{N}1,{/}1: (1-16) Nabucodonosor \u00e9 a personifica\u00e7\u00e3o dos poderosos que pretendem construir um imp\u00e9rio para dominar o mundo. A sua primeira estrat\u00e9gia \u00e9 propor alian\u00e7as. A recusa dos outros pa\u00edses fere o seu orgulho. Ele mostra ent\u00e3o as suas verdadeiras inten\u00e7\u00f5es, partindo para a conquista violenta. 

{N}2,{/}1: (1-13) Na verdade, a pretens\u00e3o ao poder absoluto oculta o desejo de ocupar o lugar de Deus para dominar o mundo inteiro. O discurso mostra orgulho blasfemo ao atribuir ao rei inimigo t\u00edtulos que, na B\u00edblia, s\u00f3 pertencem a Deus. A pressa trai a ambi\u00e7\u00e3o desmedida. O aparato militar mostra que o poder se imp\u00f5e pela viol\u00eancia. Caricaturado como deus ambicioso e violento, o poderoso acaba por produzir projectos de escravid\u00e3o e morte, exactamente o contr\u00e1rio do projecto do Deus vivo. 

{N}2,{/}14: (2,14-3,10) \u00c9 dif\u00edcil reconstituir com precis\u00e3o o itiner\u00e1rio de Holofernes. Importante \u00e9 notar a finalidade \u00faltima da conquista: fazer que todos aceitem o poder de Nabucodonosor, como se fosse um deus. Como conseguir isso? A arma principal \u00e9 semear a inseguran\u00e7a e o terror. Apavoradas, as pessoas entregam tudo o que possuem (bens) e tudo o que s\u00e3o (liberdade), para conservar a vida. Dessa forma, o poder absoluto apresenta-se como dominador da vida e da morte: quem quiser sobreviver, tem de se p\u00f4r ao seu servi\u00e7o.

{N}4,{/}1: (1-15) Diante da impon\u00eancia do opressor, os israelitas preparam-se para resistir atrav\u00e9s de um movimento de reconvers\u00e3o ao Deus do \u00eaxodo, que ouve a s\u00faplica do seu povo. Todos oram e jejuam. A descri\u00e7\u00e3o inspira-se em Jn 3,5-8. Bet\u00falia \u00e9 uma localidade desconhecida; talvez seja nome simb\u00f3lico, que lembra Betel, isto \u00e9, \u00abcasa de Deus\u00bb. Est\u00e1 em jogo a sorte de Jerusal\u00e9m e do Tempo, bem como do povo, que leva consigo o testemunho do Deus vivo.

{N}5,{/}1: (1-21) Holofernes quer saber quem \u00e9 esse povo que ousa resistir ao poder de Nabucodonosor. Aquior faz um relato de toda a hist\u00f3ria de Israel, deixando claro que a for\u00e7a desse povo est\u00e1 na alian\u00e7a com o seu Deus. E Deus s\u00f3 imp\u00f5e uma condi\u00e7\u00e3o: a pr\u00e1tica da justi\u00e7a. Se o povo \u00e9 fiel, Deus fica do seu lado em todas as lutas. Se \u00e9 infiel, Deus abandona-o, e ele torna-se presa dos inimigos. O ponto nevr\u00e1lgico, portanto, \u00e9 saber se o povo est\u00e1 ou n\u00e3o a praticar a justi\u00e7a.

{N}5,{/}22: (5,22-6,21) Aquior, um estrangeiro, reconhece que a for\u00e7a do Deus de Israel se manifesta atrav\u00e9s da pr\u00e1tica da justi\u00e7a. A for\u00e7a dos \u00eddolos, entre os quais Nabucodonosor e todos os que se absolutizam, est\u00e1 na domina\u00e7\u00e3o, que se manifesta atrav\u00e9s da viol\u00eancia. Estas duas for\u00e7as est\u00e3o em cont\u00ednua luta dentro da Hist\u00f3ria, o palco da luta entre a vida e a morte. A arma do povo de Deus \u00e9 a verdade, que se expressa na pr\u00e1tica da justi\u00e7a. A arma dos id\u00f3latras \u00e9 a mentira, que se imp\u00f5e pela for\u00e7a (aparato militar). Quem vencer\u00e1?

{N}7,{/}1: (1-32) A sugest\u00e3o apresentada a Holofernes mostra a mais poderosa arma dos tiranos: a press\u00e3o. F\u00edsica e psicologicamente pressionado, cercado e privado de \u00e1gua, o povo tem a impress\u00e3o de que n\u00e3o lhe resta mais nenhuma escapat\u00f3ria. Desesperado e at\u00e9 pensando que se trata de um castigo de Deus, o povo disp\u00f5e-se a renunciar aos bens da liberdade, para conservar a vida. Sob o efeito da press\u00e3o, a pr\u00f3pria opini\u00e3o p\u00fablica tem dificuldade em distinguir quem \u00e9 o opressor e quem resiste. Cf. notas em Ex 14,1-14; 16,1-35; 17,1-7. 

{N}8,{/}1: (1-36) Pressionadas pelo povo em desespero, as autoridades marcaram um prazo para Deus agir. Uma vez terminado, resta-lhes entregar o povo ao inimigo. Judite critica radicalmente essa atitude. Primeiro, porque n\u00e3o \u00e9 o homem quem fixa prazos a Deus. Isso \u00e9 tentar a Deus (cf, Dt 6,16; Ex 17,7). Em segundo lugar, entregar-se ao inimigo \u00e9 um castigo, que s\u00f3 se justificaria se o povo fosse culpado, o que n\u00e3o \u00e9 o caso. Ent\u00e3o, porque ser\u00e1 que tais coisas est\u00e3o a acontecer? Eis a resposta: o povo est\u00e1 a ser provado para aprender a ser consciente e a agir. Ali\u00e1s, Deus age atrav\u00e9s da iniciativa humana ajustada e perspicaz.

