{N}1,{/}1: (1-8) Este primeiro cap\u00edtulo apresenta varia\u00e7\u00f5es sobre os temas tratados no come\u00e7o dos Prov\u00e9rbios. A sabedoria tem a sua origem em Deus, que a derrama em toda a Cria\u00e7\u00e3o, como segredo do projecto divino. O homem come\u00e7a a compreender o sentido do Universo e da Hist\u00f3ria quando se compromete com Deus e o seu projecto. Cf. nota em Pr 8,22-36. 
  Pr\u00f3logo: O trecho n\u00e3o \u00e9 considerado parte integrante do livro, mas fornece alguns dados interessantes. Nesse tempo, o Antigo Testamento j\u00e1 se encontrava praticamente conclu\u00eddo, e compreendia tr\u00eas partes: a Lei (Pentateuco), os Profetas (Livros hist\u00f3ricos e prof\u00e9ticos) e os Escritos (sapienciais e outros; o conjunto de fronteiras ainda abertas). O livro de Jesus Ben Sir\u00e1 comprova a tend\u00eancia j\u00e1 ent\u00e3o existente de reler e comentar os textos antigos. A inspira\u00e7\u00e3o divina (cf. 48,24) incarna em dilig\u00eancias bem humanas.

{N}1,{/}9: (9-18) Sobre o {C}temor do Senhor,{/} cf. notas em Pr 1,2-7 e 3,1-12.

{N}1,{/}19: (19-21) O primeiro fruto da sabedoria \u00e9 a paci\u00eancia, que leva o homem a controlar-se, esperando pelo momento oportuno.

{N}1,{/}22: (22-29) A suprema sabedoria que Deus concede ao seu povo \u00e9 a Lei, onde est\u00e3o as normas fundamentais para seguir o caminho da justi\u00e7a. Aqui, sabedoria \u00e9 igual ao cumprimento da Lei.

{N}2,{/}1: (1-18) Estas interpela\u00e7\u00f5es parecem fazer apelo \u00e0 resist\u00eancia em tempos de persegui\u00e7\u00e3o. Era a actualidade no princ\u00edpio do s\u00e9culo II a.C., nas v\u00e9speras da persegui\u00e7\u00e3o de Ant\u00edoco Epif\u00e2nio (cf. 2Mc 1,2-4.12-15). \u00c9 o desafio de todos os tempos dif\u00edceis. A grande tenta\u00e7\u00e3o consiste em abandonar a fidelidade a Deus e ao seu projecto, para pagar o alto pre\u00e7o de \u00abviver em paz\u00bb.

{N}3,{/}1: (1-16) \u00c9 um coment\u00e1rio ao quarto mandamento do Dec\u00e1logo. O respeito e o cuidado para com os pais preserva a consci\u00eancia viva da identidade de um povo.

{N}3,{/}17: (17-28) A maior sabedoria \u00e9 ter consci\u00eancia dos pr\u00f3prios limites e manter-se humilde e aberto \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio. Nesse sentido, vale a pena relembrar o que S\u00e3o Paulo diz em 1Ts 5,19-21.

{N}3,{/}29: (3,29-{N}4,{/}10) Quem pode resistir ao olhar do pobre? Com o olhar, ele desmascara a estrutura injusta de uma sociedade, da qual podemos estar a ser c\u00famplices e, com a sua palavra, ele pronuncia a senten\u00e7a que nos absolve ou condena diante do pr\u00f3prio Deus.

{N}4,{/}11: (11-19) Personificada como em Pr 1,23-25; 8,12-21; 9,1-6, a sabedoria \u00e9 a melhor educadora do homem: f\u00e1-lo descobrir e realizar o projecto particular que Deus confia a cada um. No entanto, o ser humano \u00e9 livre e, para sua pr\u00f3pria frustra\u00e7\u00e3o, pode recusar o caminho que a sabedoria indica.

{N}4,{/}20: (20-31) Pudor, respeito humano, auto-estima e arrog\u00e2ncia n\u00e3o se confundem. A autenticidade acima de tudo! Talvez alus\u00e3o \u00e0 actualidade vivida pelos judeus: a tenta\u00e7\u00e3o de dissimular a sua f\u00e9 e observ\u00e2ncia perante o helenismo (cf. 1Mc 1,12-15).

{N}5,{/}1: (1-8) Em geral a riqueza produz a ilus\u00e3o da auto-sufici\u00eancia, e esta conduz inevitavelmente \u00e0 presun\u00e7\u00e3o. Dessa forma, o rico julga merecer tudo, at\u00e9 mesmo colocar Deus ao servi\u00e7o dos seus pr\u00f3prios interesses.

{N}5,{/}9: (5,9-{N}6,{/}4) A palavra pode construir ou destruir. Por isso, deve ser usada com prud\u00eancia e discri\u00e7\u00e3o, para evitar situa\u00e7\u00f5es irrepar\u00e1veis. O tema, bem sapiencial, ser\u00e1 amplamente tratado em 20-28.

{N}6,{/}5: (5-17) A verdadeira amizade n\u00e3o se baseia em interesses, e por isso permanece firme tamb\u00e9m na desgra\u00e7a. Podemos dizer ainda que a amizade \u00e9 por excel\u00eancia o sacramento da rela\u00e7\u00e3o humana penetrada por Deus.

{N}6,{/}18: (18-37) Para os antigos, a sabedoria \u00e9 o discernimento que leva \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o da vida humana. Trata-se de uma aprendizagem que prov\u00e9m de v\u00e1rias fontes: experi\u00eancia individual, experi\u00eancia dos antepassados e anci\u00e3os, e textos religiosos antigos. Ela implica muita escuta e disciplina.

{N}7,{/}1: (1-21) O princ\u00edpio geral (v. 1) \u00e9 desenvolvido numa s\u00e9rie de conselhos que abrangem v\u00e1rios campos da vida social.

{N}7,{/}22: (22-28) Conselhos gerais sobre a vida familiar.

