{N}1,{/}1: (1-11) O \u00abprimeiro livro\u00bb \u00e9 o Evangelho de Lucas. Recebendo o mesmo Esp\u00edrito que guiou toda a miss\u00e3o de Jesus, os Ap\u00f3stolos estar\u00e3o preparados para testemunhar Jesus, continuando o que Ele come\u00e7ou a fazer e ensinar. Esta \u00e9 a tarefa apost\u00f3lica de todos os crist\u00e3os, que formam a comunidade de Jesus. Atrav\u00e9s do testemunho deles, Jesus ressuscitado continua presente e actuante dentro da Hist\u00f3ria.
O Reino n\u00e3o vai surgir de um momento para o outro na Hist\u00f3ria, como por toque de m\u00e1gica ou milagre. Ser\u00e1 fruto do testemunho dado pelos disc\u00edpulos no mundo inteiro. E s\u00f3 o Pai sabe o momento em que a Hist\u00f3ria da humanidade estar\u00e1 completamente madura, para ent\u00e3o se manifestar a plenitude do Reino.
A Ascens\u00e3o de Jesus \u00e9 um modo de falar sobre o seu regresso para o mist\u00e9rio da vida de Deus. Ali\u00e1s, Deus est\u00e1 presente em todos os tempos e lugares. E o facto de os crist\u00e3os esperarem por Jesus n\u00e3o deve deix\u00e1-los passivos, mas lev\u00e1-los \u00e0 miss\u00e3o, pois a vinda gloriosa de Jesus realizar-se-\u00e1 atrav\u00e9s do testemunho.

{N}1,{/}12: (12-14) Lucas apresenta a primeir\u00edssima comunidade de Jesus. O {C}monte das Oliveiras{/} \u00e9 o lugar onde come\u00e7ou a Paix\u00e3o (Lc 22,39ss) e, na {C}sala de cima,{/} Jesus havia celebrado a \u00faltima Ceia (Lc 22,12). A comunidade crist\u00e3 sempre tem como fonte o acto supremo em que Jesus deu a sua pr\u00f3pria vida para confirmar o testemunho dado. A presen\u00e7a da M\u00e3e de Jesus mostra que a Igreja est\u00e1 em gesta\u00e7\u00e3o a partir da primeira comunidade, onde todos t\u00eam os mesmos sentimentos e buscam continuamente o sentido da sua miss\u00e3o (ora\u00e7\u00e3o).

{N}1,{/}15: (15-26) A primeira comunidade come\u00e7a a expandir-se (cento e vinte irm\u00e3os). O n\u00famero dos Doze deve ser completado: assim como o povo de Israel se formou a partir dos doze filhos de Jacob, o novo povo de Deus forma-se a partir dos doze Ap\u00f3stolos. A testemunha de Jesus \u00e9 aquela que conhece o que Ele fez e ensinou, desde o seu baptismo at\u00e9 \u00e0 sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o. O v. 22 mostra o conte\u00fado da catequese primitiva, o qual formou depois a estrutura dos evangelhos; por isso, \u00e9 preciso conhecer os evangelhos para dar testemunho de Jesus.

{N}2,{/}1: (1-13) O relato \u00e9 simb\u00f3lico. De facto, quando o autor escreveu, as comunidades crist\u00e3s j\u00e1 se haviam espalhado por todas as regi\u00f5es aqui mencionadas. Lucas quer mostrar o que est\u00e1 na base de qualquer comunidade crist\u00e3: o Esp\u00edrito Santo faz lembrar, compreender e continuar o testemunho de Jesus (cf. Jo 14,26; 16,12-15). O Pentecostes, celebrado cinquenta dias depois da P\u00e1scoa, comemorava a Alian\u00e7a e o dom da Lei. No novo Pentecostes, Deus entrega o seu Esp\u00edrito, realizando a nova Alian\u00e7a, desta vez com toda a humanidade (doze na\u00e7\u00f5es). A \u00abl\u00edngua\u00bb da comunidade da nova Alian\u00e7a \u00e9 o testemunho de Jesus, ou seja, o Evangelho, cujo centro \u00e9 o amor de Deus que re\u00fane os homens, provocando rela\u00e7\u00e3o e entendimento (o contr\u00e1rio de Babel: cf. Gn 11,1-9). Mas o testemunho provoca conflitos (v. 13).

{N}2,{/}14: (14-36) Pedro apresenta o an\u00fancio fundamental da Igreja. Mantendo a mem\u00f3ria do testemunho de Jesus, a Igreja rel\u00ea o Antigo Testamento e percebe o mist\u00e9rio central da vida, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus: Jesus de Nazar\u00e9 realizou entre os homens a ac\u00e7\u00e3o de Deus voltada para a justi\u00e7a e a vida, e foi morto pela estrutura injusta de uma sociedade que gera a morte. Deus, por\u00e9m, condena essa estrutura, pois ressuscita Jesus e torna-O Senhor do Universo e da Hist\u00f3ria. Recebendo o Esp\u00edrito que dirigiu toda a miss\u00e3o de Jesus, a Igreja torna-se testemunha da sua ressurrei\u00e7\u00e3o. O an\u00fancio \u00e9 ao mesmo tempo a den\u00fancia e o julgamento de toda a estrutura injusta, sempre causadora de morte.

{N}2,{/}37: (37-41) O an\u00fancio da Igreja faz com que as pessoas tomem consci\u00eancia do seu pr\u00f3prio pecado, j\u00e1 que elas percebem estar comprometidas com uma estrutura social que gera injusti\u00e7a e morte. Que fazer? \u00c9 preciso morrer para esse tipo de sociedade e ressuscitar para pertencer ao povo de Deus: povo comprometido com o testemunho de Jesus Cristo. O baptismo, onde a pessoa recebe o Esp\u00edrito, \u00e9 a express\u00e3o concreta dessa convers\u00e3o.

{N}2,{/}42: (42-47) Lucas apresenta o primeiro retrato da comunidade crist\u00e3. Ela nasce do an\u00fancio fundamental que provoca a convers\u00e3o; cresce gra\u00e7as \u00e0 catequese evang\u00e9lica (ensinamento dos Ap\u00f3stolos) e espalha-se atrav\u00e9s do testemunho. Internamente, a comunidade mant\u00e9m-se pela uni\u00e3o com Deus (ora\u00e7\u00e3o no Templo) e pela participa\u00e7\u00e3o na P\u00e1scoa de Jesus (frac\u00e7\u00e3o do p\u00e3o = Eucaristia). Na vida pr\u00e1tica, a convers\u00e3o exprime-se por um novo modelo de rela\u00e7\u00f5es: a fraternidade substitui a opress\u00e3o do poder, e a partilha dos bens supera a explora\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio. A \u00fanica autoridade \u00e9 a de Deus, e exprime-se atrav\u00e9s de prod\u00edgios e sinais que acompanham o testemunho dos Ap\u00f3stolos (temor). Para Lucas, a vida desta comunidade mostra o ideal da Igreja e o projecto de uma nova sociedade.

{N}3,{/}1: (1-10) O epis\u00f3dio, com as suas consequ\u00eancias, lembra a cura do cego de nascen\u00e7a (cf. Jo 9). Pedro e Jo\u00e3o personificam a Igreja, atrav\u00e9s da qual Jesus continua presente e actuante. O aleijado encarna a situa\u00e7\u00e3o do povo fraco e dependente. A riqueza (ouro e prata) n\u00e3o liberta; pelo contr\u00e1rio, produz sempre novas formas de submiss\u00e3o e opress\u00e3o. S\u00f3 o nome de Jesus \u00e9 capaz de libertar o povo, fazendo-o levantar-se e caminhar.

{N}3,{/}11: (11-26) O povo estranha o facto novo que a comunidade crist\u00e3 realiza em nome de Jesus. O facto transforma-se em an\u00fancio fundamental, convidando \u00e0 convers\u00e3o. 
O centro do texto \u00e9 o {C}Nome de Jesus{/}. Quem \u00e9 Jesus? A releitura do Antigo Testamento leva a comunidade a reconhecer e anunciar Jesus como o Santo, o Justo, o Profeta definitivo e o Servo-Messias, que vai transformar radicalmente a condi\u00e7\u00e3o humana, realizando o projecto de Deus e restaurando todas as coisas. Doravante, a ac\u00e7\u00e3o de Deus em favor dos homens realiza-se atrav\u00e9s do Nome de Jesus.

