{N}1,{/}1: (1-2) Pedro dirige-se a crist\u00e3os que vivem longe da p\u00e1tria em terras estrangeiras. Por escolha de Deus, eles formam o povo da nova alian\u00e7a, gra\u00e7as ao sangue de Jesus Cristo. A men\u00e7\u00e3o das tr\u00eas Pessoas divinas mostra que a comunidade crist\u00e3 tem a sua origem na Trindade. 

{N}1,{/}3: (3-5) O novo nascimento pelo baptismo \u00e9 participa\u00e7\u00e3o na vida de Jesus ressuscitado. Trata-se de um nascimento para outra vida e outra Hist\u00f3ria, dando aos crist\u00e3os uma esperan\u00e7a incomparavelmente superior a qualquer outro ideal humano. Assim como Deus havia concedido a heran\u00e7a da terra ao povo da antiga alian\u00e7a, tamb\u00e9m o povo da nova alian\u00e7a recebe como heran\u00e7a a pr\u00f3pria vida de Deus (cf. 2Pd 1,4). O crist\u00e3o vive impulsionado para a vida plena que est\u00e1 sempre em vias de se manifestar.

{N}1,{/}6: (6-9) A f\u00e9 \u00e9 um compromisso permanente com Cristo, at\u00e9 \u00e0 morte. Cristo chegou \u00e0 gl\u00f3ria da ressurrei\u00e7\u00e3o e da vida atrav\u00e9s de persegui\u00e7\u00f5es e sofrimentos. O crist\u00e3o segue o mesmo caminho: mediante o testemunho de vida no meio de provas, pouco a pouco nele se manifesta o pr\u00f3prio Cristo, que comunica a alegria da ressurrei\u00e7\u00e3o. 

{N}1,{/}10: (10-12) Aquilo que estava escondido aos profetas e anjos foi revelado aos crist\u00e3os: Deus realizou o seu plano salvador atrav\u00e9s de Jesus Cristo, que culminou o seu testemunho na morte e ressurrei\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 o grande mist\u00e9rio anunciado por aqueles que pregam o Evangelho, impulsionados pelo Esp\u00edrito. E o Esp\u00edrito provoca o discernimento que nos leva a compreender o projecto de Deus realizado em Jesus.

{N}1,{/}13: (13-21) O texto apresenta o c\u00f3digo crist\u00e3o da santidade. Pela convers\u00e3o e baptismo, o crist\u00e3o come\u00e7a uma vida nova que, por uma s\u00e9rie de motivos, exige constante empenho de santifica\u00e7\u00e3o: imita\u00e7\u00e3o da santidade de Deus que o chamou \u00e0 f\u00e9; perspectiva do julgamento conforme as obras de cada um; o caro resgate realizado por Jesus Cristo. O clima da vida crist\u00e3 \u00e9 apresentado aqui como uma permanente convers\u00e3o: de escravos do mundo e das paix\u00f5es, os crist\u00e3os foram libertos por Cristo para serem filhos de Deus, que se re\u00fanem formando uma nova fam\u00edlia. Para os que vivem num ambiente onde s\u00e3o discriminados, humilhados e at\u00e9 perseguidos, esta \u00e9 a base fundamental para que se sintam em casa e possam enfrentar o clima hostil. 

{N}1,{/}22: (1,22-2,3) A Palavra viva de Deus \u00e9 a fonte da vida nova. Essa Palavra engloba tanto a revela\u00e7\u00e3o do Antigo Testamento que culminou em Jesus, como o an\u00fancio do Evangelho, que sintetiza toda a revela\u00e7\u00e3o. O cerne do Evangelho \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o do amor com que o Pai se manifesta, doando totalmente a vida de Jesus em favor dos homens. Diante disto, ser santo \u00e9 entregar-se totalmente \u00e0 viv\u00eancia do amor m\u00fatuo.

{N}2,{/}4: (4-10) A situa\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os imigrantes em terras estrangeiras \u00e9 a mesma de Jesus, que foi rejeitado pelos homens como pedra in\u00fatil. Mas, como Jesus ressuscitou e se tornou a pedra viva, do mesmo modo os crist\u00e3os menosprezados tornam-se pedras vivas que, unidas a Cristo, formam o templo vivo, onde todos s\u00e3o sacerdotes, oferecendo os sacrif\u00edcios que s\u00e3o agrad\u00e1veis a Deus, atrav\u00e9s da pr\u00f3pria vida. Agora, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 outros mediadores entre Deus e o seu povo: todos participam da \u00fanica media\u00e7\u00e3o sacerdotal de Cristo. Os crist\u00e3os n\u00e3o s\u00f3 t\u00eam uma casa, mas eles mesmos s\u00e3o essa casa; s\u00e3o o verdadeiro povo que d\u00e1 testemunho das obras maravilhosas de Deus.