{N}7,{/}29: (29-31) Para o autor, o respeito a Deus est\u00e1 intimamente ligado \u00e0 solidariedade com os seus ministros. Ele tem apre\u00e7o pelo sacerd\u00f3cio (45,6-26; 50) e pelo culto (47,8-10; 49,12)

{N}7,{/}32: (32-36) Solidariedade e gratuidade na rela\u00e7\u00e3o com os fracos e desfavorecidos s\u00e3o pontos de partida para se construir uma sociedade justa e fraterna. O v. 36 alude ao julgamento divino. Mesmo sem esperan\u00e7a para l\u00e1 da morte, a \u00faltima hora reveste-se de particular import\u00e2ncia.

{N}8,{/}1: (1-19) Por tr\u00e1s de conselhos variados, percebe-se o tema central do bom senso e da prud\u00eancia no falar e no agir. Sobressaem os vv. 8-9 sobre o respeito para com os anci\u00e3os, considerados como portadores da experi\u00eancia e da sabedoria popular.

{N}9,{/}1: (1-9) Numa sociedade patriarcal, onde prevalecem os valores masculinos, a mulher \u00e9 sempre vista com certa desconfian\u00e7a e at\u00e9 como perigo.

{N}9,{/}10: (10-16) Um velado pessimismo ao considerar as rela\u00e7\u00f5es humanas... talvez reflexo da incerteza sofrida por um povo que se v\u00ea invadido por culturas e costumes estrangeiros. O v. 12 formula a f\u00e9 tradicional na retribui\u00e7\u00e3o terrestre.

{N}9,{/}17: (9,17-10,5) Quaisquer que sejam as formas de governo, os n\u00edveis de responsabilidade e os caminhos para ascender a esses lugares, Deus espera muito dos governantes. E quando n\u00e3o fica desiludido, s\u00e3o os humanos, organizados em sociedade, que beneficiam.

{N}10,{/}6: (6-18) O orgulho leva o homem \u00e0 auto-sufici\u00eancia e ao endeusamento de si pr\u00f3prio, falsificando a sua condi\u00e7\u00e3o fundamental de criatura. A consequ\u00eancia social \u00e9 grave: a injusti\u00e7a multiplica-se, a viol\u00eancia instala-se com a sua rede de desigualdade e opress\u00e3o. Deus, por\u00e9m, n\u00e3o fica indiferente: Ele \u00e9 capaz de inverter as situa\u00e7\u00f5es adquiridas, rebaixando os poderosos e exaltando os humildes. Cf Lc 1,46-56 e nota.

{N}10,{/}19: (19-25) O que torna o homem digno de respeito \u00e9 a obedi\u00eancia a Deus e ao seu projecto.

{N}10,{/}26: (26-31) A verdadeira humildade \u00e9 aceitar-se a si mesmo e reconhecer o pr\u00f3prio valor com simplicidade.

{N}11,{/}1: (1-6) \u00abNem tudo o que reluz \u00e9 ouro\u00bb: a civiliza\u00e7\u00e3o de consumo cultiva e presta culto \u00e0s apar\u00eancias, fazendo acreditar que o valor das coisas est\u00e1 no seu aspecto externo. \u00c9 um engano, sobretudo quando o m\u00e9todo se aplica \u00e0s pessoas: ter belo aspecto ou estar bem vestido n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de bondade ou credibilidade. Os olhos humanos n\u00e3o captam as obras de Deus (v. 4), por vezes ocultas e imprevis\u00edveis.

{N}11,{/}7: (7-11) N\u00e3o se pode segurar o mundo com as m\u00e3os. A consci\u00eancia dos pr\u00f3prios limites ajuda a viver em calma e a realizar bem o que se pode fazer.

{N}11,{/}12: (12-28) Pode parecer cruel o caminho que, segundo o autor, Deus deixa aos humanos: perseverar no trabalho fatigante. Contudo, \u00e9 posta em destaque a confian\u00e7a em Deus que, entendida como compromisso transformador, abre as portas \u00e0 esperan\u00e7a de um mundo novo. O pensamento da morte pode apurar a qualidade do procedimento no decurso da vida.

{N}11,{/}29: (29-34) Invadido por uma cultura estrangeira, o povo judaico teve que se defender, de todos os modos, para conservar a pr\u00f3pria identidade. Sem essa vigil\u00e2ncia, qualquer povo se torna presa f\u00e1cil de c\u00e1lculos interesseiros e maquina\u00e7\u00f5es maquiav\u00e9licas.

{N}12,{/}1: (1-7) Estes conselhos, que matizam a ajuda caritativa, correspondem ao per\u00edodo de crise em que o juda\u00edsmo se sente encurralado pelo helenismo triunfante e ufano. Neste campo, o evangelho soa a novidade (cf. Mt 5,43-47; Lc 6,27-37).

{N}12,{/}8: (8-18) N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil discernir os verdadeiros e os falsos amigos. Nas situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis \u00e9 que se pode perceber a sinceridade daqueles que nos rodeiam.

{N}13,{/}1: (1-7) O rico e o pobre t\u00eam consci\u00eancia diferente sobre si e sobre a vida. O autor adverte os pobres, mostrando que a conviv\u00eancia com os ricos s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando estes exploram os pobres. Na realidade, s\u00f3 o pobre sabe ser gratuito na rela\u00e7\u00e3o. 

{N}13,{/}8: (8-14) O rico explora o pobre, e o poderoso n\u00e3o perde nenhuma oportunidade de oprimir e humilhar os fracos. \u00c9 preciso ser muito prudente e estar de p\u00e9 atr\u00e1s com os senhores do poder.

{N}13,{/}15: (15-24) O autor descreve os preconceitos de uma sociedade desigual. O rico \u00e9 sempre considerado bom, educado, culto e digno de respeito; o pobre \u00e9 sempre tido como pregui\u00e7oso, sem valor, imoral, um peso que n\u00e3o merece ser levado a s\u00e9rio. Quem se d\u00e1 ao trabalho de conferir tais preconceitos, acaba por descobrir uma realidade diferente, \u00e0s vezes cruel e cheia de surpresas.

{N}13,{/}25: (13,25-14,2) A verdadeira felicidade consiste em viver a justi\u00e7a. S\u00f3 assim a pessoa tem consci\u00eancia tranquila, e n\u00e3o se sente reprovada nem por si mesma, nem pelos outros.

{N}14,{/}3: (3-19) Os bens foram feitos para serem usados e repartidos entre todos. N\u00e3o adianta acumular bens, pois a pessoa avara n\u00e3o tira qualquer proveito do seu esfor\u00e7o.