{N}4,{/}1: (1-22) O facto novo provoca uma nova consci\u00eancia no povo e, ao mesmo tempo, a reac\u00e7\u00e3o negativa do Sin\u00e9drio, autoridade suprema na sociedade judaica. A ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 apresentada como um facto a partir de outro facto: a cura do aleijado. O Sin\u00e9drio n\u00e3o pode negar aquilo que todos conhecem. Tamb\u00e9m n\u00e3o pode aceitar que a cura foi realizada em nome de Jesus, que tinha sido condenado e morto por iniciativa do pr\u00f3prio Sin\u00e9drio; este n\u00e3o pode aceitar que Jesus esteja vivo e continue a fazer o bem. Mas, como n\u00e3o h\u00e1 outro modo de explicar a cura e se teme a opini\u00e3o p\u00fablica, resta apenas uma atitude: reprimir os Ap\u00f3stolos, proibindo-os de continuar uma pr\u00e1tica ligada ao Nome de Jesus.

{N}4,{/}23: (23-31) A comunidade crist\u00e3 compreende os factos presentes \u00e0 luz da Palavra de Deus. A persegui\u00e7\u00e3o que se desencadeou contra Jesus atinge agora os seus seguidores que s\u00e3o, como Ele, servos de Deus. A comunidade reconhece que a persegui\u00e7\u00e3o \u00e9 prova de que o seu pr\u00f3prio testemunho \u00e9 aut\u00eantico. Por isso, n\u00e3o pede que a persegui\u00e7\u00e3o termine, mas que Deus lhe d\u00ea for\u00e7as para continuar o an\u00fancio e a pr\u00e1tica de Jesus (curas, sinais e prod\u00edgios). A resposta de Deus \u00e9 o novo Pentecostes.

{N}4,{/}32: (32-37) Lucas vai salientando o crescimento da comunidade (cf. 1,13.15; 2,41.48; 4,4). Agora j\u00e1 \u00e9 uma grande multid\u00e3o, pois o fermento crist\u00e3o penetra e transforma a sociedade. O centro do retrato \u00e9 o esp\u00edrito de comunh\u00e3o que gera conc\u00f3rdia fraterna e partilha dos bens. N\u00e3o se decreta uma lei para fazer uma \u00abcaixa comum\u00bb, uma esp\u00e9cie de \u00abcapital\u00bb de sociedade an\u00f3nima. Pelo contr\u00e1rio, trata-se de partilha livre e consciente, exigida pela necessidade de cada um e voltada para os mais necessitados, de modo a destruir o contraste e a dist\u00e2ncia entre ricos e pobres. O exemplo de Barnab\u00e9 mostra que a comunidade primitiva rompe com o esp\u00edrito de posse e propriedade privada: os bens s\u00e3o destinados ao uso de todos.

{N}5,{/}1: (1-11) A sovinice e ostenta\u00e7\u00e3o, t\u00edpicas de uma sociedade pag\u00e3 baseada no esp\u00edrito de posse, amea\u00e7am infiltrar-se na comunidade e falsificar o sentido de comunh\u00e3o que gera fraternidade e partilha. A comunidade \u00e9 sacramento da presen\u00e7a do Esp\u00edrito: mentir-lhe, \u00e9 mentir ao Esp\u00edrito; falsific\u00e1-la, \u00e9 falsificar o pr\u00f3prio testemunho crist\u00e3o. Para transformar a sociedade, a comunidade precisa de ser coerente e viver a fraternidade e a partilha. Ser crist\u00e3o n\u00e3o admite mediocridade. Pela primeira vez aparece nos Actos o termo Igreja (v. 11).

{N}5,{/}12: (12-16) O terceiro retrato mostra como a ac\u00e7\u00e3o de Jesus ressuscitado continua na pr\u00e1tica da comunidade crist\u00e3. Esta realiza a ac\u00e7\u00e3o libertadora, que consiste em libertar da aliena\u00e7\u00e3o a consci\u00eancia (\u00abesp\u00edritos maus\u00bb). Consequentemente, liberta os corpos oprimidos (doen\u00e7as). A sombra de Pedro relembra a pr\u00f3pria ac\u00e7\u00e3o de Deus que protege o povo no tempo do \u00caxodo. Favorecido, o povo acolhe e adere \u00e0 ac\u00e7\u00e3o da comunidade; \u00aboutros\u00bb (v. 13) temem o poder das autoridades e n\u00e3o se atrevem a pertencer a esse grupo inovador.

{N}5,{/}17: (17-21a) Os dominadores sentem que a pr\u00e1tica da comunidade amea\u00e7a o seu poder, e, por isso, tentam abafar-lhe o testemunho. Mas a mensagem de vida n\u00e3o pode ficar presa. O anjo do Senhor, personificando a ac\u00e7\u00e3o libertadora do Esp\u00edrito, liberta e impulsiona as testemunhas a lutarem exactamente no Templo, terreno dos dominadores.

{N}5,{/}21: (21b-33) As autoridades re\u00fanem-se para decidir sobre a sorte dos Ap\u00f3stolos. Entretanto, estes ensinam o povo, que j\u00e1 est\u00e1 disposto a tomar uma atitude contra os poderosos. Apesar da proibi\u00e7\u00e3o (cf. 4,18), os Ap\u00f3stolos continuam a ensinar em nome de Jesus. Interrogado, Pedro mostra a raz\u00e3o da desobedi\u00eancia: Ressuscitando a Jesus, Deus julga e desautoriza a autoridade do Sin\u00e9drio, que O condenou e matou. A ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 o fundamento da liberdade de testemunhar. 

{N}5,{/}34: (34-42) Para as autoridades, o fen\u00f3meno crist\u00e3o \u00e9 movimento de insurrei\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, como qualquer outro. Gamaliel apresenta o significado profundo do confronto com o movimento crist\u00e3o. Por detr\u00e1s do princ\u00edpio de toler\u00e2ncia e tamb\u00e9m da liberdade, mais acima afirmada por Pedro (4,19s), est\u00e1 em jogo uma op\u00e7\u00e3o radical: obedecer a Deus ou aos homens; adoptar a l\u00f3gica de Deus na liberdade que prov\u00e9m da vit\u00f3ria sobre a morte, ou obedecer \u00e0 l\u00f3gica humana, que tem como fundamento o medo da morte e que se firma no poder repressivo que provoca tortura e morte. Mas o cristianismo vem de Deus, ningu\u00e9m poder\u00e1 det\u00ea-lo...

{N}6,{/}1: (1-7) Surge o primeiro conflito na organiza\u00e7\u00e3o interna. A comunidade inteira \u00e9 convocada para examinar a quest\u00e3o e chegar a uma decis\u00e3o. Note-se que o poder \u00e9 participado, e o problema \u00e9 como tornar eficiente a partilha dos bens em favor dos necessitados (vi\u00favas). O epis\u00f3dio mostra como os minist\u00e9rios v\u00e3o surgindo na Igreja em resposta a necessidades concretas: \u00e9 a necessidade que leva a formar estruturas de servi\u00e7o, e n\u00e3o o contr\u00e1rio.

{N}6,{/}8: (8-15) Est\u00eav\u00e3o personifica o ideal do m\u00e1rtir crist\u00e3o e confirma a promessa de Jesus aos seus disc\u00edpulos (cf. Lc 21,15). Lucas apresenta Est\u00eav\u00e3o como modelo para os crist\u00e3os, que devem escolher o caminho da liberdade corajosa e da fidelidade ao Esp\u00edrito; a liberdade n\u00e3o se intimida nem mesmo diante da repress\u00e3o violenta. Note-se que as acusa\u00e7\u00f5es contra Est\u00eav\u00e3o foram as mesmas dirigidas contra Jesus: subvers\u00e3o da Lei e costumes e aud\u00e1cia de criticar as institui\u00e7\u00f5es e as estruturas consideradas sagradas (Templo). Deste modo, desde Jesus, e passando por Est\u00eav\u00e3o, abre-se uma cadeia de solidariedade que atinge os perseguidos de todos os tempos.

