{N}1,{/}1: A express\u00e3o \u00abdoze tribos\u00bb mostra que os crist\u00e3os formam a Igreja, o povo da nova Alian\u00e7a. Eles est\u00e3o espalhados no meio dos pag\u00e3os que, em geral, s\u00e3o hostis. A carta procura anim\u00e1-los e sustent\u00e1-los no testemunho.

{N}1,{/}2: (2-4) O crist\u00e3o alegra-se, n\u00e3o por ter prova\u00e7\u00f5es, mas porque elas o ajudam a descobrir o sentido e o valor do testemunho da sua fidelidade a Deus e a Jesus Cristo. A prova\u00e7\u00e3o abala o entusiasmo infantil, rom\u00e2ntico e descomprometido, fazendo com que o crist\u00e3o perceba que a f\u00e9 \u00e9 compromisso que exige s\u00e9rias transforma\u00e7\u00f5es na pessoa e no contexto social em que vive.

{N}1,{/}5: (5-8) A sabedoria \u00e9 o exerc\u00edcio do discernimento, a capacidade de perceber o que \u00e9 mais importante fazer em determinadas situa\u00e7\u00f5es.

{N}1,{/}9: (9-11) A comunidade crist\u00e3 \u00e9 formada de pobres e ricos convertidos. Os pobres devem orgulhar-se da sua condi\u00e7\u00e3o modesta, que os deixa em melhores condi\u00e7\u00f5es para compreender o Evangelho (cf. Mt 5,3;11,25-27). Ao entrar na comunidade, os ricos perdem a sua posi\u00e7\u00e3o social e prest\u00edgio junto dos outros ricos, pois abrem m\u00e3o das suas riquezas para dividir os seus bens com os pobres (cf. Lc 18,18-30; Act 4,32-35).

{N}1,{/}12: (12-15) Para Tiago, \u00e9 blasf\u00e9mia dizer que Deus tenta o homem, pois Deus n\u00e3o quer levar ningu\u00e9m a cometer pecado. A tenta\u00e7\u00e3o nasce dentro do pr\u00f3prio homem, continuamente fascinado pelo desejo de auto-sufici\u00eancia, que lhe promete poder, riqueza e prazeres. Levado \u00e0 pr\u00e1tica, esse desejo contraria o projecto de vida de Deus na Hist\u00f3ria e, por isso, torna-se pecado, acarretando todas as formas de morte.

{N}1,{/}16: (16-18) Deus \u00e9 autor apenas do bem e daquilo que leva ao bem. Jamais conduzir\u00e1 algu\u00e9m \u00e0 morte, pois o seu projecto \u00e9 dar vida, e vida em plenitude. O supremo bem realizado por Deus \u00e9 gerar os homens para a vida nova, comunicada pelo Evangelho (= Palavra da verdade). 

{N}1,{/}19: (19-25) Tiago chama a aten\u00e7\u00e3o para a ess\u00eancia da vida crist\u00e3: ouvir a palavra do Evangelho e p\u00f4-la em pr\u00e1tica. A f\u00e9 n\u00e3o se resume em afirma\u00e7\u00f5es que podem ser ouvidas e decoradas; ela \u00e9 compromisso que leva a tomar atitudes concretas e cheias de consequ\u00eancias. Centrado no mandamento do amor, o Evangelho \u00e9 a lei da liberdade, pois o amor n\u00e3o se restringe a exigir a obedi\u00eancia a uma lista de obriga\u00e7\u00f5es; \u00e9 comportamento criativo, que sabe dar resposta libertadora e construtiva em qualquer situa\u00e7\u00e3o.

{N}1,{/}26: (26-27) Temos aqui um dos pontos centrais do Novo Testamento: o culto que se pede aos crist\u00e3os n\u00e3o se resume em cerim\u00f3nias ou em saber f\u00f3rmulas de cor. O verdadeiro culto \u00e9 a entrega de si mesmo a Deus para viver a justi\u00e7a na pr\u00e1tica: n\u00e3o difamar o pr\u00f3ximo (l\u00edngua); socorrer e defender os pobres e marginalizados (\u00f3rf\u00e3o e vi\u00fava), n\u00e3o comprometer-se com a estrutura injusta da sociedade (corrup\u00e7\u00e3o do mundo). 

{N}2,{/}1: (1-4) O favoritismo, que estabelece diferen\u00e7as entre as pessoas, op\u00f5e-se \u00e0 f\u00e9 no Senhor Jesus Cristo. De facto, para o crist\u00e3o existe uma s\u00f3 gl\u00f3ria: \u00e9 a gl\u00f3ria do Senhor. Os vv. 2-4 apresentam um exemplo concreto do favoritismo que deforma a comunidade crist\u00e3.

