{N}1,{/}1: (1-2) Na apar\u00eancia de dados precisos (a \u00abhist\u00f3ria\u00bb desenrola-se entre 734 e 612 a.C), o autor escreve por volta dos ano 220 e apresenta um modelo aos irm\u00e3os dispersos no meio das na\u00e7\u00f5es. N\u00e3o podem descrer de Deus; devem cultivar a sua pr\u00e1tica religiosa e fugir \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o dos casamentos mistos.

{N}1,{/}3: (3-9) Tobit \u00e9 apresentado como disc\u00edpulo fiel do juda\u00edsmo. Embora viva em ambiente religioso adverso, ele continua a frequentar Jerusal\u00e9m, reconhecida como \u00fanico centro leg\u00edtimo da religi\u00e3o javista. A sua fidelidade \u00e0 Lei \u00e9 muito pr\u00e1tica e realiza-se na observ\u00e2ncia dos d\u00edzimos, que se destinam a fins religiosos e sociais.
  1,3-3,17: Tobit e Sara representam todos os justos que temem e servem a Deus, e acabam na desgra\u00e7a e no sofrimento, a ponto de desejarem a morte. Porque \u00e9 que as pessoas fi\u00e9is a Deus chegam a tal situa\u00e7\u00e3o?

{N}1,{/}10: (10-22) O autor mistura dados cronol\u00f3gicos. O seu interesse \u00e9 retratar a situa\u00e7\u00e3o dos exilados. Por um lado, muitos chegaram a ocupar cargos importantes, como Tobit e Daniel. Por outro lado, por\u00e9m, a fidelidade \u00e0 f\u00e9 e aos costumes israelitas provocou dificuldades. Aicar, apresentado como sobrinho de Tobit, \u00e9 na verdade um s\u00e1bio de origem ass\u00edria, autor de um famoso escrito: \u00abSabedoria de Aicar\u00bb. Deste modo, o autor b\u00edblico apropria-se de uma das correntes sapienciais divulgadas na regi\u00e3o.

{N}2,{/}1: (1-8) Apesar de j\u00e1 ter corrido s\u00e9rio risco de vida, Tobit continua fiel aos costumes do seu povo. O n\u00e3o sepultamento acarretava maldi\u00e7\u00e3o para o falecido. O v. 8 mostra que muitos exilados, por medo, j\u00e1 haviam abandonado tal costume. 

{N}2,{/}9: (2,9-3,6) Atingido pela cegueira, Tobit n\u00e3o pode trabalhar e a mulher tem que sustentar a casa. Apesar da necessidade, Tobit mant\u00e9m a sua rectid\u00e3o e, como Job (cf. Job 2,9), torna-se alvo das cr\u00edticas da pr\u00f3pria esposa. Que mais lhe resta? A s\u00faplica de 3,2-6 reflecte o desespero de quem chega a esta conclus\u00e3o: \u00e9 melhor morrer que viver desse modo. Na pessoa de Tobit, reflecte-se exemplarmente a hist\u00f3ria de um povo que perde os bens, a liberdade e, por fim, se v\u00ea amea\u00e7ado na reputa\u00e7\u00e3o, ao ser desacreditado at\u00e9 pelos mais pr\u00f3ximos. S\u00f3 lhe resta suplicar a Deus.

{N}3,{/}7: (7-15) Paralela ao caso de Tobit, temos a situa\u00e7\u00e3o de Sara. Entre os orientais, a honra da mulher era ser esposa e m\u00e3e. N\u00e3o casar, n\u00e3o gerar filhos ou ser est\u00e9ril era a maior desgra\u00e7a: tal mulher n\u00e3o servia para nada. Compreendemos ent\u00e3o o desespero de Sara: n\u00e3o querendo magoar o pai com o suic\u00eddio, pede a morte. No Oriente antigo, doen\u00e7as e morte eram causados por algum dem\u00f3nio, aqui Asmodeu, cujo nome significa \u00abaquele que faz morrer\u00bb.

{N}3,{/}16: (16-17) Ser\u00e1 que Deus atende a s\u00faplica dos justos? O autor quebra todo o {C}suspense{/} do livro, para adiantar que o Deus do \u00eaxodo {C}escuta e Se disp\u00f5e a libertar{/} aqueles que O invocam. Ali\u00e1s, esta achega e a revela\u00e7\u00e3o de Rafael em 12,11-15 constituem dois p\u00f3los centrais da narrativa. Deus, por\u00e9m, n\u00e3o age de modo m\u00e1gico; a liberta\u00e7\u00e3o realiza-se atrav\u00e9s dos acontecimentos da Hist\u00f3ria e da vida. O anjo Rafael, cujo nome significa \u00abDeus cura\u00bb, \u00e9 uma personifica\u00e7\u00e3o da ac\u00e7\u00e3o de Deus.