{N}7,{/}1: (1-53) Est\u00eav\u00e3o resume a Hist\u00f3ria de Israel, mostrando o projecto de Deus, que Se alia com o povo para construir a Hist\u00f3ria em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 vida e \u00e0 liberdade. Est\u00eav\u00e3o interrompe o relato ao chegar a David (construtor do Estado) e a Salom\u00e3o (construtor do Templo). Mostra, assim, que Deus {C}quer um povo{/} em cont\u00ednua marcha hist\u00f3rica em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 vida plena, e {C}n\u00e3o um estado{/} preso por um aparelho que explora, oprime e paralisa o povo. Por outro lado, Deus n\u00e3o est\u00e1 localizado e fechado num templo, nem \u00e9 manipulado como \u00eddolo para legitimar uma ordem social injusta. Deus est\u00e1 presente na vida e na Hist\u00f3ria, caminhando com o povo (a Tenda). 
A Lei de Mois\u00e9s era palavra de vida, mas transformou-se em palavra de morte, quando Israel deixou de ser povo aberto e se transformou em estado nacional fechado. Deus n\u00e3o quer ser confinado dentro das barreiras de uma na\u00e7\u00e3o.
Est\u00eav\u00e3o transforma a sua defesa em acusa\u00e7\u00e3o contra os seus pr\u00f3prios ju\u00edzes: estes n\u00e3o passam de autoridades que manipulam o Templo para legitimar um Estado que oprime o povo. Se fossem fi\u00e9is \u00e0 Lei, teriam reconhecido Jesus como o Justo e o Profeta como Mois\u00e9s, e n\u00e3o O teriam assassinado.

{N}7,{/}54: (54-60) A morte de Est\u00eav\u00e3o, o primeiro m\u00e1rtir, relembra a morte de Jesus (cf. Lc 23,34.46), pois o disc\u00edpulo n\u00e3o est\u00e1 acima do Mestre (Lc 6,40). Atrav\u00e9s da morte das suas testemunhas, Jesus continua a exercer o julgamento como Filho do Homem (cf. Mt 26,64; Dn 7,13). Dizendo que Est\u00eav\u00e3o{C} {/}\u00abadormeceu\u00bb, o autor insinua a ressurrei\u00e7\u00e3o.

{N}8,{/}1: (1-4) A morte de Est\u00eav\u00e3o \u00e9 o pavio da persegui\u00e7\u00e3o, que agora se torna acirrada, penetrando nas casas, que eram o lugar de reuni\u00e3o da comunidade primitiva. Mas, ao inv\u00e9s de abafar o Evangelho, a persegui\u00e7\u00e3o faz com que se difunda cada vez mais.

{N}8,{/}5: (5-8) O autor apresenta Filipe como exemplo da evangeliza\u00e7\u00e3o que se propaga a partir de Jerusal\u00e9m. A miss\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 mostrada nos mesmos moldes previstos pelo Evangelho: an\u00fancio do caminho de Jesus Cristo e ac\u00e7\u00e3o que desaliena os homens (expuls\u00e3o dos dem\u00f3nios), possibilitando que se tornem respons\u00e1veis pela pr\u00f3pria caminhada (cura da paralisia). O resultado \u00e9 a alegria trazida pela Boa Not\u00edcia.

{N}8,{/}9: (9-25) Sim\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m que busca prest\u00edgio a todo o custo, recorrendo \u00e0 venda de ilus\u00f5es que fascinam e alienam o povo. Enquanto outros buscam o baptismo para selar a convers\u00e3o, Sim\u00e3o est\u00e1 interessado em milagres e em comercializar o dom de Deus. Reprovando-o, Pedro lembra a cena de Jesus a expulsar os comerciantes do Templo (cf. Lc 19,45ss). O texto \u00e9 uma verdadeira condena\u00e7\u00e3o de qualquer com\u00e9rcio do sagrado. O que Deus d\u00e1 gratuitamente, deve ser distribu\u00eddo gratuitamente.
A miss\u00e3o de Pedro e Jo\u00e3o na Samaria \u00e9 reconhecer a nova comunidade como parte integrante da Igreja. A imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os com o dom do Esp\u00edrito Santo mostra que as comunidades crist\u00e3s nascem sob o impulso do Esp\u00edrito Santo.

{N}8,{/}26: (26-40) A convers\u00e3o de um eunuco et\u00edope mostra que a f\u00e9 crist\u00e3 quebra todas as barreiras, tanto raciais (o et\u00edope \u00e9 negro) como nacionais (ele \u00e9 estrangeiro), tanto sociais (trata-se de um escravo) como religiosas (o juda\u00edsmo n\u00e3o permitia que uma pessoa mutilada pertencesse \u00e0 comunidade, cf. Dt 23,2). Al\u00e9m disso, o epis\u00f3dio mostra como se realizava uma inicia\u00e7\u00e3o na Igreja primitiva: encontro, an\u00fancio, catequese, baptismo. De um lado, as pessoas que buscam algo ou algu\u00e9m que lhes d\u00ea sentido para a vida; do outro, o mission\u00e1rio obedece ao Esp\u00edrito, que lhe indica o momento e o lugar oportuno para esclarecer quem as pessoas buscam e para fazer o grande an\u00fancio. N\u00e3o basta ler e estudar a Sagrada Escritura. \u00c9 necess\u00e1rio que algu\u00e9m abra a perspectiva da f\u00e9 para mostrar que a B\u00edblia, espelho da experi\u00eancia humana, \u00e9 o an\u00fancio de Jesus Cristo (cf. Lc 4,16-21; 24,25-27). O rito do baptismo \u00e9 o sinal que exprime a aceita\u00e7\u00e3o de que Jesus \u00e9 o novo sentido para a vida do baptizado.

{N}9,{/}1: (1-19a) O relato apresenta um contraste: de perseguidor ferrenho, Paulo \u00e9 chamado para ser um Ap\u00f3stolo destemido. Na sua convers\u00e3o, a iniciativa \u00e9 do pr\u00f3prio Jesus. Note-se que o texto identifica a pessoa de Jesus morto e ressuscitado com a vida e o testemunho das comunidades que Paulo persegue (\u00abporque {C}Me{/} persegues?\u00bb): Paulo \u00e9 chamado \u00e0 convers\u00e3o e \u00e0 miss\u00e3o pelo Jesus que est\u00e1 vivo na comunidade. Essa convers\u00e3o \u00e9 um processo de morte e ressurrei\u00e7\u00e3o (v. 9: \u00abtr\u00eas dias\u00bb); morte que o desestrutura da vis\u00e3o antiga (queda e cegueira), e o contacto com a comunidade (Ananias), que o ressuscita, dando-lhe o Esp\u00edrito, para que possa testemunhar o Cristo vivo. A palavra do Senhor mostra o programa da miss\u00e3o: Paulo vai ser Ap\u00f3stolo entre os pag\u00e3os, e o seu testemunho causar-lhe-\u00e1 muito sofrimento. A respeito do termo {C}Caminho,{/} cf. nota em 24,1-21.

{N}9,{/}19: (19b-25) A primeira actividade do rec\u00e9m-convertido caracteriza-se por um testemunho apaixonado e corajoso sobre Jesus como Filho de Deus. Esse testemunho, por\u00e9m, provoca confus\u00e3o entre os ex-colegas e uma reac\u00e7\u00e3o violenta. De perseguidor, Paulo torna-se perseguido; e isto \u00e9 sinal da autenticidade do seu testemunho.

{N}9,{/}26: (26-30) O convertido enfrenta, al\u00e9m disso, a desconfian\u00e7a da comunidade, \u00e0 qual come\u00e7a a pertencer. Mas algu\u00e9m da comunidade apresenta um argumento irrefut\u00e1vel que cria a solidariedade para com o rec\u00e9m-convertido: o testemunho corajoso.

{N}9,{/}31: Mais um dos costumeiros sum\u00e1rios de Lucas, com uma retrospectiva de todas as comunidades crist\u00e3s. Mencionando as tr\u00eas regi\u00f5es da Palestina, Lucas salienta que a Igreja se estabelece em todos os lugares do antigo Israel. A Igreja \u00e9 o conjunto das comunidades. A f\u00e9 em Jesus e a for\u00e7a do Esp\u00edrito s\u00e3o as duas fontes da vida da Igreja.