{N}14,{/}20: (14,20-15,10) A sabedoria consiste em perceber o sentido da vida, captado atrav\u00e9s da experi\u00eancia da gera\u00e7\u00e3o presente e da tradi\u00e7\u00e3o dos antepassados, tantas vezes sedimentada em prov\u00e9rbios e m\u00e1ximas. Mas a palavra de Deus (Lei) tamb\u00e9m \u00e9 uma boa fonte. Da\u00ed a import\u00e2ncia crescente do \u00abdoutor da lei\u00bb no Juda\u00edsmo.

{N}15,{/}11: (11-20) Os in\u00fameros males que afligem a pessoa e a sociedade n\u00e3o encontram explica\u00e7\u00e3o f\u00e1cil. H\u00e1 quem ateste que \u00abfoi Deus quem fez as coisas assim\u00bb. No entanto, Ele criou a humanidade livre, \u00abentregou-a ao poder das suas pr\u00f3prias decis\u00f5es\u00bb (v. 14). Na altura a palavra significa vontade livre que pode decidir pelo bem ou pelo mal, o que atrai o tema dos \u00abdois caminhos\u00bb (vv. 16-17; cf Dt 30,15-20; Jr 21,8; Sl 1). \u00c9 um dos lugares teol\u00f3gicos da doutrina da liberdade (cf. Tg 1,13-17).

{N}16,{/}1: (1-15) A revis\u00e3o de alguns epis\u00f3dios da Hist\u00f3ria do povo leva \u00e0 conclus\u00e3o de que Deus \u00e9 quem julga os homens. Esse julgamento, por\u00e9m, n\u00e3o cai do c\u00e9u; est\u00e1 impl\u00edcito no que cada um faz. N\u00e3o bastam as boas inten\u00e7\u00f5es: o que salva ou condena uma pessoa, \u00e9 a sua vida pr\u00e1tica.

{N}16,{/}16: (16-23) \u00c9 imposs\u00edvel esconder-se de Deus, porque Ele est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o da vida e da Hist\u00f3ria. Garante da retribui\u00e7\u00e3o, Deus v\u00ea tudo e n\u00e3o dorme.

{N}16,{/}24: (16,24-17,12) Numa esp\u00e9cie de hino, o autor celebra o Criador, que forma o Universo como ber\u00e7o para a vinda do homem. Ao mesmo tempo, celebra a grandeza do homem, chamado a governar toda a Cria\u00e7\u00e3o e dotado de intelig\u00eancia para reconhecer a soberania de Deus. A ordem suprema, colocada no \u00edntimo da consci\u00eancia e explicitada na alian\u00e7a, pro\u00edbe cometer a injusti\u00e7a e manda relacionar-se fraternamente com o pr\u00f3ximo.

{N}17,{/}13: (13-19: Criador do Universo, Deus \u00e9 tamb\u00e9m o soberano que governa e julga a Hist\u00f3ria, como pode testemunhar o seu povo. Embora sendo justo e exigindo presta\u00e7\u00e3o de contas, Deus est\u00e1 sempre aberto para perdoar e refazer a esperan\u00e7a daqueles que acreditam e se comprometem com o seu projecto.

{N}17,{/}20: (17,20-18,6) A morte \u00e9 o sinal supremo da relatividade humana. Diante dela, o autor faz um convite \u00e0 convers\u00e3o, para que o homem reconhe\u00e7a e louve o Deus verdadeiro. Tal reconhecimento e louvor s\u00e3o a finalidade da vida humana (cf. Ef 1,6 e nota).

{N}18,{/}7: (7-14: A fragilidade da condi\u00e7\u00e3o humana ajuda a descobrir quanto \u00e9 grande a compreens\u00e3o e a miseric\u00f3rdia de Deus. Ele est\u00e1 sempre aberto para compreender e perdoar, e para ensinar o caminho da justi\u00e7a e da vida.

{N}18,{/}15: (15-18) A palavra e o dom podem humilhar o pr\u00f3ximo em vez de ser sinal de compreens\u00e3o e partilha.

{N}18,{/}19: (19-29) Quem tem bom senso \u00e9 capaz de prever as coisas, antes que seja tarde de mais.

{N}18,{/}30: (18,30-19,3) Aspecto importante da sabedoria \u00e9 a sobriedade e o dom\u00ednio sobre os impulsos instintivos.

{N}19,{/}4: (4-17) A confian\u00e7a m\u00fatua leva \u00e0 partilha dos segredos. \u00c9 preciso muita cautela diante dos boatos que muitas vezes n\u00e3o t\u00eam qualquer fundamento e podem travar-se com rapidez. A Lei previa a reconcilia\u00e7\u00e3o com o inimigo (cf. Lv 19,17).

{N}19,{/}18: (18-27) A verdadeira sabedoria consiste em discernir o caminho da vida e da Hist\u00f3ria, no temor de Deus (cf. Pr 1,7; 9,10; Job 28,28; Sl 110,10). N\u00e3o basta ser inteligente e culto. \u00c9 preciso ver os meios que se usam e os fins que se buscam, para distinguir a verdadeira da falsa sabedoria. Colocar a intelig\u00eancia ao servi\u00e7o do mal n\u00e3o \u00e9 sabedoria.

{N}20,{/}1: (1-8) O autor volta ao tema da correc\u00e7\u00e3o fraterna (cf. 19,13-17); necess\u00e1ria e salutar, ela tem o seu tempo, n\u00e3o deve ser intempestiva. A fala tem o seu momento, o sil\u00eancio a sua utilidade.

{N}20,{/}9: (9-12) A Hist\u00f3ria e a experi\u00eancia mostram que a vida est\u00e1 cheia de paradoxos... O bem resulta mal e h\u00e1 males que v\u00eam por bem. Nem tudo \u00e9 igual para todos. Da humilha\u00e7\u00e3o salta-se \u00e0 gl\u00f3ria (cf. Lc 1,52).

{N}20,{/}13: (13-17) Falta sabedoria a quem d\u00e1 somente para receber mais em troca. As muitas palavras n\u00e3o convencem.

{N}20,{/}18: (18-23) Discernimento e prud\u00eancia n\u00e3o se confundem com respeito humano e timidez. Falar ou agir na hora certa n\u00e3o significa agradar a todos.