{N}4,{/}1: (1-21) O testamento de Tobit reflecte, na verdade, a preocupa\u00e7\u00e3o que um pai justo tem pela educa\u00e7\u00e3o de seus filhos. S\u00e3o normas que visam, em primeiro lugar, uma vida com sentido plenamente humano. O centro da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o amor e temor de Deus, que se manifestam concretamente na solidariedade e partilha com o pr\u00f3ximo. O ensino sobre a esmola (vv. 7-11.16), mais do que um simples conselho de filantropia para apaziguar a consci\u00eancia, envolve uma distribui\u00e7\u00e3o justa e equitativa dos bens: tudo o que \u00e9 sup\u00e9rfluo para mim, pertence por justi\u00e7a aos que nada t\u00eam. O sup\u00e9rfluo \u00e9, de facto, a grande quest\u00e3o: ou se acumula, formando riqueza injusta, ou \u00e9 distribu\u00eddo em clima de partilha justa e fraterna.
  4-12: Chegando \u00e0 situa\u00e7\u00e3o limite, os justos suplicam e Deus responde. A sua resposta, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 m\u00e1gica. Ela realiza-se atrav\u00e9s da vida e nos meandros da Hist\u00f3ria. Cabe aos justos discernir no quotidiano a presen\u00e7a de Rafael, o \u00abDeus que cura\u00bb, levando os homens a encontrar o caminho, a superar as dificuldades e a realizar a vida.

{N}5,{/}1: (1-23) A gra\u00e7a da cena est\u00e1 no facto de que as personagens ignoram completamente que o rapaz \u00e9 o anjo Rafael, enviado por Deus. Deste modo, salienta-se a f\u00e9, que \u00e9 a confian\u00e7a na certeza de que Deus vai agir. No plano da narrativa e da nossa vida, tal ac\u00e7\u00e3o de Deus processa-se de maneira comum, sem nada de aparentemente maravilhoso. Note-se a tens\u00e3o dram\u00e1tica na fam\u00edlia. O filho deve aventurar-se numa viagem a um lugar desconhecido. O pai incentiva-o, e a sua \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que o filho encontre um guia de confian\u00e7a. A m\u00e3e, pelo contr\u00e1rio, prefere que o filho n\u00e3o se arrisque, mas fique sempre em casa.

{N}6,{/}1: (1-9) O epis\u00f3dio faz entrever o termo das desgra\u00e7as que afligem Tobit e Sara. A receita dada por Rafael mistura elementos de magia e medicina antiga, pr\u00f3prios da \u00e9poca.

{N}6,{/}10: (10-19) Rafael e Tobias conversam a respeito do matrim\u00f3nio, um dos temas centrais do livro que, significativamente, ocupa a sua parte nuclear (6-8) e revela o seu conte\u00fado: um casal segundo a vontade de Deus. No contexto do ex\u00edlio e dispers\u00e3o judaica, \u00e9 importante que os casamentos se processem dentro do cl\u00e3. Deste modo evitam-se a descaracteriza\u00e7\u00e3o do povo e o empobrecimento ou at\u00e9 mesmo a total perda das propriedades da fam\u00edlia (cf. 4,12-13 e notas em Nm 27,1-11; 36,1-12 e Rt 4,1-12). Por outro lado, para os antigos, os impulsos instintivos, neste caso o sexual, eram causados pelos dem\u00f3nios. A derrota de Asmodeu liberta o matrim\u00f3nio que, deixando de ser facto puramente instintivo, se transforma em rela\u00e7\u00e3o plenamente humana. No projecto de Deus, o matrim\u00f3nio n\u00e3o \u00e9 trag\u00e9dia que produz morte, mas rela\u00e7\u00e3o de amor que, aben\u00e7oada pelo mesmo Deus, liberta e gera a vida.

{N}7,{/}1: (1-17) O texto mostra como era celebrado o matrim\u00f3nio no tempo da dispers\u00e3o judaica: o pai entregava a filha ao pretendente, invocava a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus e redigia o contrato de casamento. Mais importante \u00e9 a semelhan\u00e7a de toda a cena com o mundo patriarcal de Gn 24. Salientando o matrim\u00f3nio dentro do respeito para com as tradi\u00e7\u00f5es dos antepassados, o autor frisa que os judeus da dispers\u00e3o, \u00abfilhos de profetas\u00bb, devem testemunhar diante dos pag\u00e3os um modo de viver que continue fiel ao Deus de Abra\u00e3o, Isaac e Jacob (cf. 4,12).