{N}9,{/}32: (32-43) Pedro personifica a actividade da Igreja, atrav\u00e9s da qual Jesus continua vivo e actuante no meio dos homens (cf. Lc 5,17-26; 8,40-56). A Igreja realiza uma ac\u00e7\u00e3o que liberta os homens da paralisia e da morte: isso faz com que eles se convertam e acreditem no Senhor, expandindo cada vez mais o c\u00edrculo da vida e do testemunho crist\u00e3o. Dizendo que Pedro est\u00e1 hospedado na casa de um curtidor, Lucas prepara o relato de Act 10, pois curtir peles era profiss\u00e3o desprez\u00edvel e reservada aos pag\u00e3os.

{N}9,{/}10: (10-14) At\u00e9 aqui, a Igreja cresce e espalha-se em ambiente judaico, ainda ligada \u00e0s observ\u00e2ncias e pr\u00e1ticas judaicas. Daqui em diante, o fermento crist\u00e3o come\u00e7a a espalhar-se em ambiente pag\u00e3o. Surge agora a quest\u00e3o: at\u00e9 onde os costumes judaicos s\u00e3o parte essencial da f\u00e9 crist\u00e3? At\u00e9 que ponto os elementos culturais podem criar obst\u00e1culos \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o? Pouco a pouco, avoluma-se a controv\u00e9rsia, que vai provocar em Jerusal\u00e9m o primeiro Conc\u00edlio da Igreja (Act 15).

{N}10,{/}1: (1-33) Cesareia est\u00e1 na fronteira da terra judaica com o mundo pag\u00e3o. Fronteira que, na verdade, separa mundos e mentalidades. O judeu era limitado por dois grandes tabus culturais: a lei da pureza, que impedia comer certos alimentos (cf. Lv 11), e a lei que proibia misturar-se com pag\u00e3os, igualmente considerados profanos e impuros (v. 28). Temos aqui a queda desses tabus; se fossem conservados, impediriam a Igreja, nascida em ambiente judaico, de se expandir pelo mundo pag\u00e3o. O pr\u00f3prio Deus destr\u00f3i a barreira entre os homens, porque quer unir a todos no \u00fanico povo do seu Filho (vv. 34-35). A Igreja, portanto, deve distinguir entre o que \u00e9 ess\u00eancia do Evangelho e o que pertence a determinado tempo ou cultura. Uma ac\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria que confundisse o Evangelho com particularismos culturais n\u00e3o seria evangeliza\u00e7\u00e3o libertadora, mas coloniza\u00e7\u00e3o dominadora.

{N}10,{/}34: (34-43) O texto reflecte a ess\u00eancia da catequese primitiva. Na estrutura dessa catequese podemos ver a estrutura dos actuais evangelhos escritos; estes n\u00e3o s\u00e3o mais do que a cristaliza\u00e7\u00e3o da catequese realizada em comunidades particulares. 
O ponto de partida da evangeliza\u00e7\u00e3o e da catequese \u00e9 o reconhecimento de que o povo de Deus \u00e9 formado por todos aqueles que O respeitam e praticam a sua vontade, ainda que de forma inconsciente e an\u00f3nima. \u00c9 essa pr\u00e1tica da justi\u00e7a que a evangeliza\u00e7\u00e3o visa descobrir, fazer crescer e educar, mostrando tudo o que Deus realizou em favor dos homens atrav\u00e9s de Jesus Cristo. Note-se que toda a actividade de Jesus est\u00e1 resumida numa frase que define o programa da ac\u00e7\u00e3o crist\u00e3: fazer o bem e curar todos os que est\u00e3o dominados pelo diabo. Por outras palavras, trata-se de despertar rela\u00e7\u00f5es justas entre os homens, a fim de que ven\u00e7am a aliena\u00e7\u00e3o e construam uma sociedade voltada para a vida.

{N}10,{/}44: (44-48) Este \u00e9 o Pentecostes dos pag\u00e3os (cf. Act 2,1-12). Note-se que os pag\u00e3os recebem o Esp\u00edrito ao ouvirem a Palavra; isso comprova que eles j\u00e1 a aceitaram e se comprometeram com o Evangelho. A ac\u00e7\u00e3o de Deus precede o pr\u00f3prio rito do baptismo, que \u00e9 sinal vis\u00edvel da perten\u00e7a ao povo de Jesus Cristo.

{N}11,{/}1: (1-18) A Igreja de Jerusal\u00e9m estranha e critica a atitude de Pedro. Este relata o que fizera e presenciara, terminando com o desafio:{C} {/}\u00abQuem seria eu para me opor \u00e0 ac\u00e7\u00e3o de Deus?\u00bb A Igreja tamb\u00e9m deve ser evangelizada, para se abrir e aceitar que grupos de origens e costumes diferentes passem a pertencer ao povo de Deus. 

{N}11,{/}19: (19-26) Antioquia, uma das cidades mais importantes do Imp\u00e9rio Romano, tinha 500.000 habitantes. A evangeliza\u00e7\u00e3o dirigiu-se primeiro aos judeus e, com a vinda de alguns crist\u00e3os de Chipre e de Cirene, estende-se tamb\u00e9m aos gregos. A nova Igreja nasce ligada \u00e0 Igreja-m\u00e3e de Jerusal\u00e9m, gra\u00e7as ao envio de Barnab\u00e9. Ao lado de Jerusal\u00e9m, Antioquia ser\u00e1 centro importante. E Lucas frisa isso, lembrando que foi l\u00e1 que apareceu pela primeira vez o nome{C} {/}\u00abcrist\u00e3os\u00bb.

{N}11,{/}27: (27-30) Os gregos de Antioquia pertenciam \u00e0 classe alta e m\u00e9dia; muitos deles converteram-se \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3. Catequizados por Barnab\u00e9, que desde o in\u00edcio vivera o esp\u00edrito de partilha (cf. Act 4, 36-37), eles tamb\u00e9m v\u00e3o partilhar as suas posses com as comunidades carentes da Judeia. Note-se tamb\u00e9m: n\u00e3o s\u00f3 dentro de uma comunidade, mas entre as v\u00e1rias comunidades se estabelece solidariedade e comunh\u00e3o a n\u00edvel prof\u00e9tico e econ\u00f3mico.

{N}12,{/}1: (1-25) O epis\u00f3dio apresenta o \u00e1pice e final da miss\u00e3o de Pedro no livro dos Actos. Marca tamb\u00e9m o fim da primeira etapa da Hist\u00f3ria da Igreja centralizada em Jerusal\u00e9m e no mundo judaico. A inten\u00e7\u00e3o de Herodes \u00e9 matar Pedro, como fez com Tiago. O relato lembra de perto a morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. A incredulidade dos irm\u00e3os (v. 15) lembra Lc 24,9-11. Os guardas sofrem a pena reservada ao prisioneiro que deixaram escapar; e a morte de Herodes aparece como puni\u00e7\u00e3o divina, pelo facto de se absolutizar, colocando-se no lugar de Deus. O relato mostra, portanto, que Deus Se solidariza com os pobres que Lhe s\u00e3o fi\u00e9is e Se coloca contra o perseguidor. \u00c9 nesse clima de solidariedade divina que as comunidades crescem e se multiplicam (v. 24).

{N}13,{/}1: (1-3) Come\u00e7a uma nova etapa na Hist\u00f3ria da Igreja: a difus\u00e3o do Evangelho em ambiente pag\u00e3o. A Igreja de Antioquia j\u00e1 se apresenta organizada: fun\u00e7\u00f5es partilhadas e decis\u00f5es tomadas pela assembleia, em clima de ora\u00e7\u00e3o e discernimento, clima referendado pelo Esp\u00edrito Santo. A miss\u00e3o n\u00e3o nasce por iniciativa de indiv\u00edduos, mas a partir de uma comunidade cheia de vida, que escolhe e designa indiv\u00edduos para a miss\u00e3o.

{N}13,{/}4: (4-12) A magia \u00e9 um artif\u00edcio que o homem usa para manipular espiritualmente a realidade. Elimas \u00e9 chamado filho do diabo (aquele que divide), porque quer impedir a for\u00e7a do Evangelho e cria obst\u00e1culos para a convers\u00e3o do proc\u00f4nsul. Mas o Evangelho \u00e9 for\u00e7a de Deus: vence a magia alienadora e liberta o homem, para viver o caminho de Jesus Cristo.