{N}2,{/}11: (11-12) A dimens\u00e3o fundamental e primeira da miss\u00e3o evangelizadora da comunidade crist\u00e3 \u00e9 a {C}vida pr\u00e1tica{/}; \u00e9 o que Pedro destaca logo a seguir. Esse testemunho pr\u00e1tico \u00e9 uma cr\u00edtica manifesta \u00e0s estruturas pag\u00e3s de uma sociedade que rejeita a comunidade crist\u00e3, tachando-a de malfeitora e subversiva. O julgamento de Deus, por\u00e9m, manifesta a verdade: vendo o testemunho da comunidade, os pag\u00e3os come\u00e7am a converter-se ao Deus verdadeiro.

{N}2,{/}13: (13-17) O texto exclui qualquer subordina\u00e7\u00e3o servil e acr\u00edtica: a obedi\u00eancia s\u00f3 tem sentido quando \u00e9 express\u00e3o da liberdade de filhos de Deus, \u00abpor causa do Senhor\u00bb. As autoridades tamb\u00e9m s\u00e3o criaturas (v. 13), e t\u00eam a {C}fun\u00e7\u00e3o{/} de servir, zelando pelo bem comum; para isso devem punir os malfeitores e louvar os que fazem o bem. A obedi\u00eancia crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 servilismo, pois na comunidade deve existir a rela\u00e7\u00e3o de amor; a rela\u00e7\u00e3o para com todos, inclusive para com a autoridade, \u00e9 de respeito, mas s\u00f3 a rela\u00e7\u00e3o com Deus \u00e9 definida como temor, isto \u00e9, s\u00f3 Deus \u00e9 absoluto e s\u00f3 Ele deve ser temido e adorado pelo homem.
  2,13-3,12: As exorta\u00e7\u00f5es deste trecho t\u00eam um fio condutor bem claro: no relacionamento com as autoridades e os patr\u00f5es, como tamb\u00e9m no matrim\u00f3nio, os crist\u00e3os comportam-se sempre como pessoas livres, sem medo e sem subordina\u00e7\u00e3o e temor servil. Nessa liberdade de filhos de Deus, formam uma comunidade onde est\u00e3o presentes a compaix\u00e3o, o amor fraterno, a miseric\u00f3rdia e a humildade, e onde o mal \u00e9 retribu\u00eddo com o bem. A comunidade torna-se, ent\u00e3o, portadora de b\u00ean\u00e7\u00e3o.

{N}2,{/}18: (18-25) O ponto importante \u00e9 que os crist\u00e3os devem {C}sempre fazer o bem{/} (v. 20), em qualquer condi\u00e7\u00e3o, mesmo que para isso tenham de suportar sofrimentos. Quando nem se pensava em aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, esta exorta\u00e7\u00e3o mostra que Deus n\u00e3o quer a escravid\u00e3o. De facto, Pedro considera os sofrimentos como injustos (v. 19). Se na \u00e9poca era impens\u00e1vel deixar de ser escravo, torna-se claro que essa submiss\u00e3o \u00e9 feita por temor a Deus a exemplo de Jesus Cristo e n\u00e3o como submiss\u00e3o servil aos patr\u00f5es (no v. 18 \u00abcom todo o temor\u00bb refere-se a Deus). A resist\u00eancia crist\u00e3 numa situa\u00e7\u00e3o sem sa\u00edda consiste em fazer o bem. Se aqui n\u00e3o h\u00e1 nenhuma refer\u00eancia ao comportamento dos patr\u00f5es \u00e9 porque estes, provavelmente, n\u00e3o fazem parte dos destinat\u00e1rios da carta. J\u00e1 vimos (cf. Introdu\u00e7\u00e3o) que se trata de gente fora da p\u00e1tria e em situa\u00e7\u00e3o de oprimidos.