{N}20,{/}24: (24-26) \u00abMais depressa se apanha um mentiroso...\u00bb. Mesmo que consiga enganar por algum tempo, o mentiroso ser\u00e1 descoberto e desacreditado.

{N}20,{/}27: (27-31) Agradar aos poderosos n\u00e3o significa bajular e pode ganh\u00e1-los para a justi\u00e7a. Mas os s\u00e1bios tamb\u00e9m est\u00e3o expostos (v. 29) e n\u00e3o devem silenciar a sabedoria (v. 31).

{N}21,{/}1: (1-10) O pecado \u00e9 entendido como falta de amor a Deus. Falta essa que provoca destrui\u00e7\u00e3o de vidas humanas, atrav\u00e9s da crueldade, arrog\u00e2ncia e roubo contra o pobre. A ru\u00edna do pecador prov\u00e9m de Deus, que ouve o clamor do pobre e faz justi\u00e7a. 

{N}21,{/}11: (11-28) Dispostos em contrastes sucessivos, temos os tra\u00e7os caracter\u00edsticos do s\u00e1bio e do insensanto. Dois caminhos diversos; dum lado, um rumo unificado \u00e0 volta do projecto de Jav\u00e9 (observ\u00e2ncia da Lei) que ilumina e serve de crit\u00e9rio; do outro, a fragmenta\u00e7\u00e3o total que n\u00e3o consegue captar nem transmitir nada, que n\u00e3o acerta com a medida.

{N}22,{/}1: (1-2) O pregui\u00e7oso \u00e9 um in\u00fatil desprez\u00edvel, um parasita da sociedade.

{N}22,{/}3: (3-6) O autor segue certa tradi\u00e7\u00e3o cultural, que chegou at\u00e9 n\u00f3s nalguns n\u00facleos \u00e1rabes, e resvala para o anti-feminismo: o nascimento duma menina era, em si, uma pouca sorte para a fam\u00edlia e um quebra-cabe\u00e7as para o pai (42,9-14). Um escrito judeu posterior (Talmude) aconselha o homem a dar gra\u00e7as a Deus todos os dias por n\u00e3o ter nascido mulher nem escravo. Na educa\u00e7\u00e3o, os escribas s\u00e3o claramente a favor do recurso aos castigos corporais (v. 6; cf. Pr 13,24; 19,18; 22,15; 23,14-15; 29,15).

{N}22,{/}7: (7-15) Imbecil, est\u00fapido e insensato s\u00e3o termos que se equivalem. Quanto \u00e0 inutilidade de ensinar o imbecil, confira 21,11-27 e nota. O luto de sete dias (v. 12; cf. Gn 50,16; Jt 16,24) podia ser ajustado ao grau de parentesco e ao m\u00e9rito do defunto: dois ou tr\u00eas dias, em 38,17.

{N}22,{/}16: (16-18) Reflex\u00e3o e medita\u00e7\u00e3o cont\u00ednuas s\u00e3o essenciais para formar convic\u00e7\u00f5es profundas que resistam ao vento dos modas e ao brilho das opini\u00f5es.

{N}22,{/}19: (19-26) Cf. nota em 6,5-17.

{N}22,{/}27: (22,27-23,6) Reconhecendo Deus como Pai e Senhor da vida, esta ora\u00e7\u00e3o expressa inicialmente um desejo (v. 27), pede a correc\u00e7\u00e3o e a disciplina do discernimento, para dirigir a vida segundo a justi\u00e7a. Tratar a Deus por Pai (vv. 1 e 4) \u00e9 raro no juda\u00edsmo antigo. Utilizava-se em rela\u00e7\u00e3o ao povo (Ex 4,22; Jr 31,9), ao povo pecador (Jr 3,4) e ao rei Messias (Sl 89,27); aqui \u00e9 novidade.

{N}23,{/}7: (7-11) O mandamento que pro\u00edbe usar o nome de Deus em v\u00e3o reflecte-se aqui numa perspectiva do mal que pode acontecer a quem o desrespeita. N\u00e3o temos direito de usar o nome de Deus para justificar os nossos interesses mesquinhos e projectos injustos. O v. 11 menciona tr\u00eas casos de gravidade crescente: juramento de boa-f\u00e9 n\u00e3o cumprido; juramento por ligeireza; e falso juramento.

{N}23,{/}12: (12-15) O texto n\u00e3o \u00e9 claro sobre o modo de falar que \u00e9 compar\u00e1vel \u00e0 morte. O v. 14 refere-se provavelmente ao problema criado pela invas\u00e3o de uma cultura estrangeira: os filhos podem subir socialmente e esquecer a tradi\u00e7\u00e3o transmitida pelos pais.

{N}23,{/}16: (16-27) Podemos enganar os outros e at\u00e9 enganar-nos a n\u00f3s pr\u00f3prios, mas \u00e9 imposs\u00edvel enganar a Deus, porque Ele est\u00e1 no mais profundo de toda a realidade. Ao condenar o adult\u00e9rio, o autor retoma o sexto mandamento do Dec\u00e1logo. Talvez pense tamb\u00e9m no perigo que representa para o povo misturar-se com a religi\u00e3o, a cultura e os costumes estrangeiros, adulterando dessa forma a pr\u00f3pria identidade.

{N}24,{/}1: (1-21) O elogio da Sabedoria \u00e9 o cap\u00edtulo central deste livro. Na esteira de numerosas reminisc\u00eancias b\u00edblicas (cf. Pr 1,20-32;8; Job 28; Br 3,9-4,4), a Sabedoria vai mais longe e apresenta-se, ao mesmo tempo, intimamente unida a Deus e distinta d'Ele; tem fun\u00e7\u00f5es na Cria\u00e7\u00e3o e na Hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o e assenta arraiais em Jacob - o tesouro incompar\u00e1vel deste povo. O perfil preanuncia a fun\u00e7\u00e3o do Verbo em Jo 1. Neste autor, a personifica\u00e7\u00e3o po\u00e9tica revela-se sobretudo na Lei, o que deu azo ao tema posterior da preexist\u00eancia da Lei.