{N}13,{/}13: (13-43) O primeiro discurso de Paulo reflecte a estrutura da sua catequese (comparar com a catequese de Pedro em Act 10,34-43). A ideia-chave \u00e9 a {C}salva\u00e7\u00e3o,{/} fruto da ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. A Hist\u00f3ria de Israel, conduzida por Deus, \u00e9 um passado de promessas em tens\u00e3o para o seu cumprimento. \u00c9 em Jesus que Deus as cumpre, transformando a Hist\u00f3ria passada num presente que antecipa todo o futuro. Embora conhecendo as promessas, as autoridades de Israel rejeitaram Jesus e mataram-n'O. Deus, por\u00e9m, ressuscitou-O, tornando-O salvador de todos os homens. \u00c9 o que as Escrituras anunciam e os Ap\u00f3stolos testemunham. A profiss\u00e3o de f\u00e9 expressa nessa catequese n\u00e3o \u00e9 teoria abstracta; \u00e9 experi\u00eancia profundamente ligada \u00e0 Hist\u00f3ria, onde se revela o acontecimento salv\u00edfico e onde Deus nos chama para construirmos o futuro libertador antecipado em Jesus Ressuscitado.

{N}13,{/}44: (44-52) Os mission\u00e1rios crist\u00e3os est\u00e3o entre dois grupos: os {C}pag\u00e3os,{/} que os acolhem com entusiasmo e alegria, e os {C}judeus,{/} que t\u00eam ci\u00fames, os recusam e reagem com viol\u00eancia. \u00c9 um momento hist\u00f3rico para o cristianismo: a passagem do mundo judaico para o mundo dos pag\u00e3os. E a espada de dois gumes que divide os grupos j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a Lei, mas a Palavra de Deus, isto \u00e9, o an\u00fancio da salva\u00e7\u00e3o; este exige ser acolhido para que possa introduzir os homens na vida inaugurada por Jesus Ressuscitado. A experi\u00eancia crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 apenas uma variante reformista do juda\u00edsmo.

{N}14,{/}1: (1-7) Os mission\u00e1rios agora est\u00e3o entre outros dois grupos: {C}os que acreditam{/} e {C}os que n\u00e3o acreditam,{/} tanto judeus como pag\u00e3os. Acolhimento e recusa da Palavra acontecem nos dois grupos. A proposta crist\u00e3 feita em termos claros e acompanhada de uma pr\u00e1tica (sinais e prod\u00edgios) provoca situa\u00e7\u00f5es de crise e divis\u00e3o, pois o an\u00fancio n\u00e3o suporta neutralidade e exige decis\u00e3o semelhante \u00e0 dos ap\u00f3stolos que n\u00e3o cedem, mesmo com risco de vida: eles continuam a anunciar corajosamente, com franqueza e com a liberdade que prov\u00e9m do Esp\u00edrito. Por isso, s\u00e3o perseguidos por aqueles que recusam a mensagem crist\u00e3.

{N}14,{/}8: (8-18) O an\u00fancio do Evangelho tem como finalidade fazer com que o homem se levante e caminhe (cura da paralisia). Mas os pag\u00e3os n\u00e3o entendem o prod\u00edgio como sinal e tomam os evangelizadores como se fossem divindades. O epis\u00f3dio \u00e9 ocasi\u00e3o para o an\u00fancio fundamental no meio de uma sociedade pag\u00e3: deixar a idolatria, a absolutiza\u00e7\u00e3o de coisas e pessoas, e reconhecer o Deus vivo e criador que, embora sendo \u00fanico absoluto, est\u00e1 pr\u00f3ximo e beneficia a todos.

{N}14,{/}19: (19-28) Porque \u00e9 que as comunidades crist\u00e3s s\u00e3o perseguidas? Porque o Evangelho por elas vivido e testemunhado \u00e9 o an\u00fancio do Reino, e prop\u00f5e uma liberta\u00e7\u00e3o da idolatria que escraviza e sacrifica o povo, e quer instaurar uma sociedade baseada na justi\u00e7a, na liberdade e na vida. A sociedade injusta, alicer\u00e7ada nos \u00eddolos da riqueza e do poder, sente-se desmascarada por esse testemunho e reage de todos os modos, tentando reprimir e anular a novidade que amea\u00e7a destru\u00ed-la. Os crist\u00e3os devem perseverar na f\u00e9, isto \u00e9, manter a autenticidade do testemunho, vigiando para que o fermento evang\u00e9lico n\u00e3o seja deturpado nem falsamente assimilado pela estrutura da sociedade injusta. Cf. ainda nota em Rm 5,1-11.

{N}15,{/}1: (1-5) Enraizada no ambiente judaico e pag\u00e3o, a Igreja enfrenta o primeiro grande conflito. Os crist\u00e3os provenientes do juda\u00edsmo continuavam a praticar a circuncis\u00e3o e a observar as prescri\u00e7\u00f5es da Lei. A evangeliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o obrigava os pag\u00e3os convertidos a esses costumes judaicos. Contudo, alguns de Jerusal\u00e9m (fariseus convertidos - cf. v. 5) come\u00e7aram a ensinar que tamb\u00e9m os pag\u00e3os, para se salvarem, deviam observar as mesmas coisas que os judeus convertidos. Por outras palavras, primeiro deviam ser{C} {/}\u00abjudaizados\u00bb e depois cristianizados. A quest\u00e3o era muito s\u00e9ria: Os costumes judaicos pertencem \u00e0 ess\u00eancia da mensagem crist\u00e3? At\u00e9 que ponto a ac\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria da Igreja transmite o Evangelho, ou confunde o Evangelho com determinado contexto sociocultural, impondo a um povo a cosmovis\u00e3o de outro? O Evangelho \u00e9 fermento libertador, e n\u00e3o superestrutura que aprisiona e perverte a alma de um povo.

{N}15,{/}6: (6-12) O discurso de Pedro \u00e9 fundamental e cont\u00e9m a orienta\u00e7\u00e3o conciliar. Pedro parte de factos concretos: ele foi o primeiro evangelizador dos pag\u00e3os e compreendeu que Deus n\u00e3o faz distin\u00e7\u00e3o entre pag\u00e3o e judeu (cf. Act 10,34.44-47), mas concede a ambos o mesmo Esp\u00edrito Santo que leva o homem a seguir Jesus. Depois, Pedro salienta que os costumes judaicos s\u00e3o um jugo, isto \u00e9, um elemento cultural que n\u00e3o deve ser imposto aos pag\u00e3os, pois o que salva a todos \u00e9 a gra\u00e7a que leva \u00e0 f\u00e9 em Jesus Cristo. Barnab\u00e9 e Paulo refor\u00e7am o testemunho de Pedro. 

{N}15,{/}13: (13-21) Tiago \u00e9 a maior autoridade na Igreja de Jerusal\u00e9m. Falando aos judeo-crist\u00e3os ele refor\u00e7a a afirma\u00e7\u00e3o de Pedro e fundamenta-a no Antigo Testamento. Os vv. 20-21 (e igualmente o v. 29) faltam em textos antigos; alguns estudiosos acham que foram acrescentados posteriormente ao livro ou modificados. Parece que Lucas juntou duas reuni\u00f5es diferentes num s\u00f3 relato. Primeiro, houve uma, onde n\u00e3o se fizeram restri\u00e7\u00f5es e na qual se dava plena liberdade \u00e0s Igrejas dos pag\u00e3os convertidos (cf. Gl 2,1-10). Depois apareceram dificuldades pastorais em comunidades onde havia judeus e pag\u00e3os. Os judeus aceitavam os outros como irm\u00e3os em Cristo, mas n\u00e3o comiam com eles para n\u00e3o ficarem impuros (cf. Gl 2,11ss). Ent\u00e3o Tiago decretou essas restri\u00e7\u00f5es para as Igrejas de judeus e pag\u00e3os.

{N}15,{/}22: (22-29) A carta conciliar n\u00e3o tem car\u00e1cter dogm\u00e1tico; \u00e9 apenas uma orienta\u00e7\u00e3o pastoral. Quanto \u00e0s restri\u00e7\u00f5es do v. 29, cf. nota anterior.

