e aten\u00e7\u00e3o. O m\u00ednimo erro pode ser fatal.

{N}10,{/}12: (12-15) Quem fala com sabedoria, fala pouco. As maiores verdades podem ser ditas de forma simples e em poucas palavras.

{N}10,{/}16: (16-20) A grande tenta\u00e7\u00e3o dos governantes \u00e9 usar em proveito pr\u00f3prio o poder e a riqueza que o povo lhes confia. Apesar de tudo, n\u00e3o conv\u00e9m amaldi\u00e7oar nem os governantes nem os poderosos.

{N}11,{/}1: (1-6) Na vida \u00e9 preciso ser prudente, mas tamb\u00e9m arriscar. Como s\u00f3 Deus conhece o mist\u00e9rio da vida, o discernimento ajuda pelo menos a tactear, a fim de descobrir o que fazer no lugar e momento certos.

{N}11,{/}7: (11,7-12,8) Diante da fugacidade da vida, o autor deixa um conselho: viver enquanto \u00e9 tempo, antes que chegue o fim. A velhice \u00e9 aqui brindada com um poema de rara beleza, todo tecido de met\u00e1foras expressivas. Embora sem perspectivas de ressurrei\u00e7\u00e3o ou vida ap\u00f3s a morte, o autor diz que o sopro vital, isto \u00e9, a pr\u00f3pria vida, retorna para Deus. Co\u00e9let n\u00e3o esquece que a longevidade \u00e9 a derradeira decep\u00e7\u00e3o dos humanos (cf. 6,3-9). Comparar com o Eclesi\u00e1stico que decora o perfil do escriba (Eclo 39) para, de seguida, reflectir sobre a mis\u00e9ria do homem face \u00e0 morte (40-41).

{N}12,{/}9: (9-14) Este final, provavelmente acrescentado por um disc\u00edpulo do autor, deixa bem claro que a sabedoria produz, ao mesmo tempo, estabilidade e est\u00edmulo para viver. O temor de Deus, j\u00e1 celebrado em Pr 1,7, consiste em reconhecer a limita\u00e7\u00e3o humana e a sua abertura reverente e filial a Deus.