{N}24,{/}22: (22-32) A Sabedoria \u00e9 a Lei. N\u00e3o propriamente a legisla\u00e7\u00e3o, mas todo o conjunto do Pentateuco, chamado Tora ou Lei. O centro desse conjunto da B\u00edblia \u00e9 a alian\u00e7a que Deus faz com o seu povo, para o libertar da escravid\u00e3o e o conduzir para a Terra Prometida. Com a Sabedoria contida no Pentateuco, os homens s\u00e3o capazes de transformar a terra \u00e1rida em para\u00edso f\u00e9rtil, segundo o simbolismo c\u00f3smico dos rios que correm no Para\u00edso (cf. Gn 2,10-14).

{N}25,{/}1: (1-11) Colec\u00e7\u00e3o de m\u00e1ximas, enumerando diversos aspectos da vida, de modo a aprofundar a reflex\u00e3o sobre a condi\u00e7\u00e3o humana. Louva a harmonia entre esposos, evoca o bom e o mau marido (vv. 2-11), nomeadamente o velho infiel.

{N}25,{/}12: (25,12-26,18) Segue uma longa reflex\u00e3o sobre a mulher boa e m\u00e1. Esta descri\u00e7\u00e3o da mulher reflecte, de forma acentuada, os preconceitos da sociedade patriarcal: o \u00fanico lugar para a mulher era o matrim\u00f3nio. 

{N}26,{/}19: O justo que passa a cometer a injusti\u00e7a torna-se pior do que o injusto.

{N}26,{/}20: (26,20-27,3) H\u00e1 lucro e lucro! O comerciante escapa dificilmente aos perigos da fraude e da gan\u00e2ncia. Al\u00e9m disso, o com\u00e9rcio obrigava a contactar com pag\u00e3os, o que representava um risco e um desvio do estudo da lei. Quando o objectivo lucro se implanta como base das rela\u00e7\u00f5es humanas, a sociedade inteira peca contra o s\u00e9timo mandamento (Ex 20,15 e Dt 5,19), produzindo desigualdade e violando o projecto de Deus.

{N}27,{/}4: (4-7) A palavra \u00e9 espelho da pessoa. Por isso, \u00e9 melhor pensar bem antes de falar, e quando n\u00e3o se sabe o que dizer, \u00e9 melhor ficar calado.

{N}27,{/}8: (8-10) A justi\u00e7a \u00e9 uma conquista, e s\u00f3 se realiza quando nos dispomos a p\u00f4r em pr\u00e1tica a vontade de Deus.

{N}27,{/}11: (11-15) Com os s\u00e1bios se aprende o que se deve fazer, e com os insensatos o que se deve evitar.

{N}27,{/}16: (16-24) A amizade \u00e9 o sacramento da presen\u00e7a e da confian\u00e7a. Com ela, a pessoa partilha o \u00edntimo mais profundo. A viola\u00e7\u00e3o do segredo rompe irremediavelmente a rela\u00e7\u00e3o, como cristal que se quebra.

{N}27,{/}25: (25-29) A justi\u00e7a \u00e9 a presen\u00e7a do pr\u00f3prio Deus, que julga por dentro da vida e da Hist\u00f3ria. Ele faz cada pessoa e cada povo sofrer as consequ\u00eancias do pr\u00f3prio comportamento.

{N}27,{/}30: (27,30-28,7) Vingan\u00e7a, rancor e viol\u00eancia n\u00e3o podem destronar o perd\u00e3o. O texto leva directamente ao \u00abPai-nosso\u00bb: \u00abPerdoa-nos os nossos pecados, pois tamb\u00e9m n\u00f3s perdoamos a todos aqueles que nos ofendem\u00bb (Lc 11,4). \u00abSe n\u00e3o perdoardes aos homens, o vosso Pai tamb\u00e9m n\u00e3o perdoar\u00e1 os males que tiverdes feito\u00bb (Mt 6,15).

{N}28,{/}8: (8-12) A desaven\u00e7a entre as pessoas \u00e9 vista como pecado, porque cria divis\u00f5es onde deveria haver uni\u00e3o. Simples palavras, sopradas pela raiva, tornam-se labaredas devastadoras quando os implicados s\u00e3o poderosos.

{N}28,{/}13: (13-26) A l\u00edngua maldosa \u00e9 comparada ao fogo devorador e ao animal selvagem, porque provoca brigas e arru\u00edna a boa fama das pessoas. Cf. Tg 3,1-12 e nota.

{N}29,{/}1: (1-7) N\u00e3o est\u00e1 em causa o empr\u00e9stimo com juros, mas sim a obriga\u00e7\u00e3o, imposta pela Lei (Ex 22,24; Lv 25,35-36; Dt 15,7-11), de emprestar ao israelita necessitado. Era um bom investimento.

{N}29,{/}8: (8-13) Se o empr\u00e9stimo pode produzir constrangimento, o aux\u00edlio ao pobre deve estar livre disso, pois \u00e9 quest\u00e3o de solidariedade e justi\u00e7a. Dar esmola \u00e9 apenas um exerc\u00edcio para a partilha que constr\u00f3i uma sociedade fraterna e igualit\u00e1ria.

{N}29,{/}14: (14-20) A fian\u00e7a \u00e9 uma forma de auxiliar o pr\u00f3ximo, por\u00e9m deve ser feita com a devida cautela, porque pode acarretar s\u00e9rios riscos.

{N}29,{/}21: (21-28) A dignidade humana sup\u00f5e o atendimento de necessidades b\u00e1sicas: comida, roupa, casa. Quem n\u00e3o possui esse m\u00ednimo passa a depender dos outros de forma humilhante: ser explorado, mendigar trabalho e assist\u00eancia e esperar pela bondade dos outros, at\u00e9 que outro h\u00f3spede passe \u00e0 frente (v. 27; cf. Lc 14,8-9).

{N}30,{/}1: (1-13) Assim diz o povo: \u00ab\u00c9 de pequenino que se torce o pepino\u00bb. Os antigos valorizavam muito a disciplina r\u00edgida, para que os filhos se tornassem espelho dos pais. Hoje sabemos que a educa\u00e7\u00e3o passa por outros caminhos: criar capacidade para responder aos novos desafios da vida.