{N}3,{/}1: (1-7) Come\u00e7am a romper-se as cadeias com que a sociedade patriarcal prendia a mulher. As esposas s\u00e3o anunciadoras de convers\u00e3o, mission\u00e1rias em rela\u00e7\u00e3o a alguns maridos rebeldes ao Evangelho. Elas realizam essa evangeliza\u00e7\u00e3o pela {C}pr\u00e1tica{/}: car\u00e1cter firme e n\u00e3o enfeites; estes apenas indicariam sujei\u00e7\u00e3o ao gosto do marido. Elas tamb\u00e9m n\u00e3o devem temer, isto \u00e9, comportar-se como escravas.
O v. 7 revoluciona a concep\u00e7\u00e3o da fam\u00edla patriarcal: os maridos crist\u00e3os devem ter compreens\u00e3o e considera\u00e7\u00e3o com as suas esposas, e isto \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para um relacionamento \u00edntimo com Deus na ora\u00e7\u00e3o. A motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 fortemente igualit\u00e1ria: \u00abpor serem herdeiras {C}como v\u00f3s{/} do dom da vida\u00bb.

{N}3,{/}8: (8-12) Pedro dirige-se agora \u00e0 comunidade toda. Para que ela se torne um lar, ele apresenta os elementos mais importantes: compaix\u00e3o, que consiste em participar da situa\u00e7\u00e3o do outro; amor fraterno, que tem como ponto central o servi\u00e7o; miseric\u00f3rdia, que torna poss\u00edvel a conviv\u00eancia entre irm\u00e3os que erram; esp\u00edrito humilde, que n\u00e3o ambiciona o poder e n\u00e3o leva \u00e0 rivalidade e opress\u00e3o.
E como comportar-se com aqueles que hostilizam a comunidade? O princ\u00edpio fundamental \u00e9 {C}pagar o mal com o bem{/}. Isto n\u00e3o significa ser passivo ou omisso. Ao contr\u00e1rio, agindo assim os crist\u00e3os tornam-se aben\u00e7oados e portadores da b\u00ean\u00e7\u00e3o; ao mesmo tempo, tornam-se instrumentos de julgamento que desmascara e desarma os que praticam o mal.

{N}3,{/}13: (13-17) Os sofrimentos, de que fala a carta, n\u00e3o s\u00e3o os provindos de alguma doen\u00e7a ou de uma persegui\u00e7\u00e3o programada pelo Estado. S\u00e3o os sofrimentos originados pela situa\u00e7\u00e3o em que se encontram os destinat\u00e1rios: imigrantes sem direitos e, al\u00e9m disso, crist\u00e3os com projecto de vida diverso do ambiente em que vivem. Com certeza eles j\u00e1 eram vistos como subversivos e conspiradores (cf. Is 8,12, onde Pedro se inspira). Por outro lado, tais sofrimentos n\u00e3o devem ser suportados pelo sofrimento em si, mas com finalidade bem precisa; \u00abpor causa da justi\u00e7a\u00bb (v. 14; cf. tamb\u00e9m v. 17). Esse sofrimento \u00e9 uma bem-aventuran\u00e7a (\u00abfelizes de v\u00f3s\u00bb), pois \u00e9 consequ\u00eancia do testemunho crist\u00e3o (v. 14).

{N}3,{/}18: (18-22) Diante dos sofrimentos, o modelo \u00e9 sempre a morte de Jesus, atrav\u00e9s do qual se realizou o acto definitivo da salva\u00e7\u00e3o. Pedro compara duas situa\u00e7\u00f5es: o tempo de No\u00e9 e o tempo dos crist\u00e3os. No tempo de No\u00e9, foi salvo um pequeno grupo de justos enquanto a maioria pereceu. Com a descida de Jesus \u00e0 mans\u00e3o dos mortos, tamb\u00e9m eles tiveram que se confrontar com o Evangelho. No tempo dos crist\u00e3os, igualmente existe um grupo menor de baptizados (\u00absalvos pela \u00e1gua\u00bb), e a maioria ainda n\u00e3o se converteu. Agora, o testemunho dos baptizados deve fazer com que os n\u00e3o-convertidos se confrontem com o Evangelho.