{N}2,{/}5: (5-13) Deus prefere os pobres e, portanto, esta \u00e9 a \u00fanica prefer\u00eancia que se justifica na sociedade humana. A dignidade dos pobres repousa no facto de eles serem ricos na f\u00e9 e herdeiros do Reino (cf. Mt 5,3;11,25-27). Os ricos s\u00e3o indignos porque difamam o Nome, isto \u00e9, a pr\u00f3pria pessoa de Jesus (cf. Act 9,5) oprimindo, perseguindo e distorcendo a justi\u00e7a contra aqueles que se comprometem com o projecto de Deus. O favoritismo em prol dos ricos n\u00e3o se concilia com a f\u00e9 crist\u00e3, porque choca com o mais importante dos mandamentos. Segundo o contexto, pr\u00f3ximo, aqui, significa o pobre e oprimido. Qualquer tipo de favoritismo em favor do rico n\u00e3o \u00e9 simplesmente desobedi\u00eancia a um dos pontos da lei de Deus, mas \u00e0 lei inteira, que se resume no amor ao pobre. O crist\u00e3o rege-se pelo Evangelho, que tem como centro o mandamento do amor (= lei da liberdade, cf. nota em 1,19-25). E este mandamento realiza-se na pr\u00e1tica da miseric\u00f3rdia, concretizada na prefer\u00eancia pelos pobres e marginalizados, tornando-se a mat\u00e9ria \u00fanica do julgamento (cf. Mt 25,31-46).

{N}2,{/}14: (14-26) O \u00fanico meio de salva\u00e7\u00e3o \u00e9 a f\u00e9, a ades\u00e3o a Jesus Cristo. Essa f\u00e9, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 uma coisa te\u00f3rica ou mero sentimento interior; \u00e9 o compromisso que se manifesta concretamente em actos e factos vis\u00edveis (cf. Mt 7,21). Tiago toma dois exemplos do Antigo Testamento, que podem ser comparados com Hb 11,31 e, principalmente, com Rm 4 e Gl 3. Aparentemente, Tiago e Paulo tiram conclus\u00f5es opostas, ao usar o mesmo exemplo. Notemos, por\u00e9m: Paulo diz que Abra\u00e3o se tornou justo por meio da f\u00e9, e n\u00e3o mediante a pr\u00e1tica da {C}Lei{/}. Tiago diz mais: a f\u00e9 que justificou Abra\u00e3o \u00e9 uma realidade que se traduz na pr\u00e1tica de actos concretos. Ao falar de pr\u00e1tica da Lei, Paulo afirma que nenhuma observ\u00e2ncia de regras pode levar \u00e0 salva\u00e7\u00e3o, e que a f\u00e9 \u00e9 o princ\u00edpio de toda a vida crist\u00e3. Tiago, por sua vez, salienta que a f\u00e9 se traduz no amor, e este realiza actos concretos. Paulo diz a mesma coisa: \u00aba f\u00e9 age por meio do amor\u00bb (Gl 5,6).

{N}3,{/}1: (1-12) Retoma-se aqui o tema j\u00e1 acenado em 1,19. A riqueza de pormenores deste texto faz com que possa ser definido como o \u00abc\u00f3digo da disciplina da l\u00edngua\u00bb. A linguagem \u00e9 um dos meios mais importantes para a comunica\u00e7\u00e3o entre os homens; mas \u00e9 meio amb\u00edguo: pode construir e pode destruir. Para Tiago, a palavra que o crist\u00e3o dirige ao pr\u00f3ximo deve ser coerente com a palavra que dirige a Deus.

{N}3,{/}13: (13-18) Muitas pessoas apresentam-se como \u00abaquelas que sabem tudo\u00bb. A sabedoria verdadeira, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 a cultura te\u00f3rica que se aprende em livros, mas \u00e9 a experi\u00eancia da vida que se manifesta no discernimento que leva a um comportamento justo e pac\u00edfico. S\u00e1bio \u00e9 aquele que nunca p\u00e1ra de aprender. Mais do que ensinar, ele \u00e9 algu\u00e9m que est\u00e1 sempre disposto a buscar a verdade juntamente com os outros.

{N}4,{/}1: (1-10) O homem \u00e9 um ser inacabado e, por isso, a sua vida \u00e9 uma busca permanente de realiza\u00e7\u00e3o. Frequentemente ele a pede a Deus. Porque n\u00e3o \u00e9 atendido? Porque muitas vezes imagina a sua pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o dentro dos esquemas de uma sociedade idol\u00e1trica, que adora os deuses da riqueza e do poder. Ao inv\u00e9s de realizar-se, a pessoa torna-se presa da cobi\u00e7a e da inveja, que produzem toda a esp\u00e9cie de conflitos e competi\u00e7\u00f5es e levam at\u00e9 mesmo \u00e0 morte. Este \u00e9 o mundo que se absolutiza e se coloca no lugar de Deus (cf. Mt 6,24). Para chegar \u00e0 sua pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o, o homem precisa de se descobrir como criatura e reconhecer que Deus \u00e9 o \u00fanico Senhor absoluto, e s\u00f3 a Ele se deve adorar e servir. A\u00ed nasce o processo de convers\u00e3o, pela qual o homem rompe com o esp\u00edrito do mundo, abandonando o orgulho e a ambi\u00e7\u00e3o, para se tornar pequeno e submisso a Deus. E Deus, o \u00fanico que pode conceder a realiza\u00e7\u00e3o, responde ao anseio do homem, manifestando-lhe a vida e a ac\u00e7\u00e3o de seu Filho como o sentido e a meta da vida humana. 