{N}15,{/}30: (30-35) Lucas salienta o clima de alegria na assembleia ao tomar conhecimento da decis\u00e3o conciliar. Doravante, n\u00e3o existe mais obst\u00e1culo para a expans\u00e3o da Igreja em ambiente pag\u00e3o. O v. 34 falta nos melhores manuscritos.

{N}15,{/}36: (36-41) Os conflitos fazem-se sentir tamb\u00e9m entre os chefes da Igreja. Todavia, n\u00e3o chegam a paralisar; limitam-se a diversificar campos e estilos de pastoral. A caracter\u00edstica b\u00e1sica da ac\u00e7\u00e3o pastoral consiste em dar assist\u00eancia \u00e0s comunidades, a fim de as confirmar, estimulando-as a perseverar na f\u00e9 (vv. 36.41; cf. 14,22).

{N}16,{/}1: (1-5) O testemunho da comunidade foi decisivo para que Tim\u00f3teo pertencesse ao grupo mission\u00e1rio. Sem a circuncis\u00e3o, ele n\u00e3o poderia exercer o minist\u00e9rio entre os judeus, pois os primeiros contactos do programa mission\u00e1rio ainda se prendiam \u00e0s sinagogas.

{N}16,{/}6: (6-10) Segundo o livro dos Actos, a ac\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria \u00e9 dirigida pelo Esp\u00edrito Santo, que est\u00e1 presente e age atrav\u00e9s da comunidade. A vis\u00e3o de Paulo cont\u00e9m o pedido dos europeus para serem evangelizados (a Maced\u00f3nia fica na Europa). 

{N}16,{/}11: (11-15) Filipos \u00e9 a primeira cidade da Europa a receber o Evangelho (cf. Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 carta aos Filipenses). Em Filipos n\u00e3o havia sinagoga, tanto que os judeus faziam as suas reuni\u00f5es perto do rio.

{N}16,{/}16: (16-40) A jovem era oprimida (escrava) e explorada pelos seus patr\u00f5es (lucro). Paulo liberta-a. E os patr\u00f5es, para se vingarem, entregam-no \u00e0 justi\u00e7a, alegando motivos pol\u00edticos. O epis\u00f3dio lembra a pr\u00e1tica libertadora de Jesus, que O levou \u00e0 paix\u00e3o (a\u00e7oites), morte (pris\u00e3o) e ressurrei\u00e7\u00e3o (liberta\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o). O terremoto \u00e9 sinal da interven\u00e7\u00e3o de Deus que liberta os oprimidos (presos) e aquele que serve ao opressor (carcereiro). O que interessa a Paulo \u00e9 a justi\u00e7a, e n\u00e3o apenas ser solto. Em geral os opressores n\u00e3o assumem a responsabilidade pelos seus actos de repress\u00e3o.

{N}17,{/}1: (1-15) Al\u00e9m de exercer consider\u00e1vel influ\u00eancia sobre o povo, os judeus gozavam de toler\u00e2ncia por parte do poder romano. Eles atacam por inveja, pois sentem que est\u00e3o a perder o prest\u00edgio entre o povo. Por outro lado, querem a todo o custo diferenciar-se do fen\u00f3meno crist\u00e3o, com medo de atra\u00edrem sobre si a antipatia do poder romano (cf. Jo 11,47-50). At\u00e9 agora, os crist\u00e3os n\u00e3o tinham manifestado claramente as implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do an\u00fancio do Evangelho e, principalmente, a cr\u00edtica contra o absolutismo romano. Os judeus, a fim de reprimir os crist\u00e3os, mostram essa incompatibilidade radical entre a proposta do Evangelho e o sistema pol\u00edtico dominante (v. 7; cf. Lc 23,2). Entretanto, a comunidade rel\u00ea o Antigo Testamento \u00e0 luz do an\u00fancio de Jesus e organiza-se para defender os seus chefes.

{N}17,{/}16: (16-34) A perman\u00eancia de Paulo em Atenas serve de ocasi\u00e3o para Lucas mostrar a din\u00e2mica do an\u00fancio evang\u00e9lico dentro de uma sociedade idol\u00e1trica e intelectualista. Primeiro, o mission\u00e1rio observa o ambiente, entrando em contacto com o povo simples (pra\u00e7as p\u00fablicas) e com as pessoas mais influentes (fil\u00f3sofos), e fazendo uma provoca\u00e7\u00e3o. Interpelado, o mission\u00e1rio come\u00e7a a explicitar o seu an\u00fancio. \u00c9 importante partir da observa\u00e7\u00e3o da realidade: Paulo menciona a inscri\u00e7\u00e3o de um altar que ele viu (v. 23) e mostra que o Deus desconhecido \u00e9 o Deus verdadeiro que d\u00e1 a vida (vv. 23-28); depois cita um poeta conhecido (v. 28) para criticar a idolatria que aliena o homem (v. 29). O \u00e1pice do an\u00fancio \u00e9 o julgamento, isto \u00e9, a manifesta\u00e7\u00e3o da verdade. O Deus vivo manifestou-Se em Jesus Cristo. Para ser da ra\u00e7a do Deus verdadeiro, o homem deve confrontar-se com Jesus Cristo, reconhecendo o Deus verdadeiro (liberta\u00e7\u00e3o da idolatria) e tornando-se homem verdadeiro (liberta\u00e7\u00e3o da auto-sufici\u00eancia e da aliena\u00e7\u00e3o). \u00c9 ent\u00e3o que o julgamento se realiza: alguns rejeitam e endurecem-se na pr\u00f3pria auto-sufici\u00eancia (v. 32); outros aceitam e convertem-se (v. 34).

{N}18,{/}1: (1-11) A funda\u00e7\u00e3o da comunidade de Corinto foi uma das obras mais importantes de Paulo e marcou o caminho do cristianismo para o Ocidente (cf. Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 primeira carta aos Cor\u00edntios). Trata-se de uma nova etapa: o Ap\u00f3stolo rompe com os judeus e dirige-se aos pag\u00e3os; a comunidade nasce na casa de um pag\u00e3o e n\u00e3o na sinagoga. A vis\u00e3o mostra que a infidelidade do povo hebreu d\u00e1 lugar a{C} {/}\u00abum povo numeroso\u00bb, formado de pag\u00e3os convertidos, e que nenhuma oposi\u00e7\u00e3o poder\u00e1 anular o projecto de Deus. De Corinto, Paulo escreveu as duas cartas aos Tessalonicenses, que s\u00e3o os escritos mais antigos do Novo Testamento.

{N}18,{/}12: (12-17) Os judeus atacam novamente (cf. nota em Act 17,1-15). Para lan\u00e7arem os crist\u00e3os contra o poder romano, fazem uma acusa\u00e7\u00e3o amb\u00edgua, que lembra o processo contra Jesus: Roma reconhecia a Lei judaica como l\u00edcita. A subvers\u00e3o contra a Lei judaica seria, portanto, subvers\u00e3o pol\u00edtica.

{N}18,{/}18: (18-23) Enquanto os judeus o acusam de ir contra a Lei, Paulo faz uma promessa que terminar\u00e1 de cumprir exactamente em Jerusal\u00e9m (cf. Nm 6,13-21). O Ap\u00f3stolo observa fielmente a Lei e a religi\u00e3o judaica para defender a liberdade dos pag\u00e3os em rela\u00e7\u00e3o a ela (cf. Act 21,15-26). \u00c1quila e Priscila formam o n\u00facleo da futura comunidade de \u00c9feso.

{N}18,{/}24: (24-28) Apolo \u00e9 orador persuasivo e realiza bom trabalho, demonstrando que Jesus \u00e9 o Messias. Embora seja muito culto e tenha muito a dar, a sua base crist\u00e3 \u00e9 incompleta, e precisa de ser instru\u00eddo por membros da comunidade. De \u00c9feso, vai para Corinto, onde futuramente haver\u00e1 problemas (cf. 1Cor 3,5-10).