{N}30,{/}14: (14-20) A sa\u00fade \u00e9 o maior dom de Deus, pois permite que o homem possa trabalhar e usufruir do seu trabalho. A doen\u00e7a, por outro lado, \u00e9 vista pelos antigos como puni\u00e7\u00e3o de algum pecado. Curiosamente, os manuscritos gregos introduzem o t\u00edtulo: {C}Sobre os alimentos,{/} talvez a sugerir que a sa\u00fade depende em larga escala da alimenta\u00e7\u00e3o.

{N}30,{/}21: (21-25) \u00c9 imposs\u00edvel enfrentar problemas com tristeza e des\u00e2nimo. Por isso, o maior desafio \u00e9 manter \u00e2nimo e alegria frente \u00e0s dificuldades da vida. A alegria ocupa lugar de destaque na religi\u00e3o deste autor.

{N}31,{/}1: (1-11) A riqueza \u00e9 algo que se cria atrav\u00e9s de uma rede complexa de injusti\u00e7as. E o mais curioso \u00e9 que nem o pr\u00f3prio rico pode aproveit\u00e1-la tranquilamente. O texto deixa bem claro que o dinheiro pode tornar-se s\u00e9rio obst\u00e1culo \u00e0 integridade. Da\u00ed o desafio: ser\u00e1 que existe um rico \u00edntegro? Cf. Lc 18,24-25.

{N}31,{/}12: (31,12-32,13) Pequeno c\u00f3digo de boas maneiras para ser observado por ocasi\u00e3o de banquetes.

{N}32,{/}14: (32,14-33,6) O temor do Senhor \u00e9 o ponto de partida para a Sabedoria (Pr 1,7) e consiste em reconhecer que s\u00f3 Deus tem a \u00faltima palavra sobre a vida. Para o israelita, o grande dom de Deus \u00e9 a Lei: a legisla\u00e7\u00e3o propriamente dita ou, melhor, toda a revela\u00e7\u00e3o contida nas Sagradas Escrituras, atrav\u00e9s da qual o homem capta o projecto de Deus.

{N}33,{/}7: (7-15) Existe no mundo uma enorme desigualdade de condi\u00e7\u00f5es e contrastes. Que pensar? Ignorar? Escolher apenas uma parte, excluindo as outras? Aceitar o confronto em tudo pode gerar uma realidade nova. A imagem do oleiro (v. 13) \u00e9 compara\u00e7\u00e3o c\u00e9lebre (Is 29,16; 45,9; 64,7; Jr 18,1-6; 19,1-13; Sb 12,12; Rm 9,12-24) que exprime a soberana liberdade da ac\u00e7\u00e3o divina e deixa o homem entregue ao mist\u00e9rio. H\u00e1 quem veja nos vv. 14-15 um deslize do autor at\u00e9 ao dualismo, que n\u00e3o tem apoio na tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica.

{N}33,{/}16: (16-18) Conclus\u00e3o da primeira parte do livro. \u00c9 uma esp\u00e9cie de assinatura do autor. Ver a quase identidade do v. 18 e 24,30. A imagem dos vv. 16-17 mostra que o seu prop\u00f3sito foi juntar o que restou da experi\u00eancia do seu povo. O resultado \u00e9 surpreendente. O povo tem identidade pr\u00f3pria e n\u00e3o precisa de se sentir inferior aos estrangeiros. 

{N}33,{/}19: (33,19-42,14) A convoca\u00e7\u00e3o solene em 33,19 abre mais uma sec\u00e7\u00e3o do livro que re\u00fane conselhos gerais, para que o povo aprenda a viver de acordo com a sabedoria.

{N}33,{/}20: (20-24) A aten\u00e7\u00e3o dada ao pai deve ser compreendida no clima da sociedade patriarcal, quando a preserva\u00e7\u00e3o da autoridade e independ\u00eancia econ\u00f3mica do pai era a base sobre a qual se constru\u00eda a fam\u00edlia.

{N}33,{/}25: (25-33) O texto \u00e9 severo em rela\u00e7\u00e3o aos escravos que, por outro lado, eram protegidos pela Lei contra os caprichos e ambi\u00e7\u00f5es do patr\u00e3o (cf. Ex 21,1-6.26-27; Lv 25,46; Dt 15,12-18). Ser\u00e1 que hoje os trabalhadores do campo e da cidade s\u00e3o tratados melhor do que os escravos daquele tempo?

{N}34,{/}1: (1-8) Para os antigos, o sonho era um meio pelo qual a divindade comunica com a humanidade. O dif\u00edcil \u00e9 distinguir tais sonhos reveladores de outros sonhos comuns. O autor menospreza o valor de todos eles, t\u00e3o estimados entre os pag\u00e3os, dizendo que Israel tem a Lei para o guiar na vida. 

{N}34,{/}9: (9-17) A sabedoria \u00e9 o discernimento que nasce da experi\u00eancia, e as viagens permitem alargar essa percep\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s do contacto com outras realidades e com diferentes formas de resolver os problemas. De facto, as viagens permitem multiplicar relacionamentos, favorecendo maior objetividade e universalizando o saber.

{N}34,{/}18: (18-22) A f\u00e9 n\u00e3o substitui a justi\u00e7a, nem pode esconder a injusti\u00e7a, pois crer em Deus \u00e9, em primeiro lugar, praticar a justi\u00e7a. Muitas vezes, de facto, as chamadas pr\u00e1ticas e obras \u00abreligiosas\u00bb n\u00e3o passam de m\u00e1scaras que ocultam a explora\u00e7\u00e3o dos pobres. Deus n\u00e3o quer ser homenageado com o sacrif\u00edcio dos seus pr\u00f3prios filhos.

{N}34,{/}23: (34,23-35,10) O autor n\u00e3o nega o valor das cerim\u00f3nias lit\u00fargicas, mas salienta que a convers\u00e3o \u00e0 pr\u00e1tica da justi\u00e7a \u00e9 a verdadeira religi\u00e3o que Deus quer. Tal \u00e9 a rectid\u00e3o moral que o autor exige do culto (7,9), ligado \u00e0 pr\u00e1tica da Lei (35,1), ele que d\u00e1 lugar destacado ao aspecto ritual da religi\u00e3o (35,4-10; 38,11).

{N}35,{/}11: (11-24) A suprema aud\u00e1cia dos respons\u00e1veis por uma estrutura social injusta est\u00e1 em tentar corromper Deus, procurando coloc\u00e1-l'O do seu lado. O grito do pobre denuncia a injusti\u00e7a e obriga Deus a rever a posi\u00e7\u00e3o e a restabelecer a justi\u00e7a. Cf. Lc 18,1-8 e nota.