{N}9,{/}1: (1-14) Judite prepara-se para agir, e a sua ora\u00e7\u00e3o mostra o ponto central de todo o livro: o confronto entre a for\u00e7a do Deus libertador e o poder dos opressores. De in\u00edcio (vv. 2-6) \u00e9 relembrado o caso de Dina (cf. Gn 34), porque Judite vai arriscar a honra pessoal para libertar o seu povo. A sua ora\u00e7\u00e3o mostra que o Deus de Israel \u00e9 Aquele que toma o partido dos pobres e fracos, e assim manifesta a pr\u00f3pria for\u00e7a, destruindo os poderosos. Estes disfar\u00e7am a pr\u00f3pria fraqueza atr\u00e1s de ex\u00e9rcitos e armas, que usam para oprimir.
A ora\u00e7\u00e3o de Judite \u00e9 uma busca de discernimento: ela quer saber como dever\u00e1 agir. Pede que Deus a torne extremamente sedutora, porque \u00e9 com a arma da sedu\u00e7\u00e3o que ela chegar\u00e1 \u00e0 vit\u00f3ria. Precisa de descobrir, atrav\u00e9s da ast\u00facia, o ponto fraco do inimigo para \u00abo ferir mortalmente\u00bb. O epis\u00f3dio \u00e9 exemplar. O Deus invenc\u00edvel est\u00e1 do lado dos fracos e humildes, a construir uma Hist\u00f3ria nova.

{N}10,{/}1: (1-23) Judite apresenta-se como traidora, pronta para revelar o ponto fraco do seu pr\u00f3prio povo. O texto salienta as suas armas: a beleza e a sedu\u00e7\u00e3o. O coment\u00e1rio dos soldados ass\u00edrios (vv. 18-19) deve ser entendido figuradamente: a beleza do povo de Deus exerce tal fasc\u00ednio que \u00e9 capaz de conquistar o mundo inteiro. Os poderosos percebem isso, e tentam de todas as maneiras extermin\u00e1-lo completamente.

{N}11,{/}1: (11,1-12,9) No espa\u00e7o do opressor, Judite precisa de ast\u00facia e discernimento, para levar por diante o seu projecto sem se deixar corromper. O comportamento de Judite tem sempre duplo sentido: com as mesmas palavras, ela consegue andar no \u00abfio da navalha\u00bb, convencendo o opressor sem se trair a si pr\u00f3pria nem ao seu povo. O ponto alto desse duplo sentido est\u00e1 em 11,16: Holofernes pensa na vit\u00f3ria, mas Judite est\u00e1 de facto a referir-se \u00e0 sua derrota.

{N}12,{/}10: (12,10-13,10) O poder de Nabucodonosor \u00e9 conquistado e preservado pelo aparato militar, chefiado pelo seu general Holofernes. Ao cortar-lhe a cabe\u00e7a, Judite abre brecha fatal no poderio inimigo. A ora\u00e7\u00e3o de Judite mostra que n\u00e3o se trata de vingan\u00e7a pessoal ou busca de poder, mas de um acto de Deus para salvar e defender o seu povo.

{N}13,{/}11: (11-20) O regresso de Judite \u00e9 o momento do grande an\u00fancio: Deus age atrav\u00e9s das pessoas, quando est\u00e3o dispostas a intervir e a correr riscos em favor dos oprimidos. Judite \u00e9 um exemplo que permanece na mem\u00f3ria do povo, encorajando-o para a luta, na confian\u00e7a de que Deus lhe dar\u00e1 a vit\u00f3ria.

{N}14,{/}1: (14,1-15,7) Judite orienta a t\u00e1ctica: assustar o inimigo e persegui-lo at\u00e9 \u00e0 derrota completa. O plano resulta. Os soldados inimigos, de in\u00edcio n\u00e3o se assustam, pois j\u00e1 consideram os israelitas como seus escravos, tal como outrora no Egipto. Por\u00e9m, esses \u00abescravos\u00bb deram a volta \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. Ao perceber isso, o ex\u00e9rcito desarticula-se completamente e torna-se presa f\u00e1cil. Com a estrat\u00e9gia bem sucedida, os vizinhos solidarizam-se, e a vit\u00f3ria \u00e9 arrasadora.
O epis\u00f3dio de Aquior mostra o efeito da vit\u00f3ria: ao ver que o Deus vivo apoia a luta do seu povo, as outras na\u00e7\u00f5es, que tamb\u00e9m sofrem a opress\u00e3o, aliam-se e d\u00e3o as m\u00e3os para empreendimentos futuros.

{N}15,{/}8: (15,8-16,20) O povo e as autoridades elogiam Judite, transformando-a em centro de aten\u00e7\u00f5es. Judite, por\u00e9m, faz com que todos dirijam a sua aten\u00e7\u00e3o para Deus. \u00c9 Ele quem derrota os poderosos atrav\u00e9s da ousadia dos fracos.

{N}16,{/}21: (21-25) A lembran\u00e7a de Judite continua viva na Hist\u00f3ria, encorajando a luta dos oprimidos em todos os tempos. O seu exemplo mostra que, destru\u00edda a opress\u00e3o, os libertados podem construir outra vida fraterna e partilhada.