{N}4,{/}11: (11-12) A lei de que Tiago fala aqui \u00e9 o mandamento do amor (cf. 2,8). No relacionamento humano, n\u00e3o nos cabe a n\u00f3s julgar o outro, pois acabar\u00edamos por cometer injusti\u00e7as. S\u00f3 Deus pode julgar, pois s\u00f3 Ele conhece inteiramente o que \u00e9 o homem.

{N}4,{/}13: (13-17) Tiago critica os negociantes que, na sua auto-sufici\u00eancia, imaginam ter dom\u00ednio total sobre as situa\u00e7\u00f5es e at\u00e9 sobre a pr\u00f3pria vida, fazendo projectos para enriquecer e assegurar uma exist\u00eancia tranquila (cf. Lc 12,18-20). No entanto, s\u00f3 Deus \u00e9 o Senhor da vida e destino humanos, s\u00f3 Ele conhece o amanh\u00e3. Cabe ao homem entregar-se a Deus e fazer o bem.

{N}5,{/}1: (1-6) Tiago critica agora os propriet\u00e1rios que enriquecem \u00e0 custa dos trabalhadores. Visando unicamente o lucro, cometem graves injusti\u00e7as sociais: reten\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio devido aos oper\u00e1rios (cf. Dt 24,14); acumula\u00e7\u00e3o de riquezas que n\u00e3o revertem para o bem comum, mas servem unicamente para uma vida regalada e luxuosa; opress\u00e3o jur\u00eddica e condena\u00e7\u00f5es conseguidas gra\u00e7as ao suborno contra os pobres inocentes que n\u00e3o t\u00eam meios de defesa. Fruto do roubo e da injusti\u00e7a, o tesouro amontoado pelos ricos ser\u00e1 o testemunho que os condenar\u00e1 na hora do julgamento. 

{N}5,{/}7: (7-11) A f\u00e9 crist\u00e3 est\u00e1 permeada de esperan\u00e7a de grandes transforma\u00e7\u00f5es. Muitas vezes, depois de uma ac\u00e7\u00e3o prolongada e constante, o crist\u00e3o pode sentir-se desanimado, ao ver que essas transforma\u00e7\u00f5es n\u00e3o acontecem como se esperava. Tiago apresenta o exemplo do agricultor: a semente, depois de semeada, n\u00e3o d\u00e1 nenhum sinal de vida. Mas o agricultor sabe que surgir\u00e1 a planta e depois os frutos. A atitude crist\u00e3 deve ser a mesma: perseverante e cheia de confian\u00e7a, na certeza de que tais transforma\u00e7\u00f5es, passo a passo, se realizar\u00e3o, manifestando a vinda do Senhor.

{N}5,{/}12: Cf. nota em Mt 5,33-37.

{N}5,{/}13: (13-18) O texto salienta a efic\u00e1cia da ora\u00e7\u00e3o, que \u00e9 mencionada sete vezes. 

{N}5,{/}14: (14-18) No caso de doen\u00e7a, Tiago exorta que a comunidade intervenha atrav\u00e9s dos respons\u00e1veis, aqui chamados {C}presb\u00edteros{/}. A un\u00e7\u00e3o do doente com \u00f3leo, juntamente com a invoca\u00e7\u00e3o do poder do Senhor, assegura ao doente a salva\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, o bem-estar f\u00edsico (recupera\u00e7\u00e3o) e espiritual (o perd\u00e3o dos pecados). A f\u00f3rmula \u00abem nome do Senhor\u00bb relembra a do baptismo (cf. Act 2,38). Mencionando a f\u00e9 e o gesto dos presb\u00edteros que impunham as m\u00e3os, Tiago mostra que a un\u00e7\u00e3o dos enfermos \u00e9 um acto sacramental, que simboliza e transmite o dom da salva\u00e7\u00e3o. 

{N}5,{/}19: (19-20) O irm\u00e3o afasta-se da verdade quando perde a f\u00e9 em Jesus e se afasta da comunidade. O amor fraterno e o perd\u00e3o podem reconduzir os que se afastaram (cf. Mt 18,15.21-22), e tamb\u00e9m s\u00e3o proveitosos a quem os reconduziu (cf. 1Pd 4,8).