{N}36,{/}1: (1-17) Escrita vinte anos antes da grande persegui\u00e7\u00e3o movida por Ant\u00edoco IV, esta ora\u00e7\u00e3o revela os sentimentos dos judeus piedosos, antes do levantamento dos Macabeus. Aponta para o messianismo (v. 10), ou melhor, para a escatologia que amea\u00e7a as na\u00e7\u00f5es, com dureza inusitada (vv. 1-2) e f\u00f4lego prof\u00e9tico (vv. 14-15), nada comuns ao sereno Sir\u00e1cide. Talvez seja pe\u00e7a introduzida aqui por outro autor.

{N}36,{/}18: (18-20) A mente s\u00e1bia \u00e9 capaz de discernir entre a verdade e a mentira.

{N}36,{/}21: (21-27) Mesmo tribut\u00e1rio do regime patriarcal, o autor sabe reconhecer a import\u00e2ncia que a mulher tem para o homem. Sem ela, o homem n\u00e3o cria ra\u00edzes; anda errante e perdido.

{N}37,{/}1: (1-6) O n\u00facleo da amizade \u00e9 a fidelidade. Todavia \u00e9 preciso distinguir o amigo verdadeiro, que se revela sobretudo nos momentos dif\u00edceis.

{N}37,{/}7: (7-15) Se os conselhos valessem alguma coisa, seriam vendidos e n\u00e3o dados. In\u00fatil pedi-los a um interessado ou a um inexperiente. Mais importante \u00e9 confiar em si mesmo, ser sincero e pedir a Deus que mostre o caminho da verdade.

{N}37,{/}16: (16-26) \u00c9 importante aconselhar-se com os s\u00e1bios. Contudo, \u00e9 preciso distinguir quem \u00e9 verdadeiramente s\u00e1bio.

{N}37,{/}27: (27-31) O autodom\u00ednio, bem como a temperan\u00e7a, faz parte de uma vida sadia e s\u00e1bia.

{N}38,{/}1: (1-15) Em vez de desconfiar do recurso \u00e0 medicina como em 2Cr 16,12, o autor mostra que n\u00e3o \u00e9 isso que faz sombra a Deus (v. 2). A sa\u00fade faz parte do projecto de Deus, pois Ele deseja a vida. O m\u00e9dico deve colocar a sua ci\u00eancia e habilidade ao servi\u00e7o da cura e da vida, para que todos tenham sa\u00fade.

{N}38,{/}16: (16-23) Respeitador das tradi\u00e7\u00f5es, o autor convida a cumprir os ritos e costumes funer\u00e1rios, muitos deles comuns aos judeus e demais povos orientais (cf. Jr 9,16-20; Ez 24,15-24; Am 5,16; Mt 9,23; Mc 5,38). A dura\u00e7\u00e3o do luto (v. 17) depende do grau de parentesco e da dignidade do defunto; era sobretudo uma pr\u00e1tica de alcance social. O realismo do autor impede-o de cair em exageros ou manifesta\u00e7\u00f5es excessivas.

{N}38,{/}24: (24-34) O autor \u00e9 um escriba e claramente procura engrandecer a sua profiss\u00e3o, menosprezando as outras, mais ligadas \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o do mundo material. Este texto foi aproximado do documento eg\u00edpcio \u00abs\u00e1tira dos of\u00edcios\u00bb que defende a superioridade do escriba sobre as demais profiss\u00f5es manuais que dificultariam a reflex\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 este o tom habitual nos livros sapienciais. Este autor recomenda o trabalho manual (11,20), em especial as tarefas do campo (7,15). Hoje, sabemos que n\u00e3o h\u00e1 profiss\u00f5es indignas... E escrever \u00e9 tamb\u00e9m ocupa\u00e7\u00e3o pesada.

{N}39,{/}1: (1-11) O elogio feito ao escriba-s\u00e1bio mostra a import\u00e2ncia que essa profiss\u00e3o teve na \u00e9poca. De facto, foi atrav\u00e9s dele que se conservaram e se transmitiram os escritos b\u00edblicos, com a religi\u00e3o, legisla\u00e7\u00e3o, Hist\u00f3ria e sabedoria do povo de Deus. Gra\u00e7as ao escriba, chegou at\u00e9 n\u00f3s a mem\u00f3ria do povo de Deus.

{N}39,{/}12: (12-35) Grande hino de louvor, proclamando a grandeza de Deus, manifestada na Cria\u00e7\u00e3o. No Universo, tudo tem a sua finalidade e, no momento certo, o homem pode reconhecer a bondade de todas as coisas. Ora, a ordem criada e a perfei\u00e7\u00e3o da Natureza s\u00e3o desafios lan\u00e7ados aos seres humanos para que, por seu turno, descubram e construam a harmonia que deve presidir \u00e0s rela\u00e7\u00f5es humanas.

{N}40,{/}1: (1-11) \u00c9 grande o enigma da mis\u00e9ria humana... As criaturas retornam \u00e0 sua origem (v. 11). Reduzida \u00e0 dimens\u00e3o terrestre, a vida encerra muito de ef\u00e9mero e de absurdo; nem o sono livra o homem da sua trag\u00e9dia.

{N}40,{/}12: (12-17) No meio do absurdo da vida, a bondade e a miseric\u00f3rdia op\u00f5em-se ao suborno e \u00e0 injusti\u00e7a. O autor, por\u00e9m, cr\u00ea e espera no triunfo da justi\u00e7a sobre a corrup\u00e7\u00e3o.

{N}40,{/}18: (18-27) H\u00e1 muitas realidades que d\u00e3o brilho e alegria \u00e0 vida, como a independ\u00eancia econ\u00f3mica, os filhos, a fama, os prazeres. Todavia, o verdadeiro sentido da vida s\u00f3 \u00e9 descoberto quando o homem teme a Deus. N\u00e3o se trata de ter medo, mas de reconhecer que s\u00f3 Deus \u00e9 absoluto, s\u00f3 a Ele o homem deve adorar.