{N}8,{/}1: (1-21) Tobias segue cuidadosamente as instru\u00e7\u00f5es de Rafael. Elas, na verdade, revelam a vontade do Deus que s\u00f3 quer a vida. A ora\u00e7\u00e3o de Tobias mostra que o matrim\u00f3nio n\u00e3o \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o ego\u00edsta que diminui as pessoas e gera a morte, mas uma rela\u00e7\u00e3o de partilha, onde os c\u00f4njuges crescem juntos e geram a vida futura. Al\u00e9m disso, o matrim\u00f3nio \u00e9 para sempre. Isso n\u00e3o deve ser entendido como pris\u00e3o perp\u00e9tua, mas como abertura para a eternidade, pois todo o amor verdadeiro tem voca\u00e7\u00e3o de eternidade.

{N}9,{/}1: (1-6) O amor traz novo objectivo \u00e0 vida de Tobias, colocando o dinheiro em segundo plano. O elogio e b\u00ean\u00e7\u00e3o de Gabael mostram que os filhos s\u00e3o um retrato dos pais; noutras palavras, \u00abpelo fruto se conhece a \u00e1rvore\u00bb.

{N}10,{/}1: (1-7) Em contraste com a festa em Ecb\u00e1tana, temos em N\u00ednive a espera, a preocupa\u00e7\u00e3o e o desespero. Os pais est\u00e3o sempre \u00e0 espera que os filhos voltem!

{N}10,{/}8: (8-14) O modo como Tobias, Sara, Raguel e Edna se tratam (filho, pai, m\u00e3e, irm\u00e3) mostra que o matrim\u00f3nio amplia a rela\u00e7\u00e3o familiar e, ao mesmo tempo, abre a fam\u00edlia para a sociedade. 

{N}11,{/}1: (1-19) Como no livro de Job (Job 42,5), a fidelidade do justo leva \u00e0 vis\u00e3o de Deus, que transborda em alegria de viver. A alegria da m\u00e3e \u00e9 a presen\u00e7a viva dos filhos. A alegria do pai \u00e9 ver os filhos bem sucedidos na aventura da vida.

{N}12,{/}1: (1-22) Quando se pensa pagar alguma coisa a Deus, Ele revela que tudo foi dom gratuito. A grande mensagem do livro de Tobias est\u00e1 no nome de Rafael, que significa \u00abDeus cura\u00bb. Os conselhos finais do anjo ({C}ora\u00e7\u00e3o, jejum e esmola{/}) resumem os deveres da pessoa para com Deus, para consigo mesma e para com o pr\u00f3ximo. Tais conselhos ser\u00e3o retomados pelo Evangelho (cf. notas em Mt 6,1-18).

{N}13,{/}1: (1-10) \u00c9 a primeira parte do louvor que celebra a soberania de Deus e a sua provid\u00eancia que faz maravilhas. De uma hist\u00f3ria familiar, o livro abre-se para a Hist\u00f3ria do povo e da humanidade. Os judeus espalhados entre as na\u00e7\u00f5es s\u00e3o convidados a converterem-se, para se tornarem testemunhas da justi\u00e7a de Deus. \u00c9 atrav\u00e9s desse testemunho que tamb\u00e9m as outras na\u00e7\u00f5es recebem o convite para a convers\u00e3o.
  13-14: Da fidelidade e resist\u00eancia do justo nascem a esperan\u00e7a de liberdade e vida para todos. Os justos s\u00e3o o sacramento da presen\u00e7a e ac\u00e7\u00e3o de Deus na Hist\u00f3ria, que caminha, atrav\u00e9s deles, para a realiza\u00e7\u00e3o plena da humanidade. O que ser\u00e1 preciso para que os justos continuem fi\u00e9is e resistam at\u00e9 ao fim?

{N}13,{/}11: (11-18) Retomando o mesmo tema dos profetas, o orante coloca agora na boca de Tobit a esperan\u00e7a de uma Jerusal\u00e9m reconstru\u00edda, onde todos os povos se reunir\u00e3o como irm\u00e3os, ao redor do \u00fanico Deus. Trata-se da grande esperan\u00e7a: a humanidade toda vai superar a idolatria e realizar historicamente o projecto do Deus vivo. O tema reaparece em Ap 21,1-22,5.

{N}14,{/}1: (1-15) No momento em que autor escrevia o livro, a Ass\u00edria j\u00e1 tinha deixado de ser imp\u00e9rio, havia s\u00e9culos. O autor, por\u00e9m, situa a narrativa no apogeu da Ass\u00edria e conclui-a com uma \u00abprofecia\u00bb sobre o fim do seu imp\u00e9rio. Nessa queda dos opressores, o autor v\u00ea uma garantia do poder de Deus que restaura o seu povo. A partir disso, temos o tempo novo, em que todas as na\u00e7\u00f5es se reunir\u00e3o com o povo de Deus, para viver na Terra Prometida. Sobre Aicar, cf. nota 1,10-22. Nas palavras finais de Tobit, volta uma exorta\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00e1tica da justi\u00e7a, que implica directamente a partilha dos bens. \u00c9 assim que se deve entender a pr\u00e1tica da esmola.