{N}4,{/}1: (1-6) O exemplo para a resist\u00eancia contra o mal \u00e9 Jesus, que sofreu na carne e, por isso, ressuscitado j\u00e1 participa da gl\u00f3ria do Pai. Aquele que se mant\u00e9m na pr\u00e1tica do bem rompe com os projectos de morte e compromete-se no projecto de Deus. Por isso, como Jesus, sofre na carne: n\u00e3o \u00e9 aceite por aqueles que insistem em manter o jogo da morte nas rela\u00e7\u00f5es humanas. Mas a resist\u00eancia continua motivada pela esperan\u00e7a de que o tempo \u00e9 breve e o julgamento est\u00e1 pr\u00f3ximo tanto para os vivos como para os mortos. E os justos que deram testemunho e j\u00e1 morreram? Tamb\u00e9m eles ser\u00e3o confrontados com o Evangelho e ter\u00e3o a vida de Deus.
  4,1-19: Em todo o cap\u00edtulo 4 transparece a mentalidade apocal\u00edptica, isto \u00e9, a convic\u00e7\u00e3o de que se aproxima o fim dos tempos (v. 7), quando se dar\u00e1 a luta final entre o bem e o mal, a vit\u00f3ria definitiva do bem e o julgamento de Deus sobre os homens. Essa expectativa provoca a firme resist\u00eancia daqueles que s\u00e3o perseguidos por n\u00e3o quererem deixar-se arrastar pelo mal. Eles comprometem-se na luta pelo bem, para poderem participar na vit\u00f3ria final e apresentar-se como testemunhas fi\u00e9is no julgamento. Para o crist\u00e3o, essa \u00faltima etapa da Hist\u00f3ria iniciou-se com a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo.

{N}4,{/}7: (7-11) Perante a imin\u00eancia do fim dos tempos, Pedro ressalta a sobriedade, pela qual o crist\u00e3o reconhece que tudo aqui \u00e9 passageiro. Em seguida, mostra que essa espera n\u00e3o deve levar \u00e0 passividade, mas \u00e0 pr\u00e1tica do bem, ao amor constante e intenso. A hospitalidade apresenta-se como pr\u00e1tica importante, principalmente para quem vive em terra estrangeira. Por fim, fala dos carismas, destacando o an\u00fancio da palavra de Deus e o servi\u00e7o.

{N}4,{/}12: (12-19) As primeiras comunidades crist\u00e3s t\u00eam que manter s\u00e9rias lutas para testemunhar o Evangelho. Nas repress\u00f5es e persegui\u00e7\u00f5es, deve-se ter em vista a fidelidade ao caminho de Jesus que, embora inocente, tamb\u00e9m foi perseguido e morto pelas estruturas de uma sociedade injusta. O tempo de prova\u00e7\u00f5es \u00e9 visto como julgamento de Deus, pois a\u00ed se manifesta a verdade, tanto dos justos como dos injustos. No meio da luta, os crist\u00e3os permanecem firmes, porque confiam na justi\u00e7a de Deus, que \u00e9 o Senhor da Hist\u00f3ria. 

{N}5,{/}1: (1-4) O presb\u00edtero \u00e9 apresentado como pastor, \u00e0 imagem de Jesus, o Supremo Pastor. Ao servi\u00e7o da comunidade, o presb\u00edtero deve atender livre e espontaneamente e n\u00e3o coagido, com generosidade e n\u00e3o como explorador, como modelo e n\u00e3o como propriet\u00e1rio. Assim, n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m que exerce poder sobre a comunidade, mas algu\u00e9m que testemunha a Cristo a quem serve (cf. Lc 22,27).

{N}5,{/}5: (5-11) Ap\u00f3s retomar alguns conselhos anteriores (humildade, sobriedade, prontid\u00e3o), Pedro insiste que \u00e9 necess\u00e1rio resistir ao mal (diabo). Este procura de todos os modos provocar o des\u00e2nimo e desist\u00eancia na f\u00e9. A solidariedade com outras comunidades que enfrentam as mesmas dificuldades torna-se apoio e est\u00edmulo \u00e0 perseveran\u00e7a na f\u00e9.

{N}5,{/}12: (12-14) Na linguagem dos crist\u00e3os desse tempo, Babil\u00f3nia indica a grande cidade de Roma, centro das religi\u00f5es pag\u00e3s (cf. Ap 17).
Silvano ou Silas foi tamb\u00e9m companheiro de viagem de Paulo (cf. Act 15,40-18,5). Marcos \u00e9 provavelmente o autor do 2.\u00ba Evangelho.