{N}19,{/}1: (1-10) \u00c9feso \u00e9 o terceiro centro de difus\u00e3o do cristianismo, depois de Jerusal\u00e9m e Antioquia. Lucas, narrando o epis\u00f3dio dos{C} {/}\u00abdisc\u00edpulos\u00bb que s\u00f3 haviam recebido o baptismo de Jo\u00e3o, deixa bem claro um ponto fundamental: a maturidade da f\u00e9 crist\u00e3 s\u00f3 se realiza atrav\u00e9s da ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, que se faz presente pelo baptismo conferido em Nome do Senhor Jesus. A sinagoga deixa de ser o {C}espa\u00e7o{/} da prega\u00e7\u00e3o; essa independ\u00eancia \u00e9 necess\u00e1ria para maior liberdade e tranquilidade do an\u00fancio do Reino. Note-se ainda que {C}Reino de Deus{/} e {C}Caminho{/} se identificam.

{N}19,{/}11: (11-20) Lucas mostra que a for\u00e7a salv\u00edfica (v. 20) do Evangelho que liberta os homens n\u00e3o \u00e9 magia. Pelo contr\u00e1rio, o Evangelho desmascara a arte m\u00e1gica, que faz justamente o inverso: aliena o homem, inclusive aqueles que a praticam (vv. 15-16), especialmente porque nela h\u00e1 interesses econ\u00f3micos (v. 19). O que provoca a verdadeira liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 a f\u00e9, e n\u00e3o os actos m\u00e1gicos.

{N}19,{/}21: (21-22) Estes vers\u00edculos caracterizam-se por uma grande semelhan\u00e7a com a decis\u00e3o de Jesus em subir a Jerusal\u00e9m, onde se concretizaria a sua paix\u00e3o (cf. Lc 9,51). Come\u00e7a a paix\u00e3o de Paulo, no seu seguimento de Jesus Cristo.

{N}19,{/}23: (23-41) Porque \u00e9 que o Caminho, isto \u00e9, a vida crist\u00e3, provoca tumulto? (v. 23). O livro dos Actos indica, de modo impl\u00edcito, as implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas da mensagem crist\u00e3, mas acentua o relacionamento do Evangelho com a quest\u00e3o econ\u00f3mica. As comunidades crist\u00e3s procuram viver um esp\u00edrito de partilha, que se concretiza na socializa\u00e7\u00e3o dos bens (cf. 2,44-45; 4,32-37). Como consequ\u00eancia, torna-se cada vez mais claro que os interesses econ\u00f3micos baseados no lucro s\u00e3o idolatria e se contrap\u00f5em ao Evangelho (cf. 8,18-23; 16,16-24; 19,13-19). De facto o lucro rouba ao povo os bens necess\u00e1rios e acumula-os para formar o \u00eddolo do capital, manejado por uma minoria privilegiada. \u00c9 neste contexto teol\u00f3gico que se coloca o tumulto causado pelos fabricantes de lembran\u00e7as da deusa \u00c1rtemis.

{N}20,{/}1: (1-6) Paulo permaneceu dois anos e meio em \u00c9feso. A\u00ed esteve preso e, no meio de sofrimentos, escreveu diversas cartas: aos G\u00e1latas, aos Filipenses, a primeira aos Cor\u00edntios, aos Colossenses, a Fil\u00e9mon e aos Ef\u00e9sios (cf. Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 carta aos Ef\u00e9sios). Os companheiros de Paulo, provenientes de diversos lugares, s\u00e3o testemunho da expans\u00e3o e da vitalidade do Evangelho. 

{N}20,{/}7: (7-12) O epis\u00f3dio \u00e9 semelhante a Lc 8,40-56. O{C} {/}\u00abprimeiro dia da semana\u00bb, a \u00abfrac\u00e7\u00e3o do p\u00e3o\u00bb e a ressurrei\u00e7\u00e3o lembram Lc 24. A celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia est\u00e1 relacionada com a ressurrei\u00e7\u00e3o realizada por Paulo: o Senhor Jesus, do qual se celebra a mem\u00f3ria e se anuncia a vinda, est\u00e1 presente na Eucaristia, que d\u00e1 vida e reconforta a comunidade.

{N}20,{/}13: (13-16) O facto de ir a Jerusal\u00e9m para a festa de Pentecostes mostra que Paulo continua a ser fiel observante das tradi\u00e7\u00f5es do juda\u00edsmo (cf. nota em 18,18-23).

{N}20,{/}17: (17-38) O texto soa como testamento espiritual de Paulo, lembrando de perto Jo 14-17. As palavras do Ap\u00f3stolo e os gestos da comunidade s\u00e3o testemunho da vida fraterna que cimenta a comunidade no esp\u00edrito de fam\u00edlia. Os{C} {/}\u00abanci\u00e3os\u00bb convocados s\u00e3o chamados em grego \u00abpresb\u00edteros\u00bb, termo que ainda hoje designa os nossos padres. Mais adiante, Paulo chama-lhes \u00abguardi\u00e3es\u00bb, em grego \u00abep\u00edscopos\u00bb, palavra que est\u00e1 na origem dos nossos Bispos.

{N}21,{/}1: (1-14) No fim da vida, Paulo \u00e9 marcado pela presen\u00e7a do Esp\u00edrito, que lhe vai mostrando o seu caminho, e cuja presen\u00e7a se manifesta atrav\u00e9s dos profetas que anunciam a hora, da qual todos desejariam livrar o Ap\u00f3stolo. A comunidade repete a palavra do Pai-nosso e do Jardim das Oliveiras:{C} {/}\u00abSeja feita a vossa vontade\u00bb. Toda a Igreja participa na paix\u00e3o de Paulo. 

{N}21,{/}15: (15-26) O trabalho de Paulo entre os pag\u00e3os corria o risco de provocar s\u00e9rias divis\u00f5es no meio dos crist\u00e3os. Muitos judeus convertidos ao cristianismo viam na prega\u00e7\u00e3o de Paulo um desprezo das tradi\u00e7\u00f5es judaicas e, por isso, queriam impedir a todo o custo a sua actividade. A sugest\u00e3o de Tiago e dos anci\u00e3os parece uma t\u00e1ctica para enganar os judeo-crist\u00e3os. Na verdade, n\u00e3o \u00e9 uma ast\u00facia, mas um realismo que tenciona preservar a unidade entre as Igrejas provindas do juda\u00edsmo e as novas Igrejas que est\u00e3o surgindo no meio pag\u00e3o. Cf. notas em 18,18-23 e 20,13-16.

{N}21,{/}27: (27-40) A acusa\u00e7\u00e3o dos judeus contra Paulo esclarece mais uma vez as implica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas da doutrina crist\u00e3: substitui o Templo pela f\u00e9 em Cristo, a observ\u00e2ncia da Lei por uma vida guiada pelo Esp\u00edrito, e o nacionalismo judaico por uma fraternidade universal. Cf. notas em 17,1-15 e 18,12-27. A interven\u00e7\u00e3o da autoridade romana e a reac\u00e7\u00e3o da multid\u00e3o realizam a profecia de \u00c1gabo (21,11) e lembram o cen\u00e1rio da Paix\u00e3o de Jesus, muito mais que o da morte de Est\u00eav\u00e3o (cf. Lc 23,18-23).

{N}22,{/}1: (1-21) Com pequenas diferen\u00e7as de pormenor, encontramos em Actos tr\u00eas relatos da convers\u00e3o de Paulo (aqui, em 9,1-9 e em 26,12-23). A insist\u00eancia no facto deve-se a tr\u00eas raz\u00f5es: mostrar que um judeu fiel, instru\u00eddo e at\u00e9 fan\u00e1tico descobriu Jesus como o Messias prometido, e se converteu; mostrar que Paulo \u00e9 Ap\u00f3stolo como os Doze, pois tamb\u00e9m ele teve experi\u00eancia directa do Senhor ressuscitado; justificar a miss\u00e3o de Paulo junto dos pag\u00e3os. O que h\u00e1 de especial no presente relato \u00e9 a men\u00e7\u00e3o de que a miss\u00e3o de Paulo entre os pag\u00e3os foi recebida no pr\u00f3prio Templo. Paulo responde assim aos judeus que o acusam de profanar o Templo, introduzindo a\u00ed um pag\u00e3o.

{N}22,{/}22: (22-30) Diante dos judeus, Paulo defende-se com argumentos de judeu, criticando o nacionalismo religioso fechado para o mundo. Diante do poder romano, apresenta as suas credenciais de cidad\u00e3o romano, criticando a for\u00e7a repressora de um Estado que age arbitrariamente, torturando sem antes verificar a culpa do acusado.