{N}40,{/}28: (28-30) A mendicidade \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que destr\u00f3i a dignidade humana, denunciando a desigualdade social, criada por uma ordem econ\u00f3mica injusta.

{N}41,{/}1: (1-4) O autor n\u00e3o partilha ainda qualquer ideia de ressurrei\u00e7\u00e3o. A morte faz parte da vida. Contudo, nem toda a morte \u00e9 natural: muitos morrem antes do tempo e muitos j\u00e1 vivem t\u00e3o mortos, que a morte final seria um verdadeiro al\u00edvio. 

{N}41,{/}5: (5-13) A esperan\u00e7a do justo \u00e9 a justi\u00e7a, e ele confia que os injustos sofrer\u00e3o as consequ\u00eancias da pr\u00f3pria perversidade. Enquanto o filho do justo conserva a mem\u00f3ria honrada de seus pais, os filhos do injusto envergonham-no.

{N}41,{/}14: (41,14-42,8) O autor d\u00e1 alguns conselhos pr\u00e1ticos que ajudam a discernir o que verdadeiramente nos pode honrar ou envergonhar. Em ambos os casos, muitas vezes \u00e9 preciso ser capaz de enfrentar a opini\u00e3o p\u00fablica e desafiar costumes injustos t\u00e3o arreigados que ningu\u00e9m mais os questiona.

{N}42,{/}9: (9-14) O nascimento duma filha \u00e9 um quebra-cabe\u00e7as para o pai! Jovem virgem... noiva \u00e0 espera de dote que a compre... ou rec\u00e9m-casada... Os costumes fazem parte do contexto cultural e n\u00e3o perdoam. O autor cede \u00e0 mentalidade antifeminista, at\u00e9 ao paradoxo (v. 14). Jesus veio corrigir muitas coisas. Descobrimos hoje que s\u00f3 integrando a dimens\u00e3o feminina, a humanidade pode reencontrar a sua alma e a sua sensibilidade criadora.

{N}42,{/}15: (42,15-43,26) Hino \u00e0 grandeza de Deus, manifestada na Natureza. Para os antigos, o Universo foi sempre uma maravilha, a ponto de endeusarem fen\u00f3menos naturais. Israel deu um passo original em frente, ao descobrir o Deus que, pela sua palavra (v. 15; cf. Jo 1), criou todas as coisas. O autor destaca o Sol (43,1-5), a Lua (vv. 6-8), as estrelas (vv. 9-10), o arco-\u00edris (vv. 11-12; cf. Gn 9,12-17), e outros fen\u00f3menos: a tempestade e o seu cortejo (vv. 13-17), a neve e o gelo (vv. 18-22), as ilhas e os mares, as navega\u00e7\u00f5es e as faunas ex\u00f3ticas (vv. 23-26). Hoje a ci\u00eancia continua a sondar o Universo e n\u00e3o p\u00e1ra de descobrir grandezas e belezas que tocam o infinito.

{N}43,{/}27: (27-33) A grandeza de Deus espelhada nos mist\u00e9rios do Universo provoca \u00eaxtase e exclama\u00e7\u00e3o, que se transformam em explos\u00e3o laudativa: \u00abEle \u00e9 tudo!\u00bb (v. 27); n\u00e3o em leitura pante\u00edsta, mas na sua transcend\u00eancia, acima de tudo (v. 28) e Senhor de tudo, que nunca ningu\u00e9m viu (v. 31; cf. Ex 33,20; Jo 1,18; 1Jo 4,12). De todos os seres, o homem \u00e9 o \u00fanico que pode tomar consci\u00eancia de Deus, que \u00e9 o mist\u00e9rio supremo escondido por tr\u00e1s de todos os outros mist\u00e9rios. Paulo dir\u00e1 que o sentido \u00faltimo da vida \u00e9 louvar a Deus (cf. Ef 1,5-6).

{N}44,{/}1: (44,1-50,26) Elogio dos antepassados, homens de sabedoria (43,33) e de piedade ({C}h\u00e9sed,{/} 44,1), os assideus (hassidim) devotados \u00e0 Lei (cf. 1Mc 2,51-64). O lugar da grande manifesta\u00e7\u00e3o de Deus \u00e9 a Hist\u00f3ria: o encadeado de gera\u00e7\u00f5es a quem Deus Se revelou e que se comprometem com o projecto divino. O povo de Deus n\u00e3o precisa de cobi\u00e7ar hist\u00f3rias de povos estrangeiros. Basta-lhe evocar a sua, desde Henoc ao \u00faltimo dos her\u00f3is - o sumo sacerdote Sim\u00e3o II, que exerceu o minist\u00e9rio entre 220-195 a.C., causando admira\u00e7\u00e3o ao autor (50,1-22). Estilo evocativo que pressup\u00f5e conhecidas a narrativa e a cr\u00f3nica e, com alguma liberdade, encadeia os rostos e extrai a sabedoria. \u00c9 uma viragem na marcha da sabedoria em Israel: a aproxima\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria, a integra\u00e7\u00e3o das esperan\u00e7as contidas nos epis\u00f3dios marcantes da vida do povo eleito. Deus estava l\u00e1, com a sua iniciativa.

{N}50,{/}27: (27-29) Conclus\u00e3o original do livro com uma esp\u00e9cie de assinatura do autor.

{N}51,{/}1: (1-12) \u00c9 um salmo de ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as, que pode ter por sujeito uma pessoa ou a comunidade inteira. O grande motivo de confian\u00e7a e esperan\u00e7a \u00e9 Deus, que liberta da morte para a vida.
  51,1-30: Dois textos acrescentados ao livro, para o encerrar com o tema do agradecimento e o da procura da Sabedoria.

{N}51,{/}13: (13-30) Com este poema o autor conta como procurou a Sabedoria (vv. 13.15; cf. 6,27; 24,34; 33,18; 39,1) e exalta a import\u00e2ncia que ela teve na sua vida. O final d\u00e1 claramente a entender que no seu tempo existia uma escola sapiencial, talvez dirigida por ele mesmo (v. 23). {C}Beth midrash{/} (casa de instru\u00e7\u00e3o ou estudo) \u00e9, de facto, a express\u00e3o que se tornar\u00e1 t\u00e9cnica, para designar o lugar onde se estuda a Lei, aqui identificada com a Sabedoria (cf. 32,14).