{N}23,{/}1: (1-11) Entregue ao Sin\u00e9drio para apuramento dos factos, Paulo come\u00e7a por desmascarar a hipocrisia do Sumo Sacerdote, chefe pol\u00edtico e religioso. A seguir, testemunha a Ressurrei\u00e7\u00e3o, provocando uma velha pol\u00e9mica que estava no cerne da pr\u00f3pria teologia judaica. Ironicamente o r\u00e9u demonstra a incompet\u00eancia do tribunal que o deveria julgar. O v. 11 abre o \u00faltimo horizonte para o testemunho de Paulo: Roma.

{N}23,{/}12: (12-35) O relato antev\u00ea o processo seguinte. O grupo judaico empenha-se num atentado contra Paulo, sob pena de an\u00e1tema, isto \u00e9, de maldi\u00e7\u00e3o divina. Ao fanatismo desse grupo, Lucas op\u00f5e o comportamento das autoridades romanas que, desde o in\u00edcio, pensam tratar-se apenas de um conflito de opini\u00f5es dentro do juda\u00edsmo. 

{N}24,{/}1: (1-21) No seu discurso, o advogado dos judeus chama ao cristianismo uma seita. Paulo rejeita essa denomina\u00e7\u00e3o, e fala de{C} Caminho{/}. O cristianismo n\u00e3o \u00e9 um amontoado de leis r\u00edgidas, costumes e ritos que identificam um grupo fechado e est\u00e1tico; \u00e9 um processo, um caminho que se realiza na Hist\u00f3ria e constr\u00f3i uma Hist\u00f3ria nova. Para entrar nesse processo, a \u00fanica norma \u00e9 seguir o Caminho de Jesus Cristo, cuja vida e actividade culminou com a ressurrei\u00e7\u00e3o (v. 21). A caracter\u00edstica do crist\u00e3o, portanto, \u00e9 gerar ressurrei\u00e7\u00e3o, fazendo com que todos os homens tenham vida plena em todas as dimens\u00f5es. Esse Caminho vai formando um povo novo, enquanto livra os homens de qualquer tipo de morte. O Cristianismo n\u00e3o se identifica nem mesmo com alguma institui\u00e7\u00e3o, que \u00e9 sempre relativa e s\u00f3 tem sentido enquanto instrumento para esse processo de vida.

{N}24,{/}22: (22-27) Paulo \u00e9 inocente. Continua preso ilegalmente durante dois anos, por causa dos interesses de um poder corrupto. Com efeito, F\u00e9lix, prevendo o fim do mandato, adia o processo, querendo com isso receber dinheiro de Paulo e agradar aos judeus. Al\u00e9m de n\u00e3o se deixar subornar, Paulo age profeticamente, criticando a gan\u00e2ncia e o comportamento conjugal de F\u00e9lix (Drusila deixara o marido para viver com F\u00e9lix). A cena lembra Mc 6,17-20.

{N}25,{/}1: (1-12) Os governadores continuam a{C} {/}\u00ablavar as m\u00e3os\u00bb, como Pilatos no processo de Jesus: preferem omitir-se em quest\u00f5es de justi\u00e7a, a fim de conservar a \u00abpaz submissa\u00bb de um povo dominado. Ciente de que os judeus preparavam uma cilada, Paulo prefere que a sua causa seja julgada directamente pelo imperador Nero! Na verdade Paulo personifica todo o fen\u00f3meno crist\u00e3o que, embora apontado como r\u00e9u pela sociedade injusta, acaba sempre por manifestar a verdade e condenar a injusti\u00e7a dos poderosos. 

{N}25,{/}13: (13-27) A conversa de Festo com o rei Agripa demonstra mais uma vez a inoc\u00eancia de Paulo. As autoridades ainda n\u00e3o perceberam o alcance da quest\u00e3o que envolve judeus e crist\u00e3os: Jesus morreu e ressuscitou (v. 19). Festo acha-se em dificuldades: como encontrar uma acusa\u00e7\u00e3o que justifique a pris\u00e3o prolongada de Paulo e o envio para Roma? \u00c9 dif\u00edcil voltar atr\u00e1s, quando j\u00e1 se deram v\u00e1rios passos na arbitrariedade.

{N}26,{/}1: (1-23) Na autodefesa de Paulo, encontramos o terceiro relato da sua convers\u00e3o. Ele est\u00e1 diante de um rei judeu; por isso argumenta de forma aceit\u00e1vel aos judeus: recorre mais ao Antigo Testamento, apresenta a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus como cumprimento das promessas e como resposta \u00e0 f\u00e9 defendida pelos fariseus; por fim, fundamenta a pr\u00f3pria miss\u00e3o e futuro em cita\u00e7\u00f5es b\u00edblicas. Perante o rei judeu, Paulo mostra, ironicamente, que est\u00e1 a ser acusado por algo que enaltece o povo judeu: \u00e9 dos judeus que vem a salva\u00e7\u00e3o para todos, pois em Jesus \u00e9 que Deus cumpriu todas as promessas.

{N}26,{/}24: (24-32) O audit\u00f3rio \u00e9 simp\u00e1tico, pois n\u00e3o se trata de um julgamento, mas de um interrogat\u00f3rio em busca de uma acusa\u00e7\u00e3o. Paulo \u00e9 inocente, e n\u00e3o perde tempo: transforma a ocasi\u00e3o de autodefesa em an\u00fancio persuasivo que convida \u00e0 convers\u00e3o. O crist\u00e3o transforma todas as ocasi\u00f5es em momentos de an\u00fancio (cf. Lc 21,12-15).

{N}27,{/}1: (1-44) Naquele tempo, a navega\u00e7\u00e3o era perigosa em qualquer esta\u00e7\u00e3o, sobretudo a partir do Outono (o dia do Jejum ca\u00eda no in\u00edcio do Outono: v. 9) e praticamente imposs\u00edvel no Inverno. A viagem talvez seja empreendida por raz\u00f5es econ\u00f3micas: transporte de um carregamento de trigo (v. 38). Essa viagem lembra a aventura de Jonas, e \u00e9 uma esp\u00e9cie de relato de ressurrei\u00e7\u00e3o. Paulo e os seus companheiros escapam \u00e0 morte. A refei\u00e7\u00e3o lembra o rito da Eucaristia e seus efeitos salv\u00edficos. Notem-se as palavras sobre a esperan\u00e7a, tema dominante na parte final do livro. 

{N}28,{/}1: (1-10) O epis\u00f3dio da ilha de Malta faz pensar na promessa de Jesus (cf. Mc 16,18; Lc 10,19). A reac\u00e7\u00e3o dos nativos lembra o epis\u00f3dio de Listra (cf. nota em Act 14,8-18).

{N}28,{/}11: (11-16) Em Roma, Paulo beneficia de um regime especial, a{C} {/}\u00abcust\u00f3dia militar\u00bb: pode morar numa casa, mas com o bra\u00e7o direito sempre preso por uma corrente ao bra\u00e7o esquerdo de um soldado que o vigia.

{N}28,{/}17: (17-31) O programa do livro dos Actos era mostrar o testemunho apost\u00f3lico expandindo-se de Jerusal\u00e9m{C} {/}\u00abat\u00e9 aos extremos da Terra\u00bb (1,8). Com a chegada de Paulo a Roma, Lucas encerra o seu livro. Sendo a metr\u00f3pole-capital do mundo pag\u00e3o, Roma estende-se em todas as direc\u00e7\u00f5es da Terra. Mais uma vez, Paulo prega aos judeus e, perante a resist\u00eancia de muitos, anuncia que o Evangelho se dirige aos pag\u00e3os (v. 28). O cristianismo n\u00e3o \u00e9, portanto, uma seita fechada, como pensavam alguns. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 fermento que provoca oposi\u00e7\u00e3o, pois traz em si o testemunho de Jesus que desmascara e critica a sociedade montada sobre \u00eddolos que exploram, oprimem e alienam os homens (v. 22). As testemunhas podem at\u00e9 ser acorrentadas, mas nem por isso deixam de testemunhar.
O v. 29 falta nos melhores manuscritos.

